BPOV's

A raiva era um sentimento estranho para mim. Muita gente poderia dizer que meu sangue era de barata, pois eu era acostumada a guardar todos os meus pensamentos odiosos dentro da minha boca. Poucos conheciam o meu lado explosivo – eu demorava a chegar no meu limite, porém, quando eu atingia aquela linha tênue, as coisas tendiam a ficar tensas.

Edward, por exemplo, era alguém que conseguia chegar sob minha pele e paciência com simples coisas. Aliás, eu poucas vezes experimentara tantos acessos de raiva seguidos como eu havia feito quando estava com ele.

Sem dúvida, ele ainda mantinha seus truques nas mangas.

Edward estava construindo uma instável pilha de motivos para eu xingá-lo. Primeiro, ele estava seriamente compromissado com alguém, mas mesmo assim viera até a minha casa sem pestanejar – eu considerava isso como dar falsas esperanças a alguém, embora minha voz interior insistisse que ele estava apenas sendo educado e, afinal de contas, eu havia chamado. Segundo motivo era sua bola estúpida, quicando por todas as partes, batendo nas caixas e incitando meus nervos a uma revolta iminente. O barulho só me lembrava do antigo Edward, que usava regatas de basquete e infernizava minha vida no corredor de armários do colegial. Então, ele havia chutado aquela porta, sem nenhum motivo aparente, mesmo depois de ter dito que não iríamos poder abri-la se fechasse de novo.

Eu sentia minhas mãos tremerem e meus olhos começaram a borrar de lágrimas, o que só me deixava mais raivosa ainda.

Edward me observava, parecendo estar esperando alguma coisa grandiosa acontecer.

- O que você acabou de fazer? – A voz não parecia ser a minha, sobrecarregada de um tom de ameaça. Eu poderia enrolar meus dedos em torno daquele pescoço coberto de algum perfume claro, até ele parar de respirar, mas então ele não iria poder nos tirar dali e eu realmente queria ver ele tentar fazê-lo.

- Eu estou tentando conversar.

- Você disse que não queria conversar.

- Acho que você precisa conversar.

- Eu preciso sair daqui.

- Antes, vamos conversar.

- Edward…

- Bella…

Argh, ele era tão irritante!

- O que você está fazendo não é justo – as lágrimas brotaram, desavisadas, pelos cantos dos meus olhos. Dei as costas para o homem em minha frente, ele me ver chorar só seria mais um motivo para deixá-lo satisfeito. – Nada disso aconteceria se você não tivesse me chamado, se você não tivesse perdido essa chave… O que sua esposa vai dizer quando você contar que passou a noite toda preso num sótão comigo?

- Eu não sou casado – Edward disse calmamente. Contive minha vontade de tornar a olhá-lo, pois assim ele poderia ler algum tipo de esperança em meus olhos sem a minha autorização. – E, de qualquer forma, Tanya não sabe que eu estou aqui, ou quem é você.

- Quem diabos é Tanya? – Meus ombros pareceram cair drasticamente, e eu só poderia desejar que ele não tivesse percebido isso.

- Minha noiva.

Um rosnado de escárnio escapou dos meus lábios e as lágrimas voltaram a banhar meu rosto. O quão ridícula eu estava parecendo? Ele não era casado, mas tinha uma noiva, e falava isso com tanta importância, como se tivesse alguma diferença significativa entre os dois status.

E… ele não falara de mim para ela? Que tipo de homem ele era, construindo um casamento sem contar para Tanya sobre mim? Eu merecia ser ao menos mencionada uma vez ou outra.

- Bem – eu tossi, tentando desembargar minha voz. – Parabéns pelo seu casamento.

- Obrigada – ele sussurrou.

- Você está feliz? – Era melhor começar a limpar logo as trilhas molhadas em minhas bochechas, já que não poderia ficar de costas para Edward para sempre. Eu queria encontrar logo a chave, assim ele poderia sair da minha vida o mais rapidamente possível e ir se casar e viver feliz com Tanya.

Mas eu não conseguia me mover, eu queria ouvir as palavras de Edward. Eu queria uma confirmação de superação – se ele havia me superado, se ele não pensasse mais em mim, seria mais fácil seguir em frente de verdade.

Torci meu corpo, encontrando Edward um pouco mais próximo a mim. Agora eu podia sentir o seu cheiro, ainda o mesmo que eu me lembrava. Ele me lançou um sorriso fraco e fechou os olhos, como se uma simples palavra poderia causar um dano terrível em seu corpo.

- Não.

- Achei que seu sonho sempre tinha sido casar. – Edward era tradicional ao extremo, algo naquilo sempre me incomodara, pois minha vida nunca seria considerada tradicional.

Esme sempre ficara maravilhada como nós dois conseguíamos dar certo. Talvez os quase dez anos que passamos brigando havia bastado para termos três anos de namoro e pura paz. Mas, agora, vendo o que havíamos feito naquela época, tudo parecia mais comodismo do que paz. Nós sempre íamos aos mesmos lugares, fazíamos as mesmas coisas, como se houvesse algum tipo de agenda. Tudo parecia bem, mas por baixo de toda calma, a impaciência de Edward fora crescendo e eu deixara meu bem estar me entorpecer. Eu não queria mudar, porque tudo era bom demais e poderia quebrar-se se nos movêssemos rápido demais.

Eu também não estava feliz e tudo aquilo podia ser minha culpa, mesmo que Edward nunca tivesse mostrado nenhuma vontade de dar uma segunda chance para nós.

- É, eu também. – Ele suspirou por alguns instantes, parecendo frustrado. – Tanya e eu somos diferentes, não é tão fácil como era com… - ele se interrompeu, sorrindo sem graça. Ele não queria admitir que nossos tempos eram melhores que os tempos atuais dele e, de certo modo, aquilo me ofendeu.

- Com a gente – eu terminei a frase firmemente. – Você quer conversar, mas se recusa a falar sobre nós?

- Esse terreno ainda é um pouco tenso para mim – ele admitiu, desviando o olhar para alguma caixa ao seu lado. – Eu ainda torro minha cabeça tentando descobrir onde erramos ou como teria sido.

- Eu acho que teria sido ótimo – sorri mesmo que ele não estivesse me olhando. Não era uma vergonha admitir que ele me fizera feliz durante o tempo que estivera ao meu lado.

Edward arrebatou um olhar assustado para mim, e logo seus lábios tornaram-se uma linha fina de raiva e contenção.

- O quê? – A cabeça dele balançou de um lado para o outro. Eu me vi nervosa com sua indagação. Não era possível que nossos olhares sobre o passado fossem tão diferentes assim.

- Edward, nós éramos felizes, independente do modo como terminamos. E eu acho que nós poderíamos ter durado muitos anos mais se você…

- Ei, ei, ei – Edward estava inquieto, suas mãos estavam erguidas e ele negava com todo o seu corpo as minhas palavras. – Não fale como se fosse minha culpa se nós terminamos, isso não é verdade.

- Você terminou tudo – as palavras eram esganiçadas, pois eu estava estarrecida.

O que ele estava dizendo? Como ele poderia me dar as costas depois de quase quatro anos juntos e nunca mais ter procurado saber como eu estava, vir até aqui e insinuar que ele não era culpado por tudo que havia acontecido? Por um momento, eu passei a duvidar das faculdades mentais de Edward Cullen, pois aquilo era um absurdo.

Algo dentro do meu peito começou a doer, como eu sabia que começaria assim que ele havia me ligado.

- Você nunca entendeu, não é? – Ele me trouxe de volta à discussão, enfiando seus cabelos estupidamente bonitos por entre os dedos e os puxando. Um típico gesto de raiva de Edward. – Nosso namoro tinha acabado há muito tempo e você se recusou a dar uma chance de nova vida para ele. Você negou seu amor por mim quando passou a me afastar de você.

- Eu nunca te afastei! – Eu pulei para frente, meus pés nervosos me levaram para perto dele, e eu tive que deixar minha cabeça cair para trás para poder olhar em seus olhos verdes. – Como eu poderia te afastar? Edward, você começou a se fechar, começou a ir para longe de mim mesmo estando ao meu lado… Tudo porque você não tinha capacidade de conviver com um "não".

- Demorou tanto para eu sentir tudo aquilo, todo aquele amor de que todos falavam sobre e eu nunca tinha sentido, que eu estava assustado com a possibilidade de te perder. Você sempre foi tão legal, tão independente, todos gostavam de você e eu me sentia um idiota ao seu lado, porque eu não conseguia fazer você aceitar ao meu pedido. Eu só queria uma confirmação, alguma coisa que me dissesse que você me amava da mesma maneira como eu te amava.

- Eu sempre deixei claro o quanto eu gostava de você.

- Eram só palavras…

- Você não pode pôr a culpa em mim. Eu não sou responsável pelos seus desejos insanos de ser amado incondicionalmente.

Aquilo era ruim, aquilo era muito ruim. Agora eu entendia porque ele nunca viera falar comigo e, de certa forma, eu estava desejando que ele nunca tivesse feito isso de novo.

Como eu poderia imaginar que Edward estivera guardando aquilo dentro dele por tanto tempo? Não era algo que eu pudesse imaginar que ele estivesse sentindo.

- Bem, mas a culpa é sua.

- Não! – Eu resfoleguei, impulsionando meus pés ainda mais para frente, até que eu pudesse tê-lo tão próximo de mim que meu dedo em riste afundasse no meio de seu peito. Edward olhou surpreso para aquele nosso ponto de contato e eu sabia que estava entrando em um terreno perigoso. – Você é mimado e egoísta e quer que tudo seja perfeito, que tudo seja do seu jeito. Então, advinha só? Nem tudo é como você gostaria que você. Nem todos têm sua família perfeita, sua vida perfeita, e eu aposto que sua noiva é perfeita também, embora ela não te faça feliz. Coisas perfeitas são chatas e um dia você vai se cansar de tudo isso, mas será tarde demais.

A cada sentença, eu usava meu dedo para cutucar o seu peito e nós fomos andando pelo sótão. Edward dava um passo a cada cutucada e eu o seguia.

- Você… - ele agarrou meu dedo com força e aquilo teria sido cômico se nós dois não estivéssemos com lágrimas nos olhos e sentimentos expostos como feridas naquele momento. – Você se acha tão esperta, huh? Então me diga, Isabella, como é ser independente e ter sua própria vida que, vamos deixar claro aqui, não é perfeita, enquanto você não tem ninguém para quem voltar para casa no fim da noite? Como é estar tão perto de ter trinta anos e vê que nada da sua vida está planejado, mas tudo está tão igual ao que era há quase dez anos atrás?

Eu poderia odiar Edward por dizer aquelas coisas para mim, mas, ao final de tudo, não eram mais que verdades. Minha vida era uma rotina eterna, há tantos anos sendo a mesma coisa que eu já não esperava por nada diferente em meus horizontes próximos.

Aos poucos, eu deixei meu corpo curvar-se, abandonando minha postura de defesa. Dei as costas para um ofegante Edward e deixei as lágrimas varrerem meu rosto.

- Bella… - sua voz me chamou, mas eu apenas abanei minha mão. Estava tudo bem, ele não precisava dizer mais nada, pois qualquer coisa que ele acrescentasse seria mais um pouco de dor adicionada à minha coleção. – Me desculpe, eu não…

- Está tudo bem – eu funguei. Realmente, eu não poderia ouvir mais a voz dele. – Vamos procurar a chave e tentar sair daqui.

Talvez eu havia pintado uma imagem diferente de Edward. Eu sempre quis mostrar a ele como eu podia ser forte e independente, eu queria ser tão diferente da Bella que ele havia conhecido ainda quando criança, e eu estava tão certa que ele amava a nova Bella… Mas ele tinha toneladas de coisas desagradáveis sobre mim rodando em sua cabeça e se eu não tivesse acabado de ouvi-las saindo de sua própria boca, eu nunca acreditaria que essas coisas haviam sido ditas por ele.

Eu não podia odiá-lo nesse momento, mesmo depois de ter nos trancado ali e ter dito aquelas coisas. De certa forma, eu era responsável.

Vaguei por entre as caixas, sem saber realmente por onde eu devia começar. Eu tentei manter uma máscara pacífica, mesmo que meus olhos estivessem vermelhos agora e meu nariz um pouco avermelhado pelas lágrimas que eu havia deixado escorrer. Por dentro, minha cabeça estava zunindo em mil direções diferentes.

Por algum motivo bizarro e masoquista, eu esperara ouvir de Edward que ele não havia me esquecido. Eu não gostava de admitir, mas desde o momento em que ele entrara naquele sótão, eu havia torcido para sua pose indiferente cair e ele finalmente admitisse o que estava sentindo. Óbvio, eu nunca estivera tão enganada durante minha vida. Mas, em contrapartida, eu não havia esquecido ele e, vê-lo ali depois de tanto tempo, só fez deixar isso mais claro para mim. Potencialmente, eu nunca mais teria um homem como aquele em minha vida.

Mas agora ele me odiava.

Deixa a frustração fluir pelas minhas mãos e, de repente, eu estava abrindo e revirando todas as caixas que ainda restavam ali. Tive a impressão de ouvir a voz dele chamando por mim, mas não quis me virar para confirmar aquilo, apenas continuei vasculhando, eu não pararia até encontrar aquela chave e colocá-lo para fora da minha casa. Eu não precisava de mais nada vindo dele, tudo estava muito claro agora.

- Bella – ele chamou mais uma vez. – Bella, pare.

Sua voz estava um pouco estridente, talvez ele estivesse com medo do meu comportamento automático.

- Bella! – De repente, sua mão estava enrolada em meu braço, enviando ondas de choques elétricos pelo meu corpo.

Eu me virei, sem chances de resistir mais aos seus protestos. Com sua mão, ele conseguiu colar meu corpo ao dele e logo eu já não estava entendendo mais nada. Eu apenas podia admirar a sensação nostálgica de poder sentir mais uma vez os lábios de Edward sobre os meus assim que ele dobrou-se sobre mim. Eu estava paralisada, congelada contra seu corpo. Há alguns minutos nós gritávamos a plenos pulmões verdades nunca ditas e agora ele me beijava como se fosse a primeira vez de todas.

Edward cansou-se de esperar algum tipo de reação vinda de mim, e apenas forçou a entrada da sua língua por entre meus lábios.

Algo como um rosnado escapou da minha boca sem que eu percebesse, e eu fechei meus olhos, abrindo passagem para ele e aprofundando nosso beijo. Depois de tanto tempo, seu gosto parecia ainda melhor, o que só me motivou a subir meus dedos pelo seu peito largo e depositá-los em sua nuca. Não havia melhor lugar para meus dedos ansiosos do que o cabelo de Edward, que eu puxava e maltratava só para senti-lo sorrir contra meus lábios.

A sensação era perfeita, uma pequena batalha entre nossas línguas que estava me levando ao delírio. Eu realmente não sabia se era ele, eu ou ambos que estavam gemendo no momento, meu cérebro havia parado de funcionar em seu perfeito estado.

Com pés errantes e embaralhados, nós nos movemos através do sótão, chocando nossos corpos contras as caixas e derrubando algumas. Eu realmente não me importava, contanto que ele não parasse o que estava fazendo. Sua boca separou-se da minha uma fração de segundos que poderia ter me feito reclamar, mas logo seus dentes capturavam meu lábio inferior com vontade enquanto suas mãos deslizavam pelas minhas costas, mandando arrepios por todas as partes do meu corpo. Desta vez, eu tive certeza que eu era a responsável pelo gemido, e eu libertei meu lábio da sua adorável prisão apenas para encaixar nossas bocas em um beijo desesperado. Eu precisava de mais e Edward parecia de acordo, pois suas mãos desceram até repousarem em meu traseiro, puxando meu corpo ainda mais contra o seu, como se pudéssemos nos fundir um ao outro desse modo.

Quando o oxigênio pareceu ficar escasso, nós nos separamos.

Edward parecia ofegante e eu, bem… Eu parecia ter corrido uma pequena maratona. O calor estava inundando meu corpo e eu passava a temer o que teria acontecido ali se nós não tivéssemos parados.

- Desculpe – ele disse, olhos arregalados e boca avermelhada.

- Não, eu… eu… - balancei minha cabeça, mas minha língua parecia estar inutilizável naquele momento para produzir algum tipo de palavra coerente. – Eu não deveria ter te beijado, você tem uma noiva e…

- Não – ele interrompeu, um sorriso torto surgindo em seus lábios inchados. – Não me arrependo de ter te beijado. Me desculpe por ter dito tudo aquilo, eu nem sei o que eu estava pensando.

- Oh – meu cérebro havia se concentrado em processar apenas a parte do beijo. Aquilo faria dele um traidor? E de mim uma amante? Droga, o que estava acontecendo afinal? As coisas estavam começando a ficar extremamente embaralhadas naquele sótão.

Quando eu tornei meu olhar para seu rosto, Edward estava rindo com uma mão massageando sua nuca. Eu havia feito um pequeno estrago ali com os meus puxões.

- O quê? – Indaguei, sorrindo automaticamente ao som da sua risada.

- Olha o que nós fizemos – ele apontou para todas as caixas abertas e caídas ao longo do nosso pequeno trajeto desatento.

- Você e seus pés grandes – disse, abrindo um sorriso debochado que fez Edward rir de novo. – Então, nós ainda temos uma chave para achar…

Eu estava me recusando a falar sobre o nosso mais recente beijo. Nossa pequena conversa anterior já havia sido devastadora o suficiente e eu fecharia todas as portas que poderiam nos levar a uma nova discussão.

Edward concordou, parecendo aliviado.

Logo, estávamos separados, cada um em sua busca particular, embora eu não estivesse prestando mais atenção por onde minhas mãos estavam andando naquele momento.

Nós estávamos fazendo uma busca muito eficiente, havíamos revistado algumas caixas até mesmo duas vezes. Nós fazíamos isso em um silêncio amistoso e eu ficaria feliz se Edward estivesse tão perdido em pensamentos como eu estava sobre nosso contato de mais cedo.

Estava sendo um pouco embaraçoso desembalar algumas coisas, pois muitas delas haviam sido de Edward ou presentes dele. Por que eu havia guardado tanta coisa que pertencia a ele estava além de mim. Com humor, ele largou um punhado de caixas de bombons em minha frente, com as sobrancelhas erguidas.

- Se ficarmos presos aqui para sempre, nós pelo menos teremos comida – ele disse.

A origem de tantas caixas não me deixava muito orgulhosa, pois a maioria era de ex-candidatos-a-namorados que eu havia colecionado ao longo dos anos. A maioria havia durado tempo o suficiente para me dar pelo menos o presente do primeiro mês de namoro, mas nunca iam mais longe do que isso.

- Seria mais fácil você morrer por comer isso do que morrer de fome – eu respondi. A maioria devia estar muito fora do seu prazo de validade.

- Ei, ei, ei, olha o que temos aqui – Edward moveu suas mãos dentro de uma caixa comum, retirando dela uma velha camiseta com as cores branca, azul e laranja dos NY Knicks. – Temos uma ladra entre nós.

- Hei, isso foi um presente – eu me ergui, arrancando-a das mãos de Edward e dobrando carinhosamente sobre meus joelhos.

Por meses eu havia me martirizado, tentando me livrar daquela camiseta que costumava ser meu pijama enquanto namorava com Edward. Era ia até o meio das minhas coxas e eu sabia que aquilo o deixava um pouco louco, sendo difícil não haver sexo nas noites que eu usava a regata.

- Eu sei – Edward tinha um olhar estranho em seu rosto, quase como se estivesse em outro lugar e não ali na minha frente.

Eu voltei a me sentar em meu lugar de busca com um sorriso convencido no rosto. Eu sabia exatamente com o que ele estava sonhando e eu podia garantir que era um conteúdo totalmente +18.

Nós então começamos a falar sobre a nova fase dos Knicks. Edward parecia ainda ser muito viciado e, bem, eu não poderia julgá-lo, eu mesma havia adquirido um carinho enorme pelo time depois que havíamos começado a namorar. Logo, estávamos rindo do Cleveland Cavaliers, nosso time favorito para chacotas.

Eu me sentia sentada em nosso velho sofá, numa noite de sábado, rindo e vendo basquete enquanto Edward derrubava constantemente a tigela de pipocas sobre o estofado a cada lance emocionante.

Parecia que horas haviam se passado desde que Edward havia chutado a porta do sótão. Minhas costas já começavam a doer por ficar tanto tempo curvada sobre as caixas e Edward também não poupava resmungos de dor. Então, o brilho dourado característico chamou minha atenção.

Havia um chaveiro estúpido de coração pendurado nela, mas eu não me importei, ainda era a chave que eu estava procurando. Quase como se eu estivesse em câmera lenta ou com medo de que ela desaparecesse em minha frente, eu segurei com delicadeza a chave. Eu estava me sentindo vitoriosa ao encontrar nosso objeto de desejo, mas, ao mesmo tempo, eu ainda queria passar mais algumas horas com Edward. Talvez eu não me sentisse pronta para dizer mais um adeus para ele, que poderia durar para sempre.

Inspirei fundo e o chamei, minha voz saindo trêmula.

- Huh? – Ele indagou, sem virar-se para mim. Ao notar minha falta de resposta, ele virou-se. – O quê?

Balancei a chave em frente aos seus olhos, o coração de pelúcia indo de um lado para o outro. Edward arregalou os olhos e um sorriso intoxicante surgiu em seus lábios.

- É ela? Você achou? – Ele correu até a mim enquanto eu me levantava. Eu sorri fracamente, acenando a cabeça. Edward riu animadamente e envolveu seus braços em minha cintura, me erguendo no ar. Ok, eu poderia morrer agora. – Jesus, Bells, você é demais!

Não pude deixar de rir, embora eu achasse que ele havia me soltado cedo demais, me colocando gentilmente sobre meus pés de novo. Edward pegou a chave da minha mão, olhando atentamente para ela. Então, seus olhos ergueram-se vidrados e seu sorriso foi morrendo aos poucos.

Ele parecia decepcionado? Definitivamente.

- Então… - eu esperava trazê-lo para fora de seu transe. Edward me olhou lentamente. – O que acha de darmos o fora daqui?

EPOV's

Bella estava explodindo meus miolos.

Em um segundo, eu estava espumando de raiva e querendo apenas sair dali o quanto antes, no próximo eu só podia me preocupar em me desculpar, envolvê-la em meus braços e fazê-la parar de chorar.

Nosso beijo me colocara em uma posição delicada, lutando para manter minha excitação repentina escondida de Bella, mesmo que eu quisesse que ela nunca mais afastasse seu corpo de mim. Aos poucos, eu havia caído em meu mundo real. Eu estava beijando uma mulher que não era a minha noiva, mas que poderia ter sido se ela não fosse tão cabeça dura.

Aquilo estava sendo muito difícil.

Se eu soubesse que seria tão fácil me acostumar com a presença de Bella de novo, eu nunca teria ligado para ela.

Eu estava segurando o grande coração de pelúcia que servia de chaveiro. Segurar ele significava que estava na hora de dizer adeus a Bella e, provavelmente, nunca mais vê-la. Eu ainda não tinha pensado em como seria sair dali e ir encontrar Tanya, mas não havia dúvidas de que seria um choque de realidade desgostoso.

- Então – Bella tirou meu foco dos meus próprios pensamentos. Sua voz parecia ansiosa enquanto ela me olhava, oscilando nas pontas de seus pés como quem espera uma grande coisa. - O que acha de darmos o fora daqui?

Claro, ela queria se ver livre de mim o mais rápido possível.

Eu conseguira o que eu estava querendo ao chutar a porta e nos trancar ali. Bella havia dito algumas coisas realmente importantes, mas nem todas eu gostaria de ter ouvido. Em grande parte, ela estava certa, eu não podia conviver com a oscilação, eu precisava de um plano prévio para seguir minha vida. Ela simplesmente não podia me dar isso.

Eu concordei. Não tinha a mínima ideia de como eu iria abrir o pequeno alçapão que nos levaria para o mundo real. Não havia nenhum jeito de eu conseguir puxá-lo e chutar a porta para baixo provavelmente seria pior.

- Ei, acho que eu tive uma ideia – Bella sussurrou, ajoelhando-se ao meu lado enquanto eu analisava a abertura fechada. – Tire seu cinto.

Eu olhei estarrecido para ela, uma risada escapando dos meus lábios. O que ela queria dizer com aquilo?

- Querida, acho que não é a melhor hora para isso – brinquei, vendo o adorável rubor surgir em suas bochechas. Droga, eu sentia falta dele.

- Pervertido – ela estreitou seus olhos brilhantes para mim, ameaçadoramente. – Eu vi isso num filme, está bem? – Ela começou assim que eu tirei meu cinto. – Você enfia isto aqui… - ela enfiou a fivela pela fresta torta que meu tranco havia formado. – Então, você sacode assim – Bella deixou o cinto escorregar um pouco para baixo e o sacudiu. Podíamos ouvir o barulho do metal da fivela bater contra a escada lá embaixo. – Vamos ver se deu certo.

Ela passou a puxar o cinto para cima, certificando-se de que a fivela estava presa e não poderia passar pela fresta.

- Concedo a você essa honra – ela disse solenemente, me fazendo sorriso enquanto segurava o cinto que ela me estendia.

Eu coloquei um pouco de força enquanto puxava e não demorou muito para ouvirmos a madeira ranger. Aos poucos, senti que ela estava cedendo, vindo para cima com pouca dificuldade.

- Está dando certo! – Bella saltitou alegremente ao meu lado. Eram estes tipos de coisas que faziam meu coração bater nervoso quando eu estava com ela.

Com um estampido, a porta abriu-se com violência e a luz do andar debaixo entrou feito um holofote contra nossos olhos.

Bella era um gênio.