N/A: Comecei a escrever esse capítulo em agosto, já na metade, e só fui terminar agora, dia 13 de janeiro. Eu sou muito procrastinadora. Mas eu tô de férias da faculdade, fazendo apenas auto escola, e dependendo do feedback e da inspiração, capaz de postar o outro capítulo – ainda não escrito – ainda esse semestre. Olha que maravilha! E trago boas notícias para os meus leitores de Nosso Sangue (eles ainda existem? Veja no Globo Repórter): talvez eu poste ainda esse mês o capítulo que demorou três anos para ser escrito. Risos. Eu estou no pique pra dramione, então aproveitem. Finalizando o lenga lenga, eis o quarto capítulo, vejo vocês nas notas finais.
004
but you catch a glimpse of sunligh
everything will change
nothing stays the same
nobody is perfect
but everyone's to blame
In My Veins, Andrew Belle.
Não sabia onde estava, mas o braço de Ron estava em seus ombros e o calor suave que emanava dele lhe atraía como a própria gravidade. Ouviu a risada de Harry e Hermione sabia que o amigo estava por perto. Ouviu Ginny cantando. Ginny tinha uma bela voz. Poderia surpreender a todos com ela. Aqueles que não a conheciam poderiam julgar ser de um tom agudo irritante, mas na verdade ela tinha uma voz tão sóbria e calma que todos se encontravam encantados pela ruiva. E assim estava Hermione, cativa pela voz da amiga, que cantarolava uma espécie de canção de ninar. Então havia a voz sussurrante de um homem e o choro de um bebê.
Aquilo quebrou a sintonia do sonho, como um risco preto invasivo em um quadro renascentista, e Hermione percebeu que aquela era a hora de acordar. Ron a encarava, o azul de seus olhos brilhantes de alegria enquanto colocava uma aliança em seu dedo anelar. O que restava de Harry observava a cena, o rosto desfigurado demais para se reconhecer, com Ginny ao seu lado, sorrindo como se fosse o dia do seu próprio casamento, a barriga cortada ao meio e o pequeno James aos seus pés, ainda preso pelo cordão umbilical, gritando a plenos pulmões. Sentiu vontade de vomitar. Havia sangue para todos os lados, em seu vestido, em suas mãos, e a culpa que não era sua ameaçava engoli-la por inteiro. O choro do bebê, dos seus amigos, seus próprios gritos ecoavam em seus ouvidos, e ela pedia, por favor, para que alguém a acordasse daquele pesadelo.
Quando o fez, foram os olhos machucados de Draco Malfoy que a encaravam de volta.
O seu pior pesadelo era a sua própria realidade.
"Você estava sonhando", foi tudo o que disse para ela.
Fazia um frio dos diabos. Hermione não tinha noção das horas, mas uma dor de cabeça chata começava a se formar na sua mente. Havia ido totalmente contra as regras de Ron ao deixá-lo sem as algemas, e naquela hora, completamente exposta e vulnerável, ela percebeu o perigo que havia acabado de passar.
Eles haviam estabelecido um certo tipo de acordo. Atrevia-se a dizer que eram até um pouco cordiais um com o outro. Não havia mais xingamentos, pelo menos. E ela sempre o observava dormir quando Ron e ela brigavam. A verdade era que gostava de vê-lo dormir. Era o único momento que ela tinha certeza de que havia feito a escolha errada. Ron sempre a deixava com a mente embaçada de dúvidas, e não lhe restava muitas forças para ir contra aquela loucura. Por Harry, por Ginny, pelo bebê. Esse era o seu mantra.
Mas naquela noite Hermione sentia que havia ultrapassado os limites. Nada impediria Malfoy de fugir, e não era seu cargo confiar o seu sono ao homem que mantinha cativo. Mesmo ferido, ele poderia muito bem tê-la sufocado até a morte, pego o molho de chaves e tentado a própria sorte. Pôs a mão no pescoço, sentindo uma surpresa vontade de tomar ar fresco.
Levantou-se, ainda sem dizer nada, e coçou os olhos. Haviam lágrimas em suas bochechas, e com vergonha ela as limpou. Reuniu suas coisas e se preparava para subir as escadas quando se lembrou do rosto machucado de Malfoy.
"Você quer algum remédio para a dor ou uma compressa de gelo?"
Ron nunca havia o batido daquele jeito antes, ao menos não tantas vezes seguidas, e ele tinha uma política de deixar o prisioneiro sofrer o máximo possível, mas Hermione sentiu pena. Passado as horas de sono, o rosto havia inchado ainda mais e ao que parecia não lhe era possível abrir muito o olho direito. Nunca antes havia lhe oferecido um remédio. Depois dos primeiros socorros, deixava-o sozinho lidando com a dor. Hermione engoliu em seco esperando sua resposta.
"Eu agradeceria. Hermione."
Finalmente subiu as escadas, o estômago embrulhado, o sonho ainda fresco preso em sua mente.
X
Ela demorou para voltar, e Draco achou que fosse um terrível tipo de tortura oferecer alívio e simplesmente esquecê-lo naquele porão. Mas no final das contas ela desceu as escadas, trazendo numa pequena bandeja de madeira desgastada uma caneca fumegante, um copo d'água e uma pílula vermelha.
"Você não vai tentar me matar com isso aí, não é?"
Hermione riu amarga e ofereceu primeiro o copo e o remédio, para então lhe entregar a caneca com o que parecia ser chocolate quente. O sorriso no rosto de Draco se parecia com o de uma criança em pleno natal, se não fosse por toda a dor e machucados que maculavam sua beleza. Ele tomou um longo gole, se arrependendo logo em seguida ao notar o quão quente estava. Hermione sentiu o próprio sorriso se formando nos lábios.
"Eu nunca gostei muito de chocolate, mas isso é a melhor coisa que eu já tomei há anos."
"Três meses e três dias."
Draco parou de sorrir. Colocou a caneca ao lado de seu colchão, e ponderou qual seria a sua reação. Seu corpo doía, e ele tinha certeza que qualquer movimento brusco lhe causaria ainda mais dor.
"30 de março de 2014, para ser exata."
Decidiu deitar na cama. Voltara a sentir dificuldade em respirar e a costela voltou a doer. Olhá-la também não ajudava em nada. Seus olhos castanhos, sua indiferença e sua beleza ordinária o irritavam mais do que a própria dor que sentia. Fechou os olhos com força, se arrependendo logo em seguida porque o direito doía como o inferno, e sua língua queimada fechava com chave de ouro a sua desgraça.
"Existe algo que você precisa saber."
Foi com ansiedade que ele prendeu a respiração. Pelo tom de voz dela, não seria uma notícia boa e ele rezava para todas as divindades possíveis que não seria nada do que ele havia imaginado.
"Eles pararam as buscas, Draco."
"Cala a boca."
"Eles acham que você foi assassinado, já que ninguém pediu resgate. Dá última vez que o seu caso foi relatado nos jornais, eles ainda procuravam o seu corpo nos lagos mais próximos ou nos necrotérios."
"Cala a porra da boca!"
Horas poderiam ter se passado e ele não sentiria. O silêncio que se seguiu foi enlouquecedor. Os únicos barulhos que poderiam ser ouvidos eram os da sua respiração acelerada. Hermione se mantinha calma na base da escada, como se fosse o próprio anjo da morte. Draco sentiu vontade de chorar.
"Você só está dizendo isso pra me irritar, sua filha da puta. Você só está falando essas coisas pra me deixar louco nessa desgraça de lugar. Meu pai nunca desistiria de mim, ouviu bem? Nunca!"
Sua voz saiu baixa e entrecortada, e sentia tanta raiva que poderia enlouquecer. Não era possível, não era possível, não era possível. O estômago embrulhava e mordeu a língua sem querer. No final das contas, percebeu, odiava chocolate. Odiava seu marrom grudento e enjoativo. Odiava-o até os seus ossos.
Seus olhos coçavam demais, sentia que sua cabeça acabaria explodindo com a força que fazia para controlar o próprio desespero. Preso, para sempre, à mercê desses malucos. Sentiu o olhar de Hermione cravado em si, absorvendo-o, lendo suas reações. Queria chorar, queria tanto chorar, mas não daria o prazer pra essa vagabunda. Ouvia- arrumar as coisas com pressa, para então desarmá-lo por completo .
"Ele já desistiu de você, Malfoy."
Sentiu-a se aproximar e antes que pudesse impedir, ela o havia algemado novamente. Gemeu de frustração, e com a força que lhe restava nos pulmões, gritou para que fosse embora. E foi o que ela fez, desligando a luz do corredor depois de subir as escadas e deixando-o imerso na mais completa escuridão.
X
"Por quê?"
Foi o que Hermione ouviu assim que desceu as escadas para deixar o café da manhã. Ele estava deitado do mesmo jeito de ontem, com o braço esquerdo desconfortavelmente erguido por conta da algema. Engoliu em seco, porque não sabia se Ron permitiria que ele soubesse de alguma coisa. Ele tem a mesma natureza do pai, o filho da puta, ele sabe muito bem o porquê de estar aqui, ele merece estar aqui, era o que Ron dizia, mas Hermione sentia que deveria deixar Draco a par com o que está acontecendo.
Foda-se Ron, Hermione pensou enquanto respirava fundo e deixava a bandeja ao lado do colchão, voltando para sentar na escada, no mesmo degrau de sempre. Sempre fora uma pessoa independente, e precisava retornar a ser o que era para colocar um pouco de ordem nesse caos. Mas até mesmo encarar Draco era difícil, com toda aquela raiva e dor e medo carregando o seu peito.
"Por conta do seu pai. Nós fizemos isso por conta do seu pai."
Ouviu a respiração acelerada de Draco, e sabia que, se erguesse os olhos, veria seus punhos pressionados ao lado do corpo e sua costumeira careta de ódio.
"O que foi que ele fez? Ameaçou os negócios da sua família? Chacoalhou algum galho frouxo atrás de informações?", surpreendeu-se com o tom calmo e controlado na voz dele, apesar de estar acostumada com a acidez de suas palavras.
Ela sentiu vontade de matá-lo. O homem deitado a sua frente era a cópia daquele que destruiu a sua vida. Naquela hora Hermione entendeu o porquê de Ron gostar tanto de espancá-lo. Ela própria queria desferir socos naquele rostinho machucado. Queria fazê-lo pagar pelos pecados do pai. Queria que ele sentisse o gosto de seu ódio no próprio sangue.
"Ele matou os meus melhores amigos."
Draco manteve-se em silêncio. Ela não esperava que ele falasse alguma coisa, o bastardo insensível.
"Fuzilou é o termo correto. Harry era promotor em um caso que seu pai estava envolvido, e Harry tinha essa qualidade-defeito de ser incorruptível. Seu pai tentou quebrá-lo, não conseguiu e acabou perdendo muito dinheiro para a promotoria. No final das contas, ele precisou de um bode expiatório para a raiva, e descontou isso em Harry."
À medida que as lembranças vinham, Hermione tentava com todas as forças não se quebrar em lágrimas na frente de Malfoy. Havia a indiferença no olhar cinza-vermelho que a fazia se sentir culpada por sentir dor. Como se desdenhasse de tudo o que ela tinha passado. Por um momento, as escolhas certas e erradas se misturaram e nada entrava em foco na sua mente.
O bastardo merece estar aqui, Hermione. Quantos outros Harrys existiram na vida desse desgraçado e do pai dele?
"Ginny estava grávida de nove meses. Era um menininho, o primeiro filho do casal. Eles haviam ido ao teatro, e, na saída, houve uma perseguição de carro. Harry bateu em uma árvore, e foi nesse momento que os capangas do seu pai desferiram uma série de tiros contra eles. Harry ficou irreconhecível. E Ginny... Ela... Ele tentou protegê-los, mas..."
Sua garganta travou. Passou a mão por entre os cabelos cacheados, aplicando uma certa pressão nos fios, forçando-os para fora de sua cabeça. E começou a chorar porque nada mais importava em toda aquela desgraça.
"Hermione..."
Ela o encarou. E não havia mais indiferença. Havia pena. Não se importou com isso. Sentia pena de si própria, dele, da situação em que ambos se encontravam.
Havia dor demais para se importar com qualquer outra coisa.
As lágrimas desciam. Salgadas, dolorosas.
"Eu sinto muito."
Draco estendeu a mão, mais como um amigo oferecendo ajuda do que um prisioneiro fechando um acordo. Ou um traidor prestes a virar o jogo e sufoca-la na primeira chance.
Hermione fechou os olhos, balançou a cabeça e subiu as escadas. Quando olhou para trás, Draco havia deixado a mão cair no colo, os olhos ainda fixos nela.
O certo e o errado aos poucos retomavam as suas nuances de preto e branco, deixando para trás o tom de cinza da incerteza.
N/A: Finalmente alguns esclarecimentos. E aí, o que acharam sobre a razão para o sequestro do Draco? E do desenvolvimento do relacionamento dos dois? Muito obrigada a todas que comentaram (LyraEvans, Lady Malfoy, Aninha Malfoy, Angel Tonks, Ane Whitlock Malfoy, chalu e Francesa), não preciso falar que vocês foram a razão número um de voltar a escrever, né? Sem vocês, esse pique nunca aconteceria! E eu sou uma bostinha pra responder review (o ffnet não avisa mais por email que recebeu review nova, fico achando que não recebi nenhuma, acabo demorando uma eternidade pra ver que recebi reviews e então responder), mas como estou de férias, dá pra fazer isso numa boa. Não se acanhem de falar comigo.
Btw, quero dizer a todos os meus leitores de DHr desse Brasil (e do mundo e de todos os fandoms), que o fórum Ledo Engano ainda tem uma seção Draco/Hermione, que tá precisando de amor, carinho e muita atenção, então não custa nada passar lá e ver as fanfics que ainda não foram postadas no ffnet, ou interagir com o pessoal. O fórum não é só DHr, é multifandom, e tem muita gente louca e gostosa por lá.
É isso. Beijo pra todo mundo, até o próximo capítulo. R&R!
Publicado em: 14/01/2015.
