LOVE IS COLDER THAN DEATH

Micael acaba de fazer um microondas.

Não. Antes que me pergunte, Micael não trabalha em uma fábrica de eletrodomésticos.

Pra falar a verdade ele não sabe nada de eletrônica, nem de física, língua portuguesa, matemática ou qualquer outra coisa acadêmica. Aja vista que só estudou o primário. Micael lê com muita dificuldade e escreve com mais dificuldade ainda.

Micael não demonstra nenhuma emoção enquanto vê o microondas queimar. Ao seu lado, dois amigos assistem a tudo aquilo. Eles estavam assustados com a frieza do rapaz. Alias, "amigos" não é bem a palavra certa. Colegas no máximo. Comparsas seria a palavra mais exata. Há muitos anos que Micael não sabe o que é um amigo. Acho até que já esqueceu o que é.

Distraído com o microondas que acabou de fazer, e que ainda queimava, Micael não notou que os comparsas estavam cochilando sobre ele.

- Porra. O menino é ruim mesmo, né?

- Cara, você não viu nada. Você devia ter visto o que ele fez com os filhos de um rapaz que devia dinheiro a ele ano passado. Cara, acho que nunca vou esquecer os gritos daqueles moleques.

- Desgraça veio!

- Mas ele não foi sempre assim.

- Não?

- Cara, vou te contar uma história.


A História:

Imagine uma cidade do interior. Imagine agora uma disputa de terra. Um grande fazendeiro que deseja aumentar suas posses contra um monte de "pés-rapados" donos só de um punhado de chão, cuja produção é tão pouca que mal dá pra alimentar suas próprias famílias.

Bom, não seria certo nem chamar isso de disputa, pois sabemos muito bem que um desses dois lados não tem a mínima chance, certo?

Agora imagine um sitio e, dentro dele, um lavrador "pé-rapado" cuidando de sua terra.

- AAAAHHHH!! – Um grito de mulher chama a atenção do lavrador. Ele deixa seu trabalho de lado e corre de volta a sua casa. Chegando lá vê dois homens agarrando sua mulher que, levando-se em conta sua roupa rasgada, devia ter acabado de passar por situações "embaraçosas".

O lavrador tentou se mostrar valente, depois, vendo que não podia com seus inimigos, tentou pedir clemência. Enfim, de nada adiantou. Naquele dia o lavrador perdeu a mulher e suas terras foram tomadas. Agora ele não tinha nada.

Os dias se seguiam e, vivendo de esmola, o lavrador, que agora era um mendigo, amaldiçoava Deus e o mundo. Principalmente este primeiro. Eis que em certa vez, alguém pareceu ouvir seus clamores de ódio e suas pragas. Alias, "alguém" não seria bem a palavra certa, o mais correto seria "alguma coisa".

O sujeito era estranho e falava coisas sem muito nexo sobre desejos e pactos. Somando a conversa estranha com a roupa preta e o rosto pálido, bem que o sujeito poderia se passar por uma assombração ou coisa parecida.

O lavrador, coitado, estava tão abalado, que entrou na onda do sujeito esquisito e acabou por fazer um pedido, sem saber que a conversa na verdade era mais séria do que parecia.

- Gente boa não se dá bem na vida não, seu moço. – Disse o lavrador ao sujeito esquisito. – Olha pra mim, sem dinheiro, sem nada. E olha só pra quem fez essa crueldade comigo, seu moço. Afff! O mundo é cruel, sabia? E parece recompensar aqueles que forem tão cruéis quanto ele.

- É, você tem razão. – Disse o sujeito esquisito. – Então me diga. O que você quer?

- Queria me dar bem na vida, sabe? Que nem os homens que tomaram minha vida, sabe?

- Você seria capaz de vender a alma por isso?

- Vender? Eu daria ela de graça!! Eu queria ser uma pessoa ruim! Um desalmado. Nunca vi acontecer nada de ruim com pessoa que não presta. Só os honestos é que sofrem nesse mundo. Ficaria era muito do feliz se levassem minha alma, coração... Aff! Não quero ser gente boa, mas não, seu moço. Não vale a pena.

O sujeito sinistro apertou a mão do lavrador e a partir daí ele já não era mais o mesmo. Foi aí que o Micael que conhecemos surgiu.


-Hahahaha.

- Que foi?

- Cara, tu acredita nessas besteiras, mesmo?

- Por quê? Pra mim pareceu sensata a história.

- Sei, sei... "Sensata".

BLAM! BLAM! BLAM!

- Êta porra! São os "ômi".

Vou descrever o cenário pra você se situar melhor. Estamos em uma cidade do interior, no lugar em que as personagens principais dessa história se encontram só se pode ver mato. Temos um homem morto preso dentro de cinco pinéus incendiados (isso é um microondas). - É preciso dizer que o rapaz estava vivo quando os pinéus começaram a pegar fogo? – Temos dois capangas assustados mirando suas pistolas para dentro da mata fechada de onde parece ser a origem do som de disparos e, por fim, temos Micael que, apesar da presença da morte, continua com sua habitual expressão fria.

BLAM! BLAM! BLAM! BLAM!

Os dois comparsas caíram no chão, pois foram atingidos e morreram em seguida. O autor dos disparos, um homem furioso que pareceu surgir de dentro do mato, chegou próximo de Micael e, mirando o peito do rapaz com a pistola, disse as palavras: - Isso é pelo meu irmão, maldito!

BLAM!

Micael caiu no chão. Morto. Ou, pelo menos, assim deveria ser.

- M-mas não é possível! - Disse o rapaz vingativo ao ver Micael se levantar após levar um tiro à queima roupa no peito. – Porra é essa?!! Eu acertei o coração!

- Não, meu amigo, não acertou não. Não há nenhum coração dentro desse peito aqui pra ser acertado.

O outrora vingativo, mas agora assustado, rapaz, solta sua arma e sai correndo desesperado na direção contraria a posição de Micael. Provavelmente alguém na situação de Micael, vendo alguém fugir com medo dele, iria sentir alguma coisa. Remorso por fazer tanto mal? Felicidade por se sentir superior? Micael não sentia nem uma coisa nem outra.

As maiores propriedades da região pertenciam a Micael. A maioria delas adquirida em uma "negociação agressiva". Financeiramente falando, Micael se deu muito bem depois que vendeu sua alma. Às vezes ele achava que seu sucesso não vinha só do fato dele agir sem dó e sem escrúpulos. O ex-lavrador ocupava algumas tardes vazias refletindo se o sujeito sinistro responsável pela guinada em sua vida não estaria dando uma ajudinha extra em sua "carreira" nos bastidores.

Imagine uma casa grande em uma fazenda enorme o suficiente para dar a impressão de não ter fim. Digna de um coronel. Sentado na varanda, em cima de uma daquelas cadeiras de balanço feitas de madeira, Micael assiste ao longe um dos seus jagunços cuidando do gado. O rebanho cresceu muito nos últimos meses. A produção mais ainda. No entanto Micael era indiferente a isso.

Você pode ter chegado à conclusão que Micael estava se sentindo entediado com sua vida. Mas isso está errado. Ele não sentia nem isso. Não sentia tédio, não sentia saudades de sua mulher, não sentia rancor pelos seus inimigos, não sentia absolutamente nada. Parecia um robô.

Eis que certo dia, sem saber ao certo o porquê, Micael começou a achar que deveria dar algum propósito a sua vida. Tais pensamentos pareciam não pertencer a ele. Era quase que como se alguém estivesse sussurrando idéias em seus ouvidos. No começo essas idéias surgiam de forma bem esparsa, mas, à medida que os dias iam se passando, elas ficavam cada vez mais fortes. Até chegar ao momento em que ocupavam a maior parte de sua atenção. Sua cabeça só conseguia chegar a uma única conclusão. Pra falar a verdade, até parecia que o cérebro de Micael não queria que ele chegasse à outras conclusões, pois sempre que seus pensamentos se desviavam a "voz" em seus ouvidos o fazia voltar a idéia principal. "Pra dar um propósito a minha vida preciso dos meus sentimentos de volta" era a única conclusão que Micael conseguia chegar.

Essa conclusão foi tão forte que, algum tempo depois, Micael acabou fazendo o que ele achava que nunca iria fazer. Ele pediu seu coração de volta. Novamente, alguém, ou melhor, alguma coisa, atendeu seu pedido. Só que desta vez não foi um "sujeito sinistro", mas sim um sujeito exatamente oposto.

Era uma noite. A enorme casa do coronel tinha a maioria de suas lâmpadas apagadas. Alguém normal que ficasse na situação de Micael, sozinho naquele enorme casarão escuro, deveria sentir medo. Mas, como já cansei de dizer, Micael não sente nada. Isso é, até aquele momento, pois ele acabou sentindo uma forte dor no peito que, depois de muito tempo, parecia ter alguma coisa batendo dentro dele.

- Então? como é se sentir vivo novamente? – Perguntou uma estranha voz que Micael não sabia dizer qual era a origem. Pela primeira vez em muito tempo ele sentia alguma coisa. Pra ser mais específico, ele sentia medo.

- Q-quem é?

- Pode me chamar de Zacharias. Prazer em conhecer. Só não vou até aí para apertar sua mão, por que... Acredite. Você não vai querer ver minha cara. Mas tente não se assustar, não vim aqui lhe maltratar.

- O q-que tu quer?!

- Bom, eu ouvi suas preces. Você quer um propósito. Eu quero alguém pra trabalhar pra mim. Como um anjo sensato. Acho que podemos entrar em um tipo de acordo.

Sniff!! Sniff!

- Que é isso, homem? Está chorando?! – Perguntou a voz misteriosa que se autodenominava Zacharias.

- Maria!! Sniff!! Sniff! Cadê você?

- Isso se chama saudades, filho. Não se preocupe. Você se acostuma com ela.

- Anjo! Você diz que é um anjo! Então onde estava quando eu mais precisava?! Não quero sua ajuda!!

- Aff! Mais um revoltado... Já estou ficando sem paciência com isso, mas vamos lá. Seis bilhões e meio de humanos, enquanto estamos conversando dezenas de tragédias acontecem com dezenas de pessoas. Assalto, atropelamento, doenças... Enfim, porque uma dessas tragédias não pode acontecer com você? O que você tem de tão especial?

- E-e-eu... – Micael ficou sem resposta.

- Então. Vai aceitar minha ajuda ou não?

- Tudo bem, eu aceito.

O enorme casarão é subitamente iluminado por um enorme clarão luminoso que o toma por completo. No dia seguinte muitos ficarão assustados, principalmente com o estranho desaparecimento de Micael. Muitas histórias irão surgir. Algumas delas falando de punição divina outras falando de abdução. Todas elas com um "pouquinho" de verdade.


Algum tempo depois...

O sujeito sinistro aparece pra todo aquele desesperado que procura por uma solução "mágica" para seus problemas. Mais uma vez ele toma forma. Desta vez em uma estrada deserta no meio da noite. Jezéu estava por lá. Bêbado que nem um peru, ele acabou de ser expulso de um bar e está prestes a fazer a maior besteira de sua vida.

- Então? você quer sua mulher de volta? – Pergunta o sujeito sinistro a Jezéu.

- M-m-mas é... é... é... é... Claro!

- Venderia sua alma por isso?!

BLAM!

O pinguço não teve tempo e nem oportunidade de responder a pergunta. O sujeito sinistro leva um tiro no peito e cai no chão. De sua boca aberta sai uma estranha e espessa fumaça preta que voa ao céu até sumir completamente.

- Ei, você aí! – Diz um homem invocado empunhando uma enorme escopeta.

- Hmmm?

- Seja lá o que tenha acontecido com sua vida, não se preocupe. Vai melhorar.

- C-c-certeza?

- Claro que não, mas de qualquer jeito, é melhor do que a outra alternativa. Vai por mim.