Desculpem-me se houver algum erro.
Capítulo 2
Edward Cullen abaixou a cabeça e apressou o passo na direção da gôndola. O tempo estava combinando com o seu humor: terrível e imprevisível, as emoções indo da tristeza à raiva e ao arrependimento. Ele não fora capaz de acompanhar todo o funeral do pai. Tantos louvores haviam embrulhado seu estômago, e o sofrimento genuíno da mãe alimentara sua fúria. A ansiedade da irmã pedindo para que ele, por favor, não tornasse as coisas piores, apenas cimentara sua decisão de sair correndo antes que amaldiçoasse o pai para que queimasse no inferno por toda a eternidade.
E, para isso, não haveria volta.
Naquele momento, desejara uma mulher em que pudesse se perder — e havia muitas ao redor —, mas mesmo aquele pequeno conforto fora manchado pelo legado do pai de negligência, irresponsabilidade e apetites que não eram facilmente saciados.
No que dizia respeito às mulheres e às relações sexuais, Edward também não se satisfazia facilmente. E nenhuma mulher merecia o uso insensível que ele faria de seu corpo naquela noite. Era melhor para todos que ele simplesmente praticasse o que seu falecido pai nunca praticara e ficasse sozinho. Preferira ir para a montanha, para prantear o pai à sua própria maneira. Ou não.
Os teleféricos fechados, as gôndolas, eram uma novidade na montanha, que contara com seu apoio. Atualmente, os esquiadores apreciavam o conforto.
Edward levantou os olhos para a torre de controle das gôndolas e acenou para Emmett. Não sabia por que o homem não comparecera ao funeral, já que sempre fora completamente leal a Carlisle Cullen.
Um jovem muito agasalhado saiu da torre e se encaminhou na direção da gôndola que aguardava. Edward sacudiu a neve do casaco e passou a mão pelos cabelos assim que se viu sob a cobertura da estação dê embarque. A porta da gôndola se abriu, e havia uma caixa fechada com fita adesiva logo na entrada da porta, Edward foi até o lado oposto e se apoiou contra a parede, as mãos nos bolsos do casaco para aquecê-las, enquanto esperava o garoto chegar. Edward não usava roupas de esquiador. Por baixo do sobretudo de lã pesada, ele estava vestido para um funeral. A única concessão que fizera à montanha tinha sido trocar os sapatos sociais por botas de neve.
E não fora o bastante. Não para aquele tempo.
O jovem finalmente entrou na gôndola, espalhando neve enquanto fechava a porta atrás de si. Era pequeno para ser um dos empregados de Emmett, pensou Edward, distraído. O garoto se acomodou ao lado da caixa, com os pés separados, os joelhos levemente dobrados, apoiado contra a parede e a janela, do mesmo modo que o próprio Edward fizera. Pelas roupas e pelo jeito, devia ser um snowboarder, e parecia ser do tipo que aproveitava ao máximo o prazer de cada manobra, sem ter que provar nada a ninguém, apenas a si mesmo.
Edward o invejou.
Os próximos meses dele, Edward, seriam passados com banqueiros e acionistas, tentando provar que era tão bom quanto seu pai fora, no que dizia respeitosa tocar as empresas da família. Afinal, havia sido criado desde o berço exatamente para isso.
Dois anos atrás, Carlisle Cullen descobrira que não teria mais muito tempo de vida. Desde então, vinha passando o controle dos negócios para Edward, ensinando o que fazer e o que não fazer. Levando o filho admirá-lo e, mais, fazendo Edward passar a se importar com os negócios que estavam em suas mãos e com as pessoas que empregavam.
Carlisle Cullen estava sempre dois passos à frente em tudo, exceto quando achou que sua esposa bem-nascida e sua amante sensual poderiam coexistir pacificamente naquela cidade. Nesse caso, o homem fora um tolo.
Edward sabia o que o pai vira em Esme Swan, não era cego quando garoto, assim como não era agora. Era uma sensualidade que parecia ferver em fogo brando e que atingia, um homem como um soco no estômago, despertando sem piedade seus desejos mais profundos. E Esme se dispusera a satisfazer plenamente esses desejos, o que provavelmente à mãe puritana e bem-criada de Edward não fazia.
E o pai resolvera ter tudo, o tempo todo, sem se importar com o sofrimento que causaria aos que estavam ao seu redor.
A gôndola saiu da proteção das paredes da estação e foi sacudida com força pelo vento forte, enquanto a neve batia nas janelas. Edward e o garoto, em um reflexo automático, levantaram os olhos para checar o cabo. O garoto relanceou o olhar para o interfone em uma das paredes, como que para se certificar de que poderia entrar em contato com Emmett em caso de necessidade.
— A tempestade ainda está distante, de acordo com a meteorologia — disse o garoto, com a voz abafada pelo cachecol.
Edward assentiu. E, pelo jeito de o garoto falar, por sua postura, imaginou que ele devia ser alguns anos mais velho do que pensara a princípio. Não era possível julgar a idade dele pelo rosto, afinal a única coisa visível era a boca.
Deus, que boca...
Edward afastou os olhos. Rápido.
Que diabos estava acontecendo com ele?
Outro golpe de vento sacudiu a gôndola com força, fazendo com que, mais uma vez, seus dois ocupantes levantassem os olhos para o cabo que os sustentava.
Mais uma vez, o garoto olhou para o interfone.
E Edward voltou a examinar o que podia ver do rosto do garoto sob o chapéu, os óculos e o cachecol. E afastou os olhos, inquieto.
O vento pareceu acalmar a gôndola já não balançava tanto, não havia nada com que se preocupar em relação a isso. Mas havia muito com que se preocupar no que dizia respeito à reação dele ao suposto empregado de Emmett. Aquele realmente não estava sendo um bom dia. Por muitas razões...
Mas faltavam apenas 11 minutos de descida. Não adiantava olhar pela janela, à visibilidade era zero.
Também não parecia recomendável ficar olhando para o garoto.
Restava a caixa. Estava úmida, mas bem lacrada. Mais preocupação com a eficiência do que com a elegância, assim como o jovem a seu lado.
O garoto parecia inquieto. Edward controlou a vontade de olhar para ele e manteve os olhos colados à caixa.
Agora faltavam apenas dez minutos. A gôndola começou a subir quando se aproximou do primeiro dos sete cabos de conexão da torre. Edward sentiu os cabelos da nuca se arrepiarem quando percebeu que agora era o jovem que o estava examinando.
E seu corpo ficou quente ao sentir o olhar do outro.
A gôndola estremeceu, deu um solavanco e parou.
O coração de Edward saltou no peito e continuou a bater acelerado. Provavelmente Emmett só diminuíra a velocidade do teleférico por causa do vento e da proximidade da torre. Mas a gôndola não se moveu nem mais um centímetro, ficou exatamente onde estava balançando com força.
Edward manteve a mão levemente apoiada no corrimão e foi até o interfone.
— Emmett, você está aí?
Mas Emmett não respondeu. Aquilo não era bom. O rapaz não disse nada, continuou apenas observando Edward por trás daqueles malditos óculos de esqui, enquanto mordia o lábio inferior.
— Emmett — grunhiu Edward. — Pode me ouvir?
Quando novamente não houve resposta, ele devolveu com força o fone à base e pegou o telefone celular no bolso do casaco. Estava sem sinal. Não que Edward tivesse muito esperança a respeito.
O rapaz também tirou um celular de dentro de suas várias camadas de roupas e pressionou alguns botões com as mãos enluvadas.
Droga.
— Também não consigo sinal — murmurou ele.
— Vou tentar falar com Emmett novamente daqui a pouco — resmungou Edward.
Dez minutos de um silêncio desconfortável se passaram, pontuados pela fascinação que Edward continuava a sentir pelo rapaz e que não queria nem tentar entender.
— Alguém já deveria ter entrado em contato conosco — disse o jovem, por fim.
O que o rapaz não disse foi que o fato de Emmett não estar seguindo o protocolo padrão provavelmente significava que ele estava enfrentando problemas lá em cima e só Deus sabia o que acontecia em baixo. O protocolo padrão de operação deixava claro que deveria haver alguém na base, ou a gôndola não poderia estar em movimento.
— O radiotransmissor está funcionando — disse o jovem. — Vou tentar outras frequências. Pode ser que alguém responda. — Qualquer uma serviria.
Mas nas outras frequências não houve resposta alguma, apenas estática.
Outros cinco minutos se passaram. O rapaz manteve a mão apoiada no corrimão e continuou a olhar para cima, para o cubo que os sustentava. Edward conseguiu ver a pele alva sob o cachecol e o queixo que com certeza jamais vira uma lâmina de barbear.
Pele de marfim? Em um operário da estação de esqui?
— Quantos anos você tem? — As palavras saíram antes que Edward conseguisse se conter. — Quatorze? — Se fosse assim, então o garoto nem sequer chegara à puberdade. — Quinze?
— Mais velho — disse o rapaz.
— Quanto mais velho?
— Bastante.
— Bastante? — Que tipo de resposta era aquela?
— Dezenove anos — disse o rapaz rapidamente.
— É mesmo? — comentou Edward, desconfiado.
Ele voltou a examinar o garoto, como se buscando por... O que exatamente? Respostas? Uma razão para o fascínio que sentia? Porque ele nunca sentira o que sentia naquele momento. Não por um rapaz. E não gostava muito da ideia de começar agora.
Mais alguns minutos se passaram no mesmo silêncio desconfortável.
Então Edward voltou a checar o relógio. E relanceou o olhar para o rapaz que continuava usando os óculos de esqui. Por que, se estava preso na gôndola?
— Você mora na cidade? — perguntou Edward.
O garoto assentiu.
— Mora sozinho? — Edward precisava esclarecer aquela situação. Com urgência. — Alguém vai perceber sua ausência e dar o alarme?
— Eu não contaria com isso. Minha... — O rapaz hesitou. — Minha colega de quarto não está na cidade está tarde e vai trabalhar até a noite. Estou por minha conta.
Edward suspirou e enfiou as mãos nos bolsos do casaco. Talvez o garoto realmente tivesse 19 anos, fosse de baixa estatura, namorasse uma garçonete também baixinha e estivesse muito feliz com a própria vida.
Bom para ele.
— E quanto a você? — perguntou o rapaz. — Tem algum compromisso?
— Sim.
— Então... Sentirão sua falta?
— Duvido — murmurou Edward. E se a mãe e a irmã dessem por falta dele, provavelmente se sentiriam aliviadas com sua ausência. — Eu diria que é melhor não contar que alguém dê o alarme por causa da minha ausência.
Mais silêncio, quebrado apenas pelo barulho dos flocos de neve batendo no vidro da gôndola.
— Ao menos temos abrigo — disse Edward. Só era uma pena que estivessem a tantos metros de altura e pendurados por um cabo... No meio de uma nevasca. — O que há na caixa? — perguntou ele.
— Como? — retrucou o garoto, parecendo surpreso e assustado ao mesmo tempo.
— A caixa — repetiu Edward mal-humorado. — O que há nela? Alguma coisa que possamos usar?
— Como o quê, por exemplo? — perguntou o rapaz, a voz abafada e o rosto ainda escondido.
— Como comida e cobertores — respondeu Edward. — Com um pouco de sorte, poderia haver uma garrafa de uísque também.
— Não há uísque ali dentro — murmurou o jovem. — São só coisas minhas. A maior parte pronta para ir para o lixo. Estou indo embora da montanha hoje.
— Você foi demitido?
— Não.
— Recebeu uma oferta melhor?
— Sim.
— Algum lugar aqui por perto? — Agora a estação de esqui era de responsabilidade de Edward e ele precisava saber se estava havendo algum problema com os empregados, ou se eles estavam pedindo demissão para ir trabalhar em outras estações de esqui próximas.
— Em Christchürch — falou o garoto.
Não havia estações de esqui em Christchürch.
— Fazendo o quê?
— Nada parecido com isso — respondeu o jovem.
A conversa morreu novamente. O rapaz sentou sobre a caixa e pegou novamente o celular no bolso. A julgar pelo modo como cerrou os lábios, ainda não havia sinal. Não podiam fazer nada além de sentar e esperar. Ou ficar de pé e suspirar.
— Tem certeza de que não há nada na caixa que possamos usar? — perguntou Edward, por fim. Não era do feitio dele bisbilhotar, mas já estavam presos ali há quase uma hora, cada vez ficava mais frio e ele precisava de uma distração. — Até lixo pode ter algum uso.
— Não neste caso — respondeu o jovem. — Acredite em mim, não há nada nesta caixa que você queira ver.
— Se você acha que essa resposta vai diminuir a minha curiosidade, está muito enganado — comentou Edward.
O rapaz deu de ombros e não respondeu nada. Edward continuou a cismar sobre o conteúdo da caixa.
— Escute garoto. Imagine que alguma coisa como uma barra de chocolate, por exemplo, tenha ido parar na caixa sem querer. Ou cinquenta barras. Ou um computador que ninguém usa. Ou até mesmo equipamentos de esqui que não lhe pertencem. Você acha mesmo que, sob essas circunstâncias, eu me importaria com isso?
— Você acha mesmo que não se importaria? — retrucou o rapaz. — Levando-se em consideração que seria de sua família que eu estaria roubando... De qualquer modo, não há nada roubado na caixa. São só tranqueiras.
— Se isso é verdade — murmurou Edward, com a voz suave e perigosa —, porque está tão relutante em me mostrar? — Quando o garoto não respondeu, ele continuou. — Então... Você sabe quem eu sou.
O garoto, adolescente, jovem, ladrão filósofo, o que quer que ele fosse, assentiu.
— Eu deveria saber quem você é?
— Não.
— Porque você me parece familiar.
— Não sou.
— Mas você cresceu em Queenstown, não foi? — O rapaz nem se dignava a olhá-lo nos olhos e, por algum motivo, isso irritou Edward. Era pedir demais poder encarar uma pessoa nos olhos?
— Você não me conhece — falou o garoto obstinadamente. — Você não precisa saber quem eu sou.
— Se levarmos em consideração que estamos presos aqui, discordo. — Edward não achava que estava bisbilhotando, só queria saber o que o garoto tentava esconder. — Ninguém lhe deu um mínimo de educação? Não lhe ensinaram que é de bom tom se apresentar?
— Não.
— Já está na hora de aprender. — Eles não precisavam nem trocar um aperto de mãos. Aliás, não queria toques de nenhuma espécie. — Sou Edward Cullen. Edward para a maioria. Cullen, se você preferir. Agora é sua vez.
— Josh — falou o rapaz com relutância.
— É de praxe dizer também o sobrenome.
— Não de onde eu venho.
— É justo. — Edward concedeu aquilo ao garoto. Afinal, não seria difícil puxar o arquivo dele depois que saíssem da gôndola. Mas queria outro tipo de informação. Queria ver os olhos do garoto. — Vai tirar esses óculos de esqui, Josh?
— Não estava planejando fazer isso — disse o rapaz, os lábios se curvando em um sorriso que fez Edward ofegar. A postura do garoto havia mudado sutilmente e Edward ficou confuso.
— Cullen, se quiser me despir, basta dizer — sussurrou o garoto. — Embora se formos observar as regras de educação, você deveria me pagar um drinque antes.
O que vocês acharam do Edward sentindo atração pela Bella disfarçada de garoto?
Respondendo os reviews:
Cheiva: Que bom que esteja gostando! Beijos.
Guest: Obrigada. Fico feliz que esteja gostando da história. Beijos.
kat grace: A Esme está sofrendo bastante porque, apesar de tudo, ela o amava. Beijos.
Sexta-feira tem mais! Beijos e até lá.
