Será que o amor é mais forte?
Capitulo Quatro – E o tempo passa…
Ron não entendia porque ela o abandonara. Depois de tantos anos a lutarem juntos, a darem apoio um ao outro nas horas menos boas, depois disso, ela vai embora, sem se despedir dele e com uma promessa de que voltaria e seriam felizes.
Ron não conseguia pensar em nada. Fechara-se no quarto e não saía até toda a gente se ter ido deitar. Aí, ia à cozinha, comia uma sanduíche e voltava para o quarto, para só voltar a sair na noite seguinte.
Ron não chorara desde que soubera as notícias. Nem uma lágrima. Estava vazio demais para isso. Os olhos estavam vermelhos e inchados, mas o rosto não tinha a marca de uma simples lágrima.
Ron ignorava a família e Harry de cada vez que eles iam chamá-lo para comer ou para sair do quarto, porque isso lhe fazia mal. Como se eles soubessem o que é sentirem-se mal. Ele perdera o irmão e a mulher que sempre amou. Eles fazem ideia do que isso era? Eles ao menos tinham quem amavam, ele não.
Ron não pronunciara uma palavra desde que lera a carta. A carta que marcava o fim. O fim da amizade. O fim do amor. O fim da esperança. O fim da felicidade. O fim da coragem. O fim da vontade de viver. O fim de tudo.
Ron passara estes últimos dez dias a escrever. Escreveu cartas e mais cartas para ela. Cartas que ele sabia que ela nunca leria porque ele nunca as iria mostrar. Escreveu sobre o amor que sentia por ela, sobre o quão importante a amizade dela sempre fora para ele, sobre o vazio que ela deixara no lugar onde estava o seu coração. Escreveu sobre a insegurança, o medo, a desistência e a morte. Escreveu sobre o fim.
Assim, dez dias se passaram e Ron ainda não tinha reagido. Nenhuma lágrima, nenhuma palavra, nenhum grito. Nada.
Hermione, quando chegara a casa onde outrora fora tão feliz com os pais, chorou. Chorou muito. Chorou tanto que os olhos lhe ardiam e ela já não os conseguia abrir. O cansaço vencera e ela dormir quase por um dia inteiro. Foi a última vez que dormiu mais de duas horas seguidas, porque no dia seguinte quando acordou, percebeu que não tinha sido tudo um pesadelo. Os pais estavam mortos e ela estava completamente sozinha.
Ao fim de três dias de choro, soluços e angústia, em que Hermione não fez nada mais do que deitar na cama dos pais e chorar, ela decidiu remodelar a casa. Durante um dia inteiro ela pegara na varinha e mudara a cor às paredes, renovara os móveis, limpara o pó e tirara as teias de aranha. Teias de aranha. Aranhas. Ron. O choro voltou.
Ao quinto dia, Hermione guardara a varinha numa gaveta e, dez dias depois, ela ainda lá estava. Intacta. Imóvel. Solitária.
Hermione ainda não saíra à rua. A comida encomendava-a pelo telefone, visto este ainda funcionar. Ela não queria ver a luz do sol, pelo que quando tocavam à campainha para trazer a comida, que normalmente dava para mais do que um dia, pois ela não conseguia comer quase nada, ela punha os óculos de sol e, já com o dinheiro certo, abria uma réstia da porta e trocava a comida pelo dinheiro e voltava a fechar a porta rapidamente. As janelas estavam todas fechadas. O sol não entrava ali. Hermione não se sentia merecedora dele.
Contudo, ao décimo dia, ela decidira sair de casa, visto estar um dia nublado e chuvoso que combinava perfeitamente com o seu estado de espírito. Vestiu-se completamente de preto, pôs um cachecol preto e uns óculos de sol pretos. Irreconhecível.
Hermione foi até ao fundo da rua e voltou para casa. Não se sentira bem e, quando chegou a casa, deitou-se na cama dos pais a chorar incontrolável e incessantemente.
A razão do choro e do mal-estar explicava-se por ter visto, ao longe, um menino, talvez com os seus onze anos, de cabelo ruivo a implicar com uma garotinha da sua idade, de cabelos castanhos.
Os dias passavam sem eles notarem. Os meses corriam velozes à frente deles. O primeiro ano passou sem que nenhum deles desse por isso.
Passou o Natal e nenhum saiu do quarto. Passou o fim de ano e eles continuavam no quarto.
Ron não a tinha procurado, tal como ela lhe pedira. E Hermione não tinha voltado a dar notícias, tal como prometera.
Contudo, certo dia, bateram à porta do quarto de Ron. Ele ainda não chorara, apesar de já sair do quarto algumas vezes. Resmungou um "entre" indiferente. Harry entrou e sentou-se ao pé do amigo. Ron olhou para ele e viu-o encarando-o, como que à espera de uma autorização para falar.
-O que queres, Harry?
-Falar contigo. Estou preocupado.
-Com o quê?
-Contigo, Ron.
-Eu estou bem. – ele disse, encarando o tecto.
-Não, não estás. Depois desta conversa podes ficar sem me falar por dias, mas eu vou dizer-te isto à mesma. E tu vais ouvir até ao fim sem me interromperes. Ron, foste a pessoa que mais me apoiou e mais me ajudou. Estiveste lá sempre, incondicionalmente. Mesmo quando eu estava a bater lá no fundo, tu puxavas-me pelos colarinhos e fazias-me perceber que havia sempre uma solução. Não és apenas o meu melhor amigo, és o meu irmão. Sofro quando tu estás a sofrer. Fico triste quando tu também estás. Eu tentei dar-te espaço. Contudo, acho que um ano já é exagero e tenho de intervir.
-UM ANO? – perguntou Ron, encarando o amigo.
-Sim, Ron. Um ano. Um ano que estás aqui fechado. Um ano que não choras. Um ano que não falas com a tua família. A tua mãe está a sofrer imenso. Já pensaste o que ela estará a sentir quando, de um dia para o outro, não perdeu só o Fred, como também a ti e ao George? Há um ano que tu não reages, que não mostras emoção nenhuma. É como se já não sentisses nada. Mas eu sei que isso não é assim. Tu estás a sofrer e eu quero ajudar-te. Eu vou ajudar-te. Onde é que está o Ron que eu conheci e que jamais desistia? Onde está o meu melhor amigo que se sacrificou por mim e por – perante o olhar assassino de Ron, engoliu em seco e continuou – ela tantas vezes? Onde está o meu irmão sempre com um sorriso e uma piada fáceis? Onde estás tu, Ron?
-Não sei. Harry, ajuda-me. – ele suspirou, sentindo-se muito perto das lágrimas. – Ajuda-me a descobrir quem sou. Ajuda-me a descobrir o que sinto. Porque eu só sinto um vazio dentro de mim que não me permite sequer chorar.
-Eu estou aqui, Ron, para tudo. Eu vou ajudar-te a reagir e a redescobrires-te.
Ron olhou para o amigo, ali a ser tão sincero com ele, e foi como se fosse atingido na cabeça. Atingido pela verdade. Pela dura e terrível verdade.
-Harry… Eu perdi-a, não perdi?
-Ron… Nunca é tarde demais.
-Será mesmo?
Harry não sabia o que responder, ele tinha sérias dúvidas de que alguma vez as coisas se iriam recompor.
Ron sentiu-se fraco e vulnerável, sozinho e perdido. Olhou para Harry e a primeira lágrima caiu-lhe.
-Eu não sou capaz. – e chorou como nunca.
Harry abraçou-o forte e disse-lhe: - Amigo, tu és forte e eu tenho a certeza de que tu vais conseguir. Eu não imagino o que estás a sofrer, mas sei que tu vais conseguir ultrapassar isso tudo.
Ron não respondeu, apenas abraçou o amigo, como se precisasse de um porto seguro.
Ao fim de uns bons minutos, Ron perguntou:
-Soubeste alguma coisa dela ao longo deste ano?
-Não… não soube nada. Houve um dia em que eu e a Ginny decidimos lá ir, mas as janelas estavam todas fechadas e, quando batemos à porta, ninguém abriu. Se calhar ela mudou-se.
-Não. Ela continua lá. Vai à secretária e abre a segunda gaveta. – Harry assim fez e viu lá uma carta – É isso. Lê.
Harry leu a carta que Hermione mandara a Ron há um ano. No fim, as lágrimas corriam-lhe livres.
-Oh Ron… Porque não me mostraste isto antes? Porque não disseste nada?
-Eu não sei. Eu precisava de estar sozinho e pensar. Mas na verdade não consegui pensar nada. Eu não consigo pensar, Harry. – o tom dele era de súplica.
-Ela não te esquecer, Ron. Eu tenho a certeza.
Ron não respondeu. Contudo, nesse dia desceu para jantar e conseguiu até dizer umas duas frases. Harry sorriu, feliz com a evolução, embora ténue, do seu melhor amigo.
-Anda, Ron!
No dia seguinte, Harry tentava a todo o custo, levantar Ron para irem até Hogsmeade.
-Deixa-me, Harry. Eu não vou. Não quero.
-Tens de sair deste quarto. E vai ser hoje, ou eu não me chamo Harry James Potter!
Harry continuava a tentar arrancar Ron dos lençóis, mas este continuava com a almofada em cima da cabeça.
Ao fim de um quarto de hora, Ron suspirou, completamente derrotado e disse:
-Está bem, Harry. Eu vou.
Harry sorriu satisfeito e deixou o amigo arranjar-se.
Quando Ron desceu para tomar o pequeno-almoço e ainda por cima vestido, todos se assustaram, mas Harry falou:
-Convenci o Ron a irmos dar uma volta até Hogsmeade.
-Tu não me convenceste, tu obrigaste-me.
-É a mesma coisa.
No fim de comerem, Harry levantou-se entusiasmado e puxou Ron com ele.
-Obrigado, Harry.
-De quê?
-Primeiro, de me teres tirado de casa. Eu confesso que já estava a começar a ficar farto. Sempre as mesmas paredes, os mesmos buracos, as mesmas fendas… E depois, por termos vindo só os dois.
-A Ginny queria vir, mas eu disse-lhe que era melhor não. Demorou um bocado, mas ela acabou por perceber as minhas razões.
-Eu calculei que ela quisesse vir, mas eu prefiro assim. Tu contaste-lhe a nossa conversa ontem?
-Não. Achei que não deveria porque não sabia se tu querias.
-Obrigado. Eu prefiro que fique só entre nós, por enquanto.
-Por mim, tudo bem. Eu só quero que tu voltes a ser quem eras.
Ron não respondeu, mas sabia que isso era impossível. Ela, quando se foi embora, levou com ela uma grande parte dele. A parte mais importante talvez. Ela tinha levado o seu coração. E para sempre.
Deram umas voltas, Harry a mostrar as novas lojas a Ron. Também lhe mostrou as novidades que foram introduzidas no final da guerra e as lojas reconstruídas.
As medidas de segurança não eram já tão fortes, as pessoas deixavam as portas abertas, novas lojas de brincadeiras e doces haviam inaugurado e os cafés tinham esplanada. Mudanças demasiado grandes, que serviram para Ron perceber o quanto havia perdido fechado em casa e em quanto tempo ele lá estivera.
Tanta coisa acontecera no mundo lá fora e ele trancado e amarrado ao passado.
Apercebeu-se que era hora de mudar. Se Hermione não queria saber mais dele, se ela o tinha esquecido e abandonado sem sequer se preocupar com o que ele sentia, era altura de esquecer isso e seguir em frente. Ele tinha a vida toda pela frente.
Harry já frequentava o curso de Aurores e Ginny já fazia treinos para os Hollyhead Harpies. Ele também queria fazer qualquer coisa. Só não sabia o quê. Mas havia de arranjar qualquer coisa de que gostasse.
-Harry, achas que ela já está a trabalhar? – a dúvida martelava-lhe na cabeça forte demais para ele ignorar.
-Não sei, Ron. Como te disse ontem, eu não soube mais nada.
-Pois, claro.
Para distrair o amigo, pois notou que ele ficara subitamente tenso, Harry sugeriu entrarem num bar para beberem uma cerveja amanteigada.
Contudo, quando iam a entrar, uma voz doce e bem conhecida chamou-o.
-Ron!
Gostaram? O tempo passou rápido demais e eles nem notaram, não é mesmo? A vida a acontecer e eles fechados no passado. Ron parece querer dar um jeito nisso e seguir em frente. Será que vai conseguir? E Hermione? Será que já trabalha? E de quem será a voz? Descubram no próximo capítulo! Deixem reviews, obrigada por tudo!
