Capítulo 4 – O fim de uma vida vazia
Izayoi estava na sala de seu pai, em meio a pilhas de registros de contabilidade. Havia começado a se envolver no trabalho e, com a ajuda do general Isamu, estava decifrando os documentos que seu pai havia deixado. Kenichi era muito organizado e muito inteligente. Mesmo doente, deixou tudo pronto para que a filha tomasse posse do governo. Isamu, apesar de entender pouco daquilo, havia sido o soldado mais fiel do Lord. O homem, de pouco mais de quarenta anos, estava ao lado de Kenichi desde que ele assumiu as terras do Sul. Acompanhou-o durante uma vida e conhecia um pouco daquilo. Portanto, mesmo que não fosse o tutor ideal, estava fazendo o seu melhor para ajudar Izayoi. Acreditava que se Kenichi havia confiado tudo à filha, ele também deveria confiar.
Nestes dias em que ajudou Izayoi a tomar posse do trono, percebeu o quanto a Lady era inteligente. Ela havia herdado a mesma calma, paciência e esperteza do pai. Isamu estava assustado com a habilidade instintiva que aquela família tinha de governar. Ainda que ela estivesse aprendendo com tudo aquilo, já dominava boa parte dos assuntos. Já havia começado a reposicionar a guarda, ordenar a colheita dos campos, cuidar do plantio da nova safra de arroz, assegurar o abastecimento de água e a desobstrução das estradas que foram danificadas pela chuva. A lista de problemas a resolver só parecia crescer, mas Izayoi não desistiria tão facilmente.
Conviver com as tarefas que um dia foram de seu pai fazia com que ela se sentisse cada vez mais próxima de Kenichi. Sentia como se ele estivesse ali, a ajudando e a protegendo o tempo todo. Aquilo havia renovado suas energias e dado força para enfrentar o que tinha pela frente.
Isamu saiu do salão de governo, deixando Izayoi sozinha. Ela olhou pela enorme janela, encontrando um pôr-do-sol belíssimo. A noite chegava, trazendo uma brisa fria. Conforme o roxo e o azulado venciam os tons amarelados do céu, a lua crescente e as estrelas começavam a brilhar. Naquela noite, em especial, eram muitas e podiam ser vistas com clareza. Izayoi caminhou pelo piso impecavelmente lustrado, deixando que seu quimono rosa-claro, pintado de flores verde-oliva se arrastasse pelo caminho. A noite, apesar de fria, estava muito bonita, ela pensou. Em noites estreladas e frescas, Kenichi gostava de se sentar em uma das enormes varandas do castelo e ouvir Izayoi tocar o koto, um instrumento de corda.
Ela caminhou até uma arca no fundo da sala e tirou dali o comprido e pesado instrumento. Colocou-o por cima da tampa da arca e passou os dedos finos pelas cordas, produzindo um som ritmado, que ecoou por todo o salão. O coração de Izayoi pulou algumas batidas, acendido pela saudade que ela tinha do pai. Lembrou-se de como ele ficava feliz quando a filha tocava o instrumento, exatamente como a falecida esposa fazia. Entre as poucas lembranças da mãe, Izayoi lembrava-se de Hitomi debruçada sobre o koto, passando as delicadas e ágeis mãos pelas cordas. Aprendeu as primeiras lições com a mãe, embora fosse pequena demais para lembrar-se de muito. Havia apenas uma música que a mãe tocava e que Izayoi gostava de ouvir. Lembrava bem como seu pai fechava os olhos durante aquela música, quase como se Hitomi estivesse ali e como se fossem uma família novamente.
Izayoi tocou as primeiras notas daquela música e então parou, reparando que havia alguém esperando, à porta. Ela virou-se e encontrou o terceiro general, Okamoto, ajoelhado sobre a madeira. Cumprimentou-o de volta, para que ele finalmente se levantasse. O homem, de quase trinta anos, levantou os olhos negros até finalmente encontrá-la. Fez outra reverência e então se aproximou.
- Okamoto-sama, fez boa viagem? – Perguntou, deixando que a voz doce se espalhasse pelo salão.
- Fiz, Lady Izayoi. – Confirmou com um aceno e baixou o rosto. – No entanto, temo dizer que não trago boas notícias.
Ela franziu as sobrancelhas levemente, olhando-o de volta. Ficou em silêncio, esperando que ele continuasse.
- Os vilarejos da fronteira estão isolados. A chuva devastou os campos de arroz, inundou os poços e obstruiu as estradas. Em alguns lugares, não há um grão sequer de comida. – A voz firme cortava o ambiente, ecoando pelos cantos do cômodo.
- Peça que retirem todas as reservas de grãos do celeiro do castelo e que embalem em tecido apropriado. Reúna os homens da guarda e peça que eles levem os grãos até os vilarejos isolados. – Ela pediu, reunindo as duas mãos frente ao corpo. – Okamoto-sama, deixe a minha carruagem pronta, eu vou acompanhá-los até a fronteira. Saímos ainda nesta noite.
- Hai. – Balançou o tronco pra frente, reverenciando-a. O jovem general saiu do salão, deixando Izayoi sozinha novamente. Ela ficou ali, frente à janela por mais alguns instantes, olhando as copas das árvores e os telhados curvados iluminados pela lua. Respirou fundo e saiu, caminhando pelos corredores.
Antes que chegasse ao próprio quarto, no topo do castelo, Isamu encontrou-a em um dos corredores. O primeiro general a cumprimentou, ajoelhando-se em sua frente. Izayoi abriu uma linha de sorriso, fazendo com que ele se levantasse.
- O primeiro general me informou sobre a viagem, peço para acompanhá-la. – Ele curvou-se mais uma vez.
- Confio o castelo em suas mãos, Isamu-sama. Prefiro que fique. Okamoto-sama me acompanhará. – Disse, respirando fundo.
- Moushiwake arimasen, Izayoi-sama, mas insisto. – Isamu levantou os olhos verdes por um instante. – A viagem será longa e perigosa, devo guardá-la.
Ela o olhou por um momento, respirando fundo. Isamu era seu soldado mais fiel, seria prudente levá-lo. Viajariam à noite e com a quantidade de grãos que levariam, poderiam chamar a atenção de ladrões e mercenários. Embora Izayoi imaginasse que chegariam na fronteira em três dias, a lama das estradas poderia prolongar a viagem. Concordou com um aceno de cabeça e então o reverenciou.
- Peça ao segundo general que guarde o castelo até nossa volta. – Disse, seguindo para as escadas que dariam acesso ao quarto.
Assim que subiu pelos últimos degraus e atravessou a cortina grossa que protegia o quarto, encontrou Megumi arrumando alguns quimonos para a viagem. Suspirou fundo, imaginando que a criada já sabia que ela partiria na próxima hora. Quase tudo que precisava estava quase pronto, reunido em uma bagagem. Izayoi aproximou-se, cumprimentando a serva. Megumi ajoelhou-se, reverenciando a Hime.
- Megumi-sama, pode pedir a alguém que limpe e afine o koto que fica na arca de meu pai? Gostaria muito de tocá-lo, assim que voltar. – Sorriu de maneira doce, fazendo com que a criada abrisse uma linha de sorriso também.
- É claro, Lady. – Acenou com a cabeça. – Quando voltar, tudo estará pronto. – As mãos finas de Megumi colocaram mais um tecido na pilha. – Fico muito contente que tenha voltado a tocar o instrumento que Kenichi-sama tanto apreciava.
- Você se lembra? – Izayoi caminhou até a janela, observando o balançar das árvores com a brisa fria. – Chichi-ue sentava-se na varanda por horas, apenas ouvindo o som das cordas.
- Dizem que era o mesmo com Lady Hitomi. – Comentou, fazendo com que Izayoi sorrisse.
- Parece que as lembranças que tenho de haha-ue têm o som do koto. – Olhou-a por cima do ombro. Megumi sorriu, fechando a bagagem envolta em um tecido nobre. – O melhor das lembranças são o cheiro e o som que cada uma delas tem. – Fechou os olhos por um instante.
- Seu ânimo parece melhor, Izayoi Hime. Fico tão contente! – Megumi reuniu as palmas da mão.
- Acho que ocupar o lugar de meu pai fez com que eu me sentisse ao lado dele. – Ela sorriu de volta, suspirando. – Embora eu vá sentir a falta de chichi-ue até meu último momento de vida, sinto-me revigorada ao ver como ele confia em mim. Não posso e não hei de decepcioná-lo.
- Tenho certeza de que será tão amada quanto seu pai, Izayoi-sama. – Megumi aproximou-se, tocando a mão dela.
- Que os deuses te ouçam, Megumi-sama. – Sorriu mais uma vez, apertando gentilmente os dedos gentis da criada. – Logo estarei de volta.
Megumi acenou com a cabeça e tomou a bagagem em mãos, acompanhando Izayoi até o pátio do castelo. A nobre carruagem a esperava, logo em frente aos enormes portões que guardavam a construção. Tadashi colocou a bagagem da Lady na carruagem e checou se todas as sacas de arroz estavam nas outras carroças. Isamu e Okamoto já haviam reunido os homens da guarda, todos em suas respectivas armaduras azuis e cavalos selados. Izayoi despediu-se brevemente dos criados e entrou na carruagem, sentindo o vento frio espalhar seus cabelos negros longos pelo ar. Apanhou as mechas entre os dedos, abrigando-se do vento frio finalmente. Isamu e Okamoto entraram na carruagem, sentando-se na ponta oposta à Hime, distantes. Os olhos castanhos de Izayoi olharam pela pequena abertura na madeira resistente da carruagem, vendo todos seus criados e os soldados da guarda que cuidariam do castelo despedindo-se, sob a luz do luar.
Acenou com o rosto, em um gesto que somente ela mesma viu. As carroças e os cavalos começaram a se mover e Izayoi fechou os olhos por um instante, alheia ao que Isamu e Okamoto conversavam entre baixas palavras. O coração da Hime sentia-se feliz. Embora estivesse sozinha no mundo, percebeu que honrar o pedido de seu pai seria sua vocação. Assim como o outono chegava, pintando de dourado os campos de arroz que deveriam ser colhidos, ela sentia que sua vida finalmente começaria a traçar um novo ciclo, tendo finalmente algum sentido.
Não compreendia o melancólico conformismo que sempre a habitara. Nunca havia feito nada de notável; sequer havia se apaixonado em toda sua vida. Vivera uma vida vazia, como uma princesa solitária. Embora seu pai tivesse dado todo o carinho do mundo para Izayoi, ela sabia que Kenichi não se esquecia, nem por um único dia, da mulher e do filho que perdeu. Aquela triste família, fadada a perder metade de suas partes, também havia vivido de maneira incompleta. E por não ter muitas lembranças de sua mãe ou de seu pai verdadeiramente feliz, Izayoi sentia-se vazia. Ela levou uma das mãos ao peito, pensando se algum dia aquilo mudaria. Agora que o pai havia ido ao encontro de sua mãe e irmão, ela perguntava-se se conseguiria encontrar tal caminho sozinha, sem as únicas pessoas que amou.
As horas da madrugada passaram e os primeiros raios do dia começavam a aparecer. Izayoi não havia dormido, embora tivesse ficado em silêncio durante todo o caminho. Os olhos castanhos, fixos no horizonte, ainda pensavam em seu destino. Ela foi arrancada de seus questionamentos quando a carruagem parou bruscamente. Isamu e Okamoto levaram as mãos à bainha instintivamente, olhando-a.
- Por que paramos? – Isamu questionou, olhando agora Okamoto.
- Os cavalos devem ter se assustado ou pode haver algum obstáculo na estrada. Não se preocupe. – Garantiu, olhando o primeiro general.
- Eu vou verificar. – Isamu disse, levantando-se para alcançar a pequena porta de madeira.
Assim que a mão dele alcançou a maçaneta da porta de correr, um estampido seco da lâmina de Okamoto entrando pelas costas de Isamu ecoou pela carruagem. Izayoi não evitou um grito do fundo da garganta e encolheu-se no canto, levando uma das mãos à boca. Okamoto puxou a lâmina da pele de Isamu, segurando o corpo inerte do primeiro general entre os braços. Ela avançou contra a parede do canto da carruagem, tentando encolher-se até desaparecer. O olhar horrorizado de Izayoi foi atravessado pelos olhos negros de Okamoto. Ele soltou Isamu no chão e virou-se para ela. Em um movimento rápido, a lâmina da espada cortou o tórax de Izayoi na diagonal, fazendo com que o sangue dela também se espalhasse pela madeira escura da carruagem.
Okamoto abriu a porta e a atirou pra fora. Izayoi caiu de bruços, em frente à própria guarda. Levantou os olhos castanhos, mas viu que nenhum soldado se movia para ajudá-la. Tudo foi planejado, ela pensou. Sua própria guarda havia criado uma emboscada para matá-la. Izayoi arrastou-se pelo chão lamacento, sujando o quimono rosa de sangue e terra. Conseguiu virar-se, vendo Okamoto atirar o corpo de Isamu logo ao lado do dela. Ela ainda olhou o primeiro general, atestando que ele realmente estava morto. Apertou os olhos e engoliu seco, sentindo a dor do corte se alastrar pelo corpo como pulsos latejantes.
- Izayoi-sama. – Okamoto começou, descendo da carruagem. – Sei que devo ir para os confins do inferno por tal traição. – Ele baixou o rosto, tentando esconder a expressão da face. – Porém, não poderia permitir que a senhora continuasse a governar esta imensidão de terras. Seríamos massacrados pelos demônios dos outros distritos, consumidos pela fome ou praga. Não pude olhar para minha família, sabendo que seria conivente com este destino. – Ele cerrou o pulso, levantando a espada mais uma vez. – Não posso permitir que meus filhos morram de fome ou sejam devorados pelos mononokes. Se isto custar minha alma, que assim seja. – Okamoto aproximou-se, prendendo os dedos contra a longa espada afiada. Izayoi fechou os olhos e respirou fundo.
Finalmente encontrarei vocês, haha-ue, chichi-ue e otouto. Estaremos todos juntos.
Mesmo de olhos fechados, suas pálpebras refletiram o clarão em volta de si. Quando abriu os olhos castanhos, teve de levar uma das mãos ao rosto para evitar a luz. Viu a sombra do corpo dos soldados sendo cortados ao meio, todos ao mesmo tempo. O último grito assustado que saiu da garganta de cada um deles fez com que ela percebesse que não esperavam aquilo. Ela esfregou os olhos, espalhando um pouco de terra pelo rosto. Okamoto foi o último a ser cortado ao meio, caindo para o lado.
Assim que o soldado alcançou o chão, Izayoi pôde ver a figura de um homem imponente, logo em sua frente. Vestia um quimono impecavelmente branco, coberto parcialmente por uma armadura prata reluzente. Acompanhou o movimento das mãos dele guardando a longa espada nas costas e os olhos dela finalmente alcançaram seu rosto. As linhas roxas sobre as bochechas, os olhos dourados firmes e a franja do enorme cabelo prateado caindo sobre a testa fizeram-na ter certeza que ela sabia quem ele era. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, Izayoi sentiu uma ardência no corte do tórax. Passou os dedos pelo corte feito no quimono e percebeu que havia muito sangue. Sua visão vacilou, perdida entre as manchas escuras e os borrões que atrapalhavam seus olhos. Tentou engolir, mas a dor tirou sua consciência e ela desmaiou, deixando que as mãos caíssem sobre a terra úmida.
Oi gente!
Queria só que vocês soubessem que estou muito feliz com os comentários =) espero que gostem deste capítulo que é, a rigor, um divisor de águas.
Boa semana a todos!
