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Capítulo IV
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A dor latejante foi como um despertador para Hana, que acordou sentindo tudo girar à sua frente. Tentou levar uma das mãos à cabeça, mas, para sua desagradável surpresa, estava acorrentada a uma coleira de ferro em seu pescoço. Onde estava, afinal? E porque estava presa feito uma escrava?
Espere aí, escrava? Foi então que notou que havia outras pessoas que se encontravam na mesma situação e que alguns homens mais à frente batiam nos homens e rapazes. Estava em um mercado de escravos? Jabu a traíra, era isso?
Sentiu suas lágrimas virem aos olhos, como sairia daquela? Shura seria sua única esperança, mas certamente nem o capitão e muito menos seus homens iriam àquele tipo de lugar. Estava abandonada à sua própria sorte.
-Vamos! Está na hora do leilão! – gritou um homem maltrapilho aos seus ouvidos, cuspindo em seu rosto enquanto a empurrava para um tablado de madeira. Um outro homem a empurrou para frente, de onde Hana podia ver dezenas de outros, a maior parte deles piratas.
-Os homens aqui presentes, me digam: quando me dariam por essa bela espécie que tenho em mão neste momento? – questionou o leiloeiro, puxando os braços de Hana e rasgando sua camisa para melhor apreciação do "material".
A jovem tentava como podia se afastar daquele homem e cobrir os seios nus, mas toda tentativa era em vão. Desesperada, ela ouvia os lances cada vez mais altos, tentando reconhecer algum rosto na multidão, quando, de repente, abafou um grito. Era ele. Shura.
Estava parado no fundo do salão, com os braços cruzados e uma expressão extremamente fria no rosto másculo. Viu quando ele se adiantou alguns passos e parou ao lado de um velho pirata cheio de cicatrizes e terrivelmente feio e cochichar algo a ele. Rezou silenciosamente para que o rapaz desse algum lance ou a tirasse dali, mas...
Da mesma maneira silenciosa e dura que chegara, partira, sem ao menos olhar para a jovem. Desolada, Hana nem ouviu o leiloeiro finalizar, indicando que ela já havia sido comprada. Sentindo a cabeça girar novamente, ela só tinha uma certeza: estava sozinha. E sem sorte alguma.
Quando o velho pirata subiu ao tablado para levá-la, Hana desmaiou novamente.
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Quando acordou novamente, estava em uma espécie de tenda, de onde podia ouvir vozes vindas de fora, risos e música. Levantou o rosto e notou, extasiada, que usava um vestido de seda vermelho, com uma lingerie de liga preta por baixo, que aparecia sob o decote. Os cabelos estavam escovados e presos em um meio rabo, além da maquiagem pesada. Praguejou, sabia muito bem o que o velho que a comprara pensava de si e queria: uma meretriz. Uma humilhação sem tamanho.
A tenda se abriu e duas outras mulheres vestidas iguais vieram ao seu encontro. Uma delas, uma loira de olhos verdes, abaixou-se e soltou Hana das correntes, enquanto a outra a pegava por um dos braços.
-Você tem sorte de seu dono ser quem é, mocinha... Não há homem mais generoso em toda Port Royal do que ele.
Sorte, desde quando pertencer a um pirata velho e nojento era sorte? Hana foi levada para fora pelas duas mulheres, ela logo viu a festa que rolava no "acampamento": homens bebiam até cair, mulheres dançavam em volta de uma fogueira tirando suas roupas, outras estavam sentadas ou deitadas pelos cantos com outros homens, um horror. Hana fechou os olhos, deixando-se levar até o outro lado do terreiro e os abriu quando as duas mulheres a soltaram, em frente a uma outra tenda. Percebeu alguém se aproximar e então falou, tentando parecer firme.
-Não vou entrar nesta tenda com o senhor, a não ser forçada.
-Assim só aumenta o meu prazer, moça.
Naquele instante, Hana não sabia se ria ou se chorava. E assim permaneceu até que o homem a pegou no colo e a carregou para dentro da tenda.
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-Shura! – Hana gritou, trêmula – Eu... Você... Mas onde está aquele velho?
-Veja como fala do Flégias... Pode até ser um pirata, mas é um de meus melhores informantes.
-O nome dele é Flégias? Argh... Mas como me encontrou?
-Eu não a encontrei, eu a comprei.
-O quê?
Shura pegou alguns papéis, que estava enrolados e presos por uma fita vermelha e os sacudiu no rosto de Hana. Parecia muito nervoso.
-Está vendo isso aqui? São seus papéis, que eu tive de comprar do velho Flégias... Você agora é minha escrava, minha propriedade, entendeu?
-Então você não me salvou, você me comprou?
-E com a compra salvei sua vida... Ou será que preferia ter ficado nas mãos dele? Flégias pode ser bem pior do que Death Mask quando quer.
Hana baixou a cabeça, entendia bem a gravidade da situação. E a humilhação que agora passava. E tudo por conta de sua teimosia em querer desembarcar e dar um jeito de ir para sua casa logo.
-Se tivesse me obedecido e ficado no navio, nada disso teria acontecido. Com isso, você somente me deu mostras de que não posso mesmo confiar em ti.
-Mas você nem ao menos tentou, Shura.
-E nem precisei, como bem me mostrou. Agora, não há nada que possa fazer. É minha propriedade.
-Está certo. Eu cometi um erro estúpido e agora esta é minha situação: sou sua escrava. Pode fazer o que quiser comigo, até mesmo me usar para pegar Death Mask. Não era isso o que queria desde o início?
Shura ia responder, mas calou-se. Na verdade, estava até pensando em poupar Hana desse sacrifício, afinal, a vingança era sua e não dela. Mas, depois de vê-la naquele leilão e do que tivera que fazer para tê-la de volta, Shura já não sabia mais o que pensar. A bem da verdade, não sabia mais o que fazer de fato. Ter a jovem tão próxima de si por todos aqueles dias, o desafiando constantemente, vê-la e evitar tocá-la. Precisava dar um jeito naquilo, tentara com uma prostituta de Port Royal quando desembarcara, mas não tinha adiantando de muita coisa. Naquele momento, o que precisava mesmo, ou melhor, quem desejava, estava ali, à sua mercê. E era sua propriedade.
Com certa fúria e urgência, Shura puxou Hana pela cintura, colando seus corpos e tomou os lábios rosados em um beijo quente. A jovem assustou-se de início, O que era aquilo? Não era seu primeiro beijo, Asterion já a beijara antes, mas tinha sido tão rápido e frio. E Shura não soltava seus lábios, era como se esperasse por algo mais que não sabia muito bem o que era, mas entreabriu a boca para tentar questionar. E, quando o fez, sentiu a língua de Shura buscar a sua e brincar com ela, acariciar, tocar, sentir. Fechou os olhos e gemeu baixinho, o que provocou ainda mais os instintos do rapaz, que a segurou mais próxima de si, uma das mãos passeava pelas costas finas e delgadas enquanto a outra buscava sem pudores o decote do vestido.
Quando sentiu os dedos de Shura tocarem um dos seios, Hana quis se separar dele, gritar, mas percebeu que seu corpo reagia de uma maneira diferente, sua pele eriçava-se com o toque ousado, suas mãos começavam a suar e o beijo tornava-se mais quente, mais cheio de volúpia e malícia, os lábios até inchavam de tanto prazer e entrega.
-Senhor, Flégias está aí fora e quer falar com o senhor. – disse um rapazote, entrando pela tenda sem a menor cerimônia.
Shura praguejou e soltou Hana com tudo, a jovem quase caiu de tão zonza que estava. O rapaz ajeitou a casaca e então saiu, mas não sem antes dar um último aviso a ela.
-Fique aqui e não saia por nada, entendeu? Não tenho como conter a vontade dos homens de Flégias, mesmo você sendo minha propriedade.
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Era madrugada quando Hana acordou sentindo a presença de alguém na tenda. Quis gritar, mas logo uma mão forte cobriu sua boca e uma voz falou, em um sussurro.
- Fique quieta, sou eu... Venha comigo, precisamos sair daqui.
-Shura? Mas para onde vamos?
-Não me faça perguntas.
De mão dada a ele, Hana correu para fora da tenda e percebeu que ele queria chegar logo ao destino, mas era difícil com todo aquele pano do vestido. Finalmente, depois de um quarto de hora, chegaram ao Madrileña. Shura a mandou embarcar e deu ordens aos seus homens que partissem imediatamente.
-O que está acontecendo, Aiolos? – Hana perguntou ao rapaz, que parecia apreensivo. -E onde está Shura?
-Temos que partir logo, senhorita. E sugiro que fique na cabine até que seja seguro sair.
Hana nada entendeu, mas, por bem, achou melhor seguir as ordens de Aiolos. O navio logo partiu, deixando Port Royal para trás. Uma nova viagem começava. E Hana esperasse que não fosse longa.
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Foram três dias de mar e nem sinal de Shura. Nem uma única vez ele entrara pela cabine, E quando perguntava à Shun, que lhe levava a comida, onde ele estava, o rapazinho limitava-se e um "bom apetite". Angustiada, Hana já não sabia mais o que pensar.
No início da tarde do terceiro dia, ela e Saga desembarcaram do navio em direção a uma pequena ilha, onde uma carroça os esperava. O rapaz tomou as rédeas e ambos se colocaram a caminho por uma estradinha de terra.
-Nossa, que calor... – ela comentou, derramando um pouco de água de uma moringa na nuca.
-Está quente mesmo, ainda mais para você. Não sei como as mulheres podem usar tanta roupa!
-E eu que já estava me acostumando com as roupas de marinheiro do Shun. Mas me diga, Saga, onde estamos?
-Na Ilha de Capricórnio, senhorita. É o lar do capitão Shura.
Hana arregalou os olhos, estavam na ilha do capitão? Então a jovem levantou o olhar e viu, ao final da estrada, uma casa enorme, que ficava no topo de uma colina. Não imaginava que um homem como Shura tivesse uma ilha particular e muito menos uma casa como aquela. Seus pensamentos trabalhavam tanto tentando entender que não percebeu quando chegaram à casa, de onde surgiu uma jovem mulher de cabelos negros na altura dos ombros e olhos castanhos escuros, sorrindo. Logo atrás, um menino de uns cinco anos e cabelos castanhos encaracolados e olhos verdes escuros.
-Vai me dizer que somente você veio desta vez, Saga? E meu marido, acaso não sente saudades de sua esposa?
-Aiolos logo chegará, Marguerite... Foi Shura quem pediu que viesse na frente, com a senhorita Hana – Lis.
-Ah, como vai senhorita? Tem um nome lindo, Hana, e você também é muito bonita... Venha, vamos entrar, tomar um banho e trocar de roupa, este vestido certamente não é para uma moça como você.
Sorrindo, Hana aceitou a oferta da mulher e logo estavam conversando animadamente, feito velhas amigas. Era estranho, mas era como se aquela casa fosse um pouco sua também.
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As horas passavam rápido na ilha, Hana sempre tinha alguma coisa para fazer ou descobrir, fosse junto de Marguerite, uma mulher sempre cheia de histórias e idéias novas e que lhe dera um monte de vestidos de presente, ou de Aisty, a jovem criada ruiva que a ajudava e, que segundo pudera notar, era a jovem por quem Saga estava todo apaixonado. Tinha também o menino Andrei, muito parecido com o pai e de mesmo temperamento que Aiolos. Era ele seu principal guia pela ilha, suas florestas e praias. Mas sentia falta de alguém.
Shura. O vira chegar no mesmo dia, só que ao cair da noite. Desde então, ele se trancara em seu escritório e não saía para nada. E Hana precisava falar com ele. Tinha decidido escrever uma carta a Asterion explicando sua situação e pedindo a ele para ir buscá-la, levando algum dinheiro para pagar sua dívida com Shura. O problema era que não fazia idéia da localização da ilha, então, como ele a encontraria?
-Marguerite? – Hana a interpelou no corredor, ao perceber a aproximação da mulher – Posso lhe falar um instante?
-Claro que sim, Hana. Precisa de alguma coisa?
-Na verdade sim. Preciso enviar esta carta ao meu noivo para que venha me buscar, mas não faço idéia da localização desta ilha. Você sabe me dizer?
-Não sei e mesmo que soubesse, não lhe diria. Entenda, Hana, esta ilha não é somente o lar de Shura, é uma espécie de esconderijo também.
-Mas eu preciso enviar esta carta para Asterion!
-Mas não pode, ou já se esqueceu de que é propriedade de Shura agora? Entendo que seja difícil aceitar isso, mas é um fato.
-Será que eu poderia então conversar com "meu dono" a respeito?
-Infelizmente Shura está muito ocupado. E isso é tudo.
Marguerite desapareceu pelo corredor, deixando Hana sozinha. Irritada, ela se jogou em uma cadeira que havia por ali, no exato momento em que Andrei chegava, com seus cavalinhos de madeira bem seguros nas mãos.
-Tia Hana, vamos brincar de cavalinho?
-Agora não dá, Andrei... Por que não pede ao seu pai ou o Saga?
-Porque desde que o padrinho chegou todo machucado, nem o papai, nem o tio Saga querem brincar comigo.
-Como assim? – Hana perguntou, remexendo-se na cadeira – Shura chegou em casa machucado?
-Sim. Eu vi quando o papai e o moço da cara feia, o Ikki, trouxeram o padrinho para cá. A camisa dele estava toda manchada de sangue e tinha um corte na barriga. Mas aí eu não vi mais nada porque a mamãe me pôs para fora do escritório e trancou a porta.
Sem pensar duas vezes, Hana saiu correndo em direção ao escritório de Shura, deixando Andrei para trás. Somente parou quando chegou à porta do cômodo. Esticou a mão para tentar abrir a porta, mas hesitou por um instante. Afinal, por que se importava tanto? Não tinha respostas, ou não queria tê-las, então girou a maçaneta e, para sua surpresa, estava aberta. Entrou pelo cômodo e ouviu, vindas dos fundos, as vozes de Marguerite e Aiolos, que conversavam apreensivos.
-Não vai parar enquanto não costurarmos direito, Olos...
-Mas já fizemos isso antes, querida, e nada... Se continuar sangrando assim, Shura não passará desta noite.
Um aperto tomou o coração de Hana e ela se aproximou de onde estavam, uma espécie de quarto dentro do escritório. Viu Marguerite sentada à beira da cama, com panos limpos e a água, Aiolos em pé ao seu lado. E Shura, deitado, não parecia bem. Tinha um corte na barriga e dele saía muito sangue. A jovem respirou fundo e se aproximou.
-Talvez eu possa ajudar... – ela disse, surpreendendo a todos com sua presença – Já vi um pescador de minha vila com um ferimento parecido, será preciso cortar primeiro a pele infeccionada para depois costurar.
-Acha que pode fazer isso?
-Eu? Mas e Saga?
-Está ocupado, do outro lado da ilha, não chegaria a tempo.
Hana encarou Shura, ele tinha os olhos abertos e suava muito. Estava no limite entre consciência e delírio, mas parecia ter entendido o que Hana pretendia fazer. Então ela pediu uma faca para Marguerite e materiais para poder fazer a sutura e também que pelo mais uma pessoa estivesse presente.
-Vai ser difícil e doloroso, ele pode querer reagir e estragar tudo. Aiolos, você que é maior segure as pernas dele. Marguerite e Aisty se ocupam dos braços.
Fizeram o que ela havia pedido. Hana, tentando manter sua mão o mais firme possível, cortou a pele infeccionada, Shura engolia seus urros de dor e seu corpo se arqueava para trás, o sangue passou a jorrar com mais força. Rapidamente, a jovem estancou uma parte dele e fez a sutura, rezando para que não rompesse.
Efeito quase que imediato, o rapaz acabou desfalecendo, com febre alta. Suando, Hana deixou os materiais de lado e se jogou ao chão, apoiando a cabeça no colchão.
-Graças a Deus o sr. Shura tem a senhorita... – disse-lhe Aisty, recolhendo tudo – É um anjo, senhorita Hana – Lis.
-Como isso aconteceu? - ela perguntou à Aiolos, preocupada.
-Foi logo após comprar seus papéis do velho Flégias... Eles tiveram uma briga muita séria durante a madrugada e Shura acabou ferido...
Logo, todos dispersaram, restando somente a jovem. Com cuidado, ela pegou um dos panos limpos e, com ele bem molhado, colocou-o sobre a testa de Shura. Ficou assim por umas boas duas horas, até Aisty retornar, trazendo-lhe comida e mais água e panos.
-Marguerite pediu para lhe trazer o jantar, já que Shura não pode ficar sozinho.
-Pensei que fosse ficar aqui em meu lugar.
-Oh, não, não posso. Tenho que ajudar Marguerite a ajeitar a despensa, amanhã chegará um navio de suprimentos e tudo precisa estar limpo na cozinha. Com licença.
O coração de Hana falhou uma batida, um navio de suprimentos! Era sua chance de ir embora daquela ilha, deixar Shura e sua vingança idiota para trás e reencontrar Asterion. Mas por que aquela possibilidade não lhe parecia tão tentadora?
Suspirou, voltando a cuidar do capitão. E enquanto o fazia, era inevitável não pensar no que acontecera em Port Royal. No beijo daquele homem, em suas mãos que a tocavam sem pudores ou reservas, na sensação de calor e conforto que aqueles braços lhe proporcionaram. Se ele não fosse tão rude e frio, se não tivesse a venda chamada vingança em seus olhos...
Deitado, doente, parecia um menino. Um menino que precisava de alguém para confiar, para contar seus medos e decepções. Não, precisava se concentrar em Asterion. Na vida que sempre sonhara em ter, sua casa, suas coisas, talvez filhos. Mas então porque quando tentava pensar nisso, era a imagem do capitão e não de Asterion que lhe vinha à mente?
Passou a noite toda nesse dilema, cuidando do capitão, a sutura felizmente não rompera mais. Era bem cedo, o sol mal havia nascido, quando Hana levantou-se um pouco da cama e foi até a janela. E o que viu a deixou com o coração aos pulos.
O navio de suprimentos estava atracado no pequeno porto da ilha.
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Quarto capítulo, acho que teremos mais três... Realmente estou gostando do resultado, espero que para vocês também esteja bom e principalmente para você, né Sil...
Beijos a todos!
rritada, ela se jogou em uma cadeira que havia por ali, no exato momento em que Andrei chegava, trazendo nas m hi
