PATRICIA ACORDEI S SEIS da manh , pois perdi o sono e resolvi assistir um pouco de T.V., mas logo desliguei, e peguei um exemplar de Madame Bovary que tinha comprado no primeiro dia em Paris e comecei ler. Fiquei lendo por mais ou menos uma hora e meia e j tinha chegado metade do livro, que era realmente muito bom, depois desci e tomei caf , como todo dia fazia e fui caminhar um pouco.
Havia algumas pequenas lojas perto do hotel, floriculturas, lojinhas de souvenires e algumas pequenas livrarias e bancas de jornais. Entrei em uma banca e comprei alguns exemplares de pequenos romances. Depois fui a uma das lojas de souvenir e comprei miniaturas da Torre Eiffel e do Arco do Triunfo.
Caminhei mais um pouco e voltei para o hotel, eram quase onze e meia, fui para o quarto, decidindo que n o almo aria neste dia, minha ansiedade crescia a cada minuto, estava com medo de ter uma parada card aca de t o ansiosa que estava.

s seis comecei a me arrumar, tomei um banho demorado, tentando apaziguar a ansiedade com a gua morna, e depois fui me trocar, escolhi um dos vestidos que tinha comprado no primeiro dia, um vermelho, feito para a noite, j que n o tinha perguntado o tipo de restaurante em que amos, aquele estava timo, daria certo tanto para lugares badalados quanto para outros tipos de restaurantes.
Terminei toda a produ o por volta das sete e dez e ent o desci para esperar no lobby do hotel. Pierre chegou em ponto, exatamente s sete e quinze, como havia prometido, ele usava um terno preto, camisa branca por baixo, cal a jeans escura e sapa t nis. Quando me viu, paralisou por um momento, ent o aproximou-se e disse:
Acho que errei de hotel, e virou-se para se afastar.
Levantei-me e segurei seu ombro, virando-o para me olhar.
N o errou de hotel coisa nenhuma. Ele riu da pr pria piada.
N o perguntarei nem se est pronta, pois seria uma pergunta com resposta muito bvia, falou.
Ele ofereceu o bra o, ent o entrelacei o meu ao dele e caminhamos para fora do hotel, minha vez de paralisar por um momento; havia um carro esportivo preto estacionado ali, pelo que entendia de carros, parecia ser um Jaguar.
Pierre abriu a porta para que eu entrasse. Logo depois entrou e sentou-se no banco do motorista, virou-se para mim:
Espero que goste de comida mexicana. T brincando, adoro este tipo de comida, falei, sem me esfor ar para esconder o entusiasmo que sentia.
Ele dirigiu por quase vinte minutos e ent o parou diante de um estabelecimento com um enorme sombreiro luminoso e, sobre o chap u, escrito Fuego Mexicano . Pierre estacionou e ent o entramos no restaurante. Era tudo muito enfeitado, extremamente colorido, pendurados nas paredes a intervalos, haviam v rios sombreiros e guitarr ns decorando o lugar. Pierre me levou at uma mesa perto de um pequeno palco, que agora estava vazio, mas que obviamente mais tarde teria alguma apresenta o. O nico som era uma m sica baixa de fundo. Ele puxou a cadeira para que eu sentasse e depois foi sentar no seu lugar, pegou o card pio, abriu-o para logo depois fech -lo, virar-se para mim e perguntar:
Quer escolher? ele fez men o de me passar o card pio, mas neguei com a cabe a e falei:
N o, prefiro que voc mesmo escolha. Ele ent o acenou para que o gar om viesse atender, este veio imediatamente, Pierre pediu duas margaritas, empanadas de camar o e peixe de entrada, pato com laranja e chili de prato principal e flan de canela de sobremesa. O gar om anotou tudo em um bloquinho e ent o afastou-se.
Sabe, ainda n o sei porque voc aceitou meu convite, disse Pierre, virando-se para mim logo depois que o gar om saiu.
Quer realmente saber? perguntei.
Claro que quero. Tudo bem, o primeiro motivo foi que gostei do que voc disse no Louvre, sobre os quadros, parecia que podia ler minha mente, pois era basicamente o que eu pensava sobre arte, ent o, me identifiquei com voc , falei, mas parei pois o gar om veio trazer as margaritas. Depois que ele saiu peguei a ta a e bebi um pouco, ent o continuei, o segundo motivo que vi que voc n o era muito de desistir de alguma coisa, isso tamb m aconteceu no museu, quando voc insistiu em conversar comigo. Pierre deu uma risada t mida enquanto tomava um pouco da sua margarita e disse:
Nesse ponto voc acertou, quando ponho alguma coisa na cabe a n o sou muito de desistir. E, o terceiro motivo, o mais simples, n o queria conhecer apenas o meu guia tur stico e a recepcionista do hotel em que estou. Ele riu de novo e o modo como me olhou depois, fez-me perceber o erro que eu estava cometendo, seu olhar tinha algo mais que indicava que aquele n o era um encontro qualquer, mas era uma coisa t o profunda que ficava um pouco dif cil definir, mas ele continuava comedido, at mesmo me atrevo a dizer que ele tinha uma esp cie de bolha ao seu redor, dando a impress o de que o que o atormentava bem no fundo da alma ele ainda n o tinha coragem de admitir que era verdadeiro.
O sil ncio que tinha se estabelecido foi cortado quando o gar om chegou trazendo o empanado de camar o e peixe, e ent o Pierre perguntou:
Mas, o que te trouxe a Paris? Bem, j tinha em mente fazer uma viagem assim h um ou dois anos, quer dizer, j estive aqui v rias vezes, mas nenhuma apenas por lazer, sempre a neg cios, falei.
Ah, que interessante, e trabalha em qu ? Trabalho em uma empresa de propaganda, na verdade um neg cio familiar, mas mesmo assim ainda bem dif cil, a press o sob a qual se trabalha quase que diariamente no mesmo n vel de quando n o se trabalha em uma empresa da fam lia. Eu bem o sei, disse Pierre.
Quer dizer que voc tamb m trabalha para a fam lia? O nome da empresa e o meu sobrenome no cart o que lhe entreguei n o te dizem nada? perguntou ele, um pouco ir nico.
Tudo bem, espertinho, voc ganhou, mas s para deixar bem claro, esse n o nenhum motivo secreto para eu ter aceitado seu convite. Ele levou um peda o do empanado boca e mastigou por um longo tempo, enquanto isso, lhe perguntei:
E voc , trabalha em que rea? Ele terminou de mastigar e engolir e disse:
Bem, atualmente sou o diretor geral da empresa, mas, quando comecei, trabalhava no RH. Seus pais devem ser bem orgulhosos de voc , quer dizer, com certeza voc conseguiu chegar onde chegou com seu pr prio esfor o. A express o em seu rosto mudou, agora ele parecia um pouco triste, apesar de seu esfor o para n o deixar isso transparecer, eu conseguia ver.
O que foi? Falei algo de errado? perguntei.
N o, n o disse nada errado n o, que... ele n o terminou a frase.
Tudo bem, n o precisa falar se n o quiser, disse.
Obrigado, falou.
Voltamos a comer e s falamos quando t nhamos terminado o empanado.
Ent o, quanto tempo ficar em Paris? perguntou ele.
Ainda n o sei, por enquanto minha reserva no hotel por quatro semanas, tinha pensado em ir para Moscou depois. Ele bebeu mais um pouco da margarita e falou:
Hum... Moscou tamb m um bom lugar, j fui algumas vezes, mas ainda prefiro Roma, uma bela cidade, muitos lugares para se visitar, e o mais importante, uma cozinha espl ndida, ele riu.
Pelo visto n o s por um tipo de arte que voc se interessa, disse.
N o, gosto muito de gastronomia, pois meu pai j teve um restaurante, antes de come ar a investir em a es, e continuou at que conseguiu a maioria das a es da empresa em que trabalho, ent o mudamos o nome e alguns anos depois compramos o restante das a es, transformando a empresa em um neg cio familiar, ele explicou, sua voz tinha um tom orgulhoso, via-se que admirava o pai, por ter conseguido chegar onde chegou.
Conversamos mais um pouco, apesar que uma conversa quando duas pessoas falam, e eu quase n o disse nada, quem mais falou foi Pierre, contando sobre as viagens que tinha feito, Moscou, Roma, Rio de Janeiro, Buenos Aires, s para citar algumas, pois foram muitas as cidades que ele nomeou e descreveu o que cada uma tinha de pontos positivos e negativos, os melhores hot is, caf s e restaurantes, s parou de falar um pouco quando o prato principal foi servido, a comida do restaurante era deliciosa e o pato com laranja e chili n o deixava por menos, um prato picante e adocicado. Pierre falava a intervalos irregulares, algumas vezes ficava quase dez minutos sem tocar no prato e falando. Quando o gar om veio servir a sobremesa, o pato de Pierre estava ainda pela metade, mas ele nem se importou e pediu que levasse, ent o serviram a sobremesa e teria acontecido a mesma coisa se eu n o tivesse falado para ele comer.
Terminamos de jantar e Pierre pediu a conta, pagou e fomos para o carro, foi quando ele virou-se para mim e perguntou:
Tem pressa de voltar para o hotel? Disse que n o e ent o disse:
Provavelmente ainda n o visitou a Torre Eiffel noite, estou certo? Sim, disse simplesmente.
Posso ter a honra de ser o primeiro a te levar l , quero dizer, agora a noite? Claro, respondi sem hesitar, e ent o Pierre deu a partida no carro e depois de alguns minutos est vamos chegando ao Champ de Mars; a torre era linda, quer dizer, durante o dia j era de uma beleza incr vel, mas noite, era incompar vel, toda iluminada, dava um outro ar ao Champ.
E ent o, gostou? perguntou Pierre.
Muito, disse, minha mente longe, imaginando como seria a vista do topo, j vim aqui algumas vezes, mas sempre a neg cios, nunca tive a chance de reparar no qu o linda era a torre, ao vivo, entende? Sim, Pierre respondeu, sua rea o n o diferente da de nenhuma outra pessoa que a veja pela primeira vez assim, t o perto. Ficamos ali algum tempo, sentamo-nos na grama, admirando todo o lugar, era tudo muito lindo, at mesmo as flores pareciam diferentes quando olhadas com cuidado. Eu sabia que Pierre estava me olhando h algum tempo, mas n o fiz nada, n o sou do tipo que toma alguma iniciativa, na verdade, n o sei como consegui ficar no cargo que tenho na empresa at hoje, pois n o sou l muito boa com ordens e tomada de iniciativa.
Olhei para Pierre, as luzes davam um aspecto muito bonito sua pele, fazendo um tipo de jogo de luz e sombra, parecendo at mesmo um quadro pintado na Renascen a, ele percebeu que eu o olhava e voltou-se para me olhar tamb m. J sabia o que vinha a seguir antes mesmo de Pierre come ar a se mover na minha dire o.
Ele inclinou o rosto, vindo na dire o do meu, sua boca abrindo-se apenas um pouco, levemente, e ent o senti seus l bios tocando os meus, beijando-me delicada e docemente, uma das m os apoiada no gramado e a outra segurando a parte de tr s de minha cabe a; eu j tinha me entregado ao momento logo no in cio, e agora n o existia mais nada, nada al m de mim e Pierre, no gramado do Champ de Mars, em frente a Torre Eiffel, como um casal de namorados apaixonados.
O tempo pareceu parar enquanto nos beij vamos, e quando acabou tudo pareceu t o... vazio, acho que essa seria a palavra correta para descrever o que senti, bem no fundo da alma, quando ele afastou seus l bios dos meus.
Se recompondo, Pierre diz:
Bem, acho que j est na hora de irmos, n o? Apenas concordei com a cabe a, ainda conseguia formar frases, estava um pouco avoada ainda. Ent o fomos para o carro, Pierre abriu a porta para que eu entrasse e depois foi para o lado do motorista. Alguns minutos depois ele me deixava na porta do hotel.
Boa noite, disse ele, e se inclinou para me dar mais um beijo de despedida.
Despedi-me dele e desci do carro, indo na dire o do lobby do hotel, foi ent o que toda a realidade pareceu voltar, lembrando-me do motivo de ter iniciado esta viagem, do motivo horr vel de ter feito a viagem. Entrei no hotel e fui para o elevador, apertando o bot o do andar do meu quarto, encostei-me a um dos lados do elevador e esperei, observando os n meros do andares mudarem vagarosamente e ent o para no meu andar.
N o lembro nem se eu sonhei nesta noite, mas sei que dormi levemente, como uma pluma, e se tive algum sonho, com certeza foi com Pierre.