Na manhã seguinte, quando cheguei em casa às cinco da manhã após ter adormecido de tanto chorar no parque, encontrei Jenna deitada no sofá adormecida embaixo de uma coberta rosa rendada, provavelmente me esperando chegar na noite passada. Esgueirei-me silenciosamente para meu quarto e tirei o terno sem me importar se estava sendo cuidadoso ou não, jogando-o no lugar mais esquecido de meu minúsculo armário para que nunca mais lembrasse daquela noite do baile.
Fiquei no quarto até ouvir minha irmã se levantando para que ela acreditasse que eu estava dormindo. No café da manhã, enquanto comíamos nosso cereal, Jenna me perguntou sobre o Homecoming e eu menti. Disse que foi ótimo, que todos me trataram bem e me diverti bastante. E ela acreditou, para a minha sorte, dando um resmungo de consternação e logo procurando mudar de assunto. Eu não queria que Jenna tripudiasse em cima de mim, eu não daria a ela esse prazer. Como ela estava doente e não iria para a escola pelo menos até a próxima semana, as pessoas já teriam se esquecido do ocorrido, portanto minha mentira estava a salvo.
[...]
Deveria ser por volta das quatro e meia da tarde quando a campainha tocou. Eu e minha irmã viramos a cabeça um para o outro e sem uma palavra, ela se levantou do sofá e foi atender a porta, tateando ao seu redor com a bengala.
- Toby, sua namoradinha quer falar com você, ela gritou em tom sarcástico.
Droga, pensei. De todas as pessoas de Rosewood, tinha de ser logo Emily a bater na minha porta? Se eu dissesse que não queria vê-la, Jenna desconfiaria logo. Se eu queria manter minha mentirinha, tinha de ir lá. E teria de ser rápido, antes que Emily mencionasse o desastre do baile para minha irmã. Num salto me levantei do sofá e fui até a porta.
- Pode deixar, eu assumo daqui, disse para Jenna. Ela bufou e se afastou, voltando para a sala de TV. Olhei para trás para me certificar de que ela não poderia nos escutar e fechei a porta atrás de mim ao sair com Emily para a sacada.
- O que faz aqui?, perguntei seco. Vai me dizer que sou uma ameaça também? Como Spencer fez ontem à noite?
- Não.
- E então o que veio fazer aqui?
- Eu vim pedir desculpas, Toby.
- Ah, é? Então perdeu seu tempo, porque não aceito suas desculpas.
- Por favor, Toby, entenda...
- Entender?! Entender o quê, Emily? Que todos acham que eu sou um assassino? Que todos nessa maldita cidade me odeiam? Isso eu já entendi faz tempo!
- Eu não quis que nada daquilo acontecesse, Toby!
- Mas aconteceu.
Ela recuou um pouco e se encolheu, olhando para os próprios pés enquanto segurava o braço esquerdo. Meu corpo tremia de raiva e eu procurava me acalmar para não perder o controle. Ficamos em silêncio pelo que pareceram horas, mas na verdade foram cinco segundos.
- Se é só isso, comecei a dizer lentamente depois de um longo suspiro, você já pode ir embora.
Ela levantou a cabeça e me fitou com aquele olhos castanho-escuros, como se perguntando se era aquilo mesmo que eu queria. Ela deu um suspiro e se virou, descendo as escadas da varanda e indo para a rua. De repente, ela parou no meio do caminho e se virou novamente para mim, seus olhos transtornados de dor e sua boca entreaberta, procurando palavras para me dizer.
- Me desculpe, ela disse por fim. É sério. Pode não parecer, mas..., ela fez uma pausa. Eu te entendo, Toby. Eu sei como é se sentir... deslocado do mundo. E eu gostaria de dizer que, sempre que precisar de ajuda, eu estarei aqui.
Ela ficou parada, esperando para ver se eu não tinha nada a dizer para ela também. Passaram-se alguns segundos e, vendo que eu não me pronunciaria mais, balbuciou um tímido "adeus" e continuou a caminha, dessa vez com passos mais largos. Quando ela já estava longe, engoli em seco e disse em voz alta:
- Adeus, Emily.
