Se soubesse que a recepção seria tão fervorosa, teria ido para Londres há muito tempo atrás.
O primeiro a vir abraçá-la na estação King Cross foi um dos donos da Gemialidade Weasley, Jorge Weasley.
- Mas é um imenso prazer ter a lendária Miss Dantê aqui! - apertando suas mãos com muita vontade e sorrindo de orelha à orelha, os cabelos ruivos de Jorge estavam bagunçados pela pressa de sairem dali. - Os negócios não esperam! Meu irmão ficou na Loja para orientar as novas aquisições, temos alguns fogos filibusteiros de última geração e bombinhas anti-gravidade que são uma beleza! - Uma jovem de cabelos curtos e rebeldes, totalmente vestida de preto chegou perto deles, Jorge cerrou o cenho. - Ah, não Black! Nada de pegar a minha melhor fornecedora!
- Desculpe-me a demora... Srta. O'Breanan, sou Prisma Black, represento a Dervixes e Bangues de Sonja Korwin aqui em Londres. - Jorge imitava a cordialidade da jovem de 21 anos com a boca. Ela simplesmente socou o estômago dele e sorriu polidamente para Annie. - Vamos... Um carro espera por nós... - Jorge se recuperou do soco e correu atrás delas.
- Você não pode fazer isso! Ela decidiu vir para Londres porque a GENTE convidou! - gritou ele na rua, Prisma olhou para os lados da rua e atravessou junto com Annie que não entendia o que se passava ali. - Você está roubando a NOSSA inventora! - Prisma indicou o banco de trás de um carro luxuoso para Annie entrar e sorriu novamente para ela.
- Se você não se importa... - Annie concordou e Prisma virou-se para Jorge Weasley tentando atravessar a rua desesperado pelo trânsito de carros e praguejando contra os automóveis. - Vai se danar, Weasley, ela assinou contrato comigo. Se quiser algo, fale com o meu advogado... - Annie estranhou o palavrão que a moça havia soltado. O rapaz ruivo fez uma careta para ela e um sinal não muito educado. Annie teve que rir, Prisma entrou e pediu desculpas. - Eles são nossos principais fornecedores em Hogsmeade, mas reclamaram demais quando mudamos para o Beco Diagonal... Não gostam de concorrência, ah sim... - Ela olhou para Annie pela primeira vez. - Desculpe-me novamente... A sua coruja foi para o endereço de Sonja, ela mandou a sua resposta, por isso o atraso.
- Não tem problema... - o sotaque francês de Annie chamou atenção de Prisma, ela sorriu.
- Bem, temos muita coisa pela frente não? Primeiro o Ministério...
- Mas já? Não vai querer ver meus...
- Tenho completa confiança em você... - disse ela a encarando, os olhos castanhos eram sagazes, Annie se sentiu um pouco desconfortável ali, realmente Prisma Black era um pouco parecida com a mãe... E muito bonita também, mas Annie preferiu esconder esses pensamentos para si. - Sonjie gosta do seu trabalho, você é muito inteligente para sua idade... - O comentário a fez ficar ruborizada... - É melhor acostumar, aqui na Inglaterra, o seu nome é sinônimo de esperteza e sendo neta de quem você é...
- Meu avô gostaria de saber sobre isso... - disse ela para sua mochila. Prisma sorriu e isso causou um arrepio em sua nuca. Não era medo, era outra coisa.
- Ele já foi avisado e já está em Hogwarts. Foi especialmente convidado para participar do Centenário de Frederic Sonkas. - a notícia deixou Annie boquiaberta.
- Ma-ma-mas meu avô? Co-como assim?!
- Ele passou no Departamento de Regulamentação, Divisão de Espíritos hoje de manhã. Conseguiu um passe livre para 20 anos em Hogwarts. Parece que o professor de Estudos de Trouxas está temporariamente afastado. - Ela teve vontade de gritar bem alto, mas segurou a boca com a mão, era impossível demais para ser verdade, era o sonho de seu avô sendo realizado junto com o dela. Reencostou-se no banco do carro e pensou novamente... Se soubesse, teria vindo para Londres há muito tempo atrás...
O quarto era enorme. Cheio de prateleiras vazias, mas enorme. Poderia colocar os livros que quisesse ali que ainda teria lugar para mais... A cama ficava perto da janela com vista para a parte interna do Beco Diagonal todo, o Banco Gringotes ali do lado, a Gemialidades do outro lado da rua e a sua loja favorita - e agora a loja onde trabalhava - a Dervixes e Bangues abaixo das escadas. Era um sonho, só podia!
Prisma Black deu as instruções, falou do funcionamento do Banco Gringotes e como os duendes eram impassíveis com os pagamentos e os empréstimos, deu uma boa quantia de dinheiro para a garota de 16 anos e despediu-se para ir resolver as pendências com a dona da loja, Sonja Korwin em Hogsmeade, Escócia. Claro que a loja não ficaria aberta, não poderia ainda, apenas na época de movimento maior, que era no começo da Primavera, mas se Annie quisesse, poderia aceitar encomendas. A garota aceitou prontamente, queria trabalhar o mais rápido possível, extravasar todos os anos de repressão em casa, instrumentos, materiais, projetos e algumas encomendas detalhadamente especificadas apenas para ela resolver. Um sonho...
Acordou com uma coruja bicando seus cabelos, cobrando a mensalidade do Pasquim. Ela deu o dinheiro e cobriu-se novamente na enorme cama confortável e quentinha do seu quarto no 3° andar da Dervixes e Bangüês, sua casa agora. Fazia 2 meses que estava em Londres, conseguira uma permissão temporária assinada pelo seu avô - que era reconhecido como autoridade máxima em estudos avançados do mundo dos trouxas e ocupava uma cadeira na Liga Extraordinária de Inventores Bruxos - para transitar em Londres sem ter problema algum por ser menor de idade ainda. As cartas de sua mãe não foram muito carinhosas, na verdade a entristeciam, pois a mãe não entendia o que ela estava passando, seu pai era o silêncio e Gabrielle Delacour nada mandou e pouco esperava que mandasse algo. Pegou o Pasquim e folheou, apenas se ligou no detalhe de que seu Jornal favorito era produzido ali mesmo em algum lugar de Londres depois de terminar de ler a coluna de Candice Cleomancy sobre a falta de ética no jornalismo atual. Annabelle já sabia disso, já fora abordada por uma tal de Rita Skeeter por duas vezes naquela semana, a repórter sempre convidava ela para uma xícara de chá e uma entrevista sobre ser a mente jovem mais brilhante do Ocidente, claro que a pena de auto-repetição de Rita Skeeter era venenosa com as palavras e uma nota do Semanário das Bruxas sobre "A excentricidade de Anna Bela Dantie com os costumes ingleses" mostraram o quanto a repórter era capaz. Claro que cuidou disso direitinho no dia seguinte a reportagem e conversou por algumas horas com a srta. Skeeter.
- Só faço o meu trabalho com carinho para meus leitores.
- Bem, no dia em que você escrever para o Pasquim te dou a maior entrevista da sua vida.
- Não escrevo para aquele lixo.
- Mas foi obrigada a escrever na íntegra a entrevista que deu à Harry Potter em 1996...
- Você já lia o Pasquim naquela época...? - a repórter mesquinha ficou atônita.
- Eu aprendi a ler com o Pasquim... - deu um sorrisinho sarcástico e foi para a porta de entrada da Revista. - Vamos fazer o seguinte... Se você me prometer que não irá me incomodar nos próximos 2 meses, eu prometo te dar a entrevista.
- E eu poderia contar com a presença do seu querido pai? – Annie queria se livrar daquela conversa logo.
- Convido o meu pai para ajudar. - A repórter ficou eufórica, Jeano O'Breanan era o músico irlandês mais adorado das rádios com audiência adulta.
- Okay... - disse Skeeter ajeitando os óculos quadrado no nariz e sorrindo pelo canto dos lábios. - É uma promessa. E promessa para mim é dívida, querida... - dando um tchauzinho para Annabelle.
Cruzou a rua e chegou à Loja Gemialidades Weasley, havia conseguido um trato com os donos e a impaciente Miss Black, trabalharia na Loja dos Weasley durante o tempo parado da Dervixes e Bangues e faria o possível para remeter as encomendas que chegassem para a matriz em Hogsmeade. Seu avô mandou boas novas sobre o telescópio superóptico Dantê, que havia sido batizado de ABD, por serem as iniciais do nome dos dois - AnnaBelle Dante e ABraham Dante - o instrumento astronômico seria usado pela Escola de Magia e Feitiçaria de Hogwarts em teste por um semestre, mas era completamente aprovado pelo o Conselho Astronômico Bruxo e pela professora de Astronomia da Escola. Sonja Korwin pedira para ela ir a Hogsmeade na próxima semana e isso deixou Annabelle um pouco abalada, nunca havia falado com a sua "chefa", e Sonja era conhecida pelo seu temperamento volúvel e seu pai lobisomem, de certa forma, Annabelle temia perder o emprego com essa visita. Seus pensamentos foram interrompidos com a forma etérea de Fleur Delacour saindo do Gringotes...
Ela deu um pulo de susto, pensara ter visto Gabrielle ali na sua frente! A Delacour pouco deu atenção à desajeitada Annie segurando um carrinho de compras cheio de ferramentas e algumas placas de madeira, passou por ela e teve o calafrio de sempre. Fleur Delacour sempre inspirava medo em Annie, pois seu relacionamento com a irmã mais velha de Gabrielle era marcado por brigas intermináveis e olhares ferozes, claro que a veela ganhava no requisito amedrontar, o olhar frio de Fleur fazia Annie se sentir miserável perto dela.
- Oh, hey Annie!!! - gritou a mocinha Erika que atendia na Gemialidades Weasley. - Esqueceu o pacote de bombinhas anti-gravidade! - ela saiu da Loja e entregou o que faltava à Annie, o olhar frio de Fleur pousou nela. Finalmente percebera que ela existia.
- Obrigadão, Erika... - disse Annie tímida, pois Fleur vinha em sua direção. - Bom dia Sra. Weasley... - disse ela mais tímida ainda...
- O que faz aqui? - disse Fleur em francês. Isso incomodou Annie o bastante para seu humor mudar completamente. A voz de Fleur era muito parecida com a de Gabrielle. - Soube que fugiu de casa.
- Não fugi... - disse ela em inglês, se recusava a falar a língua pátria novamente. - Apenas vim trabalhar, acho que isso não é nenhum crime... - Fleur lançou outro olhar mortífero e segurou o braço dela.
- E soube também que minha irmã não foi informada da fuga... - e se aproximando dela. - E se eu souber que Gabrielle sofre por sua causa... - Annie sorriu e olhou para Fleur, não agüentou sustentar o olhar por muito tempo, ela era absurdamente parecida com sua Gabrielle.
- Nunca tive nada com sua irmã para você ter o direito de protegê-la contra a minha pessoa. E se ela sofreu ou sofre por minha ausência, parece não demonstrar...
- Gabrielle não tem um coração gelado como o seu! Ela merece estar com alguém que não a machuque com suas idéiazinhas de fuga para Inglaterra!
- Você quer, por favor, falar o meu idioma?! - pediu Annie com dificuldade de entender certas palavras que Fleur falava tão rapidamente em francês. - Não uso mais o francês, se você não percebeu, nós estamos na Inglaterra e aqui se fala inglês.
- Sei disso! - disse Fleur em inglês, agora soltando o braço de Annie e pronta para ir embora ofendida. - Mas se eu souber...
- Se você souber, eu saberei também, pois a sua querida irmãzinha não me dá notícia alguma durante esses 2 meses que estou aqui, não me mandou carta alguma, não entrou em contato e duvido muito que irá. Já deve ter alguém para me substituir provavelmente... - Fleur ficou ruborizada e o olhar frio se tornou em algo bem pior, Annie se arrependeu por um instante de ter falado aquilo.
- Minha Gabrielle tinha sentimentos por ti. Muitos sentimentos que a machucavam mais quando você se afastava, caso não saiba! Ela me contava tudo o que havia entre vocês duas e me perguntava se era o certo, sabe o que eu respondia? - Antes de Fleur continuar, Annie concordou e falou:
- Claro que sei... Você dizia que era o errado... Porque não sou o bastante para sua irmã, não sou aceita pela sua família e nem pelos seus amigos... Eu não a faria feliz e se eu tivesse um pouco de decência na minha cabeça vazia eu não mais oportunaria sua irmã com minha presença... - Fleur ficou ruborizada, mas de vergonha, era exatamente o que iria falar à Annabelle. - Eu sei muito bem o meu lugar, Fleur, não preciso de mais gente me informando que eu não sou... o que eles querem que eu seja... Tenha um bom dia. Preciso trabalhar... - Annie pegou o carrinho e atravessou a rua para a Dervixes e Bangues, Fleur ficou ali na rua a olhando, não com o olhar predatório, mas com um misto de surpresa e pena.
Annie jogou as coisas na escrivaninha de trabalho e começou a desmontar as ferramentas para uma avaliação, lágrimas escorriam pelo seu rosto, mas ela pouco se importava com elas, chorava pelo o nervoso de estar com alguém tão próxima de Gabrielle... Entendia o porquê de Fleur estar daquele jeito, sabia que as irmãs eram apegadas ao extremo, sabia que por anos Fleur a odiava por ela ser a quebra da conexão por tantos anos, mas não se importava... Ninguém sequer sabia o que ela estava sentindo naquela hora, nem ela mesma...
Ligou o rádio e a voz de seu pai estava soando nos autos-falantes com uma música velha sua, esqueceu das preocupações mundanas e foi se empenhar em consertar o circuito integrado para o espetáculo de Fogos Filibusteiro que teria na próxima semana em Hogwarts para a Festa Centenária de Inventores de Frederic Sonkas.
Querida mãe,
Não precisa me xingar tanto quando manda cartas, nem preciso de berradores no começo do dia para me acordarem, já não basta a saudade que sinto de casa e a sua negação em me aceitar do jeito que estou indo? Bem, pelo menos tenho boas notícias para dar. Vou à Hogwarts no final de semana participar da homenagem que farão para o vovô Dantê na Festa Centenária de Inventores de Frederic Sonkas, ele pediu para dizer que é para você parar de me chatear tanto e vir vê-lo na Festa, mas sabe-se lá o que você irá falar e talvez pensar que eu esteja falando mentiras. O telescópio do vovô funcionou perfeitamente e agora ele está patenteado no meu nome e no dele. Acho que não precisarei trabalhar para o resto da minha vida se as vendas forem boas.
Gostaria de saber o porquê de papai não me escrever, sei que ele é um tanto preguiçoso para isso, mas não custa nada dar uma pena de auto-repetição para ele, não? Devo ter umas trocentas dentro da minha escrivaninha, se é que vocês também não se livraram dos móveis do meu quarto assim como fizeram com o piano... Espero que esteja tudo bem aí, o clima de Londres é maluco, chove muito e esquenta pacas logo após e até agora não vi outra vacas voando realmente.
Queria estar em casa agora, mas acho que você também reclamaria disso.
De sua filha xx Annie xx
Ps: A música do papai é número 1 na rádio dos trouxas e dos bruxos. Acho que isso deixaria vocês felizes. Posso estar errada quanto a isso?
Ps II: Será que dá para tentar explicar para os outros que eu não fugi de casa? Estarei de volta no começo do semestre de Beauxbatons para completar meus estudos. A notícia chegou aqui.
A carta foi lida por seu pai, sua mãe estava ocupada demais enterrada no sofá, chorando muito por receber notícias da filha. Annabelle não mandava muitas cartas. Seus pais brigavam constantemente por razões diferentes, a mãe queria a filha em casa, em Beauxbatons, debaixo de seu teto. O pai queria que a filha fosse feliz, apenas isso. Gabrielle visitou os O'Breanan certa vez, ela caiu em lágrimas por uma das cartas de Annabelle em que a garota dizia que conseguira uma transferência temporária para Hogwarts, estudaria lá durante o dia e trabalharia na Dervixes à noite para as encomendas. O conteúdo era um tanto triste e sem esperanças de volta, Gabrielle chorou por dias seguidos.
