Pois é pessoal, e aqui está mais um capítulo. Agora é que as coisas vão começar a esquentar. Tenho adorado os comentários e a retribuição são sempre novos capítulos. Grandes abraços pessoal!
Capítulo 4
O teste surpresa de Eugeu
Os dias de aula que vieram não foram diferentes dos outros dois que já haviam se passado.
As aulas começaram pra valer e logo já estavam atolados de matéria para estudar e por mais estudiosos que fossem, não estavam acostumados com aquele ritmo intenso.
Com muita coisa acontecendo em tão pouco tempo era realmente necessário que os alunos se apoiassem uns aos outros para se saírem bem e, para quem morava sozinho, a amizade era a base de tudo.
Todos os dias após as aulas, Mu tinha companhia em casa.
Shaka, Aldebaran, Aioria e Saga se reuniam para estudar. Eles formavam um grupo brilhante e equilibrado, pois cada um sabia bem uma matéria. Shaka explicava muito bem os exercícios de Matemática que precisavam fazer, Aioria parecia viajar para os lugares quando explicava História e Geografia, Mu se empolgava muito quando chegava a sua vez de demonstrar o seu conhecimento em biologia, Aldebaran detalhava ao máximo que podia todas as lendas mitológicas e Saga não se contentava nem um pouco quando alguém errava qualquer palavra em grego.
-Poxa Saga! Dá um tempo! Já estamos estudando Grego faz 3 horas!
-Aioria! Eu tenho certeza de que teremos um teste na semana que vem! Precisamos memorizar tudo isso para a prova!
-E como você sabe disso? Você tem um caso com o professor Eugeu?
Saga ia retrucar quando Shaka interveio na briga.
-Querem parar vocês dois? Parecem crianças!
Aldebaran e Mu só observavam a discussão, calados.
-Shaka! – Ofegou Aioria – Diga a ele que hoje ainda é quinta-feira e faltam 3 dias para semana que vem! E ainda por cima o professor Eugeu só da aula pra gente na terça-feira!
-Saga, hoje ainda é quinta-feira e faltam 3 dias para semana que vem além do que o professor Eugeu só da aula pra gente na terça-feira.
-Shaka, diga ao Aioria que o professor Eugeu não vai pegar leve com a nossa turma! Eu sinto que semana que vem ele vai dar um teste e que não vai ser fácil!
-Aioria, o Saga disse que o professor Eugeu não vai pegar com a nossa turma e que ele sente que semana que vem ele vai dar um teste que não será fácil.
-Pois então, diga ao Saga...
-CHEGA! Eu vou embora! Parem com essas discussões idiotas vocês dois! Estão agindo feito o Máscara da Morte e o Kanon!
-Agora você pegou pesado, Shaka! – Aioria olhava para ele muito nervoso.
-Vai me bater, Aioria?
-É o que eu deveria fazer por me comparar com aqueles dois imbecis!
-Hey! Não fale mal do meu irmão!
Na mesma hora, Aioria partiu pra cima de Shaka e como Saga não queria ficar para trás resolveu acertar as contas com Aioria.
-PAREM! – Gritou Aldebaran aflito – Solte o pescoço do Shaka, Aioria!
Na mesma hora, o colega soltou o garoto loiro que tinha as maçãs do rosto vermelhas pela falta de ar.
-Acho melhor nós pararmos por aqui por essa noite. – Disse Mu como se nada tivesse acontecido – Estamos todos muito cansados e temos aula amanhã bem cedo, certo?
Todos concordaram. Aioria pegou sua mochila com raiva e saiu da casa de Mu sem se despedir dos outros. Saga foi mais sociável, pediu desculpas a Mu e a Shaka e seguiu seu caminho. Sobraram então Shaka e Aldebaran.
-Vamos, Shaka, eu te levo pra sua casa. Estou de carro.
-Obrigado pela carona Aldebaran. Mu, me desculpe. Eu só queria controlar a situação...
-Não se sinta culpado, Shaka. – Mu tranqüilizava o amigo – Nós sabemos o quanto o Aioria é esquentado.
E os dois caminharam em direção ao carro de Aldebaran. Mu acenou dando adeus e entrou em casa. Precisava dormir, definitivamente.
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O dia seguinte não foi nada bom. Aioria não olhava para Saga e ignorava totalmente a presença de Shaka na sala de aula, fazendo com que o amigo se sentisse muito mal.
-Será que eu fiz tanto mal assim a ele, Aldebaran?
-Relaxa, Shaka. Além de ser esquentado, o cara é orgulhoso. Logo, logo vocês voltam a se falar. E dessa vez não peça desculpas.
Shaka olhava para o amigo de longe e continuava atacado pelo remorso. Não era a primeira vez que eles discutiam por causa da personalidade de Aioria. Impulsivo e estourado, Aioria sempre acabava falando coisas que não devia a seu grande amigo Shaka, que no final acabava sempre pedindo desculpas. Mu e Aldebaran já estavam cansados de ver Shaka implorando perdão, e sempre o advertiam:
-A culpa não foi sua, Shaka!
"Dessa vez, eu não vou pedir desculpas!" – Disse a si mesmo e resolveu parar de olhar para Aioria.
-Shaka...- E Saga olhava envergonhando para o chão – Eu vim me desculpar por ter agido feito criança ontem à noite.
Shaka sorriu. Gostava de Saga, embora ele se comportasse de vez em quando de maneira estranha.
-Sem problemas, Saga. De verdade. – Reafirmou após o olhar de dúvida que o rapaz de cabelos azuis expressou.
-Maninho! – Kanon chegara juntamente com Mascara da Morte.
-O que você quer? – Saga olhou para o irmão irritado.
-Não precisa ficar bravo comigo Saga... O dia mal começou e já está sendo rude comigo... O que eu te fiz?
- Nasceu! Maldito o dia quando o óvulo fecundado pelo espermatozóide se dividiu em dois na mamãe! – Saga fez uma breve pausa e sem esperar qualquer comentário do irmão se adiantou – Fale o que você quer!
-Bem... Você sabe... O Mascara da Morte e eu... Nós nunca fomos bem... E já estamos com... Média 7, você sabe... Pode nos ajudar?
-Ajudar em quê?
-Ajudar a gente a estudar Grego.
-Eu não sei a matéria.
-Larga mão de ser mentiroso, Saga! Eu sei que você e esse loiro aí e mais aqueles outros três – E apontou para Aldebaran, Mu e Aioria – Estudam juntos sempre! Você poderia ao menos...
-Não! – Interrompeu o irmão bruscamente – Vocês dois são baderneiros! Eles são gente séria!
Saga saiu da frente do irmão e foi se sentar em seu lugar. Kanon ficou emburrado nas duas primeiras aulas.
Na hora do intervalo, Saga estava tão quieto e pensativo que chegou a incomodar Mu.
-Saga, o que há?
Aldebaran e Shaka fitavam-no curiosos. Também esperavam uma resposta. Quando o garoto ficava pensativo, sua face se tornava assombrosa. Entretanto, ele parecia não querer responder a pergunta de Mu. Não na frente dos outros dois. Foi então que Mu percebeu a situação e o chamou para ir até a cantina com ele.
-Nós já voltamos.
Já longe dos dois, Mu se pôs a falar:
-Pronto. Agora pode dizer... Se quiser. – Acrescentou.
Contra a sua vontade e meio receoso, Saga começou a dizer aos poucos:
-Estou meio com a consciência pesada por causa do que ocorreu na aula. Afinal, o Kanon é meu irmão... Eu...
-Saga, posso dar a minha opinião?
-Claro...
-Eu realmente acho seu irmão e o Mascara da Morte, com todo o perdão, bagunceiros.
Saga deu um suspiro muito profundo, mas Mu não deixou de continuar.
-Mas, você pode dar a ele uma chance. Vamos fazer o seguinte, Saga. Convide os dois para ir a minha casa hoje à noite.
-Melhor não, Mu...
-Eu insisto. Eu realmente não entendo o peso que você carrega dentro de si, mas tenho certeza de que isso vai tirar um pouquinho desse peso da sua consciência.
-Os outros... Eles não vão..
-Saga, eu convido quem eu quero, a casa é minha. E eu duvido que eles vão se contrapor a mim. Confie em mim, assim como você confiou agora. Eu falarei com eles. Agora vamos voltar, senão vai ficar feio pra gente.
A conversa com Mu deixou Saga definitivamente mais leve. Depois do intervalo tiveram 3 aulas super cansativas de Filosofia com o professor Sócrates.
Na hora da saída, Mu fez um sinal positivo para o colega e foi saindo.
Kanon e Máscara da Morte já estavam no meio do corredor quando ouviram um grito:
-ESPEREM!
Os dois viraram para trás e viram que quem os chamava era Saga. Deram de ombros e seguiram em frente. Saga saiu correndo atrás do irmão trombando com os outros alunos tanto da sua sala com da outra.
-Desculpe-me, Miro! – Gritou.
Só conseguiu alcançá-los no final das escadas.
-Porque não me esperaram?
-Pra levar outro esculacho seu, irmão? Definitivamente não.
-Escuta... – Saga estava fazendo aquilo relutante – Hoje à noite... Nós vamos nos reunir na casa do Mu. Se vocês quiserem, podem ir. Vamos estudar Grego lá...
-Ah! Valeu maninho! – E Kanon deu um grande abraço no irmão.
-Ae Saga, valeu ae... Salvou nossas vidas! – Exclamou Máscara da Morte.
-Mas é pra estudar!
-Nós sabemos maninho, nós sabemos... O Máscara da Morte vai almoçar lá em casa hoje, pode ser?
Os três caminharam até em casa. Saga ia em silêncio o caminho todo enquanto Kanon discutia com o amigo as pernas das garotas da classe.
-A Faith, aquela loira, Mascara, ela que tem umas pernas maravilhosas... Você precisava ver! Com aquela saia... uhuhuhu...
-Eu já prefiro a Sarita! Aquela espanhola... De sardas nas bochechas e cabelos pretos curtinhos... Já notou os peitões dela?
-É é... ela é boa.. Meu! – E Kanon colocou a mão na cabeça – Esqueci de te contar! Na minha aula de Pintura, já tenho duas em vista!
-Quem? Quem?
-A professora... E uma mina lá... Só que eu não sei o nome dela... Ela é muito gatinha! Baixinha, morena, olhos castanhos... Daquelas que dá vontade de se levar para casa...
-Nossa, quem é essa?
-Ela está na nossa sala, mas eu não sei o nome dela... Ela anda bastante com aquela ruiva, a Marin.
Chegaram. Saga abriu a porta e os dois entraram.
Kanon jogou a mochila no chão e disse para Mascara da Morte fazer o mesmo. Minutos depois estavam largados no sofá.
-Saga, o que você vai fazer de almoço?
-Não sei! – Respondeu impaciente – Vocês podiam muito bem me ajudar, preguiçosos!
Mascara da Morte se levantou e foi até a cozinha.
-Você tem massa por aqui?
-Você quer dizer, macarrão?
-Isso, qualquer massa serve.
-Aqui – Saga entregou um pote cheio de espaguete a Mascara da Morte.
Depois de uma hora, os três estavam comendo uma maravilhosa macarronada com molho a bolonhesa.
-Você deveria ter se inscrito em culinária, Mascara! Delicioso – Esbanjava Kanon enquanto limpava a boca com um guardanapo.
-Kanon tem razão, Máscara da Morte. Está muito boa a comida. Parabéns.
Saga lavou a louça e depois foi para seu quarto estudar um pouco de Biologia. Quando se deu conta já eram seis da tarde, hora de ir para a casa de Mu. Chegou na sala e viu que seu irmão e o amigo estavam dormindo em sono ultraprofundo.
-Acordem!
Os dois foram se espreguiçando lentamente e se levantaram do sofá.
-Se arrumem logo, já está na hora!
Kanon colocou uma outra bermuda e Máscara da Morte penteou os seus cabelos rebeldes. Saíram os três, Máscara da Morte dirigia um Porsche prateado de maneira irresponsável. Enquanto Kanon delirava com as manobras do colega, Saga se segurava no banco do carro e orava para Zeus ter piedade dele. Conseguiram então, chegar intactos na casa de Mu.
-Boa noite. – Disse Mu sorridente.
-Fala aí, "vaquinha".
Saga olhou feio para os dois. Só estavam ali por que Mu o tinha convencido. Na mesma hora os dois se calaram. No interior do chalé já se encontravam Shaka e Aldebaran.
-Cadê o Aioria? – Perguntou Saga.
-Eu liguei pra ele, não sei se ele vem... – E Mu deu uma rápida olhada para Shaka, que se sentia o pior dos seres.
-Você não deve pedir desculpas porque não foi sua culpa, Shaka! – Saga disse bastante enérgico.
-O que aconteceu entre vocês? – Perguntou Kanon, que queria ficar por dentro assunto.
Os garotos pararam de falar e ficaram se encarando. O que será que deveriam fazer? Simplesmente inventar uma mentira, que na qual Kanon e Mascara da Morte não cairiam, contar a verdade ou mudar de assunto?
Quem tomou a iniciativa de contar foi Mu. Parecia que ele queria dar uma chance aos dois garotos. Quando terminou, apesar de omitir alguns detalhes, os dois tinham expressões furiosas em suas faces.
-Meu irmão tem razão, Shaka. Você não deve pedir desculpas!
-Sabe o que você faz, Shaka? – Mascara da Morte pela primeira vez falava em tom sério – Dá um gelão no cara e cola nos três aí. Ele vai ver o que é se sentir sozinho e vai vir correndo pedir desculpa... A não ser que ele queira andar com aquele... Kanon, como é mesmo o nome daquele esquisito da outra sala?
-Hahahaha! Afrodite! Imagine o Aioria com o Afrodite!
Nesse momento não teve jeito. Todos riram. Até mesmo Aldebaran que não suportava o amigo italiano não conseguiu disfarçar a gargalhada.
-Mas chega de risos! Vamos começar! – Coordenou Saga.
Era inacreditável que aqueles seis estavam reunidos e se dando bem. Aldebaran mal reconhecia Kanon e Mascara da Morte. Os dois estavam tão dedicados e atentos. "Olha o que o desespero faz". Pensava ele rindo mentalmente.
A noite passou num piscar de olhos tanto que quando foram ver, já passava da meia-noite.
-É melhor pararmos por aqui. A gente combina de estudar mais na segunda-feira, véspera da aula do professor. – Disse Saga entre seus bocejos.
E os dias se passaram.
No fim de semana combinaram de se encontrarem na escola de manhã para praticarem os esportes escolhidos nas aulas de educação física.
Kanon e Mascara da Morte pareciam estar pegando mais leve nas brincadeiras com o irmão naqueles dias, porém não se separavam.
Encontraram também os garotos e garotas da outra sala por lá. Kanon puxou Mascara da Morte para perto de si e apontou de longe e discretamente a garota de quem falara ao amigo na quinta-feira.
-É aquela lá! Está vendo? A do bambolê na cintura...
-E o que você está esperando pra chegar junto, cara?
-O momento certo. Tem algo naquela garota que eu sinto que minhas táticas terão de ser diferentes.
Mascara da Morte olhou espantado para Kanon.
-Mas ou... Independente disso, hoje a noite tem aquela baladona esperta, né não?
-Opa! Quantas nós vamos pegar essa noite?
-Umas vinte! Vamo aposta?
-Vamos! – Apostou Kanon sem tirar os olhos da menina.
E assim mais um fim de semana se foi. Mu tirou o domingo para ler um pouco e escrever para seus pais. Aldebaran ficou estudando culinária a tarde toda e ficou todo orgulhoso quando sua torta de limão ficou com aparência impecável e muito saborosa. Saga nem foi preciso dizer que passou o domingo todo cuidando da ressaca do irmão. Fora acordado no começo da manhã com Kanon no banheiro fazendo o maior barulho. Ele ainda queria muito dar uma estudada em Grego antes de dormir, mas não houve jeito. Máscara da Morte teve o mesmo fim de Kanon. A única diferença é que quem estava tomando conta das suas irresponsabilidades era a sua empregada. Aioria passou o domingo na companhia do irmão e de Shura. Foram dar uma volta pela cidade durante a tarde e aproveitar as últimas semanas de verão. Sentia muita a falta de Shaka durante essas horas, porém seu orgulho ainda era muito grande para ser vencido. Shaka acordou cedo, meditou até a hora do almoço e passara a tarde toda de domingo com seus colegas da pensão. Era muito agradável ter a companhia de bastante gente, pois na Índia, Shaka vivia muito sozinho.
A segunda-feira foi realmente trágica para todos eles. Ninguém conseguia se concentrar nas aulas direito pois todos estavam extremamente tensos. Marin estava perplexa e demonstrava desespero enquanto conversava com a colega que se sentava ao seu lado.
-Como é que sabem que o professor Eugeu vai dar teste amanhã se eles são surpresas? Quem começou com essa história, Réia?
-Marin, a Hilda me disse que a Faith disse que a Sarita ouviu o Shaka e o Aioria combinando de estudar com o Saga na casa do Mu com o Aldebaran junto, na semana passada.
-Mas que confusão!
-Acho melhor você perguntar então, pra algum dos meninos.
-É o que vou fazer.
Marin saiu a procura de Aioria, mas não o encontrou. Ao olhar para a porta da sala avistou Shaka e resolveu tirar sua dúvida com ele mesmo.
-Shaka, é verdade que vai ter prova do Eugeu amanhã?
-Ai Marin, não é certeza. Na verdade, o Saga está com um palpite...
-Me mostra o que vocês estudaram?
-Sim, vamos até a sua mesa.
Marin sentou em sua carteira e abriu seu caderno. A carteira da frente de Marin estava vazia. Sendo assim, Shaka puxou a cadeira e virou de modo que ele ficasse bem de frente dela. A garota ruiva folheava o caderno ansiosamente e Shaka parecia tentar acalmá-la em vão. Os dois pareciam tão concentrados que não notaram os olhos furiosos que observavam aquela cena da janela da sala de aula.
Aioria parecia extremamente descontrolado. "Não, não pode ser! O Shaka! Justo o Shaka"! Pensamentos ruins passavam por sua cabeça e ele começava a não conseguir mais digerir aquelas cenas.
"PAAAH" – O vidro da janela se estraçalhou. Todos olharam aturdidos para o lugar de onde viera o barulho e ninguém viu o autor do crime. Como se possuísse um dom de clarividência, Mu olhou para Aldebaran assustado. Dois minutos depois, Aioria chegou na sala berrando.
-CANALHA! – E saltou na direção de Shaka.
Aldebaran entrou na frente, fazendo com que o amigo trombasse com seu enorme peito. A mão de Aioria sangrava. O garoto grandalhão segurou-o pelo pulso e o carregou para fora da sala, enquanto Shaka e os outros olhavam aturdidos, ainda traumatizados pela cena presenciada.
Depois de ver que Aioria recuperou o fôlego, Aldebaran escolheu bem as palavras para começar seu sermão.
-Escute bem aqui, Aioria. Isso está passando dos limites. Estou ficando cansado das suas atitudes impulsivas. Dê um jeito nisso ou eu vou acabar dando um jeito em você, compreendeu?
Aioria tinha lágrimas nos olhos e olhava para a sua mão que sangrava.
-Aldebaran... Você viu... Ele... Ele estava com ela...
-Com ela quem?
-Com a Marin! Ele estava com ela!
-Aioria, deixa de besteira! Você acha que o SHAKA, o seu MELHOR amigo vai querer te trair com a sua paixão? Dá um tempo!
-Eles estavam sentados juntos! Você viu! De rostos muito próximos!
-Cara, eles estavam discutindo a matéria! Chega desse papo, vou te levar pra enfermaria agora.
Aldebaran seguiu para a enfermaria levando Aioria ainda inconformado. Chegando lá, Aldebaran relatou o que viu para a enfermeira.
-Você terá que ver Shion. – Disse ela enquanto enfaixava a mão de Aioria.
-Quem é Shion?
-O diretor da escola.
Com a expressão de quem tinha perdido uma enorme batalha, Aioria deixara a enfermaria, mais inconformado ainda do que já estava. Agora tinha que ver o diretor. O que será que iria acontecer?
Aldebaran acompanhou o amigo em silêncio até uma grande porta de madeira escura entalhada. No portal estava escrita a palavra "Sabedoria" em grego. Antes de entrar, Aioria hesitou.
-Vá em frente, Aioria.
E quando já estava de costas para ele, acrescentou:
-E se eu fosse você, perderia essa pose toda e pediria desculpas ao Shaka. Daqui a pouco as coisas vão ficar feias pra você.
A partir dali estava sozinho. Respirou fundo e bateu na porta. Ouviu uma voz trêmula dizer "entre" e ele abriu a grande porta de madeira.
A sala do diretor era enorme. Nela continha estátuas de vários deuses gregos. Aioria logo reconheceu Afrodite, Dionísio e Hera. Atrás da mesa do diretor havia uma grande estátua de uma mulher segurando uma outra pequenina estátua e um enorme escudo. Com certeza, aquela era a grande Athena.
-Sente-se. – Disse o diretor com a voz firme.
Aioria se sentou. Sentia a dor de sua mão se misturar com pânico e expectativa. Jamais pensou que iria ver o diretor tão cedo. Nem Kanon e Mascara da Morte haviam conseguido essa grande proeza. Ele seria o primeiro de sua turma a encarar o ser mais poderoso de todo o colégio.
-Aioria... – E os olhos em tom lilás de Shion pareciam ler os pensamentos do rapaz – Fui informado de que você quebrou uma das vidraças de sua sala. A informação confere?
Muito envergonhado da situação em que ele mesmo se metera, preferiu ser o mais direto possível. Quanto mais cedo saísse daquela sala e de sua situação constrangedora, melhor.
-Sim, confere, senhor diretor.
-Ótimo. Então encaminharemos um pedido de reposição do vidro a vidraçaria mais próxima da escola.
Sentindo que precisava dizer alguma coisa, Aioria, tomado pela sua emoção, escolheu muito mal o que ia dizer.
-Me desculpe, senhor diretor, eu fiquei nervoso com uma cena que presenciei e acabei socando mesmo o vidro. Mas eu jamais quis dar a impressão de que sou um vândalo para essa escola.
-Encaminharemos também aos seus pais o valor do vidro. Serão eles que vão custear a troca.
Aioria paralisou. Seus pais iriam ficar muito envergonhados com a atitude impulsiva dele.
-Agora pode ir. – Disse Shion sem se levantar da cadeira que estava sentado.
Aioria saiu da sala da direção totalmente derrotado. Colocou a mão que estava boa em um dos bolsos da calça e andou cabisbaixo até a sua classe. Chegou atrasado na aula de Galileu e ainda levou um ponto negativo por dizer que o elemento "Pb" da tabela periódica era o Mercúrio. A aula terminou e todos estavam aliviados por poderem ir embora. Marin veio correndo saber o que realmente havia acontecido quando ele disse:
-Amanhã nós conversamos, está bem?
Ela assentiu com a cabeça e deixou a classe.
Ele caminhou lentamente até seu amigo loiro que ainda arrumava cuidadosamente o seu material.
-Shaka...
Shaka parou o que estava fazendo e se virou para encará-lo.
-Me... – Totalmente envergonhado e olhando para o chão, terminou de dizer a frase – Desculpe.
Shaka queria na mesma hora dizer que sim e dar um abraço enorme no amigo, mas como fora instruído para se segurar, apenas disse, olhando para o lado:
-Está bem, Aioria. – Pegou a mochila e saiu andando.
-Espere. Eu sei que não vai ser tão fácil assim.
-Ainda bem que sabe, não é?
-Por causa dos meus impulsos – Ele olhava para a mão com raiva – Me machuquei, meus pais vão ficar furiosos comigo...
-Eu sinto muito.
-E o pior... Eu machuquei o meu melhor amigo... Peço realmente que me perdoe. Fui muito idiota na casa do Mu aquele dia e hoje duvidei de você sem motivo nenhum...
Aioria começou a se emocionar novamente e Shaka não queria ver a cena. Não agüentou e deu um grande abraço no amigo.
-É bom ter você de volta, amigo!
Os dois foram andando juntos, rumo a saída do colégio até serem interrompidos por Aioros e Shura.
-Irmão! É verdade o que aconteceu? Você socou a janela da sua classe? Você está bem?
-Sim, é verdade. – Respondeu cabisbaixo – Estou bem sim.
-Mas por que você fez isso? – Quis saber Shura.
-O motivo não importa. – E deu uma rápida olhada para Shaka, totalmente tomado pela vergonha.
Depois disso ninguém falou mais nada.
A noite chegou e com isso, a última reunião da casa de Mu antes da prova, que contava com os sete amigos mais chegados. Ao invés de somente Saga explicar a matéria, decidiram que ele ia selecionar alguns exercícios e aplicar como se fosse uma prova e cada um, sem consulta, iria fazer o seu. A idéia deu certo. Depois de uma hora, todos já estavam entregando seus testes para serem corrigidos. Todos tinham conseguido ir bem e o que mais o impressionava era a rapidez que os dois malandros possuíam para absorver qualquer tipo de conteúdo.
Decidiram encerrar os estudos por ali, pois precisavam realmente de uma boa noite de sono. Quando Mu fechou a porta e se encontrou sozinho em seu chalé, disse para si mesmo, em ato de reflexão:
-Se estamos desse jeito por causa de uma prova surpresa, imagina no dia em que tivermos as provas finais.
Fechava os olhos para tentar não prever o futuro. Apagou a luz e foi dormir.
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O grande dia chegou. Todos estavam muito aflitos e nervosos. A aula de Kim não estava rendendo nada e o professor percebeu a agitação dos alunos.
-O que é que está acontecendo aqui? Nunca vi vocês tão inquietos.
-É que hoje vai ter prova do professor Eugeu...
O professor riu e depois disse:
-Então é assim que ele faz? Quem sabe se eu fizer isso também... – E notou a expressão de espanto dos alunos – Calma, calma, eu estava brincando...
A aula terminou e Kim desejou boa sorte para a sala. Ninguém saiu do lugar até o professor entrar na classe.
-Bom dia a todos.
Eugeu apagou a lousa lentamente de costas para seus alunos. Depois sentou-se à mesa para fazer a chamada como de costume, porém, antes de começar, disse:
-Gostaria que todos se levantassem e se retirassem. Conforme eu for fazendo a chamada, vocês entram na sala e se sentam no local que eu indicar.
Obedeceram ao professor e saíram murmurando coisas que não conseguia identificar. Ele arrumou as mesas de modo que ninguém ficasse muito próximo e começou a fazer a chamada.
Colocou Mu no canto da sala e no fundo. No lado oposto colocou Aldebaran. Shaka teve a sua mesa encostada na mesa do diretor bem ao meio. Colocou Aioria na terceira carteira encostada na parede da sala. Mascara da Morte e Kanon se sentaram em local bem visível, nas primeiras carteiras de duas fileiras, do professor e isolou Saga do restante da sala. Depois começou a distribuir as provas com o conteúdo virado para a mesa. Após entregar a última prova, foi até sua mesa.
-Podem iniciar a prova. Uma hora e vinte vocês tem para resolvê-la.
O pânico pairou sobre o terceiro A. Mascara da Morte trocava olhares desesperados com Kanon. Mu usava toda a sua intuição para se sair pelo menos com um meio certo das questões. Aldebaran tentava ao máximo manter a calma, mas estava sendo praticamente impossível. Já era a quinta vez que quebrava a ponta de seu lápis. Aioria uma vez ou outra resmungava baixo enquanto lia a segunda questão. Estava com vontade de socar a cabeça do professor. Shaka respirava profundamente e repetia mentalmente um mantra para acalmá-lo. O único que parecia estar mais tranquilo era Saga, que lia questão por questão e as fazia uma por uma.
O professor se levantou e começou a andar entre os alunos. Não havia um só garoto ou garota que ousava desgrudar os olhos daquela prova maldita. Eugeu sorria sarcasticamente ao olhar os alunos escrevendo freneticamente no papel com a esperança de que aquele professor fosse considerar alguma coisa.
Uma hora e vinte depois, disse com um tom vitorioso:
-Podem entregar. O tempo acabou.
A prova continha 8 questões. Aldebaran, Mu e Shaka haviam respondido 6 das oito. Aioria estava de braços cruzados e ainda não conseguia acreditar que só tinha feito 4 das 8. Mascara da Morte e Kanon não quiseram nem comentar qual tinham sido as suas pontuações. Estavam discutindo o absurdo que havia sido a segunda questão quando Saga apareceu entre eles.
-Eu estava com uma raiva enorme de você durante a prova! – Falava Aioria afobado – Você parecia muito tranqüilo!
Saga nada respondeu e o pior é que por seu olhar, ninguém sabia o que acontecia com ele. Ninguém fazia a menor idéia do que ele estava pensando.
-Como você foi, Saga? – Perguntou Shaka aflito.
-Eu respondi as 8 questões...
-Filho da mãe! – Exclamou Kanon.
-E quem disse que estão certas? Eu posso muito bem ter errado alguma...
-Claro que não! Você fez a prova toda.
-Escute aqui, Kanon, eu não tenho culpa se você...
-Parem! – Mu entrou na frente de Kanon – Eu acho melhor nós esperarmos os resultados.
-É, ele está certo. – Confirmou Aldebaran – Não adianta nada ficarmos discutindo por algo que já aconteceu e que não temos noção do que iremos encontrar pela frente.
A discussão cessou e o resto do dia transcorreu tranquilamente. Pelo menos a tensão da prova havia passado. A única tensão que pairava no ar era a do dia em que iriam receber os resultados.
