Dramas Particulares
Ruby's POV:
A semana seguiu sem maiores intercorrências, por conta da grande nevasca, a prefeita Regina Mills havia bloqueado todas as estradas ao redor da cidade de Storybrooke. Era praticamente umas férias obrigatórias para toda a cidade. Nem a lanchonete, muito menos qualquer outro comércio da cidade abriu pela falta de movimento, e eu fui obrigada a começar a planejar minha surpresa para Belle na própria pousada, escondida de suas várias perguntas curiosas.
"Um belo dia..."
Comecei a escrever, mas acabei riscando. Eu era péssima naquilo, não sei porque raios havia inventado de começar a escrever alguma coisa. Não existia nenhuma outra forma de fazer uma surpresa? Respirei fundo, voltando a encarar o papel, fiz uma careta, arrancando aquela folha rapidamente do caderno e amassando-a. Joguei na cesta de lixo próxima a escrivaninha, encarando mais uma folha em branco. Ainda podia escutar o barulho do chuveiro vindo do banheiro do quarto, o que significava que eu ainda tinha alguns minutos à sós para ao menos começar aquele texto.
" Eu nunca achei que fosse possível, eu nunca acreditei que alguém..."
Parei novamente encarando a letra desajeitada com que eu havia começado a rabiscar a nova folha. Mais uma careta, arranquei mais uma vez a folha, naquele mesmo ritual e a amassei. Segurei minha nuca, angustiada por não conseguir colocar meu plano em prática. Parecia tão mais fácil bolá-lo do que de fato fazê-lo. Eu estava tão entretida com minha falta de criatividade, que se quer havia percebido Belle entrar pela porta, e só de fato a percebi lá, quando senti um beijo em minha nuca. Me arrepiei, ainda podia escutar o chuveiro, como Belle podia estar ali. Me virei e ela sorriu para mim, estava enrolada apenas em uma toalha. Gelei, por pouco ela não vira meus rascunhos. A senti beijar meus lábios com carinho em um selinho, o que me fez sorrir, apesar de ainda estar tensa por ter sido pega quase no flagra.
- Pode dizer que eu inspiro todas as suas poesias...- Belle sorriu, envolvendo meu pescoço com ambos os braços, e eu acabei rindo. – Vamos...não vai me mostrar que tanto rabisca ai? – Escutei sua voz manhosa, toda delicada, enquanto que com uma mão acariciava meu rosto com a ponta dos dedos, ao mesmo tempo que a outra segurava a toalha que estava enrolada em seu corpo.
- Não tem nada demais...eu tentei, mas... – Acabei fazendo um biquinho, imitando Belle, eu sabia ler aquelas expressões dela, com o olhar e todo aquele jeito dengoso ela implorava para que eu mostrasse o que quer que fosse. Segurei em sua cintura, mantendo-a perto do meu corpo, e estiquei minha coluna para sussurrar em seu ouvido, já que Belle permanecia em pé. – Rosas são vermelhas, violetas são azuis. Com essa falta de roupa, você me seduz...
Brinquei com Belle em um sussurro malicioso, e acabei por levar alguns tapinhas no ombro.
- Você nem merece o convite que eu vim fazer...- A castanha resmungou e foi minha vez de formar um beicinho nos lábios, afim de convencê-la a mudar de ideia. Acariciei sua cintura, por cima da toalha que lhe cobria o corpo, com a ponta dos dedos ainda mantendo-a junta de mim.
- Se você mudar de ideia, posso até tentar rimar melhor...- Pisquei para ela, e Belle abriu um sorriso.
- Vamos aproveitar que temos a pousada só para nós?! Eu vim te convidar para...hm...- Seu tom de voz baixou um pouco mais, e o sussurro em meu ouvido fez com que eu arrepiasse. -...tomar banho comigo!
Me levantei no mesmo instante, deixando de lado aquele caderno que eu tentava desde cedo escrever algo, e a encaminhei para o banheiro. Não sei por quanto tempo ficamos nos amando, curtindo aquele tempo que tínhamos, possivelmente havíamos passado a tarde inteira ali, pois quando saímos do banheiro já havia escurecido.
Belle seguiu para a cozinha, na tentativa de nos preparar a janta, enquanto eu prometi que tentaria arrumar a TV, era nosso único meio de comunicação, já que os telefones estavam fora do gancho.
- Amor...você já tentou mudar a Atena? – Ela palpitou da cozinha, podia ver que apesar de estar preparando a sopa, ela me espiava de lá preocupada a cada xingo que eu dava.
- Não é possível...isso...isso...grrrr! – Resmunguei irritada, jogando a antena longe, e caindo sentada no sofá, emburrada. Não queria admitir, mas a semana que eu achei que seria um paraíso para nós, estava começando a me irritar. Quer dizer, eu amava a parte de poder estar com Belle, de tê-la só para mim, de não termos horários, mas ao mesmo tempo o pressentimento de que algo ruim estava se aproximando, cada vez mais parecia presente e com isso, minha corrida contra o tempo para pensar em um pedido de casamento o suficientemente romântico, bonito e criativo a altura de Belle.
- Ei...ei...- A vi baixar o fogo do fogão e vir se aproximando em direção a sala. – Eu te conheço...- Ela limpava as mãos no avental de corações com que costumava cozinhar. -...e não é só isso que está te preocupando, não é? – Belle indagou, sem me dar alternativa.
- Belle...não vamos...
- Sim,...nós vamos...você está preocupada e a única hora que parece esquecer por alguns instantes é quando estamos na cama...e olhe lá, porque mesmo assim você parece preocupada e com pensamento perdido muitas vezes e ...eu...- Eu sabia que quando Belle tomava fôlego para falar, não pararia tão cedo, por isso a interrompi com alguns selinhos.
- Amor...tá tudo bem..eu só...- Mas minha voz sumiu, eu não sabia como argumentar, e como explicar meus pressentimentos?
- Você percebeu que não gosta de passar tanto tempo comigo, não foi? – De repente fui atacada pela crise emocional de Belle, ela sempre tinha estas inconstâncias emocionais quando ficava insegura.
- Não...Belle, por Deus, é claro que não...eu amo estar com você...eu só...
- Você só?! – Seus olhos azuis continuavam encarando os meus, pela determinação que eu conhecia de Belle, ela só pararia quando tivesse a resposta.
- Essa nevasca...isso não é normal...isso...- Engoli as palavras, abraçando-a em meu corpo, e beijando a testa dela.
A castanha não se afastou do abraço, ficamos em silencio alguns instantes, quando ela tornou a quebrá-lo, com a voz baixa.
- Por favor, me conte...- Belle pediu.
- Isso me cheira a maldição. – Confessei. – Posso estar enganada, mas eu vivi no meio do gelo, de nevascas, grande parte da minha vida...Belle, eu sou uma loba...e...lobos vivem entre as mais fortes nevascas,...nunca...nunca em minha vida vi algo assim...
- Nós estamos no inverno...- Ela tentou argumentar.
Segurei o rosto de Belle, encostando minha testa na dela. Meus olhos permaneceram fixos àquelas orbes azuis.
- Isso é tudo, menos inverno! – Sussurrei, e vi sua expressão de contrariada no mesmo instante, mas antes que eu deixasse ela falar, a interrompi. -...mas eu irei nos proteger, não importa o que seja!
Nos abraçamos fortes mais uma vez, e embora eu tivesse prometido a Belle que não faria nada sem avisá-la, aquela noite mesmo eu estava decidida a descobrir quem estava por trás de tudo isso. Como de costume, nos recolhemos antes das dez da noite, ficamos conversando e namorando um pouco na cama, até Belle pegar no sono por volta da meia noite e meia. Afim de me certificar de que ela estaria dormindo, permaneci deitada com ela até o relógio bater uma da manhã, quando levantei, com cuidado, para não levantar suspeitas.
Por cima do pijama, vesti uma calça de moletom e um casaco reforçado de neve e deixei a pousada. Lá fora o frio era cortante, talvez ainda mais gélido que no dia que voltamos da floresta, e embora eu tentasse me proteger, podia sentir novamente a pele de meu rosto se cortando. Caminhei em direção a enorme neblina,as montanhas que cercavam a floresta. Estava bem próximo do que chamavam de cidade fantasma, nenhuma viva alma, nem um barulho, se não um corvo ali, ou outro aqui, quem quer que estivesse por trás de tudo, sabia planejar, e mais do que isso, colocar em execução seu plano...e eu tinha uma leve impressão de quem seria. Vistoriei toda a Storybrooke e em seguida a floresta, e sem sucesso, acabei retornando para a cidade. Pelo céu, eu sabia que estava perto de amanhecer, porém, arrisquei ir até a biblioteca que havia sido interditada à algumas semanas, se havia algum lugar que poderia me dar resposta, com certeza seria a biblioteca de Storybrooke. Quatro livros de maldição e um sobre efeitos naturais, este havia sido meu chute, porém, diferente do que eu imaginava, não havia nada sobre maldições relacionadas aos filhos da Lua, nada que pudesse me trazer uma pista do que estava sendo tramado. Deixei a biblioteca por volta das cinco e meia da manhã, sabendo que não poderia arriscar mais tempo ali, muito em breve Belle acordaria e se não me encontrasse, aquilo poderia causar ainda mais problemas.
- Ruby?!- Escutei a voz vinda do topo das escadas, rapidamente retirei a roupa que havia vestido por cima do pijama, colocando no armário embaixo da pia da cozinha. Liguei a torneira, lavando a louça que sobrara do dia anterior.
- Na cozinha, querida...- Disse um pouco mais alto, e quando me virei, Belle já me encarava, por sorte eu havia tido tempo de jogar um pouco de água em meu rosto, limpando os cortes que o frio havia causado.
- O que...você está lavando a louça as seis horas da manhã? – Ela resmungou, se aproximando, e acabei sorrindo, ao sentir a presença de seu corpo em minhas costas, quando a castanha me abraçou por trás. Belle parecia bastante sonolenta e tinha o cabelo todo desgrenhado, o que me fez sorrir, eu adorava vê-la quando acordava, era ainda mais linda do que quando estava toda produzida. Continuei ensaboando a louça, com o calor do seu corpo no meu, causado por aquele abraço colado. – Você está fria...você não deveria estar embaixo das cobertas com a sua namorada? – Ela resmungou e senti seus dentes arranharem levemente minhas costas por cima da camiseta do pijama, em uma mordida.
- Insônia...- Resmunguei, fechando a torneira, e me virando, ficando frente a frente com Belle, não cheguei a tocá-la, por conta das mãos encharcadas pela louça, mas eu sorria ao encará-la. – Mas você vindo me buscar assim...como eu poderia recusar? – Mordisquei seu queixo, e Belle sorriu, acariciando meu cabelo. Porém, pude perceber sua expressão ir se transformando, até ela se afastar, me dando um leve empurrão no ombro. Possivelmente ela havia percebido os poucos flocos de neve que ainda estavam em meu cabelo escuro.
- Você foi para fora, não foi?! – Ela retrucou, cruzando os braços, e me encarando de longe.
- Belle...
- Você foi! – A castanha me acusou. – E tinha prometido que me avisaria de tudo que...
- Você não acreditaria em mim. Você não acredita quando eu digo que há algo de errado, você...
- Você coloca empecilho em tudo, Ruby! – Ela bufou, mal-humorada.
- É uma maldição, Belle...eu sei que é...e...eu sei quem está por trás disso.
Ela cruzou os braços, sabendo o que eu queria dizer.
- Lógico.,...lógico, você quer que eu chute agora ou daqui a pouco quem você acha que é o suspeito?
Arqueei uma das sobrancelhas. Belle estava defendendo-o?
- Você está...
- Vamos Ruby, fale...porque você sempre vai o culpar. Você o culpava antes por nossas brigas, depois por nossa quase separação...por que não o culparia agora, não é?!
- Rumple está por trás disso, eu sei que está, Belle! – Deixei claro, mas vi ainda mais fúria nos olhos de Belle.
- Você deveria aprender a ser menos insegura, eu estou com você...não com ele.
Segurei o braço de Belle, sem força, apenas para mantê-la ali, porque sabia que mais um pouco ela partiria daquela cozinha.
- Eu sei disso. Eu confio em você, mas eu não confio nele...ele nunca aceitou, ele nunca vai aceitar ter te perdido...e você sabe disso! – Disse com sinceridade.
- Mas ele terá que entender! – Belle insistiu. – Eu amo você, isso importa, só isso! – Embora eu quisesse acreditar nela, que só aquilo bastava, aquela inocência não me cabia, eu sabia que existiam muitos outros fatores.
- Por Deus, Bell...ele não é como você, como eu,...ele é um...- Parei de falar, já que os olhos de Belle me encaravam como se ela me desafiasse a continuar. -...ele é egoísta, só pensa nele.
- Pelo jeito ele não é muito diferente de você. Você prometeu que não me deixaria, que não correria riscos, e mesmo assim saiu, sem pensar no que poderia acontecer...e...e eu te perde-...
Não a deixei terminar, a abracei forte, sussurrando em seu ouvido, não querendo deixá-la sair de meus braços.
- Mas você não perdeu, eu estou aqui.
Belle se esquivou, se afastando. Seus olhos buscaram os meus.
- Então me mostre que eu posso confiar em você, Ruby, que você não irá esconder mais nada de mim.
