Leia encarou Ackbar sem piscar. Ficou estática tentando absorver aquela informação. Passado seu momento inicial de choque ela fez uma coisa que jamais pensou que faria numa situação daquelas: ela riu.
Começou com uma risadinha hesitante, mas logo estava gargalhando. Os outros a olharam apreensivos e chocados.
-Leia...
-Desculpe, Ackbar... é só que...- mas não conseguia se explicar.
Estava sem seus pais, seu planeta, seu irmão, seu marido... e agora isso. "O que mais podem tirar de mim agora? R2-D2? Minhas tranças?", perguntou-se amargurada. Parou de rir quando aqueles pensamentos lhe ocorreram. Era absurdamente egoísta, ela sabia. Mas não podia evitar. Mon Mothma era sua mentora e, depois da Rainha Organa, a mulher que mais admirara na vida. Uma parte mesquinha dentro de si lhe disse que aquilo era tudo culpa da Aliança, mas respirou fundo e encarou o acontecido racionalmente. "Não. Isso é culpa do Império.".
-Desculpem. Não sei o que me deu. Por favor, me contem o que aconteceu.
-Ela foi achada morta em sua cama.- disse o almirante sem piedade.- Envenenada.
-Envenenada?- questionou Leia se esforçando para impedir as lágrimas.
-O laudo indicou que o veneno demorou a surtir efeito.- explicou um comandante.- Acreditamos que alguém pôs um veneno de ação lenta em sua comida. Ou, talvez, ela cometera suicídio.
Leia se arrepiou. Aquela conversa de laudo não a deixava nem um pouco confortável. Imaginou o corpo de Mon Mothma aberto em uma mesa.
-Não. Mon Mothma jamais cometeria suicídio. Quem fez isso queria que ela morresse sozinha. Talvez até queria que pensássemos em suicídio.- concluiu Leia.- Se vocês a acharam morta na cama, imagino que ela estava dormindo quando...
Ela não terminou a frase. Nunca, em toda sua existência, pensou que usaria aquelas palavras para se referir a Mon Mothma. Houve um murmúrio de concordância.
-Ela não tem empregados nem família. Morava sozinha. Demoramos dias para procurá-la.- disse o comandante um pouco constrangido.- Devíamos ter iniciado uma busca mais cedo.
-Deviam mesmo.- repreendeu Leia.
-A questão é que, - interrompeu Ackbar.- No dia da sua morte ela teve uma reunião com representantes de alguns sistemas.
-E...?
-E suspeitamos que um deles a envenenou.- completou outro comandante.
-E isso não é tudo.- disse Ackbar.- Havia outros membros da Aliança naquela reunião.
Silêncio. Todos se entreolharam. Com certeza já tinham discutido aquilo antes, mas sempre há um certo temor no ar quando alguém sugere que há um traidor dentro daquele grupo. Leia não acreditava que um dos membros da Aliança, as pessoas com quem ela lutou lado a lado, era responsável pela morte de Mon Mothma.
-Quem são os suspeitos?- perguntou a princesa.
-Temos uma lista. Bastante extensa.- respondeu Ackbar.- Já iniciamos uma investigação.
Leia imaginou que, quem quer que fosse que estava naquela reunião, não estava na sala agora. Ela olhou para os presentes, todos tinham cara de quem estava omitindo uma informação. Por um segundo ela teve medo de estar entre as suspeitas, se arrependeu de ter rido antes, mas então Ackbar disse:
-Leia, há outra coisa que queríamos discutir.
-Sim?- perguntou tremendo. "Han!", pensou imediatamente, "Ele também morreu, não foi? É por isso que não me dizem onde ele está.". Ela ficou sem ar.
-Mon Mothma, em seu testamento, deixou todos os seus bens para você. Ela também deixou uma nota dizendo que considerássemos a senhora para ser sua substituta como líder da Nova República.
Mel limpava a areia da frente da casa quando viu seu primo chegar com um estranho encapuzado. Ficou nervosa. Não gostava quando Rosch trazia visitas, sempre eram desagradáveis e rudes. Sem falar que ela tinha que limpar a bagunça deles depois.
-Temos visita, faça um jantar decente.- mandou Rosch quando se aproximou dela.- E não me envergonhe.- acrescentou com um tom de ameaça.
Mel assentiu e abaixou a cabeça.
-Boa noite.- desejou Luke sem esquecer as boas maneiras.
-Boa noite.- respondeu Mel um pouco surpresa. Ela olhou para o estranho. Ele parecia exausto. Tinha os olhos de quem já vira muita coisa e sofrera por isso, mas também eram gentis. Mel se perguntou o que uma pessoa aparentemente sensata e boa estava fazendo com Rosch.
Luke também teve uma sensação estranha. Era como um formigamento na alma. Aquela menina tinha algo de errado... ou certo. Provalvemente não era nada demais, mas anotou mentalmente para analisar aquilo mais tarde. Agora ele tinha que sair daquela situação.
É claro que concordara com o garoto, não queria que ele fizesse escândalo. Mas não podia ficar alí. Primeiro porque não gostava nem confiava nele, e segundo porque tinha coisas importantes pra fazer e não podia se dar ao luxo de perder tempo.
-Eu sou o dono dessa casa.- disse Rosch orgulhoso quando todos se sentaram para o jantar.- Nossos pais morreram na guerra. Iam nos mandar pra um orfanato, mas eu não deixei. Eu fugi. Com eles.- contou admirado com o próprio ato de nobreza e indicando Kesch e Mesch com a mão.- Ah, e essa aqui também.
Mel veio para colocar a jarra de suco na mesa. O jantar era apenas algumas sobras do almoço e um pouco de tempero que ela mesma fizera. Se não houvesse visita Rosch estaria reclamando da falta de variedade, como ele sempre faz. Mas no momento estava ocupado contando suas glórias.
-Ela não é minha irmã, ah, não.- disse fazendo uma careta só de imaginar tamanho absurdo.- Seus pais a abandoram, os vagabundos. Meus pais foram caridosos aceitando tomar conta dela, por isso não tive coragem de abandoná-la, sabe. Por causa deles.- ele fez uma pausa e suspirou para demonstrar seu sofrimento e sacrifício.
-Uhum.- respondeu Luke. Ele não estava prestando a menor atenção. Ao invés disso pensava em como aquele garoto consiguira bloquear seus poderes Jedi. Não tentava controlar a mente de alguém já tem um tempo, talvez a falta de prática...
-Mas você ainda não me disse seu nome.- disse Rosch que àquela altura já estava cansado das respostas apáticas do Jedi.
-Hum...- Luke não tinha ideia de até que ponto as pessoas sabiam sobre o que acontecera em Endor. Sabia agora que todos já conheciam os Jedi, mas será que conheciam Luke? Não podia arriscar. Tinha que inventar uma mentira. Acontece que ele nunca fora muito bom em mentir, até pra criar um nome falso ele tinha dificuldade. Desejou que Han estivesse alí para mentir por ele.
-Um Jedi tem muitos nomes.- disse por fim. Era parcialmente verdade. Obi-Wan também era chamado de "Ben".
-Sei...- disse Rosch descrente.- Mas do que nós devemos chamá-lo?
-Hum... vocês podem me chamar de Ben.- "Por quê não?", pensou, "Parece apropriado.".
-"Ben" não soa como um nome de Jedi. Eu gosto de "Luke Skywalker".- ele disse com os olhos brilhando.- É o nome do que matou o Imperador.
-Eu não sou um Jedi muito bom.- ele disse, embora quisesse explicar que não foi bem assim que o Imperador morreu.
-Percebi.- respondeu Rosch já perdendo o interesse em Luke. O garoto chamado Kesch bateu as mãos na mesa.
-Mais!- gritou. Se tinha uma coisa que Luke aprendera naquele jantar é que ele não gostava muito de crianças.
Mel apareceu prontamente para colocar mais comida em seu prato. Luke franziu a testa.
-Você não vai comer conosco?
Mel olhou espantada pra ele, surpresa de alguém ter lhe dirigido a palavra. De uma forma gentil, isto é.
-Hum... não, senhor.
Luke rapidamente se corrigiu.
-Desculpe, não quis lhe ofender.
-Não, tudo bem...- ela enrubesceu.- Desculpe, hum... eu não estou com fome.- disse omitindo o fato de que se ela sentasse à mesa com eles, muito provavelmente levaria uma surra do primo. Mas Luke consiguiu ver através daquelas palavras.
-Bem, o jantar está delicioso. Foi você quem fez?
Ela assentiu ficando cada vez mais vermelha. Rosch limpou a garganta, não gostou daquela mudança de assunto.
-Então... onde você foi treinado?
-Ahn... Jedi não são treinados. Nós nascemos com nossos poderes.
-Bem, sim, mas vocês tem que aprender a manejar um sabre de luz, pelo menos.- disse Rosch perdendo a paciência com aquele Jedi burro e velho.
-Oh, não é muito difícil.- Luke não era orgulhoso, mas estava cansado de ser desrespeitado por aquele moleque. Ele puxou seu sabre de luz.
Todos olharam admirados. Rosch sorriu diante daquela luz verde. O Jedi era velho e inútil, mas aquele sabre não era. Poderia usar Ben para coletar alguma informação sobre os Jedi e depois roubar o seu sabre e fugir. Sim. Parecia um bom plano.
Luke guardou seu sabre de luz de volta.
-Você vai ficar conosco não é, Ben?- perguntou Rosch com ternura na voz, mas com olhos gananciosos, revelando sua falsidade.- Afinal, você não tem pra onde ir. E não pode dormir lá fora. Aqui fica frio de noite.
Luke queria dizer que já enfrentara um frio muito pior. Mas teve que parar para pensar. Ele realmente não tinha onde ficar e não queria ter que dormir na sua nave apertada que estava agora há quilômetros dalí, em um porto de Mos Eisley. E também... ele sentia algo estranho naquelas crianças.
Apesar dele ser um homem vivido, que lutou em várias batalhas e já tinha até barba na cara, sentia um pouco de receio com relação ao garoto Rosch. É claro que pessoas educadas sempre se sentem um tanto quanto intimidadas perto de gente grosseira, mas aquilo era algo diferente.
A garota Mel, por outro lado, era o oposto. Luke olhou para a menina sentada no canto que o olhava de volta num misto de admiração e temor, percebia uma boa energia vindo dela e não era só pela suas maneiras gentis. Em muitas formas ela era mais poderosa do que Rosch e poderia se livrar dele. Luke sentiu seu lado "herói" o chamar para ajudá-la. Um pouco de orientação, de conselhos... então ele poderia continuar sua busca por novos Jedi.
-Sim, eu ficarei. Muito obrigado pela generosidade.- ele sorriu para Rosch que sorriu de volta. Cada qual com seus planos formulados na cabeça.
Leia não podia dizer que aquilo a pegou totalmente de surpresa. Sentia que algo errado havia acontecido. Era como se soubesse que alguém havia morrido. "Talvez eu soubesse mesmo.", pensou, lembrando-se de que a Força estava muito presente nela.
Enquanto olhava para o interior vazio e frio da casa de Mon Mothma analisava a sua morte. "Ela não poderia ter se matado", insistiu para si mesma, "Ela teria deixado uma mensagem ou... algo.". Bem, ela deixou. Seu testamento.
Ainda não o lera, mas sabia que havia uma mensagem indicando-a para ser a nova líder da República. Quando ela fizera aquele testamento? Parecia até que Mon Mothma sabia que ia morrer...
"Não! Ela não se matou!", pensou mais uma vez. O seu assassino era um idiota, ele não soube fazer parecer que fora um suicídio. "Ou talvez ele não se importasse.", lhe ocorreu de repente, "Talvez ele soubesse do seu testamento e seja a mim quem ele queira matar.".
Até que fazia sentido. Leia estava viajando esse tempo todo, se o assassino soubesse do testamento então ele sabia que iam trazê-la de volta para Coruscant assim que Mon Mothma morresse. Ela olhou rapidamente a sua volta, se arrependeu de ter ido até lá sozinha.
"Ou talvez ele só queira desestabilizar a República". Matando todos os líderes, a República desmoronaria. E ela já está frágil o suficiente. Muitos sistemas não acreditam nessa nova forma de governo, se descobrirem que sua líder foi assassinada...
Não discutiram com Leia a questão da sucessão em respeito a morte de Mon Mothma, mas não podiam evitar esse assunto por muito tempo. Leia não queria ser líder. Não poderia! A filha de Darth Vader não podia ser a nova líder da República. É claro que ela não tinha as tendências ditatoriais de seu pai, mas os outros não veriam dessa forma.
Ninguém sabia de seu pai além de Luke e Han. Luke era seu irmão e a única pessoa que entendia o que era ser um Skywalker e um Jedi. E Han... ele a amava e a conhecia. Nunca a tratara diferente por ser filha de Vader. Mas e os outros? Toda a Aliança e os sistemas, quem iria acreditar que ela não pretendia restaurar o Império?
Mon Mothma concordaria com ela, se soubesse. Aquilo a fisgou. Mon Mothma era sua amiga e morrera sem saber do seu maior segredo. O que será que ela pensaria de Leia se soubesse? A princesa sentou-se no chão e segurou a cabeça com as duas mãos.
-Ai, R2...
O androide apitou perto dela. Era a única voz familiar que ela podia ouvir no momento. Começou a chorar. Sentia-se tão vazia quanto aquela casa. Se estivesse com a Rainha Organa ela choraria em seu colo e ouvira palavras acalentadoras. Se estivesse com Bail ele lhe diria para ser forte e que ficaria sempre ao seu lado. Se estivesse com Luke ele lhe ensinaria os caminhos da Força e compartilharia da sua dor. Se estivesse com Han ele lhe daria um abraço e por ter quase o dobro de sua altura ela se perderia entre seus braços e por um segundo todos os seus problemas desapareceriam.
Mas todas aquelas pessoas não estavam mais lá. Algumas ela tinha certeza de que jamais veria, outras ela ainda tinha esperanças. Mas no momento ela estava só, logo quando mais precisava de companhia.
