Lily suspeitava que a música alta era mais para evitar conversas que para ouvir. Ela não se importava, gostava da seleção — Dave Matthews, Beatles, Stones, Springsteen, Zeppelin —, também precisava de um tempo para pensar.

Só de olhar para James, percebia sua rotina solitária e a invasão de seu espaço.

Deixaram Leonore há três horas, e, a pedido dela, pararam para comprar água antes de chegar à Geórgia. O dia estava quente e úmido, Lily ficou grata pela potência do ar-condicionado.

Suficiente para refrescar uma mulher cujo corpo ainda ardia, depois de ser beijada daquele jeito.

O beijo de James chamuscou o seu cérebro e lhe incendiou corpo. Mesmo agora, seus lábios ainda formigavam. Durante toda a vida, Lily fora ensinada a se comportar com equilíbrio e graça. A ser calma e composta em todas as situações. Bastou um beijo de James para ela quase se derreter.

Ela quase implorou por mais.

Os beijos de Oliver haviam sido... polidos, comparados aos de James. Agradáveis. Controlados. Tépidos. O beijo de James fora arrojado e tempestuoso.

Ele lhe dissera ser pouco controlado, e embora suas palavras tivessem feito seu coração disparar, não acreditava nele. Um homem como James não podia estar interessado numa puritana inexperiente como ela. Sabia que ele apenas queria intimidá-la, convencê-la a mudar de idéia sobre os desvios até Wolf River.

Mas suas intenções não tornaram o beijo menos intenso. Serviram até para lhe provar que todo um mundo existia a ser explorado e experimentado. E, embora não estivesse pronta para os James Potter do mundo, estava pronta para um pouquinho de aventura e emoção.

Fingindo admirar a vista, olhou de soslaio para ele. A camiseta preta que usava delineava o peito largo e os braços musculosos. Estava com a barba por fazer e usava um par de óculos escuros, a pequena cicatriz sobre a sobrancelha direita lembrava um raio.

Embora não procurasse um homem, imaginava James com um bocado de mulheres. O homem irradiava aquele tipo de sensualidade masculina que enlouquecia as mulheres.

Desviou o olhar, aborrecida. Numa campina atrás de uma cerca branca, viu dois meninos empinando pipas.

— Nunca fiz isso. — Ele abaixou a música.

— O quê?

— Nunca empinei pipa.

— Nunca?

Ela sentiu-se tola. Olhou para James.

— E você, já?

— É claro.

— De que cor?

— Cor?

— A pipa.

— Ah. Laranja, com o número 1.

— Por que 1?

Ele olhou para ela como se ela não soubesse de nada.

— O General Lee.

— General Lee?

— Você sabe. Os Gatões. Bo Duke, Luke Duke, Daisy Duke.

— A série de televisão — ela disse, finalmente entendendo. — Já ouvi falar.

— Mas nunca viu? Nossa você realmente levou uma vida reclusa.

— Era mais uma vida programada. Bale, piano, cotilhão.

— Cotilhão?

— Dança formal para jovens. — James estremeceu.

— Preferiria enfiar pregos nos pés.

Ela riu.

— Com o parceiro errado, podia se sentir assim. Mas aprendemos etiqueta e boas maneiras apropriadas.

— Como o quê, por exemplo?

Ela se ajeitou no banco e ergueu o queixo.

— Por exemplo, apresentações: Sr. Potter — ela disse com uma voz pomposa. — Permita-me apresentá-lo à Sra. Bunda Grande. Sra. Bunda Grande, o Sr. Potter.

Ele a olhou por cima dos óculos escuros.

— Você está brincando, não está?

— De modo algum. Depois, o Sr. Potter ofereceria um copo de ponche para a Sra. Bunda Grande. "Oh, sim, Sr. Potter, adoraria." Depois do ponche, você lhe ofereceria um biscoito. Assim que estivessem servidos de ponche e biscoitos, vocês poderiam conversar.

— Não posso apenas comer os biscoitos?

— Não. Primeiro você tem que conversar. É necessário entreter a sua parceira com uma conversa educada. "Sr. Potter, esta é uma bela camiseta. Será que é de Tommy Hillfiger?"

Ele sorriu ligeiramente.

— "Não, Sra. Bunda Grande, é do Sam Camelô."

— Não conheço a grife. Nova York ou Paris?

— "Zona leste. O Sam fica na esquina toda tarde. Três camisetas por doze paus, mas se disser que me conhece, conseguirá um desconto."

Foi a primeira vez que James escutou Lily rir de verdade.

— Você alguma vez já pensou como viveria se sua mãe não tivesse ido embora? — ela perguntou.

Vez ou outra o fizera. Mas sabia que ela realmente pensava na sua própria vida, se a mãe biológica não tivesse morrido. Ele desconversou e concentrou-se na estrada.

— Você não pode mudar a vida. As coisas são como são.

— Não quero mudar tudo, só queria melhorar um pouco.

— Você já fez isso ontem, Lily, quando teve coragem para sair daquela igreja.

— Machuquei um bocado de gente.

— E se casasse com Oliver? Quem você teria machucado?

— A mim.

— Isso mesmo — ele disse, sorrindo. Notou seu olhar fixo para um outdoor anunciando Doug's Delicious Dogs. — Posso apresentá-la a um delicioso cachorro-quente, Srta. Evans?

Sorrindo, ela olhou para ele e, colocando a mão no peito, disse:

— Obrigada, Sr. Potter, eu adoraria.


Eles chegaram a Plug Nickel por volta das sete da noite. Enquanto James os registrava no hotel, Lily esticava as pernas no estacionamento. Embora já houvesse feito longas viagens de avião, nunca viajara de carro, considerado desconfortável pela mãe.

Lily estava adorando, a sensação da velocidade na estrada, o poder do motor, o cenário em constante mudança. Talvez comprasse um desses para si, não tão grande, é claro. Algo mais compacto e esportivo. Um Mustang ou um Corvette.

Sem dúvida um conversível.

Lily acabou atraída pela música que vinha do restaurante ao lado do hotel. O letreiro de néon dizia Weber's Bar e Grill. Lily nunca estivera em um lugar assim antes, nem perto. Estava curiosa para ver como era lá dentro. Examinava as pessoas que saíam e entravam no restaurante, pensou não estar vestida apropriadamente, mas só daria uma rápida espiada. Olhou por cima do ombro e viu James na recepção do hotel, andando impaciente de um lado para o outro.

Ia entrar rapidinho, olhar ao redor, e sair novamente.

O interior, embora muito escuro, era refrigerado, pouco iluminado pelas propagandas de cerveja em néon espalhadas nas paredes. Lily viu as pessoas, na maioria jovens, amontoadas no bar à esquerda e lotando as mesas no centro. Devido às conversas, ao jogo de beisebol na televisão e à música country ao fundo, era quase impossível se escutar alguma coisa. Estavam fumando perto do bar, mas nas mesas isto parecia ser proibido. O cheiro de molho de churrasco no ar lembrou Lily do jejum desde aqueles cachorros-quentes.

Ninguém nas mesas pareceu notá-la, mas várias cabeças se viraram no bar para observá-la. Está na hora de ir, decidiu. Ao virar-se, esbarrou num homem alto de cabelos escuros que entrava.

— Calma — ele disse, segurando-a pelos ombros.

— Me desculpe — ela respondeu, tentando se livrar das mãos dele. Mas ele apenas sorriu.

— Qual é a pressa, gracinha? — perguntou. Sua camiseta dizia Construtora Cachorro Louco.

Era um homem bem-apessoado, pensou Lily, mas suas mãos incomodavam.

— Sinto muito, mas, se me der licença, eu já estava de saída.

— Aceitarei suas desculpas se tomar uma bebida comigo.

— Obrigada, mas já tenho outros planos.

— Você pode se atrasar um pouquinho — ele retrucou, ainda segurando-a. — Faz bem deixar um cara esperando de vez em quando.

— Não para você — disse uma voz profunda, vinda detrás deles. Cachorro Louco soltou Lily e virou-se para encarar James.

— Desculpe, cara. Não pode me culpar por tentar.

— Tente em algum outro lugar — aconselhou James, colocando-se ao lado de Lily.

— Certo — disse o outro homem, arriscando um último olhar para Lily, ao se afastar.

Lily soltou a respiração que vinha prendendo, e olhou para James.

— Graças a Deus, você...

— Você está maluca? No que pensava, ao entrar sozinha num lugar destes?

— E qual é o problema com...

— Obviamente você não estava pensando. Deus sabe o que teria acontecido se eu não tivesse visto você se esgueirar para cá.

— Não me esgueirei para lugar algum — ela disse, empurrando-o. — E nada teria acontecido. Era um homem bem gentil.

— Chama de gentil um homem que sai por aí agarrando-a?

— Estava de costas e esbarrei nele. E você está me agarrando, se é que não percebeu.

Ah, ele percebeu, sim. Um longo dia enfurnado num carro com Lily, concentrando-se nas curvas da estrada em vez de nas curvas da moça ao seu lado. Um longo dia mantendo as mãos na direção em vez de onde realmente as queria, em Lily.

Ele soltou-a e começou a se virar.

— Vamos embora.

— Eu quero ficar.

— O quê?

— Nós já estamos aqui. A comida tem um cheiro gostoso e parece estar deliciosa. Me dê um bom motivo para não comermos aqui.

Ele lhe daria uns dez motivos, todos eles sentados no bar, olhando-a. Ao entrar e ver aquele sujeito com as mãos em Lily, chegara muito perto de esmurrá-lo, o que poderia ter se tornado um problema, considerando que "Cachorro Louco" obviamente tinha amigos no bar, e eles com certeza teriam vindo na defesa do companheiro. Felizmente, o operário parecia ser da paz e recuara.

— Tem um café rua abaixo que parece ser mais tranquilo, e...

— Mesa para dois? — perguntou uma pequena morena, segurando os cardápios e gritando para ser ouvida acima da música.

Lily acenou afirmativamente e seguiu a garçonete até uma mesa bem no centro.

Rangendo os dentes, James foi atrás dela.

— Que vão beber? — perguntou a garçonete, depois de informar o prato do dia.

— Uma Black and Tan e uma coca — pediu James.

— Duas Black and Tan, por favor — corrigiu Lily.

— Você por acaso sabe o que é uma Black and Tan? — perguntou James, depois que a garçonete se foi.

— Não, mas espero que seja bem gelado. Estou morrendo de sede. — James suspirou e pediu paciência a Deus.

Eles pediram dois pratos, a garçonete trouxe as bebidas e uma cesta de pães de queijo. James acomodou-se na cadeira para observar Lily pegar delicadamente o copo e erguê-lo num brinde. Ele também ergueu o seu.

Ela tomou um gole bem grande, e depois ficou paralisada, com uma expressão de asco no rosto.

— Precisa mastigar um pouquinho para ajudar a descer — ele avisou, sorrindo. Depois tomou um gole da cerveja escura e encorpada. —Você se acostuma depois de alguns goles.

Fechando os olhos, ela engoliu.

James desejou ter uma câmera ali com ele.

A garçonete pôs os dois pratos bem servidos na mesa, enquanto um auxiliar servia dois copos de água gelada, derramando tudo de tão distraído admirando Lily. Ocupada demais tirando o gosto da cerveja com a água, Lily nem notou.

"Ela realmente ignora o efeito que causa nos homens?", perguntou-se James. Sabia de sua vida reclusa de cultura e privilégio; mesmo assim, como podia ignorar a própria aparência? Lera no relatório que seu pai biológico era cheroqui, e a mãe, galesa. A combinação criara uma aparência exótica, uma sensualidade capaz de fazer um monge esquecer seus votos.

Viu a moça tomar outro gole de cerveja, estremecer, e depois, delicadamente começar a comer. Uma expressão de prazer quase sexual cobriu-lhe o rosto enquanto mastigava.

Ela o enganava. Droga. Não podia ser tão inocente assim.

Concentrou-se na própria comida, resistiria a ela. Quando o DJ anunciou a noite do karaokê, James agradeceu a distração. Lily estava fascinada assistindo aos diferentes cantores de músicas pop e country.

— Você deveria tentar — ele gritou, superando a música. — Você tem uma voz agradável.

Ela lhe lançou um olhar que dizia jamais.

Sorrindo, ela afastou o prato e ficou de pé. Ele pensou que fosse cantar, mas ela pediu licença e dirigiu-se ao toalete. Ele franziu a testa quando notou que vários outros homens, além dele, a observavam.

James continuou a assistir ao show. Já terminara o jantar e estava na segunda cerveja, mas nem sinal de Lily. Percebeu não estar preocupado, apenas irritado. Muito irritado.

Carrancudo, pagou a conta e caminhou para o toalete feminino. Ficou mais tranquilo quando a achou, ao lado de outra mulher, observando um jogo de bilhar entre Cachorro Louco e um de seus amigos. Pela empolgação havia um bocado de dinheiro em jogo.

A companheira de Lily, uma loura de minissaia de couro, falava e gesticulava, enquanto Lily escutava atentamente. Quando James se aproximou, a loura o viu primeiro. Ela estava vestida para chamar atenção, expondo-se. Ele lhe retribuiu o sorriso. Era uma mulher bonita, mas, perto de Lily, a loura desaparecia.

Ele passou o braço ao redor dos ombros de Lily, queria conduzi-la para longe para mostrar com quem estava. Sentiu-a se retesar. Ela virou-se com o cenho franzido, mas não se afastou.

— James — Lily disse, acima do barulho. — Esta é Mindy Moreland. Mindy, James Potter. Mindy está encarregada da limpeza no Night Owl — anunciou Lily, como se fosse o trabalho mais fascinante do mundo. — Nos conhecemos no toalete e eu lhe disse que vamos ficar lá.

Sons de comemoração anunciavam o fim do jogo, vitória de Cachorro Louco. Mindy correu até o operário e o abraçou, e o perdedor pagou uma rodada de cerveja para todos.

James precisava sair dali. Agora.

— Vamos embora — sussurrou no ouvido de Lily, apertando-lhe o braço.

— Vá na frente.

— O quê?

— Vou ficar por aqui um pouco. Vejo você de manhã. — "Vejo você de manhã?"

"Uma ova!"

— Droga, Lily, este não é o tipo de lugar para uma moça decente.

— A Mindy é decente, e está sozinha. Vamos jogar juntas.

James olhou para Mindy e a viu dar um beijo molhado em Cachorro Louco. Mindy era uma garota muito decente, pensou, mas não diria a Lily sua opinião.

— Tudo bem. Eu jogo uma partida de bilhar com você. Se eu ganhar, vamos embora.

— Tudo bem. Mas se eu ganhar — ela hesitou e pensou cuidadosamente, depois sorriu — você tem que cantar. E eu escolho a música.

— De jeito nenhum.

— Acredita que vou ganhar de você?

Percebeu desafio na voz dela e sentiu que deveria recusá-lo, ir embora e deixá-la ali. Que importa ela querer ficar num bar jogando bilhar. Ela já era bem grandinha. E não era assim que se aprendia? Cometendo erros?

Mas ele se sentia... responsável. Os irmãos dela lhe pagaram para achá-la, Lily estava lhe pagando para levá-la a Wolf River. Tinha o dever de cuidar para que chegasse sã e salva.

Além do mais, nunca recusara um desafio. Estariam fora dali no máximo em dez minutos.

— Eu topo.

Eles pegaram uma mesa e dois tacos. Mindy, empolgada, arrumou as bolas. James pensou em dar uma vantagem a Lily. Mas ao ver Cachorro Louco vir desejar boa sorte à moça, ficou irritado.

— Vamos sortear quem começa.

Lily ganhou. "Sortuda" pensou James. Mas não estava preocupado. Precisaria mais do que de sorte para ganhar este jogo.

Quando Lily abriu o jogo, encaçapou três bolas, duas lisas e uma listrada.

Muito sortuda.

— E o que faço agora? — ela perguntou a Mindy.

— Escolha listradas ou lisas. — Para o desgosto de James, uma pequena multidão começou a se formar. Lily escolheu as listradas, concedendo-lhe clara vantagem.

Com perfeição, ela encaçapou a bola quatorze e a doze. Ele começou a suar frio quando ela encaçapou a bola nove.

Ninguém tinha tanta sorte assim. Filha da mãe. A Srta. Inocente armara para cima dele.

Na tacada seguinte, o barulho de um copo quebrando tirou a concentração dela. Não era tolo. Precisava acertar cada tacada. Encaçapou quatro bolas, depois errou a última bola. Acertaria na próxima.

Nunca teve a chance.

Assistiu, incrédulo, à moça encaçapar todas as bolas restantes.

Ela o derrotara. Realmente o derrotara.

A multidão aplaudia, Mindy abraçou Lily e Cachorro Louco a cumprimentou. James olhou para a cena surreal e disse:

— Você já jogou bilhar antes.

— Com o meu pai. Ele é muito bom.

Lily entregou o taco para Mindy e deu a volta na mesa.

— Você não recuará na nossa aposta? — Ele trincou os dentes.

— Vamos acabar logo com isso.

Lily até pensou em liberar James de sua promessa, mas ao ver seu rosto carrancudo, desistiu da idéia.

Passando o braço por dentro do dele, arrastou-o até o DJ.

Ele a observava enquanto ela examinava a lista de músicas. Dylan, Sinatra, Manilow — ele odiaria este — Morrison, Stewart...

Bingo.

Fez a sua escolha e a passou para ele, depois encontrou um lugar na platéia antes que ele a esganasse. Para a alegria de Lily, e o desgosto de James, todos aproximavam-se para assistir.

A música começou. James engoliu um pouco da cerveja que Cachorro Louco lhe oferecera e pegou o microfone.

Quando ele passou a mão nos cabelos, apertou os olhos e girou os quadris, as mulheres enlouqueceram.

"Love me tender..."


Olá gente! Lily danada :) Ri demais com as reviews que recebi, fuck fuckando foi demais shaushuashuashua. Lily ainda é virgem Nanda Soares, mas veja bem ainda, James vai dar um jeitinho nisso, ta na cara. Ela vai enlouquecer ele de um jeito Joana Patricia que nem te conto ;) Obrigada a todas pelos comentários, beijinhos :*