No resto dos outros dias, que passaram rapidamente, eu havia modificado totalmente o meu jeito de lidar com a Lily. O respeito voltou ao lugar de onde nunca deveria ter saído e, apesar dos meus sentimentos, eu a estava vendo como ela sempre foi: somente uma amiga. E aproveitamos aquela semana somente nós dois, rindo, vendo fotos, conversando, lembrando de acontecimentos absurdos que protagonizamos quando éramos mais novos, e sentindo o pequeno Harry chutar a barriga da mãe.
Então, como se o dedo de James estivesse apontando o caminho, eu me preparei para partir. Era a manhã do dia 5 de junho de 1980, e o Profeta Diário noticiou o nascimento do filho de Lucius Malfoy, um dos Comensais da Morte mais conhecidos e menos julgados, no meio das notícias de "Bruxos em Foco". Era uma manhã quente e eu estava me perguntando como faria aquilo – ir embora – sem magoar a Lily. Então decidi que esperaria o James chegar e imediatamente sairia. Não me despediria nem o cumprimentaria. Simplesmente pegaria os meus poucos pertences e iria embora. "Você vai se sentir sozinho longe. Fique aqui conosco até que o Harry nasça", ela dizia. Mas não, eu havia decidido. O bom foi perceber que ela tinha mesmo apreciado aqueles dias. E lá estava parada no quintal, descalça, mexendo em algumas plantas enquanto eu lia o jornal. Mas eu sabia que, no fundo, quem estava com medo de ser magoado com uma despedida era eu mesmo. Já era hora de ir embora.
Mais tarde, naquele dia, Lily e eu tivemos uma pequena discussão. Enquanto estávamos papeando depois do almoço esplêndido que ela havia preparado mais uma vez, eu senti uma vontade imensa de me embebedar e me sentir bem. Só queria sentir aquelas cócegas e o calorzinho peculiar que me davam quando tomava alguma coisa forte. Tirei a minha pequena garrafa de whyskie de fogo da mochila e abri e puxei a Lily para a varanda e bebemos. "É melhor eu não beber mais, Remus", ela disse. "Sei que um golinho não fará mal, mas não se esqueça de que eu estou grávida e não posso ficar bebendo. E também tenho que estar sã para preparar o jantar."
"Ah, mas eu não quero nada disso, Lily. Chega de jantares e almoços e chazinhos elaborados. Apenas sente aqui comigo e beba mais um pouco, esqueça o resto do mundo por alguns instantes e seja feliz."
"Mas eu sou feliz com o meu mundo, Remus", ela me disse. "E estou grávida. Achei que você tivesse reparado nisso."
"Oras, e quem liga para isso?"
Eu dei uma risada imbecil e ela entrou na casa, extremamente decepcionada e indignada, visivelmente sem saber o que fazer. Não fiquei nem aí e continuei ali deitado apoiando o corpo nos cotovelos e quando finalmente anoiteceu eu resolvi entrar e estava tudo escuro. Ouvi o barulho de uma porta no andar de cima e supus que ela quisesse ficar sozinha. Pela primeira vez naqueles dias, nenhum sinal de comida, velas acesas, música e alegria no ar. Senti-me culpado. Intruso. Só não fui embora naquele instante porque jamais a deixaria sozinha. A sensação de culpa bateu de novo em meu rosto como uma rajada de vento gelado, e então eu percebi como havia sido grosso e imaturo e idiota. Eu não sabia lidar com humanos. Queria ter voltado no tempo. Pobre Lily.
Pobre Lily? Pobre Remus.
Por respeito a ela, sequer abri a geladeira à noite. Ainda tinha me restado um pedaço de pão daquele dia em que eu viajara, e apesar de estar duro e com gosto de velho, não estava tão ruim assim, ou era a minha fome tamanha que o fazia parecer menos pior. Peguei no sono no sofá, ainda era cedo. Acordei algum tempo depois com um barulho na cozinha, e ela deixando o copo com a minha poção na mesa ao lado do sofá. Fingi que estava dormindo. Ela esperou alguns segundos para ver se eu falava alguma coisa, mas eu não fiz nada. Ouvi um suspiro e os passos subindo a escada. Nada poderia me deixar pior. Ou piorar a situação.
Quer dizer, obviamente que podia, então tomei a minha poção enquanto ainda havia algum bom-senso em minha cabeça. E daí dormi, de novo. Mas fiquei acordando o tempo todo, virando para lá e para cá. A impressão que eu tinha era a de que ela estava acordada, querendo falar comigo. Não conseguia dormir de verdade, afinal. Alguns vaga-lumes voavam livremente pela varanda, e eu os observava pela janela. Lily estava triste e decepcionada, e a culpa era minha. O marido dela estava correndo risco de vida lá fora e tudo o que eu tinha que fazer é ficar aqui e contar algumas piadas de vez em quando, para distraí-la, mas eu consegui deixá-la ainda pior.
O sol finalmente deu sinal de que iria nascer depois daquela noite conturbada em que eu não conseguira pregar os olhos. Pela primeira vez desde o quase-beijo, eu tinha vontade de subir e abraçá-la com força e beijar seus lábios com toda a força que eu poderia investir num momento como aquele, mas como sempre não fiz nada. Continuei ali, deitado, com as mãos entre as pernas, esquentando meus dedos e meu membro que teimava em pulsar envolvido naqueles pensamentos. Fiquei assim durante o que me pareceram horas, até que o dia havia finalmente chegado. Escutei um barulho peculiar no quintal e me levantei para espiar pelo buraco na parede, e finalmente percebi sua real utilidade – ver quem chegava sem dar bandeira na janela. Aquilo era a cara do James. E foi ele quem eu vi chegando ali, caminhando em direção à porta, com um sorriso no rosto. Sorri também – ele estava vivo. E, pelo visto, as notícias eram boas.
Ele arregalou os olhos quando me viu ao abrir a porta, e me abraçou com força como se faz quando se encontra um amigo de verdade, e perguntou como eu estava.
"Não poderia estar melhor. E você?"
"Ótimo. Deu tudo certo. Eles nem chegaram a fazer nada, ficamos só de tocaia. Parece que o Lucius não estava, nasceu seu filho."
"Sim, li no jornal."
"Sorte nossa", disse ele, segurando meus ombros, e olhando para a escada me perguntou onde estava a Lily. Levantei o queixo em direção aos degraus e ele sorriu pra mim, dizendo um sincero "obrigado" em pensamento e subiu correndo. Escutei quando ela o viu e falou algumas palavras alegres e de alívio por ele estar vivo. Eles riram. Uma lágrima escorreu pelo meu rosto. Embrulhei meu cobertor e, com a mochila nas costas, dei uma última olhada na casa antes de partir. Com um aceno de varinha, sussurrei "limpar" para deixar o copo da poção novinho em cima da mesa. Sequer parecia que eu havia estado ali. E, naquele vácuo de sons e emoções que se deu naquele instante, eu fechei a porta e saí.
"Você é um menininho feio e tem orelhas grandes", ela me disse quando eu tinha onze anos.
"E você é magrela e tem canelas finas", retruquei.
Sorri tristemente ao passar pelo portão e, à medida que caminhava, olhei para trás e vi a casa desaparecer nas brumas, como se jamais tivesse existido. Senti um alívio por ter saído dali. Se eu ficasse mais algum dia ali, provavelmente deixaria Lily pior. Tornei-me um solitário por vocação. O ar puro penetrou meus pulmões e eu me senti livre como nunca antes de entrar naquele velho trem novamente e viajar rumo a Bristol, ou quem sabe fazer uma parada e ficar algum tempo em outro lugar? E eu prometi a mim mesmo que jamais sujaria a vida da Lily outra vez, como absurdamente fiz em poucos dias que ficamos juntos. Para ela, uma lembrança ruim. Para mim, os poucos dias em que me senti amado como um ser humano normal. Mas a verdade é que agora Lily e James estavam juntos e felizes e só o que poderiam fazer era esperar o nascimento do pequeno Harry sem nenhum animal por perto.
- - - - - - - - - - - - - - - -
Depois desse dia, Remus jamais voltou à casa dos Potter, ou teve qualquer contato com seus amigos.
