CAPÍTULO 4: A Rota do Cadáver II

A enfermeira e a treinadora tinham uma reunião urgente à porta da enfermaria, e por uma vez o tema não era um acidente de Quidditch.

-Então o que é que McGonagall te disse?

-Não sei de que tanto sabe, mas creio que esteve a investigar. Tarde ou cedo vai chegar a nós. Parece que esse Gilderoy esteve a caminhar por toda a escola.

-Mas estava morto quando o examinei! -protestou Poppy.

-Admito que não sei muito de anatomia mas posso distinguir perfeitamente os mortos dos vivos, e o professor estava muito bem morto quando o carreguei -disse Hooch.

-E asseguro-te que continuava morto quando o examinei.

A enfermeira encostou-se languidamente na parede e a treinadora sentou-se no solo junto a ela.

-Sprout não é boa a ponto de invocar um inferi, ou sim?

Poppy negou lentamente com a cabeça.

-E tampouco pôde ter estado a movê-lo com feitiços. Eu mesma revisei que não houvesse feitiços de movimento na sala.

As duas alarmaram-se ao escutar passos no corredor de baixo. Faltavam horas para que os alunos se levantassem para tomar o pequeno-almoço. Passos extraordinariamente pesados seguidos de outros mais suaves, e um tilintar de metais em movimento. Uma voz feminina tentava conter os soluços de outra garganta mais rouca.

-Professora Sprout... você é... sniff... tão amável... sniff... eu não teria podido…

-Pronto, Hagrid. Vai ficar tudo bem –disse Sprout, num tom tranquilo-. A professora McGonagall mandou-me a investigar porque Myrtle estava a fazer um escândalo no quarto de banho clausurado e ali estava.

A professora lançou uma furtiva à armadura que Hagrid carregava como um grande saco sobre os seus ombros. Por sorte era de um aço bastante grosso ou não teria resistido aos golpes que recebia a cada passo do semi-gigante. Ainda que definitivamente ao defunto dentro da armadura lhe teria dado o mesmo se o estivessem a cremar com um montão de folhas ou a deixá-lo apodrecer no pântano do lago onde as sereias jamais entrariam. Por suposto Sprout tinha melhores planos para um cadáver novito com um histórico tão interessante, mas mais lhe valia um cacete que o seu carregador pensasse outra cosa.

-Espero... sniff... devolver-lhe algum dia este favor... você é muito boa pessoa.

Na esquina, a enfermeira e a treinadora seguiam a professora e o guardião das chaves com a mirada. Enfrentá-los seria decididamente estúpido.

-Mas então, vamos deixá-lo aqui por hoje? -disse Hagrid, alçando as suas sobrancelhas bonacheironas-. Algum dos meninos poderia ver.

Hagrid fazia esforços por pôr a armadura de pé sobre um pedestal no corredor. A professora não parecia querer acercar-se.

-Uma armadura num corredor não tem nada de suspeito. Ninguém o verá.

Quando por fim esteve posicionada, um feitiço bastou para deixá-la firme.

-Voltaremos sábado à noite para buscá-la, de acordo?

Mal ambos deram a volta nas escadarias, as senhoritas Pomfrey e Hooch levantaram a estátua com pedestal e tudo e correram para a enfermaria. Em quanto recuperaram o fôlego, entre risos e festejos, começaram os planos.

-Em pedacitos? -sugeriu Poppy-. Poderia-mos levá-lo pouco a pouco.

-De todas as maneiras teria-mos que escondê-los em algum lugar e nesta escola não falta o idiota anónimo que se dê conta –disse Hooch- Há que esfumá-lo.

A enfermeira mirou instintivamente até o armário das poções.

-Uma base forte -disse, lacónica.

-Nos alicerces? Como chegaremos aí?

-Não, não, uma base. Um alcalí, o contrario de um ácido. Podemos dissolvê-lo em hidróxido de sódio.

-Poppy, como pensas conseguir suficiente para dissolver um homem de oitenta quilos?

-Os elfos usam-no para branquear pedreira, ficam vinte galões da última vez. Encarregarei uns dez para limpeza. Trarão-mos durante a tarde.

Tirar o homem da lata foi laborioso e aborrecido, mas tiveram toda a manhã para fazê-lo. A senhorita Pomfrey, com a sua minuciosidade habitual, ajeitou-lhe a túnica púrpura e deitou-o na última cama.

A treinadora, entretanto, buscou como enlouquecida um caldeirão de trezentos litros. Por fim encontrou um muito adequado ao propósito, de aço colado, com grossas pegas de argola e quatro patitas, numa porta que nunca havia visto, mas igual levou-o. Perguntou-se desde quando encontrava portas nunca antes vistas em Hogwarts.

As quatro patitas como de crocodilo seguiram-na (ainda que tiveram alguns problemas para descer as escadas) até ao escritório de Gilderoy, onde a enfermeira já tinha o ácido e alguns galões de água. Sentaram o professor na sua secretária, enquanto de seguida preparavam todo o quarto. Não estava bem firme sobre a cadeira, mas o que é que importava se escorregava?

.::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::.

O professor Severus Snape adentrou-se na nuvem de odor amargo e picante, rumo à sala de Defesa para recolher alguns frascos que deixou antes do regresso de Gilderoy.

Conhecia esse aroma. Arrancapele a meio preparar.

De regresso, o odor havia-se tornado mais forte. Vinha do escritório do professor Lockhart. Agora também queria dar poções? Era momento de terminar em privado a conversa que tinham tido há algumas horas no seu escritório frente a Potter e Companhia.

Com vários frascos de veneno na mão, Severus entrou no escritório. Semi-escuro, recordava-lhe o estilo da sala de espera da loja de roupas para todas as ocasiões, e tremeu de raiva pensando em semelhante imbecil dando Defesa. O imbecil em questão via-o com um olhar indiferente desde a sua cadeira, milagrosamente sem falar. Severus deixou os frascos sobre a secretária, recordando um pequeno truque que considerava o seu achado pessoal: a primeira fase da poção Arrancapele requeria repousar pelo menos três horas para afinar o seu efeito.

Meio sorriu pensando que alguém mais tinha agarrado o truque da Arrancapele. Tal vez o imbecil sabia um pouco mais do que aparentava, dado que se tinha sentado a esperar em vez de jogar-se para terminá-la como fazia toda gente. Enquanto o professor de poções percorria com a vista os adornos do escritório, Gilderoy seguia encarando-o em silencio. Severus sentiu que era um convite para dialogar.

Estabelecer contacto adequadamente com outras pessoas não era o seu forte, mas dava-lhe curiosidade em que poderia o outro professor querer utilizar a Arrancapele. Esforçando-se por ver-se casual, tentou iniciar a conversa enquanto observava um quadro na parede.

-Essa paisagem... são os Alpes Suíços, não é assim?

Tal vez não era o caminho para iniciar o diálogo. Dirigiu as suas mãos a um pequeno amuleto muggle pendurado na esquina da moldura. Recordava longinquamente ter visto algo assim na capa de um livro de Gilderoy que confiscou a uma Hufflepuff do quarto ano. E não é como se o tivesse lido, bom, talvez um pouco, mas não o fez por muito tempo, ainda que ao seu ritmo de leitura naturalmente avançou umas duzentas páginas antes de dar-se conta.

Oh, está bem, está bem, sim, leu o livro. Mas foi para criticar a sua gramática, naturalmente. Um pobre vocabulário, algumas metáforas mal gastas, descrições curtas de cenas essenciais, um final previsível com uma morte inesperada, que teria desfrutado mais se a Delawey não lha tivesse contado por adiantado "acidentalmente". Isso sim, a redação era tão simplória que era impossível não acompanhá-la. Talvez por isso os livros de Gilderoy tinham tanto êxito.

-Como pensa continuar a escrever, agora que dá aulas? -perguntou num tom quase amistoso.

O silencio do falador professor estava pô-lo frenético... não, melhor dizendo irritava-o. Quem se cria esse tipo?

Aí estava Snape, tratando de abrir um pouco o seu escuro coração, e o sujeito desprezava-o com um completo silencio.

.::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::..::.

Exceto por um que outro sussurro, as duas bruxas arranjara-se para trabalhar em silencio. Sentiam-se como umas adolescentes a preparar poções às escondidas. Talvez por isso lhes inquietou escutar movimento na divisão contigua.

Discretamente espreitaram pela porta entreaberta. O ar fresco veio-lhes de maravilha. No escritório, o professor Severus Snape mantinha uma espécie de monólogo dirigido ao extinto Gilderoy Lockhart. Ambas afogaram um risito.

-Eu disse-te que ele estava loco -murmurou Poppy.

-As pessoas que falamos sozinhas preferimos que nos chames "mentalmente interessantes" -disse

Hooch em voz baixa-. Somos tão interessantes que não necessitamos a ninguém mais para conversar.

Esta vez Poppy não conseguiu afogar de todo o riso. Fecharam a porta a toda velocidade antes de que Severus volteasse. Lá fora, o ritmo do monólogo subiu de indignado a raivoso. Severus deve ter pensado que Gilderoy se ria dele. Com a orelha pegada à porta ambas as bruxas escutaram Severus fazer uma pergunta que naturalmente não foi respondida. O professor de poções encheu-se de cólera. Qualquer plano de fazê-lo partícipe do incidente foi-se pelo ralo abaixo. Severus livrava toda uma batalha contra o inerte professor de Defesa. De repente, escutou-se um feitiço especialmente distinguível.

-Sectumsempra!

O escritório balançou-se. Um canto, um gritito de desespero, um feitiço desilusionante, a porta

abrir-se e depois nada. A treinadora e a enfermeira espreitaram para o escritório. Nem Gilderoy nem Severus, mas sim uma secretária destroçada.

-Que vamos fazer com esse caldeirão de ácido?

-A fachada sul está muito suja, creio que pedirei aos elfos que a limpem -disse Poppy mirando o caldeirão.

-E Gilderoy?

-Agora é problema de Snape.

Ambas assentiram com a cabeça. Se Sprout tratava de tirar-lho, encontraria um rival do qual nem Hagrid a poderia proteger.