Aqui está o capítulo quatro! Peço desculpas desde já pelas vírgulas em excesso. Obrigada a todos que estão lendo, só isso que me faz continuar querer a postar.

Boa leitura!

Insanidade

Kiku voltou o olhar para o funcionário, levantando-se e começando a explicar o que acontecera por alto: falou apenas de Ivan, da briga e de que então ficaram – ou melhor - foram trancados ali. O chinês, chefe de limpeza e nutricionista do colégio, falou que ia relatar tudo a direção, então ambos poderiam ir para casa descansar – apesar de ter ficado desconfiado. Qualquer coisa, eles seriam chamados na segunda para esclarecer detalhes.

Já dentro do metrô – mais vazio do que o normal para os dois por já estar de noite – o japonês suspirou cansado, agradecendo por conseguir um assento no veículo. Arthur sentou-se ao lado dele, abraçando em silêncio os próprios materiais. Não sabia o que falar. Nem se tinha algo para falar. Tinha beijado seu professor sem pensar, mas realmente não conseguira resistir... E se realmente tinha ficado com ciúmes mais cedo... Seria possível estar gostando dele?

Não, não. Balançou a cabeça para afastar os pensamentos, sob o olhar interrogativo do nipônico. Ele era mais velho – mesmo que não aparentasse – e lhe dava aula. Era um absurdo se apaixonar por ele...

- Você está bem?

Os olhos verdes se fixaram no menor ao ouvir a pergunta e concordou. Como ele conseguia ser tão... adorável? Era gentil com Arthur de um modo que era raro – talvez apenas parte de sua família demonstrava isso, com a qual não convivia muito. Tudo bem, geralmente não gostava de receber aquela atenção toda, achando sempre desnecessário, mas com o japonês não parecia desnecessário; era quase o contrário: queria que ele sempre fosse gentil consigo daquele jeito e lhe desse atenção... Queria poder ficar na companhia dele – as horas mais agradáveis do dia – e ouvir aquela voz serena embalando-o... E beijar aqueles lábios macios, abraçá-lo e protegê-lo, deitar na mesma cama e...

- Arthur? Arthur?! – balançou levemente o corpo do maior, despertando-o do transe. – Céus, por favor, responda. Não está se sentindo bem? Está com febre?

Kiku perguntava nervosamente, mordendo o próprio lábio inferior, vendo a face do outro ficando cada vez mais avermelhada. Como o conhecia e era maior de idade, teria responsabilidade caso ele passasse mal!

- Não, eu estou bem. Não se preocupe. – pegou a mão do menor, afastando-a de si suavemente.

- Certo... Caso sinta algo, fale comigo, ok?

- Ok.

O britânico assentiu, mesmo sabendo que não sentiria nada de diferente... Nada além daquela sensação incômoda no estômago que começou após tocar nas mãos de Kiku, sentindo as próprias suadas. Tentando disfarçar, apenas segurou a pasta com mais força, sem reparar que o japonês observava tudo de esguelha.

- Anno... Arthur?

- Yes?

- Chegamos à sua estação.

- Ah... – pensou por um momento. – Não vou ficar aqui hoje.

- Por quê?

- Vou te levar em casa.

Dessa vez o oriental quase engasgou com a própria saliva.

- O... O quê? Mas por quê?!

- Vai saber... – tentou responder neutramente, dando de ombros. – Vai que o Ivan tem uma gangue e colocou-a para te seguir e eles te ataquem? Não duvido nada disso. – abaixou o tom na última frase.

Certo. Arthur conseguiu assustar – ao menos um pouco – o nipônico com aquela fala. Do jeito que Ivan parecia ser, Kiku também não duvidava daquilo.

- M-mas não se incomode comigo! Vou ficar be–

Tarde demais. As portas voltaram a se fechar e o metrô continuou com sua viagem. Agora era Kiku quem ficava preocupado. Além de ficar preocupado como o outro voltaria para casa, não queria que Arthur visse onde morava!

- Arthur, não prefere ir para casa? Não precisa me seguir até lá. Eu vou ficar bem...

- Nada disso – cruzou os braços, caminhando um passo atrás do nipônico.

Kiku suspirou, passando uma das mãos pelos cabelos. Não adiantaria falar com Arthur, ele estava determinado a acompanhá-lo, então ficou em silêncio. Mas era estranho, ainda mais após o que ocorrera na escola... Aquilo tinha sido um beijo, certo? Levou uma das mãos aos lábios, tocando-os com as pontas dos dedos, pensativo. Será que o inglês tinha noção do que fez? Não, não devia ter. Era um adolescente, devia apenas estar querendo realizar uma fantasia qualquer que tinha. Afinal, era professor dele e na hora estavam presos em um armário de vassouras... Qualquer adolescente viajaria demais nessa situação.

"Eu acho" – completou mentalmente. Só acordou ao ter a pasta puxada, soltando-a por reflexo, vendo um rapaz sair correndo. Piscou os olhos duas vezes, desnorteado. Estava sendo roubado, mas por sorte – ou azar – Arthur estava o seguindo e agora estava brigando com o assaltante em questão. O britânico chutou o outro no estômago, dando uma cabeçada nele em seguida, mas o outro o agarrou pela perna e puxou, fazendo com que ambos fossem ao chão.

Só não esperava que o assaltante tivesse uma arma, a qual apontou para a cabeça do britânico. Kiku aproximou-se, segurando o braço do encrenqueiro, virando-o para trás de uma vez, fazendo com que o revólver fosse ao chão.

- Solta, solta! Vai quebrar!

Arthur arregalou os olhos, impressionado, conseguindo sair de baixo do rapaz. Mas a confusão já estava armada. E Kiku estava mostrando que sabia fazer alguma coisa para se defender, aproveitando que o inglês estava longe para apoiar um dos joelhos bem no meio das costas do ladrão, prendendo-lhe o outro braço com uma das pernas, continuando a puxar o que segurava.

- É ali, aquele ali! Ele que me roubou!

Uma mulher gritara, apontando o homem no chão. Um policial chegou, fazendo com que Kiku soltasse o assaltante, deixando-o sob responsabilidade da lei, pois ele estava responsável por outra coisa.

- Arthur! Não se deve reagir a assaltos!

- Mas você também entrou no meio!

- Porque não queria que se machucasse – suspirou. – E eu já fiz aulas de artes marciais para defesa pessoal, apesar de não gostar de usar.

- Incrível... – murmurou para si mesmo. Nunca imaginaria aquilo!

- Todavia, não faça mais isso.

O britânico riu, coçando a nuca. Estava com a testa sangrando e um filete de sangue escorrendo pelo canto dos lábios, mas pelo menos não levara um tiro. O japonês se aproximou, pegando os materiais caídos – tanto os dele quanto os de Arthur, entregando a ele – passando em seguida o braço do menor pelos próprios ombros, ajudando-o a se levantar.

- Consegue ficar de pé?

- Sim... – respondeu, mas aceitou a ajuda do japonês, sem tentar se soltar.

- Precisa ter mais cuidado com isso – disse seriamente, mas suspirou. – Bem, não posso te deixar assim. Estamos perto de onde moro, vamos até lá.

O britânico concordou. Isso estava fora dos planos, mas não era desagradável, sorrindo mentalmente – afinal, apanhar, ficar na mira de uma arma e depois rir seria suspeito e insano – ao sentir o suave aroma vindo do japonês.

Não caminharam muito, logo pararam em frente a um pequeno condomínio pintado de branco e bem conservado. Por sorte, Kiku morava apenas no segundo andar, então não tinham de subir muitas escadas. O oriental parou em frente à porta 202, deixando que Arthur entrasse antes de fechá-la.

Logo na entrada havia uma parte em relevo rebaixado para as pessoas retirarem os sapatos. O lugar era menor do que o esperado: após a porta de entrada, logo em frente, já se deparava com a cozinha minúscula, na qual havia uma pia, duas bocas de fogão e o forno embutidos, uma pequena geladeira – mais parecida com um frigobar – e ao lado do mesmo uma pequena fruteira, onde havia, além frutas, salgadinhos e em cima um microondas e o liquidificador. Formando um pequeno corredor – que o britânico pensou ser impossível alguém se mexer comodamente ali – havia uma bancada onde provavelmente o nipônico fazia refeições, com alguns bancos para se acomodar. Em cima do muro tinha uma pequena TV. Arthur podia reparar em mais duas portas que não sabia dizer quais cômodos eram por estarem fechadas.

Kiku estava mais do que constrangido por um aluno seu estar ali. Arthur, estudando onde estudava, no mínimo era de uma família de classe média alta e provavelmente morava em um lugar bem mais espaçoso do que aquele apartamento.

- Tire os sapatos e fique à vontade. Volto já.

Arthur obedeceu, deixando a pasta escolar ao lado da bolsa que o nipônico usava para guardar os materiais que levava para o colégio, retirando os sapatos e indo se sentar em um dos bancos. Observava o outro com discrição, querendo evitar constrangimentos para o moreno. Kiku abriu uma das portas, que o britânico reparou ser o banheiro – com espaço tão reduzido quanto aquela cozinha. O asiático abriu o armário do espelho e retirou uma caixa de primeiros socorros, voltando para onde o mais novo estava. Colocou o objeto na bancada, indo até a pia e umedecendo um lenço, sentando-se em frente ao loiro. Afastou os fios, limpando o ferimento na testa, descendo até os lábios.

- Agora vou colocar um curativo, fique quietinho, sim? – disse com um sorriso, fazendo o outro corar.

- Certo.

Então o nipônico pegou um algodão, colocando junto com uma gaze no ferimento na cabeça dele, prendendo com um esparadrapo.

- Você tem jeito pra isso – comentou, abrindo um sorriso discreto.

- É que quando menor eu sempre me machucava – explicou calmamente, embora um pouco constrangido. – Aí acabei aprendendo a cuidar de ferimentos.

- Não imagino você estabanado!

Kiku riu nervosamente, juntando o que usara se retirando para guardar tudo em seu devido local. Sozinho, Arthur acabou lembrando-se da cena que presenciou na enfermaria. Quando o japonês retornou, foi direto ao pequeno espaço do corredor entre a bancada e a cozinha, sem conseguir fugir do olhar britânico justamente pelo local limitado.

- Deve estar com fome, vou preparar um lanche.

- Um pouco... – olhou para a tela apagada da televisão, respirando fundo para tomar coragem. – Hey... O que há entre você e Heracles?

O japonês quase derrubou a sacola de pão, mas conseguiu agarrá-la no último segundo. Respirou fundo, começando a cortar um deles.

- Bem... Ele é um ex-namorado meu.

Dessa vez foi Arthur quem se assustou, pousando os olhos sobre as costas do menor.

- E por que terminaram? – indagou com curiosidade, sabendo que devia estar sendo indiscreto, mas não conseguindo evitar.

- Bem... – engoliu em seco. – Aconteceram algumas coisas. Ele se mudou... Não teve como continuarmos.

- O que houve...?

- Nós começamos a namorar no colegial... Apesar de dorminhoco, ele era uma boa pessoa. Até hoje é, na verdade...

Os olhos castanhos se fixaram no vazio e a voz se calou.

- Então... O que aconteceu para isso?

- A-ah, bem... – abaixou a cabeça. – Não devíamos falar disso, Arthur.

- Mas eu queria saber... – acabou imitando o gesto, sabendo que estava agindo como uma criança mimada.

O nipônico suspirou, derrotado. Pelo visto Arthur não pararia de falar naquilo até obter respostas, então pensou que não faria mal resumir um pouco.

- Por alto, nos pegaram juntos e as judiações apenas aumentaram... Os pais dele foram transferidos, então acabei ficando sozinho. Apenas isso. Nos reencontramos e ele me indicou para a vaga de professor... Diz que ainda gosta de mim, mas...

Judiações? Aquela pequena explicação fora o suficiente para calar Arthur – que se manteve apenas a fitar as costas do japonês, sem poder ver sua expressão. Provavelmente Kiku fora vítima de bullying quando mais novo e talvez esta era a causa dele ter dito que se machucava com frequência e aprendido artes marciais – ele disse que foi para defesa pessoal, não?

O japonês fechou os olhos com força, tentando afastar as lembranças amargas de sua juventude. Nunca fora muito popular e sempre preferiu ficar quieto, talvez até mesmo tendo certa tendência a se isolar, o que causava estranhamento nos colegas que preferiam hostilizá-lo. Sem a atenção necessária, descuidou-se, largando subitamente os objetos que segurava. Abriu os olhos, fitando o sangue se acumulando na superfície de um corte que fizera no indicador. Os olhos arderam, não pelo ferimento na pele, mas por recordar-se de feridas muito mais profundas, ainda não totalmente cicatrizadas.

Arthur assustou-se com o barulho, levantando-se e fitando o menor, preocupado. Abriu a boca para chamá-lo, mas fechou-a e colocou a mão sobre ela ao se pegar quase pronunciando o primeiro nome dele – intimidade que se permitia ter em sua mente (e somente nela). Sem saber como chamar-lhe a atenção, fitando o visível desespero do outro sem saber se ajeitava a bagunça ou se deveria primeiro cuidar do corte, então se aproximou, parando ao lado do nipônico.

- A-ah...! Desculpe-me, já vou ajeitar tudo...

Kiku murmurou, fazendo menção de abaixar-se para pegar o que caiu, mas foi impedido. O loiro segurou os pulsos dele, vendo lágrimas não derramadas formadas nos olhos castanhos assustados.

- Está tudo bem.

O japonês não entendeu, sentindo a mão ser beijada, em seguida os lábios do inglês roçando pela pele até alcançar a área do corte. Com cuidado, o mais novo lambeu o sangue que escorria, colocando o dedo do menor na boca. Os lábios do nipônico se entreabriram em uma palavra não dita, as bochechas apenas ficando mais e mais avermelhadas, as lembranças amargas interrompidas pelo gesto do outro. Arthur também se sentia constrangido pelo que fazia, mas prosseguiu, afastando-se com um beijo sobre o local. Os olhos verdes fixaram-se nos castanhos e ele respirou fundo.

- Professor... – soltou o ar de uma vez, fazendo um barulho chiado. – Não, digo... Kiku, eu... Eu realmente gosto de você...

O coração do moreno falhou em uma batida, logo acelerando de maneira descontrolada. Aquilo era uma declaração? Mas, não, espera. Eles eram professor e aluno, Arthur deveria estar meramente se confundindo. Nessas horas que devia manter a calma e a serenidade, afinal o outro era apenas um adolescente e estava confuso, provavelmente pela relação mais próxima que tinham... Ou somente um sentimento de admiração. Ou até mesmo atração. Mas um gostar verdadeiro não podia ser. Quantos anos eles tinham de diferença mesmo?

- Arthur... – começou, desvencilhando as mãos das dele, mas sem ter para onde se desviar. Naquela hora amaldiçoou o fato de ter uma cozinha estreita. – Você provavelmente está apenas se confundindo. É natural o sentimento de admiração se misturar e você imaginar que nutre algo por mim, mas se parar e pensar melhor verá que não é assim e–

- Não é isso! Eu não sou criança, sei bem o que sinto.

Disse o britânico, um tanto quanto emburrado, mas sem deixar a expressão séria de lado. Kiku era obrigado a ouvi-lo, afinal estava literalmente sem uma rota de fuga, visto que agora estava preso entre a bancada e o corpo de Arthur, que usava os braços para bloquear o caminho.

- P-pode não ser criança, mas ainda é um adolescente! É um período de dúvidas e confusões, além dos hormônios e...

A voz ia diminuindo até se tornar inauditível, o corpo encolhido. Arthur poderia estar apenas no primeiro ano, mas já era bem mais alto que Kiku, embora a diferença parecesse diminuir... E realmente diminuía. Arthur se inclinou ao ponto de fitar os olhos do mais velho, murmurando em resposta:

- Você acha que aquele beijo teve alguma dúvida...?

Um arrepio percorreu o corpo do japonês. O mais novo estava louco, isso sim! Espalmou as mãos nos ombros dele, afastando-o o máximo que conseguia de si.

- Por favor, Arthur, pare com isso.

O tom saiu mais firme do que Kiku esperava, fazendo com que o outro caísse em si. Percebendo o que fazia, desviou o olhar, corado, colocando as mãos nos bolsos da jaqueta – colocava-se em seu próprio lugar. Ainda eram professor e aluno e só estava ali por gentileza do oriental.

Um silêncio incômodo pairou sobre o local.

Arthur pensou que o ar ficara pesado de repente, indo silenciosamente até a porta. O asiático limitava-se a ficar quieto, imaginando que era melhor que ele se retirasse de uma vez, não querendo arrumar problemas para si e para o loiro.

Mesmo que o que ele dissera fosse verdade, mesmo que por um acaso retribuísse, não havia como aquilo dar certo.

Era completamente insano.

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Hm... É isso. Reviews?