17 de outubro
Então.
É impressionante como, em um mês, as coisas mudam.
Há um mês, eu estava em crise... Crise que foi crescendo exponencialmente.
Briguei com o Shun, depois fiz as pazes... Sumi no meu aniversário, depois voltei; compareci à festa que fizeram para o meu irmão, levei bronca daqueles que julgaram que eu deveria ter participado da preparação dessa festa, na qual eu apenas apareci rapidamente, pois duvido que tenha ficado mais de uma hora...
É o meu limite, eu estava no meu limite.
Mas isso faz tempo. Quase parecem acontecimentos de uma outra vida.
É estranho, quando tudo isso estava acontecendo, eu sentia uma grande necessidade de falar, mas não falei. Ou melhor, não escrevi. Eu não sou de falar...
Eu queria ter dado continuidade a esse diário. Nem que fosse para escrever umas poucas e simples linhas. Acho que eu queria sentir que estava continuando com algo, como se pudesse provar alguma coisa para mim mesmo dessa maneira.
Eu tentei escrever de novo aqui umas duas, três, talvez quatro vezes. Eu começava e nunca terminava. No dia seguinte, quando abria esse arquivo novamente, eu não me sentia mais do mesmo jeito e acabava deletando tudo.
Eu mudo muito rápido. O que estou sentindo é sempre algo muito efêmero. Efêmero e intenso. Por isso eu quero tanto escrever e marcar, registrar esses momentos. Gosto de poder relê-los depois... É uma forma de vivenciar o passado, a fim de compreender meu presente.
Das outras vezes em que tentei escrever, eu falava sobre meus problemas com o Shun. Sobre nossa briga. Sobre a briga com aqueles que me disseram que eu não agia conforme deveria. Sobre minhas tentativas de melhorar e sobre minha própria frustração em não conseguir... Enfim, eu iria falar sobre tudo isso, cheguei a anunciar esses eventos, por alto, em postagens anteriores... Contudo, acabou que não falei, o momento passou e eu tenho sérias dificuldades em resgatar sentimentos que já passaram.
Ora, não estou escrevendo um livro. Isso é um diário. Devo falar do agora, do momento, do que me faz sentir necessidade de expressar no dia.
Era esse o objetivo, não é mesmo? Não tenho grandes compromissos. Isso aqui é apenas uma forma de desabafo.
E hoje sinto uma estranha necessidade de me expressar. Preciso colocar isso para fora e acredito que, dessa vez, a postagem irá acontecer.
Não pensei que fosse acontecer uma postagem desse tipo no meu diário. Realmente, não era parte dos meus planos que isso acontecesse...
Porém, certas coisas não se controlam.
Eu estou apaixonado.
E agora, sinto-me um tolo por escrever desse jeito, como um adolescente qualquer. Entretanto, não há outra palavra, não há o que dizer. Eu me apaixonei e esse é o motivo de eu estar me sentindo tão estranho.
Nunca me apaixonei de fato. Disso eu já desconfiava. O que tive com Esmeralda foi amizade. Uma amizade necessária, importante, gratificante. Só que não passou disso.
Eu nunca havia me apaixonado de verdade. Pelo que eu escutava, pelo modo como as pessoas descreviam o que era sentir-se apaixonado, eu sabia que nunca tinha sentido algo do tipo.
Mas isso mudou.
Não sei exatamente desde quando, mas sei que há mais ou menos um mês eu me dei conta desse inusitado fato.
Eu não sei explicar e agora não quero entrar em detalhes; estou me sentindo muito vivo, como nunca antes e isso é simplesmente...
Não encontro as palavras...
Eu estou feliz, mas também me sinto angustiado... A pessoa que eu amo não conhece meu sentimento.
Não contei a ela e nem sei se devo contar.
Eu quero, mas não sei se posso; acho que devo, mas não sei se consigo...
São tantos sentimentos com os quais eu nunca aprendi a lidar...
Sinto-me um incapaz quanto a isso. E, ainda assim, sorrio. Mas por que eu sorrio?
Que droga de sentimento é esse que consegue me deixar tão leve em um minuto e me joga ao chão, sem piedade, no outro?
Por que esse maldito sorriso permanece?
Passo a mão pelo meu rosto, como se pudesse entender.
Sinto a barba por fazer e meu primeiro pensamento é me perguntar se você me prefere assim, ou com a barba bem feita.
Que tolice. E será que, por acaso, você nota algo assim?
O meu sorriso acontece simplesmente porque estou pensando em você.
Tão simples e, ao mesmo tempo, tão...
Incontrolável , incompreensível, inexplicável.
Eu acho que, quando comecei a escrever aqui, cogitava a possibilidade de colocar por escrito tudo o que me vem acontecendo, em uma tentativa de racionalizar e organizar meus sentimentos.
Todavia, organizar sentimentos, racionalizar emoções... isso é tão contraditório! Ainda mais comigo.
Agora, quero apenas que o sentimento queime e me envolva por inteiro.
Então, é assim? Quando se ama? É quando o momento presente vale por tudo e nada mais importa? Passado, futuro... tudo deixa de importar?
É quando a vida se preenche de algo tão mais grandioso que você mesmo?
É quando o instante equivale a uma eternidade?
E é quando nem a eternidade poderia parecer o bastante, se o sentimento fosse correspondido?
É a dúvida amarga, que corrói, mas que não é capaz de fazer dar o próximo passo?
É sentir-se o maior dos covardes, por não saber como agir perante essa pessoa?
É sentir a maior das coragens, por saber-se disposto a qualquer coisa por essa mesma pessoa?
É ter medo de ouvir uma palavra, porque sendo o "sim" ou o "não", essa palavra mudará sua vida por completo?
É quando os conceitos de felicidade e tristeza se misturam e não se pode mais saber em qual a sua vida se encaixa, de fato?
É sonhar acordado, é pegar-se pensando na pessoa sem querer, é imaginar o que ela estará fazendo naquele mesmo instante?
É pensar se, quem sabe, aquela pessoa já pensou em você também...?
Eu nem consigo me explicar. Normalmente, tenho plena capacidade de me avaliar. Gosto de refletir sobre mim mesmo, sobre a minha condição.
Mas, agora, eu queria apenas registrar esse momento. Nem tenho muito o que dizer, há uma multidão de sentimentos se debatendo aqui dentro.
A pessoa que eu amo... eu não vou revelar seu nome aqui. Não quero. Simplesmente desejo que o seu nome continue apenas guardado em meu peito. Não quero trazê-lo para fora, não quero que ele seja levado pelo vento.
Essa pessoa... talvez ela saiba o que sinto. Hoje, ela pode ter descoberto.
Já nos conhecemos há algum tempo. Há um bom tempo, na verdade. Só que algo surgiu, não sei exatamente como, ou quando, e nada mais foi o mesmo.
Sempre tive grande respeito por essa pessoa, mas agora vai muito além disso.
Ok, Ikki... não vamos fugir do ponto em questão.
Eu vim aqui hoje só para escrever uma coisa.
Se for o caso, regresso amanhã e detalho mais sobre tudo isso.
Esse diário foi feito para registrar momentos. E há um momento muito vivo aqui, que preciso deixar marcado para que ele possa continuar vivo, para que eu possa vivê-lo ainda mais vezes...
Então, amar é assim. É querer reviver os instantes, por menores, por mais banais e insignificantes que eles possam ser ou parecer.
Que eu sou fotógrafo free-lancer, todos os meus conhecidos já sabem. Mas que eu gosto de compor músicas, isso é desconhecido de todos eles.
Eu gosto de escrever letras que desabafam. Sim, a palavra escrita sempre me ajuda a pôr pra fora tudo o que se passa aqui dentro. Mas, às vezes, dar voz a essas palavras ajuda. É quase essencial.
Eu toco de vez em quando em alguns bares, coisa de hobby sem grandes pretensões. É um mundo meu, muito à parte. Não quero que os outros saibam disso a meu respeito. Sempre quis que me conhecessem pouco, mesmo.
Gosto de manter minha privacidade e as canções que eu componho entregam demais sobre mim, sobre o que penso, sobre o que sinto. É quase o que faço com esse diário, mas em forma de música.
E, ao contrário desse diário, que faço apenas para mim, as canções são criadas para chegarem às outras pessoas.
Por que eu quero que atinjam outras pessoas? Não faço a mínima ideia.
Não; eu não me acho um exemplo ou um modelo. Nem estou buscando fazer com que as pessoas se identifiquem comigo. Eu apenas... quero ser ouvido. Acho que é isso.
Só que eu quero ser ouvido pelo desconhecido, e não por pessoas com quem tenho alguma familiaridade.
Preciso do distanciamento.
O distanciamento me leva ao isolamento.
Eu gosto de estar isolado.
Porém, isso não quer dizer que deva, necessariamente, ser isolado. Não é uma condição permanente. Há momentos em que preciso interagir com o restante do mundo. Sim, há momentos em que eu quero interagir.
Meu diário é uma reflexão, minha música é uma catarse. Uma válvula de escape. Em ambos, eu desabafo. Mas há momentos para o desabafo silencioso e há aqueles em que o desabafo precisa explodir, ter voz, ser ouvido, mesmo que não passe disso.
Acho que a minha interação com o mundo se resumia a isso... a música como meu desabafo, em alto e bom tom. Minhas fotografias, como a minha forma muito particular de dialogar com o que me cerca, com o mundo que me rodeia...
No entanto, isso agora está tão mudado. E é só por causa de uma pessoa...
De repente, não me basta mais ser ouvido por uma multidão anônima. Eu quero que você me ouça. Quero que você me escute, quero dialogar com você. Não quero mais somente refletir sozinho sobre mim, sobre a minha vida, sobre a minha solidão. De repente, eu não quero mais ser só.
Será que você sabe? Eu gostaria de acreditar que sim, mas devo estar sendo otimista demais.
Você tem um grande cuidado comigo. Sempre teve. Me respeita muito, sempre demonstrou me valorizar como pessoa. Acho que você sempre me enxergou diferente dos outros.
Eu te enxergo diferente também agora.
Foi você que fez isso comigo? Ou eu caí nessa armadilha por conta própria?
Qualquer que seja a resposta, não importa. Estou feliz.
Estou feliz porque te vi hoje, quando menos esperava. Será que você sabia?
Eu ia me apresentar em um bar, como às vezes faço. Tenho conhecidos por lá. É um outro mundo meu, que você e os outros não deviam conhecer.
Porém, hoje, você estava lá.
Foi coincidência? Eu não sei, mas me pegou de surpresa.
Eu ia cantar uma música que compus pensando em você. E você estava lá. Isso me deixou tão nervoso, que você sequer imagina. Mas deve ter notado, porque acredito que nunca tivesse me visto assim antes. Eu, Ikki Amamiya, o antigo cavaleiro de Fênix, nervoso? Não é algo que se vê todo dia.
E talvez, por isso mesmo, tratei de me recompor logo. Tinha planejado cantar aquela música, então não mudaria só porque você estava lá, olhando tão atentamente para mim.
Às vezes, acho que você sabe.
E, às vezes, acho que você não quer.
Você sempre parece pensar no que dizer quando vem falar comigo. Parece ter algum receio, mas isso nunca transparece facilmente. Eu é que estou sempre prestando atenção demais em você e noto o que não quer demonstrar.
Por que você teria medo? Sei que não tem medo de mim, porque você é forte.
Então... será que tem medo de me ferir? Acho que vi algo assim em seus olhos alguma vez, ao falar comigo. No fundo, você sabe... Sabe que não sou tão forte quanto pareço.
Não sou tão forte quanto você.
Será isso? Tem algum receio de me magoar? Parece-me que sim. Da mesma forma que você consegue se fazer tão presente quando está perto de mim, eu noto o quanto tenta evitar maior aproximação. Cheguei a ficar um pouco triste, imaginando que você não me quisesse por perto.
Contudo, vi logo que não era nada disso. Você gosta da minha companhia. Se tanto quanto eu venho gostando da sua, não sei. Não tenho como dizer. Porém, eu tenho certeza de que você não é indiferente a mim.
Eu nunca, jamais, em sã consciência, pensaria em ter algo com você. Se amor fosse algo racional e pudéssemos escolher por quem nos apaixonar, eu não escolheria você. E o motivo é simples: você é uma pessoa boa demais para mim.
Você é tudo o que eu não deveria almejar. Você merece o melhor e acredito que sabe disso. Você está fora do meu alcance. Ou deveria estar. Você sabe que merece o melhor, então por quê? Por que se fazer tão presente para mim? Presente e ausente... você parece querer e também não querer...
Você se preocupa comigo, eu sei. Mas eu não quero isso.
Não quero sua preocupação, sua compaixão.
Quero mais, bem mais.
Não quero me privar de algo tão incrível, tão diferente de tudo o que já tive a oportunidade de conhecer apenas porque você sente que eu não devo, que posso me machucar.
Eu quero me machucar.
Quero me ferir, quero sofrer, se isso fizer parte do pacote. Se amar traz consigo sentimentos que não só alentam, como também magoam, estou preparado! Eu nunca tive medo da dor.
Portanto, preciso que me deixe tentar. Que me deixe aventurar-me por águas tão desconhecidas. Que me deixe cair, para que eu aprenda a levantar e descobrir como lidar com tudo isso. Eu quero que me deixe enlouquecer por você.
Deixe-me queimar por inteiro nesse sentimento.
Não se preocupe tanto.
Eu sou a ave fênix, lembra? Eu regresso das minhas próprias cinzas.
E, dessa vez, se isso acontecer... se eu morrer de amores e retornar...
É porque terei aprendido a voar.
Perceba que tenho muito a lhe dizer...
E hoje eu pude dizer. Pude dar voz a essas palavras. E você me ouviu.
Foi apenas uma música.
E eu acho que pode ter sido o bastante.
Não trocamos nenhuma palavra depois disso. Você foi embora antes de mim. Sequer me esperou para conversarmos. Entretanto, sei que você manterá segredo e não contará aos outros sobre essa minha outra vida.
Será um segredo entre nós.
Ah, estou sentindo o cansaço me abater agora.
Nem mesmo o meu café será capaz de me fazer resistir muito.
Nem deve. Vai ser bom dormir.
Dormir e talvez sonhar...
Preciso ser muito grato a você. Eu não sonhava antes... não havia por quê.
Tudo está diferente agora.
Vou deixar a letra dessa canção aqui. Ficará registrado. E, então, quem sabe...
Talvez, um dia, eu mostre tudo o que escrevi aqui para você:
I was wrong, I was wrong
(Eu estava errado, eu estava errado)
Thinking my heart could be my own
(Ao pensar que meu coração poderia ser só meu)
I was strong, I was strong
(Eu era forte, eu era forte)
When I had a reason to hold on
(Quando eu tinha uma razão a que me segurar)
Let me fall, let me fall for you
(Deixe-me cair, deixe-me cair por você)
Let me fall for you
(Deixe-me cair por você)
Don't look down, don't look down
(Não olhe para baixo, não olhe para baixo)
By now it's too late to take it slow
(A essa altura já é tarde demais para ir devagar)
Turn around, turn around
(Volte-se, volte-se)
And give me a reason to let go
(E me dê uma razão para deixar partir)
Let me fall, let me fall for you
(Deixe-me cair, deixe-me cair por você)
Let me fall for you
(Deixe-me cair por você)
It's almost over
(Está quase acabado)
I'm hanging by a thread
(Eu estou por um fio)
With all the words you never said
(Com todas as palavras que você nunca disse)
I'm going under
(Eu estou indo mais fundo)
So tell me what to do
(Então me diga o que fazer)
I've got nothing to hold on to
(Eu não tenho nada a que me segurar)
Let me fall for you
(Deixe-me cair por você)
All the time, all the time
(Todo o tempo, todo o tempo)
You were the one that guide me through
(Você foi a única pessoa a me guiar)
Like a sign, like a sign
(Como um sinal, como um sinal)
You were the voice that knew the truth
(Você era a voz que conhecia a verdade)
Let me fall, let me fall for you
(Deixe-me cair, deixe-me cair por você)
Let me fall for you
(Deixe-me cair por você)
It's almost over
(Está quase acabado)
I'm hanging by a thread
(Eu estou por um fio)
With all the words you never said
(Com todas as palavras que você nunca disse)
I'm going under, so tell me what to do
(Eu estou indo fundo, então me diga o que fazer)
I've got nothing to hold on to
(Não tenho nada a que me segurar)
Let me fall for you
(Deixe-me cair por você)
Let me fall like a stone in the water
(Deixe-me cair como uma pedra na água)
Let me fall like a plain out of the sky
(Deixe-me cair como um avião do céu)
Let me crash, let me burn my heart out
(Deixe-me destruir, deixe-me queimar meu coração por inteiro)
Let me learn to fly
(Deixe-me aprender a voar)
