Capítulo 04 – Lestranges

Rabastan sorriu de forma fria ao ver Harry recuar até bater contra a parede. Sentiu a presença do irmão pouco atrás dele e viu os olhos verdes se arregalarem com a visão.

Aquilo era previsível.

- Bom dia. Vejo que já está bem instalado, se se sente à vontade para explorar minha casa dessa forma. – comentou, entrando de vez na biblioteca.

Harry o encarava em silêncio, olhando dos dois à porta aberta mais atrás. Sua respiração acelerou ao perceber que não havia para onde fugir. Ele estava em qualquer lugar trouxa perdido no norte do país, sem varinha. Se ele conseguisse deixar a mansão, o que ele faria? Para onde ele iria?

- Devo lembrá-lo que estamos sendo monitorados pelo ministério, se você tiver um ataque, eu vou ter problemas para me livrar do corpo. – comentou, aumentando a iluminação da sala – Sente-se. Será mais confortável a nossa conversa.

Rodolphus seguiu a sugestão do irmão, se acomodando em uma poltrona, enquanto Rabastan encostou-se a uma mesa ao lado, com os braços cruzados contra o peito, encarando Harry a espera de uma resposta.

O garoto olhou de um para outro. Eles eram maiores, mais velhos, mais fortes e dois. E tinham varinhas. E eram ex-comensais especialistas em tortura. Ele tinha problemas. Mas, por outro lado, Rabastan disse uma verdade: estavam sendo monitorados. Não é como se ele pudesse fazer qualquer coisa com ele sem que o Ministério ficasse sabendo.

- O que você pretende? – perguntou sem se aproximar, a voz saindo baixa.

- Eu poderia te fazer a mesma pergunta, não é mesmo? Afinal, fui eu quem recebeu uma proposta de casamento de Harry Potter. – o nome saiu de seus lábios com desdém e o meio sorriso continuava em seu rosto de forma irritante.

- E por que aceitou? – Harry voltou a questionar, começando a ficar com raiva dele mesmo.

- Se o salvador do mundo bruxo se despe à minha frente e deita em uma cama se oferecendo para mim, eu recusaria por quê?

Harry deixou a cabeça cair para trás, batendo-a de leve contra a parede, e respirou fundo.

- E por que você levaria isso adiante?

- Eu estou em liberdade provisória por bom comportamento, senhor Potter. É conveniente que eu cumpra as nobres leis do nosso país. O convite que o senhor me enviou veio a calhar muito bem aos meus interesses. Eu não pretendo me divorciar tão cedo.

Rodolphus se levantou em silêncio, saindo da sala depois de lançar um olhar para o irmão.

- Eu quero minha varinha. – Harry exigiu, alheio a essa interação.

- Você terá. Por enquanto, sinta-se em casa. Ninguém aqui vai te fazer nenhum mal.

E Rabastan deixou a sala também.

Harry se deixou escorregar para o chão, encarando a porta fechada.

o0o

O que se seguiu foi um dia longo.

Inicialmente, Harry voltou para o que seria seu quarto, e se trancou lá, revirando tudo inutilmente à procura da varinha. Sabia que não encontraria nada, mas precisava daquela esperança fútil.

Em determinado momento, um elfo apareceu convidando-o a comer, o que ele recusou, mas concluiu que talvez fosse um bom momento para descobrir o que estava, de fato, autorizado a fazer ali.

Uma nova busca pela mansão o mostrou que todas as portas estavam abertas, ele poderia sair se quisesse, e provavelmente poderia voltar. Saiu da propriedade e desceu por um caminho trilhado até a vila, somente para voltar em seguida, incomodado pelo frio cortante. E acabou voltando para o quarto com uma única certeza.

Ele não tinha para onde ir.

Rabastan aceitara a proposta que ele fez. Novamente, agir por impulso e não medir as conseqüências de seus atos se mostrava o que ele melhor sabia fazer, e o que mais trazia complicações para sua vida.

Fora tão idiota.

Podia colocar a culpa no que fosse, na bebida, em Ginny, em Hermione, em Voldemort, em Dumbledore, em si mesmo. Culpa era algo a que ele estava habituado, era fácil sentir e se afogar naquilo. Mas arrumar culpados não o ajudaria naquela situação.

Ele já não precisava de mais nada, além de uma saída.

Para onde? Para a vida vazia que deixara em Londres e a perspectiva de um novo casamento em seis meses?

Rabastan, longe de ser um marido ideal, o assustava. Era um rosto que fizera parte de seus pesadelos no passado e que agora sorria para ele. O casamento podia até ser conveniente, mas ele sentia medo de ficar ali. Não estava seguro, e sabia disso, não importa o que Rabastan dissesse.

Mas o que ele disse tinha alguma garantia. Estavam sendo monitorados. E isso incluía a possibilidade de divórcio. Harry não poderia simplesmente alegar que tinha medo de seu marido no segundo dia de casado, quando ele mesmo fizera a proposta inicial de casamento. E ele nunca faria isso. Para o pedido de divórcio ser aceito, precisava de um motivo concreto, e ele simplesmente não tinha um.

Rabastan não o agredira moral ou fisicamente, pelo contrário. Para alguém que potencialmente o odiava desde o seu nascimento, ele fora razoavelmente carinhoso na noite passada. Ele poderia tê-lo matado. Poderia ter feito o que quisesse com ele, e Harry nunca sequer ficaria sabendo quem era o estranho com quem se envolvera, traído pelo seu próprio sigilo.

Ele podia, e não fez.

Mas tirou sua varinha.

E Harry precisava entender com que propósito. Evitar que fugisse? Evitar que o atacasse? Evitar que se defendesse em algum momento? Deixá-lo apavorado do jeito que estava por ficar pela primeira vez sem varinha desde a guerra? E no que o pavor de Harry seria interessante para Rabastan?

O sol desceu e se pôs, e a lareira do quarto se acendeu magicamente, e a cabeça de Harry doía com tantas questões a mais em sua vida.

Ele se deixou deitar sob as cobertas e adormeceu.

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Harry acordou com o corpo dolorido devido à posição incômoda em que dormira. Sua cabeça ainda estava pesada e ele ainda não tinha certezas, mas precisava comer, isso era um fato.

Vestiu-se e saiu do quarto em direção à cozinha, já habituado ao trajeto. Porém, parou abruptamente quando chegou à porta.

Da grande mesa de madeira, Cristine sorriu para ele antes de voltar a comer. Ao seu lado estava sentado Rodolphus, e, de frente para ele, Rabastan. Ambos o olharam por apenas um segundo e não disseram nada.

Harry decidira não se mostrar perturbado. Deu a volta na mesa e sentou ao lado de Cristine, cumprimentando-a com um aceno.

Logo, algo se fez muito saliente para ele naquela casa: não havia sons.

Talvez ele estivesse acostumado demais aos gritos do Duddley e de tia Petúnia, ao caos dos alunos em Hogwarts, aos Weasleys falando todos ao mesmo tempo ou mesmo aos gritos e risos nos bares que freqüentava para fugir de sua casa.

Mas ali era silêncio demais.

As quatro pessoas na cozinha comiam sem trocar uma palavra, sem bater o talher na louça fina, sem os pássaros piarem ao longe, sem o vento rugir contra a janela. Harry quase poderia discernir a respiração de cada um a volta e dizer o momento em que engoliam a comida pelos pequenos ruídos que faziam. Os únicos ruídos.

E aquilo já estava deixando de ser incômodo e se tornando aterrador, quando Harry percebeu que, na verdade, havia palavras. Não havia sons, mas havia palavras.

Assim como houve o gesto de Cristine para ele e dele para ela em cumprimento, na forma como Rabastan o olhou havia alguma coisa. Que Rodolphus entendeu, e o olhou de forma diferente. E agora Rabastan olhava para Cristine e sorria, e Harry via simpatia de um para o outro, mesmo que o sorriso de Rabastan nunca fosse completo. E quando Rodolphus tocou por poucos segundos o braço de Rabastan por cima da mesa, havia um aviso. E houve um toque de volta de agradecimento e carinho.

Havia intimidade entre eles. Uma intimidade tão forte que parecia empurrá-lo para longe dos dois. Entre os dois, porque Cristine já era capaz de ler os sinais e os entendia melhor do que Harry, mas Rabastan não falava com ela como falava com Rodolphus, e quando este quis lhe dizer algo importante, precisou falar.

- Como você está? – ele perguntou baixo, mas sua voz tinha uma potência que nunca se perdia.

- Bem. Está tudo bem, com nós dois. – ela disse, acariciando o ventre.

- Ok, mas você vai ao curandeiro amanhã. Eu levo você até a cidade.

- Foi só uma tontura...

- Não importa. – a voz saiu dura demais, fez Cristine abaixar a cabeça, mas o toque leve dos dedos do homem a reergueu – Eu estou cuidando de você, não estou? Não quero que nada aconteça. Você vem comigo amanhã?

Ela concordou com um aceno e ele a beijou na testa. Os dois deixaram a cozinha em seguida, e Harry voltou a comer. Não havia carinho entre os dois, não o mesmo carinho entre Rodolphus e o irmão, mas havia cuidado e respeito, e Harry não sabia exatamente o que pensar sobre isso.

Algo o incomodou e o fez erguer o rosto da xícara só para se deparar com os olhos frios de Rabastan sobre ele. Por um momento, pensou em ignorar e voltar a comer, mas ignorar seria abaixar a cabeça para o outro, e ele não faria mais isso.

O encarou de volta, com a mesma ferocidade que havia aprendido a colocar no olhar quando encarava Snape ou Malfoy. E Rabastan sorriu enviesado, e a certeza de que ele se divertia com suas atitudes invadiu Harry.

- Por que eu estou aqui? – perguntou, sério.

- Porque você quis ficar, aparentemente. Eu realmente pensei que você fosse embora quando saiu ontem à tarde. – sua voz era calma e fria. Medida. Mas de uma maneira diferente da voz de Lucius Malfoy e Severus Snape. Era como se a voz de Rabastan não dissesse nada além das palavras. Harry não seria capaz de dizer se havia ironia naquela sentença ou se ele realmente acreditara naquilo. Rabastan falava e sua voz era cortante, mas era em seus olhos que estava o significado, e Harry sentia que precisava lê-lo.

- E o que eu sou para você?

- Meu marido.

- Então o que o Rodolphus é?

- Meu irmão.

- Você não o ama como a um irmão. – Harry atacou, sustentando o olhar sério do homem.

- Eu o amo de várias formas. Não acredito que você entenderia.

- Quando isso começou?

- Quando nós nascemos.

- Quando se tornou o que é hoje? – Harry reelaborou, irritado.

- Azkaban. – a voz, que já era baixa e fria, soou como um vento gélido que arromba a janela em um sopro violento. E seus olhos ficaram escuros e focos por alguns segundos. E Harry quase sentiu medo daquele homem.

- Essa foi a sua loucura? – Harry perguntou, baixo, vendo os olhos do homem voltarem a brilhar.

- Bellatrix enlouqueceu. Crouch enlouqueceu. Muitos outros enlouqueceram. Rodolphus foi o que me manteve são. E você nunca vai entender isso.

- Eu deveria entender?

- Isso depende do que você quer.

- Você me quer aqui?

- Eu o aceitei, não é mesmo? Você não vai mudar o que eu sinto pelo meu irmão.

Os olhos de Rabastan eram castanhos. Nem claros nem escuros demais. E eles brilharam de uma forma estranha antes de se desviarem para a xícara a sua frente. E Harry saiu da cozinha.

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Harry somente saiu de seu quarto para jantar, e novamente os Lestrange estavam à mesa. As mãos se tocando e os olhos de Rabastan conversando com o irmão em meio ao silêncio sufocante que abraçava todo o resto.

Quando voltou para o seu quarto, Harry trancou a porta e se sentou no chão encostado a ela.

Ele nunca saberia dizer porquê chorou. Mas as lágrimas corriam pelo seu rosto de forma quase incontrolável. Silenciosas, como tudo naquela casa. E isso o desesperou, e os soluços vieram, e ele não quis contê-los.

Harry Potter deitou sobre o tapete e chorou. Chorou como não se lembrava de ter chorado. Chorou por toda sua vida e por todos os seus medos e por tudo que não tinha e tudo o que não conseguia fazer.

Chorou por nunca ter se permitido chorar. Mas agora que não havia ninguém, e agora que havia paz e silêncio, agora ele pôde chorar por sentir vontade.

E quando as lágrimas secaram e ele se viu fitando o teto escuro do quarto, dormiu feliz.

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NA: Oi, pessoas.

Desculpa a demora, eu viajei esse fim de semana e voltei cansada, não deu pra postar. Mas a partir da próxima postagem, acredito que tudo já se regularize.

E ai, curtiram o reconhecimento? XD

Beijos e até sexta ^^