Capítulo III

Capítulo III

Rin foi visitar o irmão naquela noite, deixando Sesshoumaru sozinho e queixando-se da falta de TV a cabo no apartamento. Ele não lhe perguntou para onde iria e ela não se preocupou em informá-lo.

Sentada ao lado do irmão, como fazia quase todas as noites, Rin beijou o rosto tão parecido com o seu. Os olhos de Shippo estavam fechados. Quando se abriam eram chocolates, também. Parecia fazer tanto tempo que não o via rir nem brincar. Oh, Deus, quando ele voltaria a ser um menino como outro qualquer?

De vez em quando, sentia-se desiludida. Em uma ocasião o médico chegara a sugerir que desligassem os aparelhos que o mantinham vivo, mas Rin se reusou. Não queira perder as esperanças. Não depois de lhe contarem que o cérebro deShippo continuava funcionando. Sabia que ele não sentia dores e que estava se alimentando através de soros. Não iria desistir.

Conversava sempre com ele.Pegava sua mão e lhe contava todas as novidades. Falava sobre sua vida, sobre seu emprego.
Mas não lhe contou sobre Sesshoumaru. Aquele era seu primeiro segredo para o irmão. Preferiu comentar sobre seus planos de redecorar o apartamento e principalmente o quarto de hóspedes que logo lhe pertenceria.

Quando voltou para casa exausta e deprimida, Sesshoumaru já havia se recolhido. Ela foi diretamente para o quarto e movida por um impulso, trancou a porta antes de dormir.
Ao entrar em casa no final da tarde, após um dia cheio de atribulações, surpreendeu-se ao ouvir um forte barulho vindo de seu quarto. Parecia que o teto iria desabar.

A surpresa se tornou ainda maior quando chegou até a porta e viu quatro homens morenos, em trajes formais, desfazendo as malas de Sesshoumaru. Para acomodar os pertences do amo, haviam esvaziado todos os armários. Suas próprias roupas estavam empilhadas sobre cadeiras e sobre a cômoda.

Ela deixou a bolsa cair e arregalou os olhos.

- O que pensam que estão fazendo?

- Eles estão arrumando minhas coisas - respondeu Seshoumaru, sentando confortavelmente na sua poltrona. - O quarto de hóspedes é muito pequeno. O armário mal comportaria meus ternos.

- Este quarto é meu! - ela protestou. - Você não pode invadi-lo!

- Sou seu hóspede. Tem por obrigação me acomodar.

- Eu exijo que esses homens saiam daqui.
Sesshoumaru murmurou algumas palavras em árabe e os homens se detiveram. Um deles lhe pediu desculpas. Dali a um segundo estavam de volta às atividades.

- Eu tenho de sair todos os dias para trabalhar. Não posso usar roupas amassadas.

- Suas roupas não me interessam. Minha aparência é muito mais importante.
Rin contou até dez, depois até vinte. Não adiantou.

- Mande seus homens saírem daqui imediatamente! - gritou. - Saia você, também.

Sesshoumaru a ignorou, assim como os homens.

- Você não pode tomar posse do meu quarto!

- Já disse que o quarto de hóspede não serve. O colchão está encaroçado. Não tenho a menor intenção de dormir mais uma noite em uma cama tão horrível.

- Por que não liga para o presidente e pergunta se pode se hospedar na Casa Branca?

- a ocasião não é propícia.

Ela encarou-o e aos homens. Todos a ignoraram. Abaixou-se, recolheu a bolsa e foi para a sala. Ao menos aquela parte do apartamento continuava intacta.
Os homens se foram e Sesshoumaru se apresentou com um cáftan branco e dourado. Parecia mais oriental do que nunca. Aquela visão afetou-a. Pela primeira vez pensou na situação deles, sozinhos, um homem e uma mulher.

No dia anterior o problema não lhe parecera tão grande. Saíra à noite e não o vira antes de dormir. Pela manhã, saíra cedo para o trabalho e não o vira, novamente.

- Você precisa tomar alguma providência com relação aos canais da TV. São muito poucos. Eu quero ter acesso aos canais franceses. Outra coisa. Preciso de um fax. Como poderei estar em contato com o gabinete do meu país sem um? Oh, e preciso também de uma linha telefônica particular.

Rin encarou-o em silêncio. O homem continuava sem entender que não se encontrava diante de uma milionária.

- E essas plantas - ele acrescentou, apontando para um filodendro e para uma samambaia - Elas fazem o lugar parecer uma floresta tropical. Prefiro do deserto.

Fazem-me sentir em casa.

- Providenciarei vasos de cactos venenosos e cobertos de espinhos o mais rápido possível

Os olhos âmbar se estreitaram. Sesshoumaru tinha uma maneira de olhar que transcendia a arrogância.

- Você zomba de mim. Poucos tiveram essa ousadia.

- O que pretende fazer? Mandar cortarem minha cabeça?

- Eu...nós abolimos essa lei há alguns anos. Depois que passamos a cultivar um bom relacionamento com os ocidentais, não seria uma política favorável continuarmos rígidos nos nossos costumes.

- Rin não podia acreditar que fosse verdade, mas preferiu não prolongar o assunto.

- Vou preparar um lanche. Nada de camarões nem de vinhos. Tenho salsichas.

- Salsichas?

- Adoro cachorro quente com chili - ela afirmou.

- Você serviu chili no jantar de ontem.

- Isso mesmo. Comeremos os cachorros quentes com o molho que sobrou. Não sou de jogar comida fora. Quando sobra pão, faço torradas ou pudim. Não posso me dar ao luxo do desperdício.

Não adiantou explicar.

- Já ouviu falar em cartões de crédito?

- Já e estou em meu limite. Usei-o para comprar um colchão novo para minha cama.

- Que limite é esse? Nunca tive limites.

- Por que o fato não me surpreende? - Rin ergueu os olhos para o teto.

- Eu comerei batata no lugar do cachorro quente. Gosto que a manteiga seja ligeiramente queimada antes de ser despejada por cima.

Com calma, Rin apanhou uma panela, encheu-a com água e colocou duas salsichas para ferventar. Em seguida uma batata e levou-a para sala.

- Aqui está. Batata instantânea. Descasque-a e cozinhe-a. Depois frite a manteiga e regue.

Terminadas as instruções, Rin foi para o quarto e bateu a porta.

Quando voltou, Sesshoumaru havia sumido. A batata jazia sobre a mesa da cozinha e a porta do quarto de hóspedes estava fechada. Seu telefone não se encontrava sobre a mesinha ao lado do sofá. O que o árabe podia estar aprontando?

- Faça o favor de ligá-lo na tomada! - Rin ordenou ao ver Sesshoumaru se sentar.

- Para quê? É muito mais prático usa-lo no quarto. Além disso estou cansado e faminto. Meu almoço foi um simples hambúrguer da lanchonete da esquina.

- Com fritas? - ela perguntou, sem se deixar intimidar ou se sentir culpada - Eles fazem ótimas batatas fritas.

- Detesto batatas fritas.

Mais um prato para o cardápio, Rin pensou, maliciosa.
Recheou o cachorro quente com bastante mostarda e Catchup e deu uma mordida.

- Sobrou uma salsicha. Você quer?

O árabe a fitou com desdém.

- Morra de fome, então.

Mal ela acabara de dar a segunda mordida, a campainha tocou. Sesshoumaru se levantou como se tivesse sido impulsionado por uma mola.

- Sim? - perguntou através da porta, abrindo-a assim que ouviu palavras em árabe.

- Ficou louco? Não pode abrir a porta! E se fossem os homens que estão atrás de você? - Rin gritou.

- Tratam-se dos meus homens. Acha que não sou capaz de reconhecê-los?

Ela pensou em argumentar, mas se decidiu em contrário.
Ganharia mais comendo seu cachorro quente em paz. Só que a paz não durou muito. A comitiva invadiu seu apartamento trazendo iguarias dignas de um rei, mas que se destinavam apenas a Sesshoumaru. Em seguida se retiraram, sem uma única palavra de agradecimento.

O árabe esfregou as mãos e aspirou, deliciado, o aroma da lagosta, legumes frescos e pães quentinhos.

- Pode me acompanhar se quiser - ele ofereceu.

Ela deu outra mordida no sanduíche.

Sesshoumaru conteve um sorriso. A jovem era orgulhosa. Apesar de não ser muito bonita, sua personalidade o atraía. Talvez lhe comprasse um carro quando a charada fosse resolvida.

- Você fala como se fosse um profeta citando o alcorão. Não sei se estou enganada, mas acho que alguém comentou alguma coisa sobre você ter sido criado como um cristão.

- Eu fui, mas respeito a religião do meu povo.
A atenção do árabe se voltou novamente para a sobremesa que estava terminando. Em seguida se levantou e se sentou no sofá. As sobras do jantar se espalhavam por toda a mesa e também sobre o aparador. Rin, que já estava cansada, olhou a cena com repulsa.

- Pode levar a louça - ele fez um gesto como se estivesse lhe concedendo uma honra.

- Leve você! Esta casa é minha. Ninguém me dá ordens em minha própria casa. Não sou sua criada!

- Você é minha senhoria - ele retrucou imperturbável.

- Não pode negar que está sendo regiamente paga em troca de sua hospitalidade.

O lembrete a levou até Shippo. Não, podia. Sesshoumaru não lhe dera nenhum dinheiro, mas seu governo se responsabilizara pelo pagamento de todas as despesas do irmão. A necessidade de adaptação era dela. Precisava se esforçar. Era possível que a permanência dele se encerrasse em poucos dias. O pensamento animou-a. Jogou fora os restos de comida e lavou a louça.

- Eu gostaria de tomar um capuccino - Sesshoumaru murmurou depois de mudar pela centésima vez os canais da TV. - Doce, mas não doce demais.

- Não sei fazer capuccino.

- Não sabe fazer capuccino? - O espanto do homem não teria sido maior se ela tivesse cometido um crime.

- Não. O que é?

- Você deve estar brincando.

Ela negou com um movimento de cabeça.

- É algum tipo de bebida?

A expressão de Sesshoumaru se suavizou. A jovem era simples e ingênua sob a aparência de força e determinação. Ele se aproximou e segurou-a pelo braço. O gesto a deixou nervosa.

- É um café com creme batido, açúcar e canela. Eu gosto.

- Sinto muito, mas não sei fazer.

O toque daquele homem a perturbava. Assim mesmo, ou justamente por causa disso, ergueu os olhos e enfrentou-o.

- As mulheres são propriedades em seu país, não são?

- Não no meu país. Somos uma nação moderna. Muitas de nossas mulheres, que não se dedicam profundamente a religião, consideram o véu arcaico e se recusam a usá-lo. Nossas mulheres trabalham e desempenham papéis importantes na sociedade e na política. Como deve imaginar, sou taxado de infiel por alguns países visinhos.

- O mesmo deve se aplicar ao seu rei.

Ele pigarreou.

- sim, é claro.

- O idioma árabe é bonito - Rin comentou após um momento de silêncio. - Tenho um amigo que fala algumas palavras da sua língua. Ela é musical.

- É o que dizem.

- Mas é verdade - Rin insistiu. - O inglês tem cadência. Seu efeito me parece intrigante.

- Intrigante e não sexy?

Ela corou até a raiz dos cabelos.
Vous êtes um enfant, Rin. Ene três belle fleur avec lês yeux comme la mer.
Rin franziu o cenho. A voz profunda e sensual do árabe pareceu calar em seu coração.

- Não sei falar francês.

- Não importa. Venha assistir televisão comigo.

- O que irá ver? - ela perguntou. Era incrível, mas não poderia escolher o programa, embora estivesse em sua própria casa. E o pior era que ainda tinha de agradecer a Sesshoumaru por estar sendo generoso.

- Um programa especial sobre a ligação entre o stress e o sistema imunológico. Um estudo novo que vem sendo realizado por diversos cientistas. Eu achei a premissa bastante interessante.

Ela também achou. Seu médico vivia dizendo que estava preocupado coma sua obsessão em passar cinco noites por semana junto do irmão. Ela nunca deixava de ir ao hospital

Podia chover canivetes. Ela alegava que acabaria tendo de cuidar dela, também, como vítima de debilidade física total. Até o momento isso não havia acontecido.. a não ser por um resfriado ocasional, sentia-se ótima.

Entretanto, ao assistir o programa com Sesshoumaru, Rin começou a entender os avisos de alerta que tentavam apresentar. Era assustador. Shippo poderia permanecer em coma pelo resto da vida e ela, ao perder as esperanças de enxergar uma luz no fim do túnel, morreria de tristeza. O que seria dele, então?

- O programa não é o que eu esperava - Sesshoumaru declarou subitamente. - Doenças me deprimem. Eu imaginava um enfoque mais científico. - Ele mudou de canal se sintonizou em um filme sobre as aventuras de Sherlock Holmes.

A brusca ação de Sesshoumaru a surpreendeu. Doenças a deprimiam também. O problema era que não tinha escolha. Não podia mudar o canal de sua vida.

Enquanto assistia o filme, alisou distraidamente o tecido de sua blusa. Estava ficando gasto. Fazia tempos que não comprava roupa nova. Seu dinheiro nunca dava.
Após alguns minutos, resolveu se entregar ao cansaço.

- Há coca-cola na geladeira, caso tenha sede.

- Champanhe?

- Só em sonhos.

Sesshoumaru não respondeu. Ela se dirigiu para o quarto e olhou para trás ao alcançá-lo. O árabe, provavelmente, ainda não havia se dado conta de que teria de dormir ali mesmo, no sofá, ou no colchão encaroçado do quarto de hóspedes.
Fechou a porta, trancou-a e, ainda por cima, calçou com uma cadeira. Não desistiria de seu colchão novo por nada.

Lembrando-se dos microfones e câmaras ocultas, Rin apagou a luz antes de se despir. Não podia saber que a agência havia instalado dispositivos com raios infravermelhos pela casa, mas não em seu quarto, que fora discretamente poupado.

Estava quase dormindo quando ouviu a televisão ser desligada e passos. Em seguida protestos em árabe e mais passos que se detiveram a sua porta.

- Melhor você se acalmar - ela aconselhou. - A porta está trancada e há uma cadeira sob o trinco. Se tentar derrubá-la, o barulho atrairá a atenção dos vizinhos. O que quer aqui, afinal? O quarto é meu e a cama é minha. Se não está contente com a sua, chame alguém e reclame.

- Acha que não faria isso? Aguarde!

- Você não me assusta. Nenhum americano com sangue nas veias forçaria uma mulher a ceder sua cama.

Ela fechou os olhos, satisfeita. Sesshoumaru não podia imagina o quanto trabalhara para se dar ao luxo de comprar aquele colchão, que nem era dos mais caros. Aliás, ele não parecia ter qualquer idéia sobre os preços das coisas. Seu governo deveria lhe pagar todas as despesas. Um bom emprego o dele.

Na manhã seguinte, quando saiu, Sesshoumaru ainda não havia levantado. Não deixou preparado qualquer desjejum. Após as ameaças da noite anterior, não parecia que ele merecesse.

Apesar disso, sua consciência a perseguiu.