Ilusão

Ela gostava de fingir.

Se ela visse algo no mercado que ele poderia gostar, ela sempre comprava.

Se o prato servido na janta no Clã fosse kabocha no nimono ela riria para cama mais cedo em solidariedade.

Novidades de sua vida diária, coisas que seus amigos haviam feito ou até pequenos acontecimentos da família, anedotas que ela sabia que nunca iriam fazer ele rir. Pequenos pedaços da vida que ela ainda coletava para ofertar a ele.

Ela ainda treinava de uma certa maneira e num certo horário, fingia que a ausência dele era por causa de alguma missão, afinal ele era talentoso e muito ocupado.

Ela gostava que imaginar o par de olhos brancos tão familiares seguindo sua sombra.

Ela gostava de manter sua ilusão viva mesmo que ele não estivesse.

Mesmo que não houvesse ninguém para silenciosamente reclamar da escolha dos cozinheiros para o menu; mesmo que houvesse uma prateleira inteira abarrotada de coisas que ela comprou e nunca iria usar.

Mesmo que as palavras não ditas morressem sempre em sua garganta, secas e afiadas, a cortando por dentro.