III

Anos se passaram e as três almas viveram em paz na colônia, tal qual Catarina havia dito. Aliás, era difícil colocar as coisas em "anos", pois o tempo não era medido da mesma forma que na Terra, bem como a distância.

Os três desempenhavam muitas funções juntos, e com os demais membros da comunidade, dado que precisavam de uma nova orientação espiritual. Violante e Lopo prometeram voltar à Terra como amantes outra vez, e prometeram também que, mesmo que não casassem, consumariam sua união, mesmo contra toda uma sociedade.

No entanto... um dia chegou a hora de Tructesindo, já velho e cansado das batalhas, de desencarnar. E Violante sentiu. Um pavor imenso tomou conta de si, dado que quando a pessoa é apenas alma, as sensações são muito mais intensas, sem serem atenuadas pelo chamado "corpo físico".

- Lopo... meu pai, ele...

- Teu pai...? Ele... desencarnou?

E ele lembrou, assombrado, da morte agonizante e lenta que o pai de Violante lhe dera.

- Sim! Oh, Lopo, ele vai vir até nós!

Catarina os tranquilizou, dizendo:

- Não fiquem assim, meus filhos... temos aqui uma guarnição de pessoas que podem nos auxiliar a defender o local e vocês também.

No entanto, a mãe de Lopo não contava com os poderes que a família dos Ramires, junta e agora unida no além-vida, poderia exercer sobre Violante.

Num determinado momento, um tempo considerável após a morte de Tructersindo, a moça e Lopo, mais tranquilos por estarem segurados pelos amigos do local e por Catarina, andaram até o parapeito onde costumavam se encontrar. Lá permaneceram, olhando o céu e as estrelas, quando ambos, principalmente Violante, sentiu uma presença horrível. Aliás, várias presenças horríveis e cheias de ódio e rancor.

- Lopo... é ele... é meu pai!

O "Claro-sol" sequer teve tempo de responder, pois logo se acercaram de si o antigo patriarca dos Ramires, a mãe de Violante e Lourenço, seu irmão. O único dos três que ainda apresentava um semblante menos agressivo era a mãe.

- Então estás aqui... correste atrás deste cão imundo, em vez de continuar com tua família!! Porca!! Suja! Imunda!

- Alto lá, senhor! - Lopo interferiu, defendendo a amada intrepidamente - Já não basta o que nos fez, a mim e a ela, quando estávamos encarnados?! Agora o senhor vem com esta conversa de ofensas e má linguagem, para ofender àquela a quem deveria pedir perdão! Sua filha abreviou a vida na Terra por não mais suportar a dor de ser tão terrivelmente usada, como um peão em um jogo!

- Cala-te, terrível bastardo! Tu ficaste com minha filha após a morte, mas não mais a terá! Não, eu a retirarei de ti, perro misarável!

- Não podes mais! - Violante, num ímpeto de valentia, confrontou a seu pai - Basta! Não sei qual o erro que cometemos além de nos amarmos! Ele queria me desposar dignamente! Apenas por não ser filho legítimo?!

- Ele é de família inimiga, de sangue ruim!!

- De que adiantou teu sangue nobre, senhor Ramires?! Morreste, e deixaste teu sangue, bem como teu corpo, na Terra, para a Terra dissolver! E que és agora diante de tua genealogia? Apenas um apegado a inúteis tradições!

Todos olharam para cima e viram uma luz, um clarão, aparecendo e "voando" até eles. Era de lá que vinha a voz. Era ela, Catarina, a mãe de Lopo.

Tructesindo, mesmo ante a maravilhosa visão da dama, não a respeitou, e a tratou com deboche.

- Aí está a perra dos de Baião! A mulher que serviu apenas de receptáculo para gerar este avantesma que corrompeu minha filha!

- Perra?! Meu senhor, eu não tive escolha! E mesmo que tivesse, não trocaria de destino; morreria aos dezenove anos, seria concubina e mãe de bastardo, apenas para ter um filho como o meu!

- É bem de tua laia dizer estas coisas! Pois bem! Eu e minha família vamos acabar com esta farra indigna que criaram aqui!!

- Não podes mais fazê-lo! - exclamou Catarina, ainda com fôlego para discutir - Eles não são mais encarnados, portanto o próprio destino apenas eles farão!

- Veremos, senhora!

E o patriarca, acompanhado do filho Lourenço, tentou atacar com sua própria energia o casal rebelde, mas a mãe deles impediu.

- Loucura, Tructesindo! Loucura, Lourenço! Já disse-lhes, da colônia onde vivemos e nos encontramos: tentemos resolver isto em paz!

- Arreda-te daqui, ó mulher! - bradou o velho, empurrando-a para longe. Lourenço a amparou.

- Meu pai! - exclamou ele, apesar da obediência que lhe devia - Ela é minha mãe, e não é correto injuriá-la!

- É tua mãe, mas protege a desonra de tua irmã! Se ainda prezas o nome da família, une-te a mim e deixa-a lamuriar!

Sem mais opções, Lourenço deixou sua mãe e uniu-se a seu pai. Catarina, no entanto, não havia ficado parada. Fora chamar os demais membros da colônia para auxiliar o levante contra D. Ramires. E desta vez, a luta não seria de armas ou lanças, mas da vontade da alma de cada um.

Vicenzo veio na frente e atacou o flanco de Lourenço, mas Tructesindo atingiu a Lopo e o prendeu, em alma, num estado de inércia, com uma espécie de "talismã" que trazia consigo.

- Vês?! - disse ele, provocativamente, à filha - Este amuleto me concede o poder de selar a alma de teu amado por um período indeterminado! Ele não encarnará por muito mais tempo do que pensas!

E Catarina sentiu ímpetos de lançar-se contra o velho pela injúria impingida ao filho, mas Violante foi quem interferiu.

- Pensas que isto me separa dele?! Pois tenta melhor da próxima vez!

E, tomando o talismã do pai num rompante de fúria e coragem, selou não a ele, mas a si mesma dentro do mesmo local de aprisionamento de Lopo. Antes de ser completanmente selada, ainda disse:

"Séculos e séculos posso permanecer aqui, mas quando voltar, voltarei com Lopo. E nem sociedade, nem família, nem laços de sangue, poderão nos separar!"

Tructesindo não sabia como reverter o processo. E isto o fez amaldiçoar a próxima encarnação da filha, com ódio, com despeito.

- Não ficarás impune, ó patriarca pérfido! - exclamou Catarina, e em seguida ela mesma selou o espírito do velho, mais o de Lourenço, na mesma roda dos de Violante e Lopo. Vicenzo selou, enfim, a alma da mãe da moça, por mais que ela não fosse culpada em si.

- Agora, Catarina... - iniciou a falar Vicenzo - delego-te a seguinte função: cuida do talismã até a hora azada para que todos reencarnem. Demorará, mas sei que tu terás o tempo que quiseres e necessitares até lá. Aceitas a incumbência?

Fazendo uma reverência ao colega, Catarina aceitou a missão.

- Sim, Vicenzo. Eu os guardarei até a hora correta.

E assim Catarina voltou a sua própria casa, aparentemente só, mas com o coração aliviado por saber que agora todas as almas envolvidas naquele dilema estavam seguras.

OoOoOoOoOoOoO

Muitos séculos se passaram antes de o poder do talismã enfraquecer. Quando tal poder enfim arrefeceu, Catarina, ainda desencarnada, escolheu ser hora de também reencarnar.

Tructesindo Ramires voltou como Afonso da Maia, um filho de nobres que nascera novamente em Portugal, no século XVIII. A mãe de Violante e Lourenço nascera como Maria Runa, a que também viria a ser esposa de Afonso e mãe de seus filhos.

Lourenço nascera como Pedro da Maia, o qual se apaixonara por Maria Monforte, a qual era ninguém menos que a encarnação de Catarina. Monforte também viera loura e resplandecente para a Terra, mas seu ódio contra os homens provindo da anterior encarnação a faria abandonar Pedro por um italiano.

Com Pedro da Maia, Maria Monforte teve Maria Eduarda, a encarnação de Violante, e Carlos da Maia, a encarnação de Lopo. Ambos vieram como irmãos...

E quando Monforte abandonara Pedro, este ne matara enfim... dando a Afonso o mesmo desgosto que tivera quando Tructesindo: a morte de um filho jovem. A mulher deixara-lhe Carlos e levara Maria, pois mais se afeiçoara à menina.

Quanto a Lopo e Violante, em forma de Carlos e Maria, se reencontraram na idade adulta, e se amaram francamente, sem saber serem irmãos de sangue, filhos do mesmo pai e da mesma mãe... cumprindo a promessa feita ainda antes de encarnar, de ficar juntos independente de família ou laços de sangue.

E esta foi a paga de Tructesindo, então Afonso: ver duas gerações sofrerem por mulheres, ver irmãos unidos num incesto, e logo após saber do ocorrido com seu neto, morrer de apoplexia no final.

Apenas uma nova vida, quem sabe, poderia resolver o dilema final da vida destas pessoas.

FIM

OoOoOoOoOoOoO

Mais uma história finalizada! Ah, pra quem não sabe, as futuras encarnações seriam os personagens da trama de "Os Maias", também de Eça de Queiros. Geeeente, que salada de fruta, fazer os personagens de uma obra encarnarem na outra!! Rs!!

Gente, sobre o "talismã" aí já foge um pouco da temática "kardecista" do negócio, mas acho que mesmo assim fica meio "místico". Desculpem se ficou muito fora do contexto. Rs...


Agradeço a todos que leram e que lerão. Adorei fazer fic do Eça! Aliás, tinha que ter um incestozinho no fim, né?! Sem incesto não sou eu!! Rs!!

Beijos a todos e todas!