Saint Seiya pertence à Masami Kurumada e Toei.
Camille, Louise, Olímpia, Julieta, Suzane, Jean-Pierre, Henri e Fradique são personagens de minha autoria e Catarina é um personagem criado pela Nana Pizani e reformulado por mim para atender as necessidades da história.
Trata-se de um U.A (Universo Alternativo) já que eu só trabalho com os personagens, mas não uso a cronologia do autor e apenas alguns lugares.
Um singelo presente de aniversário para a minha grande amiga e tia virtual Nana Pizani.
Boa leitura!
"Camus. Hyoga é seu filho. Seu filho com Natássia Alexei".
Por alguns segundos Camus manteve-se em silêncio digerindo aquelas palavras loucas. Será que escutara bem? Hyoga? Filho? Natássia?
"Que brincadeira é essa?" – perguntou soltando as mãos de Catarina com selvageria – "Hyoga meu filho? VOCÊ É LOUCA!" – ele afasta a cadeira ficando de pé bruscamente. – "EU NÃO TENHO FILHO!".
"Camus... eu... sim! Você tem um filho! E esse é Hyoga!" – respondia a garota já preocupada com a reação dele – "Eu sei que é difícil de entender, mas...".
"Não há o que entender!" – os olhos dele estavam vidrados e uma expressão da mais pura incredulidade – "Filho? Eu?". – agora ele encarava a garota que se mantinha passiva e o olhava com os olhos cheios de lágrima.
"Eu não brincaria com uma coisa séria como essa!" – respondeu baixinho.
"Não! É impossível! Como?" – ele respirava com dificuldade e sentia a cabeça zonza.
"Lembra-se dela? Natássia! Na sua adolescência em Bordeaux¹".
Natássia. Quantos anos fazia que não ouvia esse nome? Agora descobrira que ela estava...
"MORTA? ERA NATÁSSIA NAQUELE NÁVIO? MORTA! NÃO! NÃO! NÃO CONSEBO!"
O ruivo empalideceu de forma impressionante – era informação demais em tão pouco tempo - os olhos se fecharam, ele encostou-se à parede lateral, a respiração ofegante, aos poucos ia perdendo a força nas pernas.
"Calma Camus! CALMA!" – ela foi chegando perto dele devagar, como se tivesse tentando conter um animal acuado. – "CAMUS! ALGUÉM ME AJUDE!".
Ele tombou, os olhos se fecharam e Camus desmaiou ali mesmo.
"Ele está bem! Apenas sofreu emoções muito fortes como você acaba de me dizer" – sentenciou o enfermeiro – "O senhor Lantier teve algum desgosto senhorita?".
"Eu me recuso a aceitar que tenha sido um desgosto senhor!" – respondeu ela contendo as lágrimas, mas o encarando com os olhos marejados.
"De qualquer modo, ele deve descansar". – respondeu – "Venha senhorita Alexei! O doutor quer lhe falar sobre o estado de saúde de Hyoga!".
"Por favor, quando ele levantar me chame!" – respondeu a garota indicando com a cabeça o francês que repousava no leito do pronto-socorro.
Agora tudo que importava era a vida de Hyoga e nada mais.
"Senhorita Alexei!" – chamou o doutor encarando Catarina – "O estado de Hyoga é delicado, ele perdeu muito sangue por causa do atropelamento, mas por sorte não sofreu traumatismo craniano o que aumenta suas chances. Provavelmente ele precisará de uma transfusão de sangue, contudo não sei se o hospital tem o suficiente para suprir as necessidades". – ele respirou fundo – "Faremos tudo que estiver ao nosso alcance. Eu entendo o quanto deve ser difícil para você e...".
"NÃO! NÃO ENTENDE NÃO! NINGUÉM ENTENDE O QUÃO DIFÍCIL ESTÁ SENDO PARA MIM NO MOMENTO!" – ela começou a gritar, estava desesperada com toda aquela situação. Era Catarina que estava cuidando de tudo, os papéis da internação, avisar os amigos da pensão, contar a verdade a Camus... E se acontecesse algo a Hyoga ela não saberia se suportaria. – "APENAS SALVE-O E EU SEREI ETERNAMENTE GRATA!". – respondeu ela tremendo um pouco.
"Faremos o que estiver ao nosso alcance senhorita!" – respondeu o médico penalizado pela situação da garota, mas irritado pela forma grosseira que foi tratado. – "Acalme-se! Por favor! Não tem ninguém para ficar aqui com você?".
"Ela não está mais só!" – respondeu Shun entrando correndo pelo corredor e indo diretamente até ela.
"Shun!" – ela chamou com a voz fraca e os olhos inchados, vendo-o chegar como um anjo para protegê-la de todo aquele pesadelo.
Ele aproximou-se dela, abriu os braços e abraçou-a com força, afagando-lhe os cabelos. A diferença de tamanho era pouca, permitindo que Catarina repousasse a cabeça nos ombros de Shun com certo alívio.
"Que bom que você está aqui!"
"Hyoga! Como ele está?" – perguntou preocupado. Ela afastou a cabeça de seu ombro e o encarou. Pelo jeito não tinha sido a única a chorar, o rosto de Shun também estava muito vermelho com os olhos e lábios inchados.
"Mal!" – balbuciou as mesmas palavras que tinha dito a Camus há algum tempo atrás – "Vai precisar de transfusão de sangue e o hospital não sabe se o banco de sangue vai suprir as necessidades dele".
"Eu dôo meu sangue!" – respondeu – "Todo o meu sangue se ele precisar e se formos compatíveis!".
Catarina sorriu, ele era a pessoa mais nobre que tinha conhecido na vida. Sabia que se fosse ela ali naquela cama de hospital ele faria o mesmo e se estivesse com Hyoga no momento do acidente pularia na frente do carro para que o amigo se salvasse.
"Quero vê-lo!" - sentenciou o rapaz.
"Eu também, mas ele não pode receber visitas. Está na UTI".
"Então, só nos resta esperar!" - respondeu o rapaz decepcionado.
"Como você chegou aqui?"
"Ikki me trouxe, está lá fora estacionando a moto!" - falou baixinho - "Seiya, Shiryu e os outros foram passar o fim de semana em La Ville Rouge² e Olímpia está em casa rezando por ele, assim que puder virá também".
"Espero que tudo dê certo!"
"Vai dar Tata! Vai dar!"
"Onde eu estou
"Calma senhor Lantier! Você passou mal, apenas isso, emoções fortes geram conseqüências como essa".
Camus estava olhando para o teto da enfermaria, muito atordoado. Será que tudo aquilo que tinha ouvido fora um pesadelo? Fora só coisa de sua imaginação? Ele tentou se levantar, contudo fora impedido pela enfermeira.
"Procure descansar! Vou chamar a senhorita Alexei para lhe fazer companhia".
"Senhorita Alexei?" - ele repetiu pausadamente - "Onde ela está?".
"Ela já vem senhor"
Algum tempo depois Catarina apareceu na porta do pronto-socorro junto com Shun, para despedir-se dele e depois entrar no local.
"O que aconteceu com ele?" - perguntou o rapaz intrigado quando recebeu a notícia de que o professor estava ali.
"Outra hora eu te explico Shun! Pode me esperar na recepção junto de Ikki, eu tenho que conversar com Camus".
"Você ficará bem?"
Ela balançou a cabeça afirmativamente.
"Essa resposta não me convenceu!" - sentenciou Shun preocupado. - "Mas..." - ele balançou os ombros desviando o olhar, sabia que não poderia impedi-la de ir.
Catarina deu um beijo leve no rosto do jovem fazendo-o dar um meio sorriso e concluiu que nunca tinha visto olhos de Shun tão tristes. Ele deixou-a sozinha, foi andando pelo final do corredor e começou a correr o mais rápido que pode até o banheiro masculino. Entrou, encostou-se na porta, deslizando devagar até cair sentado no piso frio e começou a se debulhar em lágrimas.
"Hyoga, seu idiota!" - murmurou Shun entre soluços.
Camus estava sentado na cama de hospital, tentando se lembrar de tudo que tinha acontecido. O que foi que ele tinha feito? Desmaiar vergonhosamente perante a uma estranha. Ridículo! Concluiu por fim.
"Camus"
Ele virou para a direção da porta e deparou-se com a garota. De um sobressalto ele pulou do leito e se dirigiu até ela.
"Vamos conversar AGORA MESMO!"
"Certo, mas calma! O enfermeiro disse que você pode sair?"
"Já, já. Vamos logo!" - ele segurou com força um dos seus braços e começou a guiá-la na direção oposta.
Mesmo desconfiada de que o enfermeiro não tinha sequer tomado conhecimento de Camus estava se retirando, ela preferiu não contrariá-lo. Tiraria todas as dúvidas dele, apenas isso. Eles foram até a recepção novamente, sentaram-se nos confortáveis sofás, averiguaram se ninguém estava próximo e passaram a se encarar.
"Como está Hyoga?" - perguntou Camus.
"Está em observação na UTI e provavelmente precisará de transfusão de sangue. Só nos resta esperar...".
"Agora, que história é essa de Hyoga ser meu filho? Não faz o menor sentido!"
"Você conheceu Natássia Alexei não conheceu?"
"Conheci! Foi minha namorada!"
"Dormiu com ela?"
"ORAS ESSA GAROTA, QUEM VOCÊ PENSA QUE É PARA...".
"Então, está resolvido o mistério!" - sentenciou baixinho e sem emoção.
"Eu conheci Natássia há muitos anos atrás. Mas, ela não teve um filho meu".
"Ou não que você tivesse tomado conhecimento!"
Ele se calou e a encarou.
"Camus" - ela pensou um pouco no que ia falar e prosseguiu - "Assim que você veio para Paris Natássia descobriu estar grávida de um filho seu, mas você a abandonou sem ao menos dar-lhe uma satisfação decente e...".
"É mentira!" - sibilou ele - "Eu nunca enganei Natássia! Essa era a versão daquela velha trapaceira? Típico de Camille Alexei, aquela BRUXA!".
"NÃO VOU PERMITIR QUE OFENDA A MEMÓRIA DELA!" - disse Catarina com ódio - "Agora, vai me deixar continuar a história ou não?".
"Termine!"
"Camille me falou que você partiu para Paris sem avisar Natássia. Ela então se viu só, o pai dela acabou morrendo um tempo depois. Muito abatida ela pegou a parte que lhe cabia na herança e com quatro meses de gravidez - sem ter idéia de onde você estava - ela começou a vagar pelo mundo, indo até a Rússia e parindo o filho lá".
Camus parou perplexo.
"Sua querida mamãe ao menos lhe contou por que eu fui embora sem avisar Natássia?"
"Superficialmente!"
"Pois, eu vou lhe digo". - ele se levanta e começa a andar de um lado para o outro do aposento.
Naquela época eu devia ter pouco mais de vinte anos, um adolescente sem eira nem beira. Tinha fugido de casa aos dezoito - minha mãe era submissa demais e meu pai era um bêbado sem escrúpulos - e passei a viver só, trabalhava para comer e meu grande sonho era concluir os estudos. E tudo isso teria dado certo se os nossos destinos não tivessem se cruzado e nós começássemos a namorar naquele inverno...
"Camus! Camus!" - uma garota corria até um banco de praça na direção do jovem Francês.
"Natássia, o que você faz aqui?"
"Vim te ver!" - respondeu ela simplesmente dando um beijo leve no namorado. - "Estava com saudades! Imaginei que estivesse aqui essa hora".
Camus: Ruivo com uma franja despenteada caindo-lhe sobre a testa, olhos castanhos meio avermelhados, sobrancelhas bifurcadas, lábios delineados, pele branca, alto, bom porte, braços um pouco musculosos e ombros largos.
Natássia: Loira dos cabelos cor de trigo, bem lisos que lhe caia até metade das costas, olhos azul petróleo quase castanhos, lábios rubros, corpo delgado, alta.
"Não devia ter aparecido aqui esse horário, deveria estar estudando". - Lhe dá um meio sorriso, evitando encará-la - "Mas, eu também tive... hãn... saudades" - Ele abaixou ainda mais o tom de voz encolhendo um pouco os ombros, depois vendo o rosto dela abrir-se em um lindo sorriso.
"Pelo que vejo o senhor intelectual está muito ocupado namorando os livros novamente" - Ela mirou o banco que estava abarrotado de cadernos, livros, uma mochila meio esparramada e cheio de tranqueiras. - "Sorte sua que não sou ciumenta".
"Nem teria por que ter ciúmes. Eu já estava terminando". - ele começa a pegar os livros e cadernos e arrumá-los meio de qualquer jeito dentro da mala. A nevasca tinha dado uma trégua e um sol muito fraco despontava no céu.
"Por que está estudando aqui fora? Estava nevando até noite passada!"
"Já lhe disse que naquele quarto que eu moro não tem como eu estudar, é de cara com uma avenida movimentada e por isso é muito barulhento".
"Por que não estuda em uma lanchonete? Poderia se sentar confortavelmente em uma dessas cadeiras, próximo de um aquecedor, regado a chocolate quente".
"Sabe que eu não tenho dinheiro para essas regalias!" – Comentou amargurado - "E não vão permitir sequer que eu me aproxime da entrada se eu não consumir algo".
"Hum... então, venha para a minha casa! Lá tem uma sala de estudos confortável e você poderia estudar em paz".
"Não!" - respondeu de súbito virando-se para encará-la.
"Por que não?"
"Por que, por que... Natássia, não me leve a mal, mas tudo na sua casa é tão arrumado, bonito, fru-fru...".
"Vai ficar desconcertado?"
"É! Em outras palavras, vou sim. E seu pai não me suporta, não ache que não notei".
"Você pode ir lá enquanto ele estiver no trabalho!"
"Negativo!" - Comentou. - "Não me atreveria!".
"Camus, você tem que parar com essas bobeiras. Dinheiro não é tudo!"
"Diga isso para essa sociedade capitalista nojenta!" - Respondeu friamente. - "Natássia, eu não acho que uma garota como você devesse continuar com um cara como eu. Não tenho como sequer levá-la tomar um café e..." - Ele foi calado com um beijo.
"Não repita uma coisa dessas. Eu não me importo com dinheiro. Eu nunca vou desistir de você por causa de uma coisa tão fútil quanto essa; Dinheiro é papel e eu me apaixonei por você pelo que você é senhor Camus Lantier!"
Ele sorriu satisfeito por ouvir aquilo.
"E você está se esforçando muito e eu sei que você vai conseguir aquela bolsa de estudos. Orgulho-me e muito do meu namorado!"
"Chega disso, está me deixando encabulado!" - disse - "Agora, eu quero aproveitar o tempo com a minha garota!" - os olhos dele brilharam de forma curiosa e logo desceu seus lábios sobre os dela, consumindo-a em um beijo dócil, apaixonado e por fim lascivo e possessivo.
Os meses foram passando e eu me via cada vez mais envolvido naquele relacionamento, sentia aos poucos que Natássia era uma garota diferente das outras, especial; era dedicada, dançava balé desde muito cedo e era ótima no que fazia. Eu estava realmente enfeitiçado por ela...
"E não ouse rir de mim!" - Respondeu o Francês encabulado olhando a garota - "Eu não vou admitir risadas idiotas!".
"Não estou rindo Camus!" - respondeu Catarina sorrindo - "Isso prova a minha teoria de que você não tem um coração de gelo!".
"Calada!" - ordenou.
"Desculpe!"
Mas, os pais dela nunca foram a favor ao nosso relacionamento. Fradique sempre foi um homem muito enérgico, o sonho da vida dele era ver a filha encaminhada nos estudos e, de preferência, casada com um homem rico e de boa família. E ali estava meu maior problema. Nunca vou esquecer aquele maldito - e abençoado - jantar na casa dos pais dela em que eu ia me apresentar oficialmente ao casal.
"Ding-dong"
"Eu abro!" - gritou Natássia descendo as escadas correndo para abrir a porta e dando de cara com Louise - na época apenas empregada - já no corredor pronta para atender.
"Louise deixe que eu...".
"Foram ordens de vossa mãe Natássia!" – disse colocando a mão na maçaneta.
"Não me chame de forma tão polida, nem parece minha amiga do dia-dia".
"Seu pai acha melhor que eu a trate dessa forma diante de estranhos!"
"Quem liga para o que ele pensa?" - Retrucou irritada - "Deixe que eu recebo Camus!" - Abaixa o tom de voz e sorri - "Você vai ver que não é exagero da minha parte. Ele é lindo mesmo! Dos pés a cabeça!"
Louise sorri satisfeita de vê-la feliz. Tinham crescido juntas, Louise estava substituindo sua mãe na tarefa de zelar pela família Alexei e por isso ambas mantinham uma ótima relação. Ela não era apenas empregada, era parte da família e quase uma irmã para Natássia.
Louise acena com a cabeça e resolve se retirar para a cozinha.
Natássia abre a porta e depara-se com ele. Camus usava uma calça social preta e uma camisa branca de punhos - roupa de brechó, mas enganava muito bem e parecia roupa de marca. E, por cima de tudo, o já tradicional - e amarrotado - sobretudo marrom.
Ela sorriu feliz por vê-lo ali, era claro que ele ainda não tinha se entendido muito bem com o colarinho da camisa e ela não fez cerimônia alguma para dar um passo à frente e passar a arrumá-lo.
"Você está lindo meu bem!" - respondeu ela.
"Que bom que gostou!"
"Como conseguiu essas roupas?"
"Ah! Isso? Nada de mais, eu tinha algum dinheiro guardado!" - ele sorriu sem-graça - "Na verdade, vou fazer hora extra nessa semana inteira para poder conseguir cobrir as dívidas dessa roupa, mas por esse sorriso maravilhoso vale todos os meus sacrifícios !" - pensava consigo mesmo.
"Camus, seja você mesmo, não vá tentar agradar meu pai".
"Nem pensei nisso!" - reagiu surpreso.
Ela pegou a mão dele e foi levando pelo interior da casa, até chegarem à sala de jantar. O bairro era de classe média, o casarão estilo neoclássico e a família uma das mais tradicionais da cidade.
"Bonne nuit³" - disse Camus ao adentrar o lugar e deparar-se com a família de sua namorada.
Um homem alto de cabelos loiro já meio grisalhos estava de pé próximo à porta, tinha olhos da cor dos de Natássia - azul petróleo bem escuro - e ao seu lado uma mulher de cabelos loiros cacheados e estatura mediana.
"Seja bem-vindo!" - cumprimentou Camille com um sorriso ensaiado mirando Camus da cabeça aos pés com olhar crítico.
"Merci (4). Senhora..."
"Me chame apenas de Camille!"
"Alexei!" - disse o homem estendendo a mão para o jovem - "Fradique Alexei!".
"Camus Lantier!" - respondeu apertando a mão do homem e sentindo que ele estava quase lhe quebrando as juntas de seus dedos.
Por alguns segundos um silêncio se instaurou entre os dois casais que estavam dispostos frente a frente.
"Mère (5)"
"Oui (6)?"
"Que tal jantarmos?"
"Ah! Claro! Vamos Dique?" - perguntou a mulher chamando o marido.
"Não me chame pelo meu apelido diante de estranhos!" - sibilou o homem lançando-lhe um olhar carrancudo.
"Não se incomode comigo!" - respondeu Camus tentando descontrair e não querendo ser inconveniente, muito menos um estorvo.
"Com licença, mas isso é entre minha mulher e eu!" - falou ríspido fazendo-o ficar com a cara no chão.
"Perfeitamente senhor!" - disse abaixando os olhos.
Após o jantar resolvemos conversar na sala de estar, eu já estava muito mais ambientado e acostumado e já conseguia impressionar a senhora Alexei com meus bons modos e minha lábia polida, mas infelizmente o velho Fradique iria ser mais difícil de enrolar do que eu pensava.
"Vou até a cozinha!" - sentenciou Camille levantando-se. - "Me acompanha querida? Preciso de ajuda para trazer as sobremesas e não quero sobrecarregar Louise" - perguntou direcionando um olhar significativo à filha.
"Eu? Bem..." - Natássia virou-se procurando os olhos de Camus.
"Tudo bem!" - ele acenou para ela sorrindo e assim, um pouco receosa, ela foi junto da mãe.
Esperando que elas se retirassem o pai dela resolveu, enfim, falar comigo - levando em consideração que não tinha sequer dirigido a palavra a mim em nenhum momento desde minha chegada.
"Parabéns Lantier! Você é um ótimo ator!"
"Ator?"
"Pena que tão canastrão!"
"O que está insinuado senhor Alexei?" - perguntou ríspido e irônico.
"Minha filha pode estar encantada com você! Mas, é obvio que está apenas interessado no dinheiro dela!"
"Como é?" - Camus irritou-se - "Não! Quando pedi Natássia em namoro sequer sabia quem ela era, onde morava".
"Então, quais são suas intenções? Aproveitar-se dela? Levá-la para a cama talvez!"
"Amo sua filha senhor!" - respondeu vermelho, levantando-se do sofá e o sangue já subindo para a cabeça. O engraçado é que tinha conseguido falar isso para Fradique antes mesmo de Natássia.
"Bela tentativa Lantier! Vou falar apenas uma vez! Fique longe de Natássia!"
"Não!" - ele agora se segurava para não voar no pescoço dele - "Nunca desistirei dela apenas por que você quer!".
"Não tem nada a oferecer a ela. Natássia está perdendo a juventude, passeios, shows, tem ficado dentro de casa apenas por que você não pode acompanhá-la, pois sua renda precária não permite. Sem um emprego muito considerável, eu suponho!"
Camus pensou em responder, mas tudo que ele falava era a mais absoluta verdade.
"Uma família sem bons antecedentes. Lantier. Nunca ouvi falar de ninguém com um sobrenome desses".
"CHEGA!" - Urrou ele - "Gosto de Natássia pelo que é e ficaremos juntos enquanto me quiser. Mas, eu a levaria para qualquer lugar, apenas para ficar com ela!".
"Hum... o único lugar que tem condição de ir é para baixo da ponte seu ignorante! Enxergue-se! Natássia merece um homem de verdade e não um empregadinho qualquer!"
"Não sou obrigado a ouvir uma coisa dessas" - Ele sai do ambiente e segue para o corredor rumo à porta, dando de cara com Camille e Natássia.
"Camus... o que houve?"
"Vou embora! Amanhã nos falamos!"
"Mas... Camus!" - ela tenta segurá-lo pelo braço, mas ele consegue se desvencilhar.
"Obrigado por tudo senhora Alexei!" - e sai porta a fora.
"Vou atrás dele!" - Natássia larga a bandeja que segurava em uma das mãos em cima de uma mesinha que ficava ali perto, pegou o grosso casaco pendurado no cabide próximo à porta principal e já ia saindo para o rigoroso inverno lá fora.
"Natássia!" - chamou Camille - "Deixe-o um pouco!".
"Não! Eu tenho que falar-lhe!" - Desceu os três degraus da entrada, passou pelo jardim, chegou ao portão de ferro, empurrou e começou a correr vendo um vulto se distanciar ao longe.
"CAMUS!" - Ela foi até ele e segurou-o pelo braço - "O que ocorre?".
"Eu... nada!"
"Como nada? Você saiu daquele jeito da minha casa e...".
"Apenas, me desentendi com seu pai!"
"O que ele falou para você?"
"Nada que de certa forma, não fosse verdade!" - respondeu triste. - "Natássia... eu... sei que não tenho muito para te oferecer agora, mas você é a única pessoa que ainda me dá forças para continuar!" - ele segurou as duas mãos dela entre as suas, o vento cortante uivava e flocos de neve começavam a cair e ambos começavam a tremer de frio discretamente. - "Je t'aime ma chérie (7)"
Ela sorriu alegre, enlaçou seus braços esguios em volta do tronco dele e aninhou-se em seu peito.
"J'aussi (8)"
Camus abraçou-a com toda a força e afagou-lhe os cabelos, sentia que podia morrer feliz. Isso era a doença que chamavam de amor? Sentir-se febril, calafrios, as pernas bambas? Naquele momento em diante, decidiu-se permanecer doente junto de Natássia.
"O que você está fazendo aí senhor Lantier?"
"Hein!" - Camus acordou de súbito e olhou ao redor. Aparentemente, voltara a dormir sobre a tradicional e costumeira pilha de livros, tinha passado metade da noite em claro estudando para os exames que prestaria em várias universidades do país. Tentava seguir esse ritual de estudo durante a madrugada, pois era o horário que a avenida ficava mais silenciosa e ele poderia se concentrar - "Natássia?".
"Dormindo? Assim você não vai passar no teste".
Camus ficou vendo-a andar pelo local. Era um lugar muito pequeno, com apenas dois cômodos - o banheiro e uma sala - Naquele ambiente existia uma cama de solteiro, uma mesa abarrotada de livros e uma pequena cômoda; em um canto um pouco mais afastado havia uma pia e um fogão com duas bocas. Tinha apenas uma pequena janela que fazia a iluminação e uma cortina vermelha meio mofada. Natássia abriu-as ao máximo deixando a claridade adentrar, fazendo Camus tampar os olhos com os braços tentando fugir da iluminação. O barulho da rua era muito alto aquele horário do dia, tornando o local desconfortável para se estudar.
"Trouxe algo para você!" - ela colocou sobre a mesa dois copos de plástico com bebidas fumegantes e uma sacola de papel. - "Café e alguns lanches, achei que você merecia!"
"Não gaste seu dinheiro comigo!" - sibilou sem-graça - "Como me achou?".
"Fui até o seu emprego e perguntei para um dos seus colegas. Então é aqui o seu refúgio...".
"Não deveria ter vindo!" - levantou-se tentando arrumar um pouco a bagunça - "Esse não é lugar para você!".
"Eu decido aonde eu vou e o que faço!" - ela depositou na mesa um fichário com alguns livros - "Vim te dar uma mão. Você VAI entrar naquela universidade custe o que custar! E eu vou te ajudar no que precisar!".
"Natássia..." - ele ficou fitando a garota por um momento. Não era uma menina mimada, sua garota era determinada, amiga e guerreira. - "Natássia... minha Natássia...".
Ela se aproximou dele e depositou um beijo leve em seus lábios.
"Vamos vencer tudo isso juntos! Sou sua companheira e você vai realizar esse sonho! Agora vamos comer esse lanche e estudar. Eu vou tomar a matéria de você e o que mais for necessário!"
A loira dirigiu-se para a mesa e começou a dar espaço entre os livros para poder arrumar os lanches, começou a tirar a coisa dos sacos e puxou um pequeno banquinho que estava ali perto e se sentou. Depois entregou seu fichário para Camus.
"Tome, deve ter algo aí que possa ser importante para os seus estudos!"
Ele recebeu o material e voltou a se sentar em sua cadeira. Natássia empurrou o lanche para ele junto com o café e ficou vendo-o folhear as páginas. Os olhos dele passeavam pelo papel com uma rapidez incrível e absorvia todas as palavras que estava lendo, era muito inteligente e aplicado.
Ficou assim por uns dez minutos, a garota quieta para não atrapalhar-lhe e ele lendo aquilo tudo, deliciando-se com as palavras, as idéias novas, fórmulas, teorias... Até que se deparou com um nome escrito no rodapé da página com uma letra bem caprichada. Forçou os olhos sobre o papel e leu: Natássia Alexei Lantier.
Deu um sorriso simples e um olhar de esguelha para a namorada que prendia as longas madeixas em um rabo de cavalo no alto da cabeça.
"Natássia Alexei Lantier?" - perguntou curioso.
Ela corou violentamente e sorriu para ele.
"Er... bem... hãn... Eu tinha me esquecido completamente disso! Dê-me aqui!" - e tentou tirar das mãos dele o fichário, mas com rapidez Camus pulou da cadeira segurando o material para o alto, impedindo que ela o alcançasse.
"Não precisa ficar envergonhada!"
"Não é isso! É que... Ah! Você não entende nada..." - e virou o rosto para o outro lado - "Esqueça isso! E volte para os seus estudos!".
Camus depositou o material sobre a mesa e deu um beijo estalado em sua bochecha, depois se voltou para seu lugar e retomou o que estava fazendo.
Natássia cuidava de mim. Tinha horas que era minha mãe, minha irmã, minha confidente; Até então eu nunca tinha me dado tão bem com uma garota como ela. Todas as tardes ela ia até o meu quarto alugado e me ajudava a estudar, acredita que ela fez questão de vedar os batentes da janela para abafar o som da avenida? Deu certo e eu finalmente pude estudar em paz.
"Pelo que vejo você e ela tinham uma relação muito boa!" - comentou Catarina fitando o francês.
"Foi sim!" - respondeu secamente, mas com o olhar terno. Lembrar de Natássia sempre o deixava balançado.
"Então, o que aconteceu afinal para vocês se separarem?"
"Isso ocorre mais para frente!".
O tempo foi passando e estávamos cada dia mais próximos, mais encantados um com o outro, até que chegou um momento do que era quase inevitável para um casal de namorados apaixonados como nós...
Camus e Natássia estavam andando de mãos dadas por um parque muito bonito e conversando animadamente; Naquela manhã o francês tinha realizado sua última avaliação para tentar conseguir uma vaga em uma das universidades do país, tinha enviado seu currículo e agora só precisava esperar.
"Tenho certeza que vai conseguir!".
"Assim espero, se bem que... droga! Acho que assinalei a questão 67 errado quando fui passar o gabarito. E o meu texto. A minha redação não deixou realmente claro a relação entre...".
"Pare de achar defeitos. De qualquer modo já foi não é?"
"Sim! Foi!"
"Pois então, não se preocupe mais com isso!"
"Eu não vou mais pensar em nada! Apenas em você!" – ele para e a encara, não demorando muito para puxá-la para um beijo fervoroso. - "Natássia!" – disse interrompendo – "Quer comemorar? Vamos jantar juntos hoje à noite? A ocasião merece!".
"Ótima idéia!"
À noite eles se encontraram diante de um restaurante "popular", fora tudo muito divertido, muito bonito, muito agradável. Quando saíram do lugar – altas horas da noite – eles vinham abraçados pela avenida principal.
"A lua está linda não é?" – falou a garota. Ela usava um, sobretudo preto, um gorro, uma saia muito comprida e uma bota cano alto. Camus trajava o tradicional, sobretudo marrom, uma camisa branca por baixo, uma calça jeans e sapatos pretos.
"Sim, mas não tanto quanto você! Hoje foi uma ótima noite!"
"Foi sim!"
Eles caminharam, pela mesma praça que tinham passado de tarde. Sentaram-se em um banco, o vento frio uivando fazendo-os se abraçarem ainda mais.
"E agora? O que vamos fazer?" – perguntou Natássia – "Estou me formando no fim desse ano. Você provavelmente vai passar em uma dessas faculdades e...".
"Daí eu vou e depois volto buscar você quando terminar o curso! Então, a gente se casa!"
"Você fala como se fosse à coisa mais fácil do mundo!"
"Faço tudo por você!"
"Meu pai não vai colaborar com nada!"
"Não precisamos dele!"
"É muito duro escolher entre você e meu pai" – respondeu o encarando – "Amo muito vocês dois! Não sei se poderia ficar sem..." – ela foi calada com um beijo.
"Ninguém falou em escolher!" – respondeu Camus interrompendo o gesto – "Eu só sei que quero ficar com você!".
"Eu também!" – ela voltou a beijá-lo.
Camus estava muito feliz com a situação. Provavelmente, tudo daria certo, estavam apaixonados e seus planos poderiam ser bem sucedidos. E o sentimento e o desejo começaram a falar mais alto de uma hora para outra, tudo que ele tinha reprimido por tanto tempo começou a aflorar aos pouquinhos.
As mãos dele – que antes estavam nas costas dela – desceram para a cintura, enquanto Natássia aprofundava o beijo com volúpia e suas mãos entrando por baixo dos cabelos ruivos e foram parar embaixo da nuca. Camus começou a beijar-lhe o pescoço com certo atrevimento e depois lhe dando mordidinhas leves levando-a a dar gemidos discretos.
Eles se separaram por um momento, o francês interrompeu o que estava fazendo para fitar o semblante dela. Encararam-se. E ouve uma declaração silenciosa de ambos, ansiavam por muito tempo, mas sempre reprimiram em respeito um ao outro, agora não conseguiam mais esconder.
Aos poucos e com certa urgência eles se levantaram e seguiram para a casa de Camus. Entraram aos beijos, meio que trombando nas portas e paredes, os corpos não escondendo mais a excitação e o desejo que tinham um pelo outro.
Natássia foi depositada gentilmente na cama de seu amado, o corpo dele sobre o dela, as mãos passeando pelo seu belo corpo. Contudo, ele interrompeu tudo – meio ofegante - Para encará-la e disser-lhe.
"Tenho que ter certeza de que não vai se arrepender depois!"
"Nunca vou me arrepender do que acontecer aqui meu amor!" – ela respondeu distribuindo beijos pelo seu pescoço e desabotoando a camisa dele – "Me torne mulher! Torne-me sua mulher!".
E ele atendeu ao pedido dela com ardor. Naquela noite eles se amaram. A primeira e única vez que eles se entregaram, mas bastou para deixar marcas profundas em ambos.
Na manhã seguinte Natássia acordou abraçada com Camus, os corpos quentes e nus ainda bem próximos e o sentimento mais fortalecido do que nunca. Ela estava repousando no tórax dele, levantou a cabeça e deparou-se com ele dormindo tranquilamente, nos lábios um meio sorriso. Ela acariciou seus cabelos ruivos, fitando-o com ternura.
Aos poucos ele também foi despertando e sorriu quando a viu ali em seus braços, a lembrança da noite anterior ainda bem fresca em sua mente.
"Bon jour! (9)". – disse o francês fitando-a.
"Bon jour! Dormiu bem?"
"Você sabe muito bem que a última coisa que eu fiz essa noite foi dormir!"
"Mas, valeu a pena não é?" – respondeu brincalhona se sentando na cama e tentando se cobrir com o lençol.
"Eu te machuquei ontem?" – ele perguntou com o olhar preocupado.
"Um pouco, mas faz parte do procedimento!" – respondeu simples – "Foi um minuto de sofrimento para depois atingir a nirvana com você!".
Ele sorriu.
"Agora você é realmente minha!"
"E você é meu!"
Um tempo depois daquela noite eu recebi uma carta de uma das universidades que eu tinha tentado entrar; Não tinha conseguidoa vagae tudo parecia que iria ficar mais difícil. Um tempo depois – como se não pudesse ficar pior – fui demitido sem propósito. Resolvi ir procurar por Natássia e contar os recentes acontecimentos. Mas, quando eu ia sair de casa recebi uma visita inesperada.
"Fradique?"
"Posso entrar Lantier?" – ele respondeu polidamente – "Quero lhe falar!".
"Não tenho nada para falar com o senhor!"
"É sobre Natássia! Permite?" – foi entrando pelo aposento, fitando tudo com olhar crítico e debochado.
"Diga logo! Estou de saída!"
"Pelo que vejo você não conseguiu entrar na universidade!" – disse vendo a carta aberta em cima da mesa e lendo-a sem cerimônia.
"Pelo que vejo a educação não é seu ponto forte!" – respondeu ríspido.
"Camus, deixe minha filha em paz! É um fracassado!"
"Veio até minha casa me insultar?"
"Casa? Olhe a sua volta! Moras em um buraco!"
"O problema é meu!"
"Está jogando sua vida no lixo e a de Natássia também!"
"Isso não tem nada a ver com você! É entre mim e Natássia!"
"Ela é minha filha e quero o bem dela!"
"Eu também quero!"
"Então a deixe! Seja racional Camus, mesmo que entre em uma dessas universidades vai deixá-la confinada aqui em Bordeaux esperando por você?"
"Venho buscá-la depois!"
"É mesmo? E o que garante que você não vai conhecer outra e esquecê-la?"
"Dou minha palavra!"
"Não confio nela!" – respondeu irritado – "Pense Lantier, não tens futuro assim! Vais estudar e crescer profissionalmente, ser um grande homem e minha filha também vai seguir a vida dela. É jovem e talentosa. Sabia que ela recebeu um convite para dançar em uma companhia de balé na Rússia? Ela está recusando por sua causa".
"Isso... isso é verdade?"
"É sim! Sabe que Natássia é uma grande bailarina e tem a chance de se aperfeiçoar mais e mais".
Camus calou-se, não duvidava que a namorada fosse capaz de algo assim. Estava sendo um peso para ela, sentia isso. Mas, a amava!
"Pense nisso!" – sentenciou o homem.
"Não vou mudar minha decisão!" – respondeu mal-criado.
"Eu sou paciente rapaz. E a paciência é uma virtude!" – ele sai deixando-o só.
Por muito tempo àquelas palavras ficaram martelando em minha mente; Não funcionava como nos contos de fada, a vida era dura e muitas as dificuldades. Começava a relevar tudo o que Fradique tinha dito, era verdade de certa forma. Natássia estava perdendo sua adolescência com um cara como ele! Sem nada! Sem família! Sem nome! Sem posses! Nada! Nada vezes nada! Por mais que eu não quisesse admitir, tinha que ser racional e fazer algo digno de um adulto e não de um adolescente inconseqüente. Até que eu tomei minha decisão pelo bem de nós dois.
"Precisamos conversar Natássia". - disse Camus em um dos passeios ao ar livre que dava com a namorada.
"Pode falar" - respondeu o encarando- "Você está muito sério e calado. Aconteceu alguma coisa?".
"Aconteceu e vem acontecendo!"
"O que é?"
"Natássia, eu não sei se vai ser uma boa continuar do jeito que está. Eu vou para uma universidade e não quero deixá-la presa a mim aqui em Bordeaux".
"Já falamos sobre isso e eu já respondi que se necessário vou com você para onde você for".
"Há! Acha mesmo que a vida é tão fácil?"
"Eu posso trabalhar e estudar, não é esse o problema!"
"Não se ofenda, mas você não sabe o que são problemas. Teve tudo desde que nasceu, conforto... Não conhece nada da vida!"
"Por que está falando isso?"
"Encare os fatos Natássia, não é assim. Até quando você vai continuar a querer 'brincar de gente grande'?".
"Sou uma mimada? É isso que quer dizer?" - Respondeu irritada lançando um olhar carrancudo a namorada. - "Está enganado Lantier!".
"O que quero dizer é que eu vou começar vida nova e não sei se você vai agüentar acompanhar o meu ritmo".
"Quer terminar o nosso namoro?"
"Exato!"
"Não! Não é possível! Não é o mesmo Camus que eu conheço. Aconteceu alguma coisa? Meu pai te fez alguma ameaça?" - ela começava a soluçar e as lágrimas já rolavam por seu rosto.
"Seu pai não teve nada a ver com isso! Eu quero assim! Vai desperdiçar sua vida e eu também!" - ele falava secamente evitando olhá-la nos olhos. Seu coração estava despedaçado, todavia sabia que seria o melhor para ela. Não poderia confiná-la a uma vida de incertezas, sem saber se amanhã teriam comida na mesa ou mesmo um teto.
"Desperdiçar? É isso que sou para você agora que vai realizar seu sonho? Um peso?" - ela o segurou pelo braço com selvageria - "OLHE PARA MIM LANTIER!".
Camus virou o rosto para ela, os olhos frios e a expressão carrancuda tentando não demonstrar nada.
"Diga que foi tudo mentira então. Você não me ama e nunca me amou?"
"Amei, mas acabou!" - ele se solta dela - "Sinto muito!".
Antes que pudesse se controlar o impulso foi mais rápido - o ódio, a raiva, o sentimento de que fora usada - e Natássia meteu um tapa na cara de Camus, marcando seus dedos em sua face, fazendo-o virar a cara sem reagir.
"Cretino! Idiota! Maldito! Filho de uma vadia! Odeio você! ODEIO VOCÊ!"
Ela correu pela rua deixando-o só. Foi só ela sumir do outro lado da rua para ele cair no chão de joelhos, as mãos sobre as pernas e tentando controlar as lágrimas que começavam a brotar deixando a visão turva.
"Natássia perdoe-me! Perdoe-me!" - murmurava entre soluços.
"Nunca mais vi Natássia depois daquilo!" - Disse Camus interrompendo o relato para fitar Catarina que o olhava perplexa. - "E foi isso que aconteceu!".
"Camus, como pode?"
"Fiz isso por ela!" - respondeu irritado - "Eu precisava deixá-la livre. Antes de partir eu passei na casa dela para deixar o endereço de onde eu estaria - Tinha passada em uma universidade em Paris, onde consegui uma bolsa do governo - Mas, não a encontrei. Deixei o endereço com sua 'querida mamãe' e provavelmente o recado não foi entregue. Eu deixei uma referência minha a Natássia! Dois anos depois eu voltei para Bordeaux para procurá-la - minhas condições já estavam melhores e eu já estava encaminhado na vida - Contudo, me disseram que ela tinha partido para o exterior e que estava noiva de um advogado".
"Quem lhe disse isso?"
"O que?"
"Que Natássia estava noiva?"
"Não fui até a casa dela, procurei os vizinhos e conhecidos e eles me confirmaram a história".
"Foi uma desculpa para justificar a gravidez. Cidade pequena, ela ia ficar mal falada". - respondeu Catarina - "E como eu disse anteriormente; Natássia descobriu estar grávida de um filho seu depois que partiste e não queria que ele nascesse perto do pai - que tinha feito tudo para separá-los, como ficou sabendo mais tarde através de sua mãe - Fradique não tinha uma saúde muito boa e acabou falecendo - enfarto fulminante - Natássia não perdôo a submissão da mãe diante dos atos de seu pai, discutiram, ela recorreu à parte que lhe cabia da herança e sumiu pelo mundo quando estava grávida de quatro meses. Por muitos anos ela tentou encontrá-lo, mas não obteve sucesso!"
Um silêncio fez-se depois de tudo aquilo. A culpa não fora de ninguém. Nem dele, tão pouco de Natássia – mais vítima do que qualquer um.
"Camille me disse que fez tudo para proteger a filha! Não concordava com Fradique, te considerava um bom homem, mas não achava justo que a filha abrisse mão de tudo que tinha por um amor adolescente". – Catarina tentava isentar a "mãe" da culpa. Por um lado, não achava sua atitude totalmente errada, mas por outro, ela não soube achar uma forma mais eficiente – além da submissão ao marido e mentir sobre o paradeiro do rapaz – para conseguir o bem de Natássia.
A cabeça de Camus trabalhava a mil por hora.
"Oh Deus!" - murmurou suspirando penalizado - "Quer dizer que eu tive um filho e dei aula para ele o ano todo sem saber?".
"Foi!"
"Hyoga não tem nem idéia de que...".
"Nenhuma! Ele nunca teve notícias do pai e nunca fez questão disso!"
"Que loucura! Loucura!" - suspirava impaciente - "O que eu faço agora? O que? Descobri que sou pai há cinco minutos e que meu filho está entre a vida e a morte em algum lugar desse hospital de merda?"
Passos são ouvidos pelo corredor e duas pessoas entram chegando ao local: Olímpia e Ikki.
"Minha querida!" - a senhora corre para abraçar Catarina que quase desmonta sem forças nos braços dela - "Como ele está?".
"Em observação e vai precisar de uma transfusão de sangue. Está na UTI. O motorista do carro fugiu, provavelmente estava alcoolizado".
"Podemos visitá-lo?"
"Ainda não!" - ela fitou Ikki que se mantinha passível diante da cena.
"Onde está Shun?"
"Não sei! Não o vejo há quase uma hora!"
"Vou procurá-lo!" - sentenciou a mulher largando a garota e voltando para o lugar que tinha vindo.
Camus matinha-se calado vendo a cena, por fim passou por Catarina e seguiu para o corredor.
"Aonde você vai?" - perguntou segurando o braço dele.
"Não sei!" - sibilou quase sem forças - "Pensar em tudo isso! Volto mais tarde!".
"Depois eu tenho que te entregar uma carta que ela escreveu para você!"
Ele fez um sinal afirmativo com a cabeça. Ikki fitou o olhar terno e preocupado que Tata tinha para Camus e ficou irritado. Nunca tinha recebido um olhar daqueles dela, tão cheio de sentimentalismo. Ficou enciumado. O ruivo passou por ele sem dar atenção e rumou sem destino certo.
"Aquele não é o professor do Hyoga?" - perguntou sem-emoção.
"É! Camus Lantier!"
"O que ele faz aqui?"
"Veio vê-lo".
"Pelo jeito ele é muito íntimo dos Alexei!" - respondeu ríspido.
"Não estou para enigmas Ikki! Nem para seus ciúmes! Hyoga está morrendo!".
Ikki odiou-se por um momento, aos poucos foi para perto dela e abraçou-a afagando-lhe os cabelos.
"Não me deixe!" – pediu tímida.
"Não vou deixar!" - respondeu ele com ternura - "Vai dar tudo certo! Eu prometo!".
"Preciso de você!"
Ele a faz encará-lo, toma seu rosto em suas mãos e a beija com ardor tentando confortá-la.
"Calma, eu estou aqui!" - volta a abraçá-la contra seu peito. - "Não se preocupe com nada minha querida!".
Começava a nevar novamente e eles se sentaram em um sofá próximo à janela vendo os flocos de neve cair lá fora. Da janela do hospital, Catarina ainda pode ver Camus sair às pressas do prédio e ganhar a rua.
Vocabulário:
¹-Bordeuax: Bordéus.
²-La Ville Rouge: Situada ao sul da França à cidade de Toulosse é conhecida como La Ville Rouge, graças à cor predominante de seus prédios construídos com tijolos vermelhos. A cidade também é um dos mais importantes pólos de arte na França.
³-Bonne nuit: Boa noite.
(4)-Merci: Obrigado.
(5)-Mère: Mamãe.
(6)-Oui: Sim.
(7)-Je t'aime ma chérie: Eu te amo minha querida.
(8)-J'aussi: Eu também.
(9)-Bom Jour: Bom dia.
N/A: Olá meus caros leitores, vos trago mais um capítulo dessa história dramática e intrigante.
Fiquei imaginando qual seria a reação do Camus e optei por um mal estar repentino. Parece estranho, mas na minha opinião é pertinente ao momento.
E antes que alguém venha começar a falar mal do Camus, estou aqui para bancar a advogada de defesa deste. Sejamos racionais, por mais que o sentimento entre ele e Natássia fosse forte e puro não foi o bastante para que eles permanecessem unidos. E "amor não põe comida na mesa". Isso é fato! Sim! Isso é muito taxativo, sem falar insensível por parte da autora, mas é verdade. Camus foi racional! Provavelmente, se tivesse ficado com Natássia, eles teriam terminado em pouco mais de um mês em virtude de todas as dificuldades; ela voltaria para a casa dos pais esbravejando contra Camus e etc. Foi melhor o sentimento dos dois ser guardado como uma doce lembrança.
E quanto a Natássia? Ela foi MUITO CORAJOSA para ter o filho sozinha e criá-lo em um país estrangeiro sem o apoio de ninguém. Foi pouco prático, levando em consideração que ela poderia ter tidoa criançaem Bordéus e os criado junto com a mãe e Louise - lembrando que o pai dela tinha morrido.
Está aí! Acho que as coisas ficam mais claras a partir desse momento. Espero que tenham apreciado e eu não pretendo escrever muito mais coisas. No próximo capítulo vou dar enfoque ao Hyoga que está padecendo já faz um tempinho.
E sim! Eu ainda tenho mais surpresas para vocês! Aguardem!
De qualquer modo, deixem rewiens com críticas e sugestões. Mas, eu escrevo para todos, inclusive para os meus leitores tímidos.
Por favor, comentem logados ou deixem seus e-mails para que eu possa responder ok?
Beijos
