PARTE 4
Hermione POV
Junho, 08, 1931
Cortaram-no. Vi a trilha de sangue de onde o torturam até o quarto onde ele fica. Quero odiá-lo, mas a cada vez que entro naquele quarto, costuro-o, limpo-o e deixo-o inteiro - ao modo que consigo - vejo uma parte dele morrer. Ele não vai contar, ele nada vai dizer. Algumas coisas ele contou após Charlie ter coragem de lhe arrancar algumas unhas. Nada que já não soubéssemos. Por Deus, ele tem razão ao nos chamar de selvagens, mas eles também são, eles também fazem isso com nosso povo. E a troco de quê? Ganhamos apenas mais morte com isso.
-Harry? - vejo Harry virar sério, olhando-me. Ron foi capturado alguns dias atrás, mas o achamos morto, um tiro da própria arma na cabeça. Ele decidiu tirar a própria vida ao invés de deixar ser capturado e levado por eles. Eu faria a mesma coisa.
-Acha que ele ficará vivo por mais quanto tempo? - está falando de Malfoy. Ele não quer que conversemos sobre Ron.
-Eu achei que ele já estaria morto. - Harry olha dentro de meus olhos, seus cabelos negros caindo na frente das íris verdes.
-Faça-o falar. - as mãos de Harry agarram-me pelos ombros, empurrando-me contra a parede mais próxima. Olho para os lados, ninguém está perto. Acho que Harry perdeu a cabeça.
-Como farei isso, Harry? Vocês o torturam dia sim e outro não, e ele não cede. - espalmo minhas mãos eu seu rosto, tento trazê-lo a realidade. Não consigo, ele afundou-se em desespero.
-Você dará um jeito. - ele engole em seco sabendo o que está me pedindo. Ele não pode estar a ser sincero.
-Harry...
-Faça! - é novamente uma ordem. Lágrimas sobem por meus olhos. Não creio que passarei por isso outra vez. A cicatriz da foice arde em meu ombro. Busco os lábios de Harry enquanto sinto-o empurrando-se contra mim; preciso do gosto de algo puro, para então poder voltar a sentir o gosto da morte entre meus lábios.
Afasto-me um segundo depois, empurrando-o para longe, pegando as coisas que uso para juntar os pedaços de Malfoy. É hora de voltar a sentir o gosto do inimigo.
Junho, 09, 1931
Desde ontem à noite estou no quarto com Malfoy. Limpei-lhe todos os ferimentos, costurei todos os machucados novos que lhe fizeram, enfaixei seus dedos quebrados juntos. Alguns estão mais certos, outros não. O ferimento a bala na perna cicatrizou, de certo modo, mas o do ombro, não. Bill insiste em mantê-lo aberto, e ele sempre sangra por ali. Não entendo como continua vivo. Não entendo essa força que ele tem sobre o que acredita ser certo.
-Morreria realmente por Voldemort?
-É o que acontecerá. - ele responde baixo, acostumou-se a falar assim. - Ou devo acreditar que vocês irão me soltar após contar o que querem saber?
-Você vai morrer. - digo, ele sabe que é verdade. - Eu vou matá-lo. - sentencio, porque eu quero carregar essa morte. Mesmo que comece a não ver propósito nessa morte também.
-Por que está aqui? Não tem traidores para costurar? Não-puros para ajudar?
-O seu sangue é igual ao meu.
-Não é. Sou puro.
-É imundo igual ao resto de vocês, e nós. - aproximo-me, ajoelhando-me entre as pernas dele, olhando-o séria. - Somos todos imundos, nojentos, frios, selvagens e merecemos cada maldita dor que sentimos. - ele semi-cerra os olhos pra mim, acha que tenho medo dele. - O Inferno está com as portas abertas, apenas esperando por todos nós. - minha cicatriz no ombro lateja, arde. É um lembrete do que tenho que fazer, e não quero. Mas tenho. Por todos nós.
-Não irei para o Inferno.
-Irá. - afasto-me, sentando no meio do quarto. - E eu farei com que nós dois cheguemos ao mesmo tempo lá.
Ele me fita, ainda não entendeu quem eu sou. Ainda não entendeu o que eu fui, nem mesmo o que vou fazer. Porém, darei alguns dias, impedirei as torturas, os machucados. Vou curá-lo, vou deixá-lo inteiro, e então o quebrarei de vez. De uma vez por todas.
Julho, 01, 1931
Os rapazes saíram para caçar, a casa é guardada por outros. Somos tantos, somos fortes. E somos fracos. Somos tão fracos, tão desesperados. Ouvimos notícias sobre o que acontece ao norte. Recuperamos algumas cidades, perdemos apenas uma. E isso é ótimo. Porém, qual o propósito disso mesmo? Qual o propósito de matar e morrer? Seremos humanos quando tudo isso acabar? Questionei Harry ontem sobre o que ele quer que eu faça com Malfoy, ele respondeu-me para arrancar o que fosse dele, tudo que ele estivesse a ter na mente. Harry sabe que posso fazer isso, mas também sabe que eu não quero.
Acho que não tem importância o que quero ou não. O que importa é a Guerra. Só isso. Vencer a Guerra.
Julho, 22, 1931
Ele perguntou-me quanto tempo levará até o matar. Respondi-lhe que ele ainda não tinha nos contado tudo, e que só morreria quando isso acontecesse. Ele riu. Acho que foi a primeira vez que o vi rindo. Os dedos estão melhores, os ferimentos cicatrizando. Ele morrerá pela honra que sente ser certa, eu morrerei pela minha. Mas ele permitiu-me lhe trazer algo para fazer a barba, e permitiu cuidar dele todos esses meses. Ele não tem idéia do que eu sou. Nem do que sou capaz. Entretanto, logo ele saberá. E desejará ter continuado a sofrer nas mãos dos Weasley. Sou como eles, fui criada como eles. São uma não-pura, como ele diz, com a mente de um puro. E se ele não sabe disso, descobrirá em alguns dias. Só o que importa é vencer. Mesmo que seja somente vencer sobre Draco Malfoy.
Agosto, 01, 1931
Entro no cômodo, fechando e trancando a porta. Avisei a todos que não entrassem, não impedissem nada do que aconteceria ali, e nem mesmo ouvissem o que quer que fosse acontecer. Sento-me à frente de Malfoy, ele está melhor, os cabelos estão presos com uma tira que eu dei, a barba feita por objetos que eu trouxe, a camisa que veste, eu costurei. Eu cuidei dele todos esses dias apenas para voltar aqui e quebrá-lo de uma vez.
-Conte-me. - digo sentada à frente dele, olhando-o nos olhos cinza. Ele encosta as costas na parede, os cotovelos nos joelhos levantados.
-O quê?
-O que quiser. - digo calma enquanto amarro os cabelos no alto da cabeça. - O que achar que devo saber.
-Não deve saber nada.
-Devo avisar a você que não mais vai sair desse quarto. - enquanto falo solto as tiras finas do vestido às minhas costas, ele observa-me sem entender. - Não enquanto não disser o que quero saber. - deslizo as alças do vestido por meus ombros, sem tirá-lo. - E receio que não demorará a dizer o que quero saber.
-O que está fazendo? - os olhos dele brilham entendendo o que estou fazendo, mas talvez acha que é mentira.
-Reconhece? - perguntou enquanto levanto os joelhos tirando os sapatos gastos que uso, deixando-os de lado. Ele assentiu, eu também. - Eu disse que já estive entre vocês.
Acho que nunca vi alguém tão desesperado em toda a vida.
