CAPÍTULO IV

Você. Está. Perdido. Draco! O que diabos você acabou de fazer?

O que fizera? Algo estúpido, sem dúvida alguma. Mas não podia deixa-la morrer, não podia...

Por que não podia? Acorda, Draco! Ela é uma Weasley, lembra? Uma Weasley! Para todos os efeitos, vocês são inimigos!

Inimigos? Não, não eram. Draco não tomara partido na guerra. Portanto, ninguém ali era seu inimigo.

Não, Draco. Ninguém aqui é seu amigo. Todos são inimigos!...

A pequena Weasley acordou Draco dos pensamentos em que se perdera ao levantar-se, boquiaberta, e se aproximar da borda do escudo, o feitiço que os envolvia e protegia. Draco puxou-a com força para baixo, a tempo de impedi-la de tocar a parede da bolha, e ainda ver a cara enojada do Comensal mais próximo.

-Seu traidorzinho barato! –foi tudo o que o homem conseguiu dizer, antes de ser acertado por um feitiço errante.

Traidor... Não, não era um traidor. Draco nunca dissera de que lado estava. Na verdade, não estava de lado nenhum, apenas eliminara os centauros porque eles estavam tentando mata-lo também. Só isso.

Ah, certo... Então larga a Weasley, e vai embora! Se não tem que matar, também não tem que salvar ninguém!

Não, não podia largar a garota ali! Estavam no meio da batalha! Havia Comensais por todos os lados! Se Draco a deixasse sozinha, ela podia até...

Se isso acontecer, não será sua culpa. Afinal, você já fez sua parte...

-Malfoy! –gritou a ruiva, em meio ao som ensurdecedor dos feitiços que rebatiam na bolha, com que alguns Comensais, irados, tentavam atingir os dois (ou melhor, o "traidorzinho barato") –Essa bolha vai agüentar?

-Por que você não pára de perguntar, e aproveita seus minutos a mais de vida? –respondeu, mais ríspido do que gostaria, pois o escudo começava a ceder diante dos poderosos feitiços dos Comensais.

Não havia escapatória. Eles estavam rachando o escudo, e logo acertariam Draco e a menina, a não ser que...

Um sorriso maldoso se formou no rosto de Draco.

Levantou-se na pose mais confiante e arrogante que conseguiu, o que sempre funcionara para intimidar os seus adversários; mas, pelo visto, hoje seria um tanto diferente: os Comensais sorriram de modo assassino, o que era com certeza um sinal de que Draco estava com problemas. A garota Weasley se levantou atrás dele, e Draco pôde sentir o medo transbordando pelos poros dela. Por um breve momento sentiu pena da garota, jogada no meio da batalha sangrenta, mas logo essa pena foi substituída por um sentimento forte e incomum de proteção, que o fez ter certeza do que deveria fazer.

Draco juntou toda a sua força, e desfechou a mais forte série de feitiços que conseguiu: arremessou o Comensal mais próximo contra outros dois, derrubando-os no chão de maneira ridícula; a espada de um deles, longa e de punho negro, perseguiu um quarto Comensal, até acerta-lo, com força, no peito; o quinto Comensal desatou a correr, gritando para todos os outros guerreiros negros virem ajuda-lo a "acabar com um traidor". E a pequena Weasley estava boquiaberta enquanto Draco erguia o último, virando-o de cabeça para baixo, e sacudindo-o desvairadamente.

Até que era divertido sacudir Comensais no ar...

-Como você faz isso? –gritou a garota, enquanto Draco pousava o Comensal no chão com a delicadeza de um trasgo (ele até pôde ouvir os ossos do homem se quebrarem...).

-Isso o quê? –retirou a espada do peito daquele Comensal, e guiou-a com acenos de mão até acertar um dos primeiros, que ameaçava levantar-se e ataca-los.

-Isso! –ela apontou, com uma careta de nojo, para a espada voadora se enfiando entre as costelas do homem, por um simples gesto de Draco. –Como faz?

Draco não teve tempo de responder. No instante seguinte, ouviu um grito estridente da garota, virou-se rápido para onde ela olhava, e deparou-se com o único Comensal que manteve vivo voltando, com muitos outros atrás de si, apontando diretamente para Draco e a ruiva.

-Essa não é uma boa hora pra te ensinar, Weasley... –respondeu, olhando para a grande quantidade de soldados negros que vinham em direção aos dois –Ah, mas não é mesmo!...

-Mate-os! –a Weasley gritava, já que sua voz parecia presa na garganta. Inúmeros Comensais da Morte os encurralaram, formando um círculo sólido ao redor de Draco e da ruiva. –Anda logo! Exploda-os de uma vez!

-Não dá! São muitos! –gritou o rapaz em resposta, tentando ignorar a histeria da garota –Vou ser acertado por um Avada Kedavra antes mesmo de pensar em me mexer!

Sentiu a Weasley virar-se, apreensiva, encostando suas costas nas de Draco. Estavam perdidos. Havia Comensais por todos os lados que Draco olhava, e nenhum feitiço forte o bastante para acabar com todos de uma vez passava na sua mente.

-Weasley! –gritou, num raro momento de desespero –Em Hogwarts, te ensinaram alguma coisa que seria útil agora?

Ela sacudiu a cabeça, mas antes que Draco se desse ao luxo de dizer "Então estamos mortos", a garota berrou:

-O feitiço escudo! Você-Sabe-Quem acertou todo mundo com a bolha dele! Faz aquilo de novo, e exploda todos eles!

Boa idéia, hein? Nada mal para uma Weasley!...

Draco pôs até a alma naquele feitiço escudo. Tentou trazer à tona pensamentos positivos, mas as imagens de Narcisa morta e do círculo maciço de Comensais ao seu redor não queriam sair de sua cabeça... Respirou fundo duas vezes, e esticou os braços à frente. Os Comensais mais próximos recuaram um passo, mas logo em seguida se entreolharam, riram, e voltaram ao lugar.

O feitiço... Faça logo o feitiço!...

Conseguiu conjurar a bolha; Draco e a Weasley estavam bem seguros dentro dela, apesar dos esforços dos guerreiros negros ao redor, que atiravam toda a sorte de feitiços nos dois. Mas fazer a bolha crescer e explodir estava sendo mais difícil do que Draco esperava...

-Por Merlin, Malfoy! –gritou a Weasley, exasperada –Você arremessou um centauro com os olhos, sacudiu um Comensal no ar com um aceno de mão! Por que não consegue fazer uma simples bolha?

Quer trocar de lugar? Você faz o feitiço complicado, e eu fico berrando na sua orelha, que acha?...

-Você pode fazer isso!

Ah, claro que posso!... Olha só como estou conseguindo!...

-Até já parece maior!...

Argh! Grifinórios!...

Draco caiu de joelhos no chão. Não conseguia se concentrar no feitiço com aquela garota gritando, mas também não conseguia se virar e xinga-la! Estava exausto. Os feitiços que lançara e a bolha-escudo tinham consumido todas as suas energias, e Draco sentia-se excessivamente fraco. Os sons se tornaram mais agudos, os feitiços brilhavam mais do que o normal, as imagens se distorciam e rodavam...

-Ah! Não desmaia agora, pelo amor de Merlin!

-Desmaiar? Eu sou um Malfoy! Malfoys não desmaiam!

Um calor estranho se apossou do corpo de Draco. Um calor que vinha... Do seu braço?... Seus olhos não queriam mais se manter abertos, mas o rapaz se esforçou ao máximo para permanecer acordado, e olhou para o braço, para ver o que havia ali de tão quente.

A Weasley... Ela estava segurando seu braço...

Oras! Como ousa tocar em um Malfoy, sua...?

A ruiva apertou os olhos com força, como se... Como se estivesse passando sua própria energia para o feitiço.

Mas é uma Weasley! E ela... Ela tá te tocando!...

O calor saiu de seu braço, e migrou para as duas mãos. Draco pôde senti-lo sair num jato por entre seus dedos, e viu o feitiço escudo aumentar de tamanho. Agora, a parede da bolha estava a menos de um metro do Comensal mais próximo...

Os homens ao redor pularam para trás, mas Draco não conseguiu vê-los. Suas pálpebras estavam pesadas demais, não conseguia mantê-las abertas... Mas um barulho alto de explosão chegou a seus ouvidos, e Draco obrigou seus olhos a se abrirem.

O feitiço havia se desfeito em uma onda de energia dourada (estranho, já que a bolha que Draco conjurara era prateada...), e guerreiros negros foram arremessados por todos os lados...

-Isso é que é uma bela visão... –disse, num tom de voz que não parecia nem um pouco com o seu. Então, tudo ficou escuro...

-Eu ainda não acredito que você o trouxe pra cá, Gina!

-E você queria que eu fizesse o quê? Ele salvou a minha vida!

-Mas... Olha só pra ele! Ele tem a Marca! É um inimigo!

-Inimigo? Por Merlin! Ele matou outros comensais! A essas alturas, Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado deve estar procurando-o por toda a Inglaterra! Ele está do nosso lado!

-Como você pode ter certeza? E se for tudo um plano? Ele pode surtar e partir pra cima da gente de repente, como o idiota filho de chocadeira que é!

Filho de chocadeira?

Draco abriu os olhos. As imagens rodavam, mas ele pôde ver perfeitamente onde estava: a Ala Hospitalar de Hogwarts. Olhou ao redor, e viu todos os leitos ocupados por pessoas com os mais diversos ferimentos. E todas com o uniforme do Exército da Luz...

Tentou erguer-se na cama, mas ao pousar o cotovelo no colchão, sentiu uma dor muito forte percorrer-lhe, e caiu novamente sobre o travesseiro. Com um resmungo, viu que haviam enfaixado seu braço na altura do corte da flecha do centauro, mas que as ataduras estavam sujas de sangue. Observou seu próprio corpo deitado, e reparou que ainda usava as vestes negras que ganhara do Lord; a manga esquerda estava erguida, deixando parte da Marca Negra em seu antebraço bastante visível, e a espada de Riddle não estava a vista.

-Ora! Olha só quem acordou!...

Draco virou-se na direção da voz, em vão, pois só conseguiu definir que quem falava tinha cabelos cor de fogo: as imagens ainda giravam, loucas, aos olhos do rapaz... Até tentou responder alguma coisa, mas alguém foi mais rápido.

-Dá um tempo pra ele, Fred! –de quem era mesmo essa voz?... –Lembra? Ele me salvou!

-Deve ter salvado dele mesmo, imagino... –respondeu outro ruivo, que se postou ao lado do primeiro. Pareciam exatamente iguais, e cruzavam os braços com jeito de irmãos mais velhos.

-Ah, por Merlin, Jorge! Vocês podem parar de xinga-lo, por favor?

Draco olhava para os dois ruivos, tentando lembrar-se quem eram, quando sentiu o colchão afundar sob o peso muito leve de alguém que sentava a seu lado. Virou-se rápido, quase em guarda, e deparou-se com uma garota de cabelos longos e ruivos, e um sorriso muito grande.

-Malfoys não desmaiam, é? Pois sim! –riu-se ela, com um tom de voz bastante brincalhão. Draco só precisou de um segundo para reconhecer a menina Weasley, que lhe estendia um copo de alguma coisa fumegante. Draco olhou, intrigado, para a xícara, e ouviu-a dizer: -Não se preocupe, é só chocolate. Todo mundo deve tomar.

Draco olhou-a com certa estranheza, mas aceitou a xícara sem falar coisa alguma. Não sabia o que dizer e, mesmo se soubesse, não tinha certeza de que queria puxar papo com ela. A pequena Weasley continuou sentada a seu lado, e Draco sentia os olhos dela em cima de si sem nem precisar olha-la.

-Você dormiu por vários dias... –comentou a garota, como se falasse do tempo –A flecha dos centauros é envenenada, por sorte só atingiu seu braço. O antídoto que te demos ainda estava em fase de testes, então não sabemos exatamente os efeitos colaterais do seu tratamento...

Draco estreitou os olhos e arqueou a sobrancelha, reprimindo um estremecimento. Em fase de testes? Ele por acaso era algum tipo de cobaia? Abriu a boca para dizer algo bem feio e impróprio para a ruiva, mas não saiu som algum de sua boca.

Ah! Diabos!

-Bem, acho que já notei um defeito... –disse a ruiva, com um sorrisinho, e o som de passos na entrada a fez pular no colchão.

A ruiva se levantou da cama com um sorriso enorme, e correu na direção da porta da Ala. Draco virou-se lentamente para onde ela fora, e viu-a pular sobre um garoto cujas feições não conseguiu ver. Mas não foi necessário muito para reconhecer o dono daqueles cabelos negros insubordinados e daquela manga esquerda oca: Harry Potter.

O Senhor Certinho! Ela tá com o Senhor Certinho!!

Draco sentiu-se estranhamente enjoado. Afinal, fora ele quem salvara a ruivinha! E onde Potter estava quando ela precisava dele? Estava salvando o mundo, derrotando o Lord!

E talvez isso seja o bastante para a Weasley estar com ele...

A garota soltou o pescoço de Potter, o Babaca, e abraçou com força duas meninas, uma de cabelos castanhos e outra loira, que Draco definitivamente não reconheceu. Respirou fundo, e soprou a fumaça que saía de sua xícara, tomando um grande gole de chocolate em seguida.

-Ah! Gina! Achei que você tivesse morrido! –exclamou a garota morena, e Draco sentiu –se um tanto mal ao reconhecer a voz da Sabe-Tudo Granger... –Quando a onda me atingiu, eu fui arremessada por muitos metros e quase caí em cima do Carlinhos, por sorte ele me viu e me amparou... Quando eu levantei, logo vi a Luna mais pra frente, mas não te achei em lugar nenhum!

-Eu fui parar no meio da briga, Mione... Voei muito longe, achei que iria me esborrachar no chão e morrer, mas...

-Um milhão de galeões como você não acerta quem a salvou... –interrompeu um dos ruivos, bastante irritado. Draco limitou-se a olhar a cena (sem conseguir necessariamente ver, já que as imagens ainda estavam sem foco), tomando goles de seu chocolate, tranqüilamente.

-Malfoy! –resmungou Potter, enojado, aparentemente tentando cruzar os braços, mas esquecido de que só tinha o braço direito (Draco se segurou para não rir). Granger empunhou a varinha, apontando-a direto na cabeça de Draco, e a loira sentou-se despreocupadamente numa poltrona próxima, dizendo, num tom de voz sonhador:

-Eu imaginei mesmo que alguém salvaria Gina. A prof. Trelawney disse que ela encontraria o amor no meio da guerra...

Draco cuspiu todo o chocolate que tinha na boca, sujando boa parte do lençol branco que o cobria.

-O que está tentando dizer, sua louca? –disse um dos ruivos, pondo em palavras todos os nomes feios que vieram à mente de Draco, sem que ele pudesse dize-los.

-Não quis dizer nada. Foi a professora quem fez a previsão, eu só estou repetindo...

-E desde quando Trelawney faz uma previsão que preste? –riu-se o outro ruivo, com um tom de voz brincalhão que Draco sabia conhecer de algum lugar.

-Bem... Ela acertou o futuro do Harry duas vezes, lembra?

Um silêncio mortal pairou na Ala Hospitalar. Draco concentrou-se em limpar todo o chocolate que derramara no lençol, para não raciocinar sobre o que aquela loira idiota havia dito – e também para que Madame Pomfrey e sua mania por limpeza não o expulsassem da Ala e o jogassem com seus "companheiros de luta"... Reparou, com o tal do "instinto de guerra", que todos olhavam para ele, numa mistura de raiva e medo que o irritou bastante.

Quis exclamar um monte de palavrões, mas só conseguiu expressar sua raiva com os olhos e a maneira frenética de abrir e fechar a boca. Irado, pensou em atirar longe a caneca de chocolate, mas parou no meio do caminho, lembrando-se que não queria morrer por um ataque de Pomfrey. Seu gesto chamou a atenção de algumas pessoas nos leitos ao redor e fez os ruivos, Potter e as garotas se virarem para ele e não para o lençol, que limpara sem o uso de uma varinha.

-Não ouse fazer magia assim de novo, Malfoy. –mastigou um dos ruivos, num murmúrio irritado –Você está no território da luz. Se você espirrar, será cercado por montes de aurores com as varinhas em punho!...

Draco limitou-se a fazer cara de nojo e bufar. Ele tinha muitas coisas a dizer, argumentos, palavras ríspidas e xingamentos, mas nenhum deles sairia de sua garganta. Maldito antídoto.

-Termina de tomar o chocolate, Malfoy. –disse a Weasley, depois do grande silêncio que se formou após a fala do ruivo –Eu tenho que falar com eles aqui...

E então, ela puxou todo o bando para fora da Ala Hospitalar, deixando Draco sozinho com aquele monte de guerreiros da luz. O rapaz respirou fundo, e continuou a tomar seu chocolate, tentando ignorar as pessoas dos inúmeros leitos vizinhos a olharem-no como se fosse uma bomba prestes a explodir.

N/A: argh, eu atrasei de novo... Um dia eu termino isso aqui.

Obrigada pelas reviews fofas de todas!!! Se quiserem deixar mais, não se acanhem!!!! Vocês sabem que reviews animam qualquer autor, não? D