Capítulo 4 - Traduzido por Kary
Kate ergueu a pá num ritmo firme, colhendo a grande quantidade de estrume de cavalo e pasto, deixando o material cair dentro da lixeira, que ficava no lado de fora do curral. Parecia que esse trabalho já não era feito há algum tempo, e ela queria completá-lo ao máximo que ela pudesse no curto período de tempo em que eles ficariam ali. O casal de velhinhos obviamente precisava de ajuda para cuidar do local, mas eles eram provavelmente muitos teimosos para admitir isso.
Ao guiar os dois dentro do estábulo, Cecil tinha explicado que aqueles cavalos de corrida estavam aposentados, no entanto, eles não eram do tipo que ganhou muitos prêmios mesmo. Kate via agora o porquê de liderá-los um a um no pasto. Eles estavam acima do peso, muito bem alimentados, mimados e obviamente muito felizes. Todos, exceto um, que estava num curral separado dos outros, o qual Cecil avisou que eles não deviam se perturbar com isso.
"Esse ai é um pouco solitário." Ele tinha explicado, antes de deixá-los. "Apenas dêem espaço a ele."
O exercício físico foi um alivio para Kate – foi maravilhoso poder esticar seus músculos enferrujados e ela fez mais esforço que o necessário ao erguer a pá. Aquele dia estava quente, o que era incomum no começo de novembro, a luz do sol do fim da tarde adentrava o estábulo através das portas duplas semi-abertas, partículas de poeira flutuando naqueles raios de sol. Aquela cena era relaxante e quase calmante de alguma maneira. Aquilo a lembrava dos tempos felizes.
Havia apenas uma coisa, no entanto, que impedia aquilo de ser inteiramente calmante. E aquilo seria uma distração causada pela presença de Sawyer. Ela tinha esquecido o quanto ela gostava de assisti-lo trabalhar. Ele estava tão distraído num curral abaixo do dela, e toda vez que ele se virava, ela deixava seus olhos passearem sobre ele. Ele estava usando uma camiseta agora e quando ele se curvou para usar a pá, ela pode ver seus músculos se movendo sob o tecido. Quando ele se virou novamente, ela rapidamente olhou para a sua própria pá. Então ela lançou outro olhar enquanto ele voltava a trabalhar.
Ela pensou que estava sendo segura e discreta ao dar esses olhares roubados em Sawyer. Mas aparentemente não estava sendo suficientemente discreta. A pergunta dele surgiu do nada, captando o olhar atento dela.
"Você quer que eu tire minha camiseta, Sardenta?"
"O quê?" Ela parecia confusa.
"Eu achei que isso a ajudaria um pouco... Você não teria que forçar tanto a sua visão raio-X e então você poderia terminar seu trabalho." Então ele se voltou para ela com um sorriso que dizia que ele sabia dos olhares dela.
Ela considerou a possibilidade de manter-se séria, mas um sorriso escapou dos lábios dela, sem sobreaviso. Ela olhou para o chão novamente e então ergueu seus olhos novamente a ele, a expressão dela admitia que ele havia a apanhado. "Obrigada pela oferta, mas eu estou bem."
Ele sorriu como se não acreditasse nas palavras dela e voltou a trabalhar. Ela fez o mesmo.
Depois de uns instantes ela continuou, com um tom de consideração na voz: "No entanto se você sente que precisa tirar a camiseta... Eu não tentaria impedi-lo. "
"Ahh! A verdade apareceu. " Ele disse, inclinando o corpo contra um lado do estábulo e a olhando com um sorriso no canto dos lábios que expressava a conquista dele. "Que tal isso... " Ele disse. "Eu tiro a minha se você tirar a sua. "
"Você quer que eu ajunte esterco, fazendo topless? Eu acho que seria difícil de explicar isso para um fazendeiro de 75 anos, não acha? "
"Que inferno, eu aposto que ele nem ligaria. Provavelmente seria a melhor coisa que ele viu nos últimos 20 anos. "
Kate riu. Ela estava feliz por ver que o humor de Sawyer estava melhor do que mais cedo. Ela sabia que ele não estava completamente louco pela idéia de fazer isso, mas ao menos estava tentando dar o melhor de si.
"Que tal a gente deixar o topless pra depois e terminar isso?"
"Você é a chefe." Sawyer concedeu, com um tom exagerado de cansaço.
Eles continuaram trabalhando lado a lado até que ficaram em estábulos vizinhos, com apenas uma divisória de madeira os separando.
Ela percebeu que a respiração dele estava pesada e havia uma piscina de suor no colarinho da camiseta dele.
"Hum." Ela disse como se algo a tivesse surpreendido.
"O quê?" Ele a olhou com curiosidade.
"Se eu não conhecesse melhor você, eu diria que você está fora de forma."
Ele a fitou, incrédulo. "Fora do quê? Que diabos isso deveria significar?"
"Bem..." Ela encolheu os ombros. Isso era divertido. "É natural. Quer dizer, depois de ficar engaiolado naquela casa por tanto tempo e dirigir por horas seguidas. Bem, isso não lhe deu a oportunidade de malhar nos últimos meses que passaram."
"Malhar?" Ele repetiu, com desdém. "Sem ofensas, mas eu realmente não sou do tipo que malha."
"Então você está dizendo que isso tudo é natural? " Ela perguntou levantando as sobrancelhas, gesticulando em direção ao peito e aos bíceps dele.
"O que eu posso dizer, Eu acho que fui abençoado."
"Aham, claro. " Ela disse rolando os olhos e sorrindo. Ela não acreditou naquilo nem por um segundo. Ela sabia que ele simplesmente não queria admitir que trabalhou duro para ficar com aquela aparência.
Erguendo a pá novamente, ela derrubou mais um punhado dentro da roda.
Sawyer continuava parado, observando-a enquanto pensava. "Fora de forma," Ele resmungou. "Então ela acha que estou fora de forma." Ele fez uma pausa. "Está bem então. Se estou tão fora de forma eu poderia fazer isso?"
Antes que ela tivesse a chance de olhar para ele, ele alcançou o lado do estábulo e a levantou sobre ele. Tocando os pés dela com um braço, ele a ergueu sobre o ombro dele e a levou para fora da área do estábulo. O chão rangia por culpa dos movimentos aturdidos embaixo dela.
"Sawyer me coloque no chão!" Ela riu aos gritos, apertando os olhos.
"Claro, seria uma pena se eu derrubasse você, afinal eu tenho andado tão fraco nos últimos dias." Ele comunicou a ela. Apertando-a com um movimento firme ele continuou girando-a e ela batia nas costas dele com os punhos, enquanto finalmente fraquejava. "Eu retiro o que disse. Você não está fora de forma! Ponha-me no chão!"
Ele a soltou gentilmente numa pilha de pasto limpo, no lado oposto do celeiro. Levou alguns segundos até que o mundo parasse de girar. Ela finalmente abriu os olhos para vê-lo debruçado sobre ela, com uma expressão preocupada. Ela sorriu enquanto se recuperava. "Nós deveríamos fazer isso com mais freqüência."
Ele sorriu um pouco também e ela o puxou para que ele a beijasse. Deslizando suas mãos sobre as costas dele, ela podia sentir a sólida, enrijecida evidência do quanto em forma ele ainda estava. Ás vezes era legal estar errada.
De repente, algo pontiagudo quebrou sobre suas cabeças fazendo com que ambos se sacudissem aterrorizados.
"Jesus!" Sawyer murmurou, saltando para trás e puxando Kate consigo.
Eles olharam para cima e avistaram os olhos negros e furiosos de um cavalo fitando-s sobre a grade de madeira. Aparentemente eles estavam reclinados contra o curral do "solitário" sem saber. Enquanto eles estavam trabalhando, ele estava mal-humorado, mas distante, quieto no canto dele. Mas eles o perturbaram. Agora ele relinchava de novo, batendo-se contra a parte frontal do curral como se estivesse alertando-os para se afastarem. Ele respirava de uma maneira pesada e feroz.
Com uma lentidão deliberada, Kate ficou em pé, escovando suas calças. Ela se moveu em direção ao cavalo com fascinação enquanto ele bufava novamente e se balançava nos seus calcanhares. Num estalo, ela alcançou e tocou a tira dos arreios. Ele começou a esbravejar novamente, mas ela segurou a cela com firmeza.
Sawyer olhou para ela como se ela tivesse perdido a cabeça. "Que diabos você pensa que está fazendo? Ele mandou não mexer com esse ai!"
"Está tudo bem." Ela murmurou suavemente, mas não como se ela estivesse falando com ele. O cavalo parecia confuso e ergueu as patas uma a uma, num movimento nervoso. Ele movimentou calmamente a garganta e mostrou os dentes, movendo seus olhos em volta. Sem aviso prévio Kate soprou uma onda de ar de sua boca diretamente nas narinas do cavalo. Ele parecia espantado a principio mas então ele bufou bem alto e imediatamente se acalmou e abaixou a cabeça em direção a ela. Ela esfregou o nariz dele e olhou em seus olhos como se eles compartilhassem algum segredo.
"Quando você aprendeu a fazer isso?" Sawyer perguntou, parecendo perturbado.
Ela se virou para ele. "Eu não aprendi." Ela disse depois de alguns instantes. "Eu não sei nada sobre cavalos."
Ótimo. Algum dia ela pararia de surpreendê-lo dessa maneira? Ele se aproximou cuidadosamente e o cavalo se conduziu para perto de Kate, como se não estivesse com disposição para fazer novos amigos hoje.
"Há algo que você não saiba como domesticar?" Ele pensou alto, assistindo a maneira como o cavalo se dirigia a ela.
Ela sorriu como se achasse a pergunta engraçada. "Bem," Ela disse. "Ainda estou trabalhando em você."
"Querida, você me carregou para o estábulo de uns desconhecidos num domingo a tarde para limpar merda de cavalo de graça. Eu diria que o seu trabalho já está praticamente feito."
Rindo, ela estava se preparando para dizer algo mais quando repentinamente ela parou, olhando atrás dele como uma expressão preocupada. O cavalo apontou as orelhas e olhou também, então deu uma patada no chão nervosamente.
O que ela viu a principio a confundiu, porque por um rasgão de segundo ela pensou estar se olhando no espelho novamente, da mesma maneira que ela havia feito noite passada, quando usava a peruca. Mas o reflexo usava roupas diferentes – uma blusa rosa, apertada, jeans e botas com bordas de pele rosa. Ela também era mais pálida, mais alta e muito mais curvilínea que Kate. Sem mencionar que era pelo menos dez anos mais nova. Olhando de maneira mais apurada, apenas o cabelo era o mesmo –longo, enrolado e vermelho escuro. Ela parecia horrível com aquela roupa rosa, mas isso não parecia incomodá-la. Ela fitou fortemente Kate e Sawyer.
"Oi." Kate disse com incerteza. A quanto tempo aquela garota estava ali?
"Hey." Ela respondeu com uma voz rabugenta. Ela parecia dimensionar Kate no nível de uma rival em potencial e inimiga, daquela maneira rápida e resoluta que as adolescentes tem. Seus olhos se demoraram fitando Sawyer, mas ela não parecia ser tão namoradeira quanto calculista e esperta. Ao mesmo tempo, ela parecia assustada, ela havia se encostado a um canto e precisava achar um jeito de sair dessa. Kate conhecia aquele olhar, bem demais até. Ela não poderia ter mais que dezessete. Ela pensou.
"Esse costumava ser o meu cavalo." A garota disse abruptamente. A voz dela era sufocada e rouca, muito rouca para uma adolescente. Ela provavelmente fumava.
"Oh?" Kate disse, incerta sobre como reagir.
"No entanto nós tivemos que vendê-lo." Ela disse. Os olhos dela estavam cheios de raiva.
"Sinto muito." Kate disse.
"De onde você veio?" Sawyer perguntou a ela, com um tom aborrecido na voz. Kate sabia que ele estava preocupado com o fato de serem reconhecidos.
"Eu vivo na estrada." A garota disse. Ela enroscou uma mecha de cabelos e levou aos lábios, mascando-os, e evitando o olhar deles. "Cecil deu uma cerveja ao meu padrasto. Ele empurrou seu caminhão até o jardim."
"Oh, obrigada." Kate disse.
A garota deu de ombros e disse "Eu não ajudei."
Kate teve que sorrir um pouco devido a honestidade dela.
Logo em seguida, Joanne, esposa de Cecil, que eles tinham conhecido mais cedo, apareceu adentrando as grandes portas duplas, olhando em volta como se procurasse algo. Ela se deu conta da garota.
"Ai está você, Casey. Como você some assim?"
A garota deu de ombros de novo, num gesto defensivo.
"Bem, eu deveria lhe dizer que seu pai está pronto para ir."
"Ele é meu padrasto." Casey disse ferozmente, seus olhos faiscavam de fúria.
"Foi o que eu quis dizer." Joanne disse, com uma voz suave, como se já tivesse tido essa conversa antes. Ela tentou guiar Casey até a saída, mas Casey se virou e olhou para Sawyer e Kate de uma maneira acusadora.
"Tchau." Kate disse à ela.
"Vejo vocês por ai." Ela disse depois de uma longa pausa.
"Espero que não." Sawyer murmurou baixinho quando ela já tinha saído.
Joanne voltou logo, para avisá-los que a ceia estava na mesa e então eles a seguiram. Essa era a primeira vez que eles tinham estado numa casa de fazenda legitima e Kate fez uma parada na cozinha. A idade dela e o estilo a fazia lembrar estrondosamente da cozinha de Sawyer e por um segundo, ela não pode conter a bizarra, dor apunhalada que bateu sobre ela ao perceber isso. Mas então ela entendeu do que aquilo se tratava. Saudades de casa. Um sentimento que ela sentia tão raramente, que ela nem reconhecia a principio. Tentando não persistir nesse sentimento ela foi lavar as mãos.
Joanne foi gritar com Cecil da porta. "Saia de perto dessa merda de caminhão e entre aqui para comer! Você quer pegar um resfriado?"
Eles o ouviram resmungando algo nada agradável, mas ele apareceu logo em seguida. Ele se sentou e juntou-se a eles.
"Seu irmão não cuidou muito bem daquela coisa." Ele disse a eles com pesar, apontando o polegar para a janela e mostrando o caminhão. "Mas eu vou tentar melhorá-lo um pouco enquanto vocês estão presos aqui."
Sawyer olhou aborrecido e Kate podia vê-lo lutando muito contra a urgência em dizer algo indecente. Ela esperou com a respiração pausada mas ficou aliviada quando ele disse um simples "Obrigado".
A refeição parecia ter saído dos anos 50: carne assada, batatas, cenouras cozidas e grossas fatias de pão caseiro com manteiga. Kate deliberadamente abandonou sua dieta vegetariana, isso sem contar que ela era educada e tinha um apetite genuíno. Ambos, ela e Sawyer encheram os pratos, apreciando a refeição.
Joanne deu uma palmada no punho do marido quando ele tentou alcançar outro bife de carne. Ele lamentou, mas retrocedeu.
"Então…" Ela começou a conversar olhando para Kate e Sawyer, os quais ela conhecia por Jack e Carrie. – Eu suponho que vocês são recém-casados?
Kate terminou de mastigar, tentando pensar no que deveria dizer. Eles deveriam ser cuidadosos sobre coisas como essa, não deveriam? Sawyer olhou para ela, incerto.
"O que a fez dizer isso?" Ela perguntou.
Joanne se inclinou e delicadamente pegou um pedaço de pasto que havia no cabelo de Kate, segurando-o e mostrando a ela com uma expressão sagaz.
"Oh." Kate disse, sentindo sua face se avermelhar. "Nós só estávamos..." Ela parou por um momento, em seguida continuou num tom menos embaraçado. "Você tem razão, nós somos recém-casados. Casamos-nos no mês passado, a propósito."
Joanne estava satisfeita por ter adivinhado corretamente. Mas então ela pareceu confusa ao olhar para as mãos deles.
"Mas, vocês não tem alianças?"
O cérebro de Kate trabalhou rápido. "Nós ainda não as recuperamos." Ela disse, parecendo impaciente e chateada. "Acredite ou não o fabricante as estragou duas vezes. A primeira vez eles erraram o tamanho e na segunda vez nem era o desenho certo."
"Nossa isso é terrível." Joanne disse num tom simpático.
"Eu sei." Kate concordou. "Pois é, isso que dá tentar comprar por catálogo. Nós deveríamos ter previsto." Ela olhou para Sawyer com sarcasmo.
Ele sentiu que ela queria algo dele. "Catálogo foi idéia sua." Ele jogou.
"Bem, sim, mas só porque eu sabia que seria mais barato e você não parecia inclinado a pagar por algo legal de alguma loja de jóias convencional."
"Minha nossa..." Joanne disse suavemente.
Sawyer encarou Kate com firmeza. Ela mordeu o lábio com indiferença e ele teve certeza que ela estava se divertindo com isso. Ela levou um copo de água aos lábios.
"Você e Jack tiveram um belo casamento?" Joanne perguntou.
Kate tossiu e um pouco da água foi no seu nariz. Sawyer pegou um pedaço de carne assada, olhando para ela de maneira vingativa.
Cecil olhou preocupado enquanto Kate continuava a tossir. "Você quer que eu bata nas suas costas, querida?"
"Está tudo bem." Ela sussurrou com os olhos lacrimejando. Ela esperou alguns segundos até recuperar o fôlego novamente. "Nós tivemos um casamento muito lindo." Ela disse a Joanne, mas fitando Sawyer.
Depois de pensar alguns instantes, ela continuou. "Ambas as famílias estavam lá... Todo mundo trabalhou para fazê-lo acontecer. Minha irmã foi minha madrinha e as irmãs dele foram minhas damas de honra. O irmão dele foi o padrinho... Nós tivemos também a sobrinha dele como a menininha das flores. Nós tínhamos tantos convidados que tivemos que usar a igreja presbiteriana porque é maior. Mas nós nem somos presbiterianos."
Sawyer parou de comer e a ouviu.
"Meus pais pensaram que chegariam atrasados porque o carro deles quebrou, mas eles chegaram com bastante antecedência. Minha mãe chorou tanto que ficou com marcas gigantes de rímel no rosto todo. E a mãe dele também. Nossas mães ficaram cansadas, de tanto que choraram." Kate sorriu com suavidade. "Meu pai me levou ao altar e por um momento pensei que ele não iria se sentar. Minha mãe deve que puxá-lo de volta ao banco. Lembra?" Ela disse a Sawyer.
"Sim." Ele disse de maneira silenciosa, observando-a fascinado. Joanne e Cecil ficaram em silêncio.
"Então na recepção, o pai dele fez um brinde... E eu gostaria de ter filmado aquilo porque eu sei que nunca iremos lembrar. Mas foi tão engraçado e bonito. Mesmo que nós estivéssemos bebendo muito," Kate acrescentou. "E nós tivemos nossa primeira dança... Nós ensaiamos por meses, mas ele ainda assim, estragava uns passos. Mas no fundo isso não importava... Eu não acho que mais alguém tenha notado. E todo mundo começou a dançar também, todos os primos, tios e tias e todo mundo. E quando nós saímos, os amigos de faculdade dele grudaram camisinhas em todo o carro e essa foi nossa plaquinha 'Recém-casados'. Você disse a eles que podiam fazer isso no carro?" Ela de repente perguntou a Sawyer como se tivesse pensado naquilo a recém.
Ele engoliu com dificuldade, olhando somente para ela, como se não houvesse mais ninguém na sala. "Foi idéia deles." Ele sussurrou. Ele estava entusiasmado ouvindo-a desenrolar a história. Ela falava com tanta convicção, que parecia que realmente tinha acontecido. Ele estava quase tentado a acreditar nisso. Mas havia algo na voz e nos olhos dela enquanto falava que partiu o coração dele.
"Então todo mundo nos seguiu em seus carros, rosnando até que nós finalmente chegamos perto do aeroporto," Ela seguiu em frente. "E nós seguimos para nossa lua-de-mel nas Bahamas. Era uma ilha quase completamente deserta. Eu digo realmente deserta. Era tão bonita. E nós tivemos que ficar por um tempo muito longo também." Ela olhou para Sawyer com um ar conspirador. "E quando nós voltamos, nossos pais tinham arrumado nossa casa para nós... Nós não sabíamos que eles iam fazer isso. Toda a mobília era nova e os aparelhos, tudo. Foi uma surpresa total."
Joanne finalmente suspirou como se estivesse saindo de um transe. "Nossa, isso soa maravilhoso!"
"E realmente foi." Kate concordou. "Quer dizer, se alguém fosse imaginar o próprio casamento, era exatamente esse o tipo que ia desejar." Ela deu um sorriso curto e significativo para Sawyer.
Cecil parecia entediado. "Parece que esse casório custou uma fortuna." Ele acrescentou. Parecia estar se direcionando a Sawyer, homem para homem.
"Pois é…" Ele concordou de maneira áspera. Então olhou para Kate novamente. "Mas valeu a pena, ao menos."
"Claro que valeu." Joanne disse, dando a Cecil um olhar ameaçador. "Afinal, você 'só se casa uma vez na vida. Se você der sorte, é claro."
Kate sorriu com tristeza e olhou para seu prato.
A comida de Sawyer estava fria quando ele finalmente lembrou que deveria continuar a comer.
Kate ajudou Joanne a lavar os pratos depois que terminaram a refeição, enquanto Cecil levava um Sawyer irritado a um tour por seu caminhão, que ele acreditava ter sido recentemente adquirido do irmão dele. Sawyer apenas fingia estar interessado, mas verdade seja dita: ele aprendeu várias coisas que não tinha idéia antes.
Quando escureceu, eles entraram e Joanne convidou Sawyer e Kate para participarem do jogo de cartas noturno deles. Eles se mostravam exautos e estavam prontos para se livrar dessa canseira. Joanne mostrou o quarto que ficava no fim do corredor do andar de coma e apontou para o banheiro, deixando-os a sós. Eles a escutaram chamar o marido enquanto descia os degraus. "Não tente me trapacear enquanto estou aqui em cima, seu velho folgado. Você sabe como eu jogo aos domingos!"
Kate e Sawyer pararam na soleira da porta, olhando para o quarto com expressões engraçadas.
"Eu durmo na beliche de cima." Kate disse finalmente, segurando o riso.
"Que diabos ela estava pensando?" Sawyer resmungou contemplando as camas.
"Provavelmente é o único quarto disponível que eles têm." Kate se moveu e fechou a porta com delicadeza. "Está bom, por uma noite. Nós tivemos sorte por eles nos deixarem ficar aqui, pra começar. Quero dizer, somos completos estranhos. Eles devem ser as pessoas mais confiantes no planeta!"
"Bem, sim." Sawyer disse, esticando-se no beliche. Ele tirou os sapatos, chutando-os. "Por que não confiar no 'Senhor e Senhora Recém-casados'? Com o seu casamento presbiteriano e a lua-de-mel nas Bahamas?" Ele parecia um anúncio de rádio sulista.
Ela sorriu para ele com um ar manhoso. "Aquilo foi muito bom, não foi?"
"Como diabos você tirou tudo aquilo da cabeça?"
"Eu não sei." Ela disse pensativa. "É como se já estivesse lá de alguma maneira e eu só tornei real."
"Acontece que não estava." Ele disse com calma.
"Não." Ela concordou. "Não estava." Eles não disseram nada por um segundo.
"Você acredita que ela pensou que fossemos recém-casados?" Kate finalmente perguntou incrédula, sentando na beira da cama. Sawyer sorriu um pouco e pensou por um instante.
"Bem, talvez nós provamos que ela estava certa."
"É." Kate disse rindo e com o olhar distante.
Não houve resposta. Ela se virou novamente a Sawyer com um olhar de zombaria. Ele ainda a olhava sem rir.
"Você estava brincando, certo?"
Ele parecia distante, magoado de alguma maneira. "Sim. Claro que foi brincadeira."
Mas o coração dela estava desamparado. Porque ela repentinamente percebeu que não era brincadeira, não completamente.
"Sawyer..." Ela disse lentamente e com cuidado. "Você sabe que isso é insano." Ela o encarou como se ele tivesse se transformado em outra pessoa, alguma pessoa doida que ela não conhecia.
"O que tem de tão insano nisso? "
"Bem, primeiro..." Ela pausou. "Primeiro, nem poderíamos usar nossos nomes verdadeiros. Eles poderiam nos rastrear através da certidão de casamento. Nós teríamos que usar nomes falsos...Não seria real."
"Seria real o suficiente para mim." Ele disse amargamente.
Kate sentiu como se algo dentro dela tivesse começado a quebrar em mil pedaços. Isso não podia estar acontecendo. Ele não queria dizer realmente isso, queria? Por que diabos ele estava fazendo isso?
"Eu não entendo." Ela disse. "De onde isso surgiu? Foi por causa do que eu disse lá embaixo? Porque era para ser apenas uma piada... Eu queria que fosse engraçado."
"O inferno, que foi engraçado." Ele esbravejou. "Você acha que não conheço você bem o suficiente para ver através disso?"
Ela olhou para as mãos dela.
"Não foi engraçado e você sabe disso."
Ela ficou quieta por um minuto, pensando. "Seu estilo de pedido de casamento poderia usar de mais trabalho, sabia?" Ela estava tentando acalmar as coisas, para levar a conversa a um nível familiarizado a ambos, mas não estava funcionando. Ele não respondeu.
Kate sentiu uma onda de pânico crescendo dentro dela e ela agarrou o único argumento que conseguiu pensar por mais que soasse absurdo, mesmo para os ouvidos dela. "Não faria diferença alguma, faria? Já estamos juntos cada segundo do dia, praticamente. Como aquilo mudaria algo?" Ele se distanciou dela e balançou a cabeça com um sorriso de desprezo como se a pergunta dela fosse ridícula demais para ele se dar ao trabalho de responder.
Ao invés disso, ele levantou e começou a calçar os sapatos de novo.
"Nós nem nos conhecemos há muito tempo." Ela tentou de novo. Dessa vez ela ganhou atenção. Ele olhou para ela como se não acreditasse naquilo e ela percebeu que disse da maneira errada. Eles se encararam, ambos sabendo o quanto estúpida foi aquela observação. Porque ambos sabiam que quantidade de tempo não significava nada. Nenhum dos dois tinha conhecido alguém antes de uma maneira tão intima, tão completa e sem limites. Ela finalmente quebrou o olhar fixo, virando a cabeça com arrependimento.
Sawyer voltou a amarrar os sapatos.
"Sawyer…" Ela disse cheia de lágrimas nos olhos, sentindo a necessidade de reparar aquele último comentário. "Eu já fiz esse negócio de casamento antes. Você sabe como terminou. Eu apenas…" Ela parou. "Eu não sei se consigo fazer novamente. E você" Ela hesitou, incerta.
"O que tem eu?"
"Eu quis dizer que… Você não parece ser... Do tipo que se casa."
Ela tentou falar com cuidado, mas deu tudo errado. Ela não queria que aquilo soasse daquela maneira. Mas era verdade, não era? Ela de Sawyer que ela estava falando.
Ele terminou de amarrar os sapatos e levantou, encarando-a. Os olhos dele se demoraram tristemente no estômago dela, coisa que ela tentou ignorar. Ele encontrou os olhos dela.
"De que diabos, você tem tanto medo?" Ele perguntou com a voz rouca.
Ela não sabia o que responder. "Eu não tenho medo de nada." Ela disse na defensiva, como se conseguisse convencer pelo menos a si mesma.
Ele sorriu com amargura e ficou distante novamente. "É. Bem, não se preocupe com isso,docinho. No fim de tudo, eu estava só brincando, certo? Talvez você devesse parar de levar tudo que eu digo tão a sério." Ele fez uma pausa. "Além do mais, você está certa. Eu definitivamente não sou do tipo que se casa." A voz dele mostrava que ele estava ferido, não importa o quão duro ele quisesse parecer e ela engoliu em seco tentando impedir as lágrimas que estavam por vir.
"Eu sinto muito." Ela sussurrou.
Ele pegou um pacote de cigarros da primeira seção de uma das sacolas de pano e parou virando a cabeça em direção a porta.
"Onde você está indo?"
"Vou dar uma saída, pegar um ar. Como você mesma disse, estamos juntos a cada segundo do dia. Provavelmente precisamos de um tempo para respirar um pouco, não acha?" Ele parecia sarcástico agora, mas ela se recusava a morder a isca. Ela estava tão magoada quanto ele.
Ela engoliu sem olhá-lo e disse "Ok."
Ele não saiu em seguida e ela sabia que ele ainda estava admirando-a. Ela finalmente levantou a cabeça. A respiração ficou presa na garganta, olhando para ele. Eles ainda poderiam retirar tudo aquilo que acabaram de dizer, eles poderiam ainda faze aquilo de novo e dizer as palavras certas dessa vez, palavras normais, as palavras que as pessoas apaixonadas deveriam usar numa ocasião dessas...
Ainda havia tempo, se apenas algum deles fosse corajoso o suficiente para agarrar o momento e forçar a saída disso.
Mas nenhum deles era.
"Não me espere acordada. " Sawyer disse fechando suavemente a porta. Kate se sentou lá sem se mover e então delicadamente se inclinou no beliche.
No silêncio que se seguiu, ela podia ouvir Cecil e Joanne jogando cartas abaixo dela, na cozinha.
"Nem tente!" Joanne disse com ultraje. "Eu sei que você tem um Ás ali... Você acha que não te conheço bem o suficiente nesses 50 anos?"
Então Cecil riu de uma maneira gostosa e natural.
"Eu tinha que tentar, não acha?"
Kate apertou os olhos e deitou a cabeça sobre o travesseiro.
