Marvel™, personagens e lugares, não me pertencem.
AVISO! fanfic não recomendada para menores de 16 anos por conter cenas de sexo, violência e linguagem imprópria.
HELLFIRE CLUB
COVARDIA¹
"Mas se eu tivesse ficado, teria sido diferente? Melhor interromper o processo em meio: quando se conhece o fim, quando se sabe que doerá muito mais - por que ir em frente? Não há sentido: melhor escapar deixando uma lembrança qualquer, lenço esquecido numa gaveta, camisa jogada na cadeira, uma fotografia – qualquer coisa que depois de muito tempo a gente possa olhar e sorrir, mesmo sem saber por quê. Melhor do que não sobrar nada, e que esse nada seja áspero como um tempo perdido."
- Caio F. Abreu
- I -
"Estava toda de preto, o que era comum. Um vestido longo, tão justo que dificultavam o caminhar. No máximo era possível dar um passo à frente. O cabelo estava preso, como de costume. Bem maquiada, bem perfumada, mas algo estava estranho. Estava num tabuleiro gigante de xadrez!
E percebeu ser um peão. Tinha o desafio de sozinha defender o Rei Preto. Só tinha uma chance, pois avançando em contra-ataque estava a Rainha Branca. Qualquer lance em falso e seria um xeque-mate.
Entretanto algo inusitado aconteceu. A Rainha Branca que deveria querer derrubar o Rei Negro, estava agora do lado dele. O peão que era ela havia trocado de posição com a Rainha.
E agora, Rei e Rainha tentavam alcança-la, derruba-la com a jogada perfeita. E na verdade, nem precisava muito, já que estavam somente as três peças sobre o tabuleiro.
Foi posta numa encruzilhada. Só tinha um movimento possível que a colocaria em xeque-mate.
Era o fim! Já podia sentir o calafrio, o medo da morte certa.
De repente o tabuleiro começa a tremer suavemente, como se estivesse sobre uma mesa, e algo estivesse escalando a mesa.
Eis que surge um lobo de pelugem clara mesclada de cinza com os olhos amarelos.
As orelhas em pé e os dentes a mostra mostravam sua fúria. Começou a rosnar para intimidar, entretanto, estavam esperando que o peão preto se movesse. E não havia escolha para o peão...
E num salto, o lobo pegou Rei e Rainha e os dilacerou. Mastigou as peças, quebrou, despedaçou, comeu.
Faltava o peão.E o coração estava apertado, esperando o novo fim.
O canino se deitou frente ao peão, encarando-o com as orelhas abaixadas. Lançava um olhar triste. Deu um suspiro, e num segundo, saltou acima do tabuleiro..."
Acordou ofegante e suada. Pôs a mão no peito, arrumou os cabelos. Olhou em volta, um silêncio total no quarto de seu apartamento, tudo parecia normal...
- II -
A campainha toca, vou atender. E que surpresa a minha ao ver que não havia ninguém, mas um vaso de flores no chão. Peguei o vaso de orquídeas e pensei, quem saberia do meu gosto
por flores?
Anexo um bilhete:
- Você devia largar esse emprego, e passar todas as noites comigo...
Sorri, e pensei em ligar para agradecer. Mas refleti melhor, seria melhor que não tivesse começado, pois não poderia continuar.
No fundo eu até queria poder viver esse sonho, o sonho de amar alguém, de ser amada, de ter carinho, colo, companhia, paixão nas noites frias... Mas não seria possível!
Dei um longo suspiro, peguei minha moto e fui dar uma volta.
Foram tantas as voltas, e o pensamento estava tão distante que quando dei por mim, estava parada na frente da mansão.
Já estava ali, não tinha escolha. Estava decidida a dar um basta naquilo que mal havia começado. Essa era a minha sina...
Resolvi entrar pela janela, como da outra vez. Era preciso ainda mais discrição quanto a minha presença na casa. O quarto estava impregnado com o perfume dele, e no mesmo instante me remeteu a algumas noites atrás. Pude sentir o frescor do hálito dele na minha pele...
A porta rangeu.
- Você demorou!
- Como você podia ter certeza de que eu vinha? - retruquei seriamente.
- Pelo tom acho que não gostou...
Meus olhos encheram-se de ternura. Eu tinha adorado aquele mimo, sempre gostei de orquídeas, uma flor tão difícil de cultivar, tão difícil quanto aquele relacionamento. Tratei de matar aquele sentimento, rapidinho, antes que desistisse do meu propósito.
- Eram bonitinhas...
- Hum... - ele percebeu a mentira.
- Mas vim aqui porque não podemos continuar com isso...
- Por que? Tem medo?
- Não, não - tropeçando nas palavras - É muito complicado.
- Tem medo dele?
- Não! - acabei levantando a voz, mas logo retornei o tom murmurante. - Eu sou uma pessoa complicada, não consigo me envolver com ninguém. Não quero levar adiante uma coisa que já sei que não dará certo.
- Viva o presente, menina!
- Eu vivo de segurança. Sou uma pessoa racional, não consigo pisar em nuvens... Mesmo que eu queira, não seria autentico.
- Eu arrisco!
- Eu não.
- Você não tem escolha...
- Você pode se machucar...
- Eu? Acho que é você que está com medo de se machucar...
- Eu já estou machucada demais. Por isso usa essa armadura, e não sei como tira-la.
- Não acredito... - e começou a vir em minha direção, se aproximando mais e mais...
- Por favor, aceite - desviando o olhar.
- Impossível, já estou envolvido demais... - me envolvendo em seus braços.
E que braços fortes, que tinham a medida exata para abraçar o meu corpo, o cheiro exato da minha química, a força exata para me deter, o calor exato para me derreter, o dono exato para eu me entregar naquele beijo...
- III -
Fui para o clube atordoada. O pensamento estava a mil, a raiva também.
Estava girando a maçaneta para fechar a porta, quando fui surpreendida pelo comentário indevido:
- Um tostão pelo seu pensamento.
- Não penso em nada em especial.
- Então aproveita e me segue, porque temos um milhão de coisas a resolver antes do pessoal chegar...
Claro, era isso o mais importante para ele, esse maldito poder sobre os outros, sobre o mundo! Ficamos algumas horas discutindo probabilidades, chances e outros problemas corriqueiros. Principalmente, quem poderia ser útil aos propósitos arrogantes de Shaw.
- O pessoal está nos esperando, meu "rei"! - Era Emma, a rainha branca na porta.
- Já vou minha rainha! - soltando uma grande gargalhada. - Tessa, você termina o relatório e depois leva para mim?
- Claro. - Respondi com a mesma cara fechada que estive desde que cheguei ao clube.
Assim que ele saiu da sala, levantei e fui para o computador digitar toda aquela baboseira de sempre.
A cada tecla digitada, meu pensamento voava e voltava. Um texto que regularmente eu digitaria em 10 minutos levou pelo menos três vezes mais. Desci as escadas, papel na mão, saboreando cada degrau com minha melancolia, as mãos segurando no corrimão como se fossem freios, como se quisessem impedir a descida para aquele teatro, como se no fundo já previssem o final daquela peça...
Ao descer o último degrau vi próximo a porta um rapaz diferente dos senhores costumeiros. Era mais jovem, mais alto, mais encorpado. Sobretudo e chapéu marrom médio. Conversava com a Branca, quando ela me viu apontou discretamente com o queixo para minha direção e ele se virou. Meu coração começou a palpitar.
Ele veio em minha direção.
- Boa noite, aquela dama me disse que você é assistente do Sr.Shaw... - estendendo a mão para me cumprimentar.
- Sim, sou. O senhor estaria desejando... - deixei que ele completasse a sentença.
Ele deu um leve sorriso e eu correspondi, e tive que desviar o olhar.
Sem perceber, ao longe, a Branca não teve dúvidas em correr contar sobre o estranho para Shaw. E ele nos perseguia com o olhar, enquanto levei o "estranho" para tomar um vinho.
- Vim te buscar. - ele sussurrou.
- Já te falei, senhor. Isto é improvável... - tentei disfarçar.
Nesse instante, um braço brindava os nossos copos, era Shaw, colocando os braços sobre meu ombro.
- Soube que está interessado em investir em nossos negócios. - sorrindo, Shaw perguntou.
- Sim, ouvi dizer que são seguros e rentáveis. - respondeu enquanto brindava.
- E quanto pretende investir? - Shaw era muito direto nos negócios.
- Ainda não sei, por ora estou investigando algumas opções.
Shaw balançou a cabeça, pediu licença e se retirou. Definitivamente ele havia percebido algo estranho, talvez a mentira. Alertei Logan para que fosse embora enquanto a confusão ainda não havia começado.
- Por favor! - discretamente.
- Me leva até a porta. - Concordei e fui pegar o casaco e chapéu dele.
Enquanto apanhava, Shaw me pegou fortemente pelo braço.
- O que ele quer de verdade? Quem é ele.
- Um curioso, só.
- O que ele sabe?
- Nada, além de fantasias.
- Pode nos comprometer.
- Não! - e esse foi meu erro. Ter mudado o tom, na tentativa de despista-lo, acabei assinando a sentença.
Ele sacou uma arma e avisou:
- Estranho!
Do outro lado do salão Logan olhou e não teve tempo de desviar-se. A bala entrou em seu ombro, de tal maneira que ultrapassou o corpo e foi parar na parede. Ele caiu com a dor. A parede respingada de sangue, e no chão não demorava a se formar uma pequena poça.
Shaw foi atravessando o salão, arma empunhada, queria certificar-se e se necessário, mata-lo de verdade. Tentei impedir, segurando seu braço.
- Chega, ele já aprendeu a lição.
Ele julgou-me com o olhar. E era tanto o ódio que podia sentir as veias pulsando.
- Vagabunda! - e deu-me um soco muito forte, que me pegou desprevenida que caí no chão desacordada.
Esse tempo foi suficiente para que Logan se recuperasse. Nisso ele mostrou as garras e confusão se armou. As mulheres começaram a gritar, os senhores escondem seus dinheiros e títulos.
Não posso dizer direito, nem com detalhes o que houve, estava desacordada, lembra?
- IV -
Quando acordei estava deitada numa maca, numa sala toda de alumínio, fria. A sala parecia girar, as luzes incomodavam meus olhos, que provavelmente estavam inchados. Estava nauseada, devia ser a tontura.
- Acordou? - uma voz feminina perguntou e logo o rosto se apresentou. - Sou Dr.Jean Grey.
- Oi. - Percebi que ela tentava ler minha mente, mas depois de um incidente anos antes lá no mesmo clube, aprendi a bloquear todos os acessos ao meu cérebro.
- Está melhor?
- Estou um pouco enjoada.
- Deve ser o analgésico. O olho não arde?
- Não reparei, estou mais irritada com esse monte de luzes...
A porta abre, e aparece Charles.
- Doutora. - cumprimentando-a - Posso falar a sós com a nossa paciente?
- Claro! - colocou os vidros que estava estudando sobre a mesa e saiu.
O professor esperou que a porta se fechasse para começar:
- Soube que houve um problema.
- Não tive culpa! - me defendendo, mesmo sem saber direito do que ele falava.
- Certas coisas a gente não tem como prever...
- Não posso mais voltar para lá... - e uma lágrima correu dos meus olhos, enquanto virei a cabeça para encara-lo de frente, já que ele estava do meu lado.
- Deixe-me ajuda-la... - tocando em minha mão.
- Só me deixe ficar aqui um tempo, depois eu vou embora para algum lugar do mundo.
- Tem certeza?
- Não acha seguro?
- Talvez não seja, mas não por causa do Shaw...
Suspirei e não pude conter as lágrimas.
- Vou embora, assim que você me liberar.
- Fique um tempo, seja um dos nossos! Reflita, treine, aprenda, evolua. Depois a gente volta a conversar e ver o que você decidiu. - virando a cadeira e saindo da sala.
- Por favor, diminua a luz...
- Já está escuro suficiente dentro de você...
Fiquei alguns minutos chorando ali sozinha, até adormecer.
- V -
O meu joelho ainda estava enfaixado, devido ao acidente aquele dia no clube em que acabei deslocando. O olho já havia ficado quase normal, e um pouco de base ajudava a disfarçar ainda
mais. Passei aquela semana no quarto que separaram para mim. Não saía para nada, tampouco para comer.
Esses dias todos era Ororo quem levava comida para mim, e não consigo medir a gratidão que tenho por ela. Passávamos bons minutos conversando sobre a vida, sobre problemas, sobre esperanças. Não é a toa, que até hoje ela é uma grande amiga. Ainda não tinha encontrado com Logan. Na verdade eu ficava no quarto propositalmente para evitar esse encontro, e ele ainda não tinha coragem de vir até o meu quarto.
Ouço alguém bater a porta.
- Posso entrar, Tessa?
- Claro Ororo!
- Acho que você devia dar um passeio no jardim, aproveitar que os alunos estão nas salas...
- Não sei. - respondi temerosa.
- Não adianta tentar fugir daquilo que está dentro de você...
- Vou trocar de roupa, depois eu vou. Acho que preciso pegar coragem...
- E não esquece de por um sorriso no rosto...
- Aí já é pedir demais! - brinquei.
Coloquei uma roupa confortável. Um bom e velho moletom, tênis. Acho que não consigo dizer há quanto tempo não me vestia assim! Sempre aquelas botas altas, corpetes, body, maiôs, e em dias especiais um vestido que tinha tanto pano quanto as outras peças que já citei.
Esse tempo na mansão era como um spa. Pretendia ficar ali poucos dias, só cuidando do espírito.
Quando sai no quintal, os meus olhos estranharam o sol. Trabalhei tantos anos a noite, ou se durante o dia, trancada numa sala sem janela. No máximo, do meu apartamento as vezes eu via o amanhecer ou o por do sol.
Meus pés também estranharam a grama, o tênis, o cheiro de terra, o ar fresco, o calor do sol.
Essa era uma vida que há muito eu havia abandonado.
Esse frescor lembrava da minha infância no Afeganistão.
Sentei-me num banco de madeira branca, rodeado de folhas, arbustos e flores. Daquele local era possível ver a mansão ao longe e um longo gramado que era possível fazer um campo de futebol.
Ouvi ao longe um barulho de moto, e pensei onde estaria a minha? Lembrei que estava em casa, aquele dia eu preferi dar uma boa caminhada para espairecer antes de enfrentar a rotina do clube.
Meu coração começou a palpitar acelerado, parecia ser Logan.
Porém era outro rapaz, muito bonito, óculos escuros, mesmo de capacete.
Ele acenou ao longe, e eu devolvi o aceno.
Já tinha evitado demais falar sobre aquele dia, encontrar Logan. De um salto, levantei-me decidida a procurar por ele. Fui direto para o quarto dele, desta vez dos modos convencionais: pela porta.
Bati e ninguém respondeu, então abri a porta.
Olhei ao redor, dei um longo suspiro e voltei pelo corredor direto para o meu quarto.
Deitei na cama e fiquei pensativa por sabe se lá quanto tempo.
Pensava em ir embora o quanto antes. Mas para onde? E se Ororo estivesse certa?
Meus pensamentos foram interrompidos por alguém à porta.
- Posso entrar?
Minha respiração parou, olhos arregalados, podia sentir o coração palpitando na garganta.
- Claro.
- Você foi me procurar? - falou cabisbaixo.
- Quem te falou?
- Senti seu perfume no meu quarto.
- Nossa, mas eu nem entrei...
- Eu posso sentir o seu perfume a quilômetros de distância...
- Algum poder mutante?
- Não só mutante...
- Queria me desculpar. - mudei o rumo da conversa.
- Eu é que tenho que me desculpar. Olha como você está!
- O pior ainda está por vir. Mas e você, não levou um tiro?
- Ah, eu me recupero rápido.
- Percebe-se...
- A gente te protege!
- Mas até quando eu vou viver com medo? Além disso, eu sei me defender sozinha. Se eu ficar aqui posso colocar todos vocês em risco.
- A gente também pode se defender.
- Eu sei, mas vocês não conhecem o Shaw como eu conheço.
- Você pretende ir embora logo?
- O quanto antes!
Ele baixou a cabeça e calou-se. A culpa invadia a alma dele. Sentia-se assim por eu ter que fugir, por ter me machucado, por tentar me amar mesmo que eu insistisse em não amá-lo.
O único conforto que ele tinha era saber que podia recuperar-se rapidamente. Se uma bala podia cicatrizar em minutos, um coração machucado podia curar-se rapidamente.
Mero engano, pois uma cicatriz no coração não cura nunca!
Uma única solução pode ser, se a pessoa tiver muita sorte na vida, de encontrar o verdadeiro amor e ser correspondido. Este, faz esquecer tudo, cura tudo, é salvação!
Por isso, vivemos a vida em busca do amor, buscando perdão para nossa condenação.
Loucos de sede num deserto sem oásis.
Toquei no rosto dele, penosamente.
Ele segurou a minha mão, ainda na face dele e beijou a palma da minha mão.
- Tchau. - e saiu do meu quarto.
Fiquei ali, em frente a porta, um dos braços pareciam ainda tocar no homem que há um segundo esteve na minha mão. Os olhos marejando, o coração parado, a respiração parada.
Tomei fôlego, e sai correndo do quarto, aparentemente ele havia descido as escadas, por isso tentei descer correndo, mas com dificuldade, e pude ver a porta se fechar, o roncar da moto ligando.
Corrida inútil a minha! Ao chegar na porta, a moto já tinha ido.
E fiquei ali parada, como fico ainda hoje muitas vezes, parada na sacada, esperando...
Esperando o impossível...
- VI -
Ele não podia crer.
Como pode se deixar enganar, ainda pelo coração?
Ele sempre desprezara todo sentimento.
Desde criança sua personalidade foi moldada pela dor, pela dúvida.
Pelo menos da parte de sua história, que ele lembra. Tomou o último gole de wisque e bateu o copo no balcão. A bebida já nem queimava mais a garganta...
- Idiota. - repetia para si mesmo.
Não podia se conformar em ter se deixado levar por um sentimento. E ele que sempre achou que tinha coração de pedra, logo ele. Pegou a moto, como vinha fazendo há tantas noites e saiu na maior velocidade possível. Mesmo embriagado, pensava que podia sofrer um acidente, mas até seria melhor. Doía demais pensar. Doía demais sentir aquela rejeição. Se perguntava o por quê a todo momento. Parou num beco, onde imaginava encontrar algum ladrão ou coisa do genêro. Queria descontar a raiva em alguém. Então colocou as garras para fora e começou a atacar... a si mesmo.
- VII -
Lá estava ele novamente, no mesmo local com as garras a mostra. Mas desta vez ele estaria preparado! E começou o ataque! Saltava, batia, pulava, esquivava, gritava, feria.
E a sensação era ótima! Sentia o sangue ferver, os olhos brilhavam de contentamento, a adrenalina a mil...
E lá estava ele, finalmente! Sebastian Shaw com uma arma posta em cada mão, mirando para ele.
Ficou parado um instante, encarando, olho no olho, pernas firmes, dentes serrados, garras tinindo de vontade de atravessar aquele filho da mãe, o coração palpitava a mil por segundo, estava pronto para atacar...
Ops! Do nada surge Tessa, entra na frente de Shaw!
-Nããoo!
-O quê? - ele não entendia o que ela estava fazendo ali, defendendo justamente aquele que comprou sua alma. Por isso ele não esperava. Contra ela, ele não podia! Logo ela?! Por que ela estaria ali defendendo justamente o "diabo"? Será que ela o amava, e era por isso que estava se afastando dele? Perdeu o fôlego, o coração parou, a simulação na sala de treinos também...
- VIII-
Estava passando pelo corredor quando percebi que havia alguem na sala de perigo. Não resisti fui verificar. E obviamente, que quem estava treinando era Logan. Por mais que eu tivésse fugido, sempre algo me empurrava para ele.
Eu precisava de respostas, por isso, não pensei duas vezes na hora de alterar o programa e me incluir nele.
Num momento decisório queria saber se ele era capaz de decidir o certo, independente dos seus sentimentos.
Levantei-me e fiquei grudada no vidro, observando tudo.
Minha mão deslizava lentamente pelo vidro, onde em vão, fingiam poder acariciá-lo mais uma vez. E ele estava lá, diante do meu holograma, estático.
Talvez não soubesse o que fazer, talvez não tivésse coragem de fazer...
- Ele jamais permitiria que ferissem um de nós!
Virei e vi Jean indo em direção ao controle do computador.
- Cancelar o programa. Sala de perigo: encerrar simulação. - disse ela no microfone.
Aproveitei esses segundos e me retirei, antes que ele pudesse me ver ou ela pudesse questionar.
Logan subiu furioso.
- Ficou louca, é?
- Só queria testá-lo. - assumindo a culpa para ela.
- Ridículo esse seu testezinho...
- Você teria morrido...
- Não morro a toa!
- Acho que você devia resolver logo esse seu assunto com ela.
- Não se mete!
- Você é quem sabe...
- Acho que você está com ciúmes! - pra revidar a briga e ofendê-la.
- Você sabe muito bem que esse sentimento em relação a você, não existe.
- Não está parecendo... - e saiu revoltado.
- IX -
Logan, ainda nervoso pela "sabotagem" no seu treinamento, foi direto tomar uma ducha fria no vestiário. A água batia fria no seu corpo ainda quente pelo sangue fervente.
Ele deixava a água cair no rosto, na tentativa débil de esfriar a cabeça.
Os pensamentos o atormentavam...
- Por que eu estou assim?
Logo eu... será que estou apaixonado?
E se ela não quisesse nada, porque...
E esse Shaw, será que ela o ama?
Ela o defenderia daquele jeito?
Eu ficaria sem reação?
E se a Jean estiver certa, e se ela estiver do lado dele?
Como posso estar sendo enganado...
Essa mulher está me deixando louco!
Deu um grito, chacoalhou a cabeça respingando todo o banheiro. Enxugou-se superficialmente deixando uns pingos escorrer pelo corpo ainda nu. Pegou uma toalha branca pendurada num gancho prateado do banheiro. Cobriu as partes intimas e foi para o quarto. Pisava desajeitado, tentando ao máximo não molhar o chão, e ao mesmo tempo devido ao malabarismo, tentava não deixar a toalha cair.
- Vou levar uma boa bronca - pensou e riu enquanto seguia pelo corredor.
Chegou no quarto, abriu a porta, entrou acompanhando a porta para fecha-la.
Percebeu um perfume conhecido no ar, e pensou estar louco. Negava para si mesmo, não podia ser real. Virou-se e sobre a cama coberta de pétalas de rosas, estava aquela que vinha
lhe tirando o sono há algumas noites, que vinha transtornando seu pensamento, invadindo seus pensamentos, que o tinha motivado a agir diferente do seu natural. O quarto, com as luzes ainda acesas, mas ao fundo velas, muitas velas. E o perfume, inconfundível...
- É sonho? - perguntou em voz mediana.
- Então aproveita, antes que você acorde! - puxando-o pela toalha.
- X -
Logan ficou alguns minutos ainda olhando para Tessa, que ainda dormia em sua cama. Pensava consigo, como ela era linda, o quanto podia ser felizes. Teve que sair, tinha uma missão agendada com o professor X. Apesar de desconfiar dos métodos dele, no fundo ele era um cara legal. Provavelmente, já sabia o que estava acontecendo e marcou essa missão com o simples objetivo de aconselha-lo. Saiu correndo, estava atrasado pois até hoje ainda tinha problemas em vestir o uniforme...
Tessa já estava acordada, só esperava ouvir o barulho da porta para poder abrir os olhos.
Vagarosamente correu os olhos pelo quarto, certificando-se de que ele não estava mais lá.
Levantou-se num salto e silenciosamente foi para o seu quarto.
Fechou a porta e suspirou profundamente. Era um alivio em sua alma ter tido aquela noite, mas era um peso em sua consciência já que o que pretendia fazer iria magoa-lo e provavelmente nunca mais se falariam.
Abaixou e puxou algo embaixo da cama: uma mala. A única que tinha conseguido nesses dias.
Mas ela era do tamanho exato para as poucas mudas de roupas que tinha.
- Coragem, menina, falta pouco! Coragem - repetia mentalmente enquanto a visão começava a embaçar pelas lágrimas.
Mas sabia que era preciso fazer, e não podia voltar atrás. Já tinha decidido!
A porta abre e Ororo espantada pergunta:
- Já vai embora?
- É preciso!
- Preciso?! Por que?
- ... - ficou em silêncio, terminando de dobrar as roupas faltantes.
- Logan sabe?
- Ele não entenderia...
- Ah, me desculpe. Mas ninguém vai entender!! - Já perdendo a calma.
- Só te peço uma coisa, não fique com raiva de mim...
- O problema não sou eu ficar com raiva, mas outra pessoa... - dando a indireta para Logan.
- Diga a ele, que apesar das aparencias, eu gosto dele!
- Não está parecendo! Você vai fugir dele? Porque você não se entrega a essa paixão, fica se controlando!
- Já estou entregue, não duvide! E se vou embora, é porque preciso!
Desistindo da inútil discussão, Ororo abraçou Tessa.
- Não vou mais discutir. Boa sorte!
- Obrigada... Só queria que você soubesse, que você é uma grande amiga!
- Você também!
- E estou partindo com o coração partido.
- É uma pena você ter que ir...
- Você acha que ele me perdoa?
- Talvez...
Desceu a escada vagarosamente, uma mão ocupada com a mala, a outra saboreando o corrimão num doloroso adeus. Para a porta ficou Ororo acenando. Ao entrar no táxi, deu um uma última olhada e um último suspiro de arrependimento.
- Para o aeroporto, por favor!
E o taxi seguiu.
- XI -
Ainda estava entretida com a revista, quando ouvi a aeromoça perguntando qual bebida eu estaria servida. Não tive tempo de responder...
- Um vinho tinto, pra dois! - sentando-se na poltrona vaga ao meu lado.
Olhei com desprezo, e voltei a ler.
- Estava com saudades de você, achei que essa sua recuperação demorou muito! - disse com um sorriso cínico.
- É, acho que a pancada foi muito forte...
- Achei que você ia gostar. - gargalhando no íntimo.
Desviei o olhar do livro, encarei com ódio aquele ser, e voltei a ler. Pensava comigo, quando tudo isso iria acabar?
- E então?
- Ninguém sabe de nada. Nem desconfiam.
- Tem certeza.
- Tenho.
- Bom. Já imaginava, só queria me certificar. E aí, como foi sua estadia lá?
- Uma das melhores que já tive! - cutucando-o no ego.
Ele fechou a cara, mas foi breve, já que a aeromoça chegou com as duas taças de vinho.
- Um brinde a nós, Tessa!
- Um brinde, a mim e a você, separadamente, Shaw. - com olhos vingativos.
- Nós somos um só! Nós nos completamos!
- Engano seu, meu querido. Você precisa de mim, sem mim, você não é nada!
- Prepotência sua! - ele não podia perder a superioridade, apesar que no fundo, sabia que ela era insubstituível..
- Um brinde ao nosso último negócio! - erguendo a taça.
- Último??
- Depois disso, vou cuidar da minha vida.
- Vai casar, ter filhos e passar o resto da sua vida fingindo ser normal gostar de uma vida tão medíocre? Não, Tessa. O mundo precisa do seu dom!
- Pois vou usá-lo a minha maneira, só isso...
- Você não conseguirá fugir de mim! Eu sigo o seu rastro onde quer que você vá!
- Veremos! - sacudiu a taça, sentiu frescor da uva e o estômago revirou.
Colocou a taça sobre o aparador da poltona e voltou a ler, rezando para que ele fosse embora.
Shaw se levantou, e saiu sem dizer nenhuma palavra a mais.
Tessa respirou aliviada.
Era preciso muita coragem para bater de frente com um dos homens mais poderosos e maus que ela conhecia.
- Aeromoça! Por favor, você poderia levar esse vinho e trazer uma aspirina?
- É pra já, senhora! Só um momento!
Fechou a revista e começou a apreciar a paisagem.
- XII –
Tessa havia viajado para uma outra filial do Clube do Inferno. Subiu direto para seu quarto, atrás dela, deixando a mala no chão, o "rapaz" dizia:
- O que a senhora precisar, é só chamar! - medindo o corpo dela, de cima a baixo.
- Obrigada... - de costas, sem reparar no "rapaz".
Tirou o óculos escuros, colocou sobre a mesinha no canto do quarto. Soltou os cabelos, deixando cair as longas madeixas negras sobre as costas descobertas pelo decote e foi até a janela dar uma breve espiada na vista.
O rapaz saiu ainda admirando-a e fechou a porta.
Sentou-se na cama, tirou a bota e jogou em qualquer canto. Jogou-se para trás, olhou o teto e reparou nas bordas de gesso trabalhado. O teto de seu quarto na mansão também tinha detalhes parecidos. Um quarto que jamais voltaria a freqüentar...
Continua...
¹ O título do capítulo foi inspirado nessa música: Faint
I am
Little bit of loneliness
A little bit of disregard
A handful of complaints
But i can't help the fact
That everyone can see these scars
I am
What i want you to want
What i want you to feel
But it's like
No matter what i do
I can't convince you
To just believe this is real
So i let go
Watching you
Turn your back like you always do
Face away and pretend that i'm not
But i'll be here
Cause you're all that ive got
I can't feel
The way i did before
Don't turn your back on me
I won't be ignored
Time won't heal
This damage anymore
Don't turn your back on me
I won't be ignored
