Se Tudo Fosse Diferente - Capítulo Quatro
"Embora vivam convosco, não vos pertencem."
Khalil Gibran Khalil – 'O Profeta'
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"... mas muitas vezes, a convivência é tão ou mais difícil que a sobrevivência... Por falar neste assunto que conheço tão bem quanto os meus amigos aqui, o nosso novo morador, Thomy, esteve muito calmo esta noite. Pergunto eu, teria tido Verônica muito trabalho para fazê-lo silenciar-se ou ele realmente está mais calmo e acostumado? Não saberia dizer quais das duas opções estão certas, até porque a cada minuto em minha mente surgem outras questões. Vejo e ouço muitas coisas que alguns dizem sobre essa real e muito delicada situação, que às vezes fico muito confuso, em quem confiar ou em quem acreditar. Chego ao estágio da insegurança e infelizmente, passo isso através de minhas ações, principalmente para com Verônica que é a parte mais fraca e mais forte em meu coração. Acho que a imparcialidade resolveria esses pequenos conflitos entre nós".
Malone fechou o diário com um olhar triste, Não sabia o que fazer nem com quem podia conversar a respeito. Verônica certamente o escutaria com atenção, mas ela não lhe daria conselhos de como agir ou não nessa situação. Nem ela mesma sabia como fazê-lo.
Sua visão deste acontecimento era tão diferente, tão distinta que ele não sabia nem como agir com os outros.Às vezes ficava olhando para todos eles durante os jantar, e via que cada um observava o outro, como se fosse uma competição de alguma coisa, e que todos estavam sendo vigiados, assim qualquer falha poderiam ganhar o jogo.Ele se sentia um jogador em um jogo infinito e interminável.
"Se você correr o raptor te pega e se ficar, o T-Rex te come..." Pensou tentando se animar.Mas o que apenas conseguiu foi ter outro modo de ver esta situação, que ele já estava saturado.
"Marguerite me acha um fraco, Challenger me acha inseguro, Roxton me acha um garoto e não consigo me aproximar dele para conversas mais sérias".
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Desde que Verônica criara sua rotina de passear a tarde com Thomy, Malone sempre saia para pescar quase no mesmo horário. Sabia que o rio ficava perto de onde ela e o menino costumavam passar algumas horas embaixo das árvores. Verônica podia lidar com os perigos, mas queria estar perto caso alguma emergência acontecesse e ele não se sentia bem sabendo que ela estava sozinha com o garoto, sem que ninguém estivesse olhando por eles.Do rio não conseguia enxerga-los, mas ficava atento a qualquer sinal de perigo. A princípio chamava Challenger ou Summerlee para acompanha-lo, mas Challenger estava sempre muito ocupado e Summerlee tornou-se seu companheiro das tardes de pesca.
De longe, sempre arranjava uma forma de dar uma espiada em Verônica e a criança ficando mais um pouco para ver se estavam realmente bem. Não permanecia por muito tempo e nem queria, pois achava que este era um momento de privacidade entre eles, algo especial que não poderia ser interrompido.
Em uma das inúmeras tardes Malone notou que o garoto já conseguira sentar- se sem a ajuda dela.E que com a pouca idade, engatinhava pela toalha atrás de suas bolinhas de brinquedo e era muito rápido. E quando ele se afastava um pouco, Verônica o agarrava pelo tornozelo puxando-o para perto dela enquanto ambos gargalhavam. E esperando que ela continuasse a brincadeira, ele olhava para ela e engatinhava para longe. "Você é bem esperto."
"O que disse Malone?". Ned estava tão entretido que nem percebeu que pensava em voz alta.
"Nada professor..." Virou-se sorrindo para o amigo "... Vamos. Os peixes estão nos esperando...".
Na beira do rio, algum tempo depois Summerlee dirigiu-se a Malone, "Não me leve a mal Malone, mas posso lhe fazer uma pergunta?".
"Claro... Algum problema professor?".
"Há semanas temos vindo aqui, dar banho nas minhocas porque como todos nós sabemos, é o lugar onde existem menos peixes neste rio...".
Malone olhou para o professor rapidamente, parecendo saber o que viria a seguir. "Sei..." Retrucou Ned aparentando curiosidade.
"... eu lhe pergunto meu jovem, por que?" - Malone olhou para Summerlee certo de que o sábio professor já sabia a resposta.
"O senhor sabe, não sabe?".
"Só queria confirmar..." Summerllee sentou-se na beira do rio com Malone a seu lado.
"Você gosta dela não gosta Ned?".
O rapaz hesitou em falar, mas sabia que o professor também já lhe confiara um segredo antes.
"Mais do que eu poderia imaginar professor...".
"Então meu jovem, não perca tempo. Você sabe que ela precisa de você mais do que nunca neste momento, porque não revela isto a ela?".
"Eu ia professor...".
"E por que esse 'ia'? Não vai mais?".
"Acho que agora ela tem outras preocupações, eu seria apenas mais uma dor de cabeça".
"Creio que você seria de grande ajuda para ela, emocionalmente também Ned...".
"Acho que fisguei um!" - Malone tentou desconversar e Summerlee ficou observando. "Vamos professor, me ajude, esse parece ser um dos grandes!".
"Deixe-o ir Malone, Não é disso que você precisa agora".
Malone largou a vara de pesca e baixou a cabeça sabendo que Summerllee tinha razão.
"Eu gosto muito dela, mas não tenho certeza de conseguir aceitar... Thomy...".
"Você acha que não conseguiria aceitar esta criança em especial ou uma criança no relacionamento de vocês?".
"Não é isso professor. Em Londres haviam aqueles shows de aberrações no circo... Thomy vindo dos homens macacos não seria também uma aberração?... Me perdoe usar esta palavra, mas não me acostumo com a idéia de ele ser...".
"... diferente? Não acredito que esteja fazendo uma comparação dessas Ned. Thomy pelo que fiquei sabendo está longe de ser uma aberração, ele pode ser a evolução para a espécie humana...".
"Não sei se estou pronto para aceita-lo... Mas, ouça professor. Ao mesmo tempo eu o vejo com Verônica, e ele está crescendo forte e saudável, e aprende rápido, e. como ele é carinhoso e meigo... Em segundos essas idéias e contradições somem da minha mente, e só consigo enxergar um pequeno molequinho crescendo como qualquer outra criança normal da idade dele...".
Summerlle compreendia um pouco do que se passava na cabeça do jovem jornalista. Estava confuso, o que era uma coisa normal. Via os dois lados da questão, achando que por isso, tinha idéias tão conflitantes. Ele tinha aprendido a ver aquela situação de um modo crítico, e ao mesmo tempo, humana.
"Pelo que observei Malone, Verônica está pronta a aceita-lo em sua vida e na de Thomy. Mas cuidado. Pode chegar o dia em que você não mais possa ser aceito nas vidas de ambos. Espero que você não se decida tarde demais, afinal, torço pela felicidade de vocês...".
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"Hoje, estranhamente acordei pensando no bebê. Achei isto curioso, e assim que me levantei, vim escrever a respeito. Acho que tive um sonho com ele, não sei... só sei que acordei pensando no garoto. Engraçado, novamente não ouvi nenhum choro. Já se passaram várias semanas, e o menino realmente parece ter se acostumado com tudo por aqui. Pensei que ele iria demorar mais para se acostumar, pois como nós quando aqui chegamos, foram bem mais do que semanas, por assim dizer, que nos acostumamos e ficamos à vontade, embora as vezes eu ainda tenha dúvida de que realmente tenhamos nos acostumados a estar tão longe de casa. Bem, agora vou tomar meu café e mais tarde continuar a ler um dos diários dos pais de Verônica".
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Sentado em uma cadeira na sala, Malone baixou o livro que estava lendo e a chegada de Verônica com Thomy na cozinha para começar a fazer o jantar o fez distrair-se. Há muito tinham dividido as tarefas de forma que, entre outras coisas, a cada dia um deles ficasse responsável pelas refeições do grupo.
"Acho que não escolhi a melhor hora para ler...".
Verônica colocou o menino em uma cadeirinha alta, mais uma vez cortesia de Lord John Roxton que se revelara um marceneiro habilidoso, e passou a cinta para mantê-lo seguro.Voltou-se para o fogão e começou a preparar o jantar.De vez em quando se virava para ver como estava o menino. E observava Ned também, que trocava olhares entre ela e o bebê.
Thomy alcançou uma colher de pau em cima da mesa e começou a batê-la na mesinha em sua cadeira.
"Ei pequeno, isto não é um brinquedo..." Verônica virou-se ao ouvir o barulho, aproximou e tirou a colher das mãos do menino com uma certa dificuldade. "Você está muito forte rapazinho, é melhor deixar isto comigo. Vai acabar se machucando..."
Mas assim que ela virou-lhe as costas, ele chorou.Queria a colher de volta.
"Não Thomy, não pode!" Ela pegou um cubo colorido feito de tecido e deu para ele "Isto é brinquedo".O menino esticava as mãos tentando pegar a colher, mas Verônica continuou firme. Thomy jogou o cubo no chão e voltou a chorar.
Ned observava aquela curiosa "guerra". Ninguém podia negar que o garoto podia às vezes ser tão teimoso quanto Verônica. E como um raio, as palavras de Summerllee vieram a sua cabeça.
"Verônica... Eu gostaria de ler e...".
"Eu sei Ned! Desculpe...".
"Não, não é isso... Pode dar a colher para ele assim nós dois, ou melhor, nós três ficamos felizes".
"Ele pode se machucar".
"Eu cuido dele...".
Verônica ficou um pouco surpresa com aquelas palavras, e mais que ela estava o próprio Ned, que só depois levou em conta o que dissera. Mas já estava dito e ele não queria voltar atrás.
"Tem certeza?".
"Tenho... Sim, eu posso olhar... a colh... o Thomy...".
Verônica estranhou, mas resolveu aceitar. "Tudo bem... Se é isso mesmo que você quer."
Ela virou-se sorrindo para si mesma. Ele estava conseguindo cumprir pelo menos o começo que lhe tinha dito antes.
Ned puxou sua cadeira para perto do garoto que recebeu a colher muito sorridente. Deu um sorrisinho rápido para o menino e voltou a ler.Enquanto Thomy voltava a bater o cabo na mesa. E quando Ned resolveu virar a colher fazendo com que o menino pegasse pelo cabo que a virou novamente do outro lado olhando desafiadoramente para Ned que pela segunda vez tomou dele devolvendo-a do lado correto. E mais uma vez Thomy olhou para Ned, mas desta vez ao invés de bater a colher na mesa, ele sorriu para o jornalista.
"Você está querendo me irritar é?" Disse Malone com fingindo estar bravo.
Thomy pareceu entender e soltou uma gargalhada inesperada. Malone riu como a muito não fazia. Verônica virou-se surpresa com as gargalhadas.Custou a acreditar que eram Ned e Thomy que estavam rindo juntos daquela forma tão radiante.
"Olha aqui menino" continuou Malone com o dedo a alguns centímetros do rosto do criança e com olhar falsamente sério. Thomy pegou sua mão e Malone percebeu que aquela era a primeira vez, desde que a criança fora recolhida por Verônica, que eles se tocavam.
Malone sentiu um tremor percorrer sua espinha. O menino continuava balançando seu dedo, sorridente. Verônica parou observando Malone.
Ned olhou para ela confuso e desconsertado. Nunca sua mente e seu coração tinham estado em lados tão opostos.
"Por favor, não tire conclusões precipitadas Verônica...".Pensou consigo mesmo.
"Ned, a lenha está acabando. Será que você poderia pegar um pouco para que eu possa terminar o jantar?".
"Oh... Claro...". Disse ele. Lentamente puxou sua mão da mãozinha de Thomy, mas com carinho experimentou cada toque estranhando as sensações que lhe despertavam.
E por mais estranho que pudesse parecer, Ned percebeu que gostaria de permanecer mais um pouco ali com os dois. Mas achou melhor afastar-se antes que ficasse ainda mais confuso.
Então ele entregou a colher com o lado certo virado para Thomy que deixou assim. "Você aprendeu não é?" Pensou Ned sorrindo e saiu.
Thomy olhou para a colher e virou-a novamente do lado contrário.Bateu e olhou para ver se Ned voltava para consertar. Bateu novamente rápido e começou a gritar, fazendo Verônica olha-lo com severidade. "Thomy, não." o menino parou de gritar e bater mas olhava para os lados e procurava aquele com quem estivera brincando momentos antes. Bateu uma última vez e olhou para Verônica, que se aproximava já esfriando o mingau no pequeno prato. Ela tirou a colher de pau de sua mão e dando-lhe a primeira colherada de mingau. Mesmo comendo menino ele insistia em olhar a procura de Ned que já havia decido.Verônica também viu Ned descer no elevador e abaixou a cabeça.Thomy olhou para ela como se perguntasse: "Por que ele se foi?".
"Ele já foi!" - disse ela para o menino que com a expressão aflita olhava como se quisesse dizer algo.
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Malone desceu pelo elevador em direção aos feixes de lenha. Notou que havia grande quantidade de madeira na cozinha. Sorriu ao lembrar-se que Verônica era uma péssima mentirosa. E de repente parou fechando os olhos, afagando sua própria mão, sentindo a ternura com que o garoto o brindara naquele momento mágico entre os dois.
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Roxton amolava alguns utensílios na base da casa da árvore quando ouviu gritarem seu nome.
"Lord John Roxton" virou-se e viu Marguerite com as mãos na cintura e expressão zangada.
"Marguerite Krux." - sorriu ele cinicamente- " A que devo a honra de ser brindado com tão suave voz chamando meu nome?"
"Você vem comigo" Roxton abriu a boca para protestar, mas ela encarou-o com expressão mais irada ainda e ele parou. Sabia até onde podia brincar com a herdeira e que resolveu não forçar sua sorte.
Marguerite subiu apressadamente até o seu quarto sendo seguida por um curioso caçador.
Entraram e ela ordenou. "Feche a porta Roxton".
"Marguerite, embora eu adore a idéia, o que vão pensar de você tentando me seduzir a luz do dia?".
"Cale a boca droga..." Abaixou-se abrindo um baú a sua frente e tirou algumas peças cuidadosamente dobradas entregando ao homem que após apreciar a visão de Marguerite pegando os objetos voltara a rapidamente a assumir uma postura correta - "Pronto, aqui estão".
Surpreso, Roxton abriu uma das peças com muito cuidado.
"Quem você pagou pra fazer isto..." Roxton olhou as peças delicadas, bem feitas e muito bem bordadas.
"Você é um grosso, sabia?".
"Tem gente que gosta". Intencionalmente inclinou a cabeça e arqueou a sobrancelha, deixando-a um pouco sem jeito.
Sabia que Marguerite fizera as peças, mas não imaginava que elas seriam primorosas como as que estavam em suas mãos. Ela como sempre impaciente não o olhava nos olhos, e ele sorriu.
"Obrigado Marguerite... Thomy vai adorar...".
"... Ah eu também, principalmente porque não vou ficar sem café..." Ela interrompeu. Amoleceu e olhou agora com um pouco de preocupação. "Você não vai dizer que fui eu, vai?".
Roxton aproximou-se lentamente parando com seu rosto a poucos centímetros do rosto dela, involuntariamente a herdeira suspirou. Roxton adorava provoca-la, mas aproximar-se daquela mulher sempre fazia com que ele testasse seu autocontrole.
"Você fez um trabalho maravilhoso Marguerite e será recompensada. Esta noite você terá o melhor e mais fresco café que alguém poderia desejar e eu não contarei a ninguém nosso segredo".
Os olhos da herdeira brilharam e ela deu sorriso. "Um dos seus sorrisos mais lindos." avaliou Roxton que lutava para aparentar desinteresse. Aquilo era um verdadeiro teste para seus nervos. Rapidamente ele inclinou-se e beijou-a suavemente nos lábios.
Marguerite se afastou. "Espero que não conte este também...".
E sem que ninguém percebesse Roxton correu e deixou as roupinhas na cama de Verônica.
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Todos perceberam que Thomy estava usando uma nova roupinha no jantar.
"Thomy está usando uma roupinha muito bonita hoje Verônica" – disse Roxton com olhar travesso enquanto Marguerite o chutava por baixo da mesa.
"Obrigada Roxton" respondeu Verônica sorrindo. "É realmente linda não é?" Disse ela levantando discretamente o copo como em um brinde e dando um leve sorriso em direção a Marguerite que retribuiu quase que imperceptivelmente sob os olhares intrigados de Summerllee, Challenger e Malone.
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Apesar de permanecerem juntos a mesa, Verônica e o bebê sempre se distanciavam um pouco, permanecendo quietos.
"Malone, pode me passar o sal, por favor?" – perguntou ela Pegando o saleiro Ned levantou-se, mas quando passou por Thomy este pegou uma colher, virando-a ao contrário e batendo na mesinha enquanto olhava e sorria para Malone que retribuiu o sorriso virando mais uma vez a colher e devolve na mão dele. Um gesto tão simples mais que para os dois era muito divertido.
Todos olharam para Ned, Verônica e o pequeno Thomy que pareciam ignora-los.
Challenger balançou a cabeça e continuou a comer olhando fixo para o prato. Roxton olhou para Marguerite e finalmente todos continuaram a refeição. Summerllee ainda ficou um bom tempo ali, observando Ned virar incansavelmente a colher do menino que riam sem parar.
Após todos terem jantado e saído da mesa, Ned ainda permaneceu ali com Thomy brincando.Summerllee lavava a louça por Marguerite, já que ela alegara que estava com uma dor de cabeça infernal.
"Já está na hora de ir para cama..." Verônica sorriu pegando Thomy no colo.
"Mais ainda é cedo..." protestou Ned.
"Não, não é não... já são quase 8 horas e Thomy precisa descansar, teve um dia muito agitado hoje... Boa noite Ned, boa noite Summerllee...".
"Boa noite" Os dois disseram e Ned completou baixinho. "Boa noite Thomy..." O menino sorriu e Verônica o levou com ela para o quarto.
Summerllee ouvia a conversa sorrindo. "Acho que eles estão finalmente se entendendo" Talvez suas palavras estivessem finalmente fazendo alguma diferença para seus amigos. ............................................................................ .
CONTINUA...
"Embora vivam convosco, não vos pertencem."
Khalil Gibran Khalil – 'O Profeta'
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"... mas muitas vezes, a convivência é tão ou mais difícil que a sobrevivência... Por falar neste assunto que conheço tão bem quanto os meus amigos aqui, o nosso novo morador, Thomy, esteve muito calmo esta noite. Pergunto eu, teria tido Verônica muito trabalho para fazê-lo silenciar-se ou ele realmente está mais calmo e acostumado? Não saberia dizer quais das duas opções estão certas, até porque a cada minuto em minha mente surgem outras questões. Vejo e ouço muitas coisas que alguns dizem sobre essa real e muito delicada situação, que às vezes fico muito confuso, em quem confiar ou em quem acreditar. Chego ao estágio da insegurança e infelizmente, passo isso através de minhas ações, principalmente para com Verônica que é a parte mais fraca e mais forte em meu coração. Acho que a imparcialidade resolveria esses pequenos conflitos entre nós".
Malone fechou o diário com um olhar triste, Não sabia o que fazer nem com quem podia conversar a respeito. Verônica certamente o escutaria com atenção, mas ela não lhe daria conselhos de como agir ou não nessa situação. Nem ela mesma sabia como fazê-lo.
Sua visão deste acontecimento era tão diferente, tão distinta que ele não sabia nem como agir com os outros.Às vezes ficava olhando para todos eles durante os jantar, e via que cada um observava o outro, como se fosse uma competição de alguma coisa, e que todos estavam sendo vigiados, assim qualquer falha poderiam ganhar o jogo.Ele se sentia um jogador em um jogo infinito e interminável.
"Se você correr o raptor te pega e se ficar, o T-Rex te come..." Pensou tentando se animar.Mas o que apenas conseguiu foi ter outro modo de ver esta situação, que ele já estava saturado.
"Marguerite me acha um fraco, Challenger me acha inseguro, Roxton me acha um garoto e não consigo me aproximar dele para conversas mais sérias".
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Desde que Verônica criara sua rotina de passear a tarde com Thomy, Malone sempre saia para pescar quase no mesmo horário. Sabia que o rio ficava perto de onde ela e o menino costumavam passar algumas horas embaixo das árvores. Verônica podia lidar com os perigos, mas queria estar perto caso alguma emergência acontecesse e ele não se sentia bem sabendo que ela estava sozinha com o garoto, sem que ninguém estivesse olhando por eles.Do rio não conseguia enxerga-los, mas ficava atento a qualquer sinal de perigo. A princípio chamava Challenger ou Summerlee para acompanha-lo, mas Challenger estava sempre muito ocupado e Summerlee tornou-se seu companheiro das tardes de pesca.
De longe, sempre arranjava uma forma de dar uma espiada em Verônica e a criança ficando mais um pouco para ver se estavam realmente bem. Não permanecia por muito tempo e nem queria, pois achava que este era um momento de privacidade entre eles, algo especial que não poderia ser interrompido.
Em uma das inúmeras tardes Malone notou que o garoto já conseguira sentar- se sem a ajuda dela.E que com a pouca idade, engatinhava pela toalha atrás de suas bolinhas de brinquedo e era muito rápido. E quando ele se afastava um pouco, Verônica o agarrava pelo tornozelo puxando-o para perto dela enquanto ambos gargalhavam. E esperando que ela continuasse a brincadeira, ele olhava para ela e engatinhava para longe. "Você é bem esperto."
"O que disse Malone?". Ned estava tão entretido que nem percebeu que pensava em voz alta.
"Nada professor..." Virou-se sorrindo para o amigo "... Vamos. Os peixes estão nos esperando...".
Na beira do rio, algum tempo depois Summerlee dirigiu-se a Malone, "Não me leve a mal Malone, mas posso lhe fazer uma pergunta?".
"Claro... Algum problema professor?".
"Há semanas temos vindo aqui, dar banho nas minhocas porque como todos nós sabemos, é o lugar onde existem menos peixes neste rio...".
Malone olhou para o professor rapidamente, parecendo saber o que viria a seguir. "Sei..." Retrucou Ned aparentando curiosidade.
"... eu lhe pergunto meu jovem, por que?" - Malone olhou para Summerlee certo de que o sábio professor já sabia a resposta.
"O senhor sabe, não sabe?".
"Só queria confirmar..." Summerllee sentou-se na beira do rio com Malone a seu lado.
"Você gosta dela não gosta Ned?".
O rapaz hesitou em falar, mas sabia que o professor também já lhe confiara um segredo antes.
"Mais do que eu poderia imaginar professor...".
"Então meu jovem, não perca tempo. Você sabe que ela precisa de você mais do que nunca neste momento, porque não revela isto a ela?".
"Eu ia professor...".
"E por que esse 'ia'? Não vai mais?".
"Acho que agora ela tem outras preocupações, eu seria apenas mais uma dor de cabeça".
"Creio que você seria de grande ajuda para ela, emocionalmente também Ned...".
"Acho que fisguei um!" - Malone tentou desconversar e Summerlee ficou observando. "Vamos professor, me ajude, esse parece ser um dos grandes!".
"Deixe-o ir Malone, Não é disso que você precisa agora".
Malone largou a vara de pesca e baixou a cabeça sabendo que Summerllee tinha razão.
"Eu gosto muito dela, mas não tenho certeza de conseguir aceitar... Thomy...".
"Você acha que não conseguiria aceitar esta criança em especial ou uma criança no relacionamento de vocês?".
"Não é isso professor. Em Londres haviam aqueles shows de aberrações no circo... Thomy vindo dos homens macacos não seria também uma aberração?... Me perdoe usar esta palavra, mas não me acostumo com a idéia de ele ser...".
"... diferente? Não acredito que esteja fazendo uma comparação dessas Ned. Thomy pelo que fiquei sabendo está longe de ser uma aberração, ele pode ser a evolução para a espécie humana...".
"Não sei se estou pronto para aceita-lo... Mas, ouça professor. Ao mesmo tempo eu o vejo com Verônica, e ele está crescendo forte e saudável, e aprende rápido, e. como ele é carinhoso e meigo... Em segundos essas idéias e contradições somem da minha mente, e só consigo enxergar um pequeno molequinho crescendo como qualquer outra criança normal da idade dele...".
Summerlle compreendia um pouco do que se passava na cabeça do jovem jornalista. Estava confuso, o que era uma coisa normal. Via os dois lados da questão, achando que por isso, tinha idéias tão conflitantes. Ele tinha aprendido a ver aquela situação de um modo crítico, e ao mesmo tempo, humana.
"Pelo que observei Malone, Verônica está pronta a aceita-lo em sua vida e na de Thomy. Mas cuidado. Pode chegar o dia em que você não mais possa ser aceito nas vidas de ambos. Espero que você não se decida tarde demais, afinal, torço pela felicidade de vocês...".
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"Hoje, estranhamente acordei pensando no bebê. Achei isto curioso, e assim que me levantei, vim escrever a respeito. Acho que tive um sonho com ele, não sei... só sei que acordei pensando no garoto. Engraçado, novamente não ouvi nenhum choro. Já se passaram várias semanas, e o menino realmente parece ter se acostumado com tudo por aqui. Pensei que ele iria demorar mais para se acostumar, pois como nós quando aqui chegamos, foram bem mais do que semanas, por assim dizer, que nos acostumamos e ficamos à vontade, embora as vezes eu ainda tenha dúvida de que realmente tenhamos nos acostumados a estar tão longe de casa. Bem, agora vou tomar meu café e mais tarde continuar a ler um dos diários dos pais de Verônica".
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Sentado em uma cadeira na sala, Malone baixou o livro que estava lendo e a chegada de Verônica com Thomy na cozinha para começar a fazer o jantar o fez distrair-se. Há muito tinham dividido as tarefas de forma que, entre outras coisas, a cada dia um deles ficasse responsável pelas refeições do grupo.
"Acho que não escolhi a melhor hora para ler...".
Verônica colocou o menino em uma cadeirinha alta, mais uma vez cortesia de Lord John Roxton que se revelara um marceneiro habilidoso, e passou a cinta para mantê-lo seguro.Voltou-se para o fogão e começou a preparar o jantar.De vez em quando se virava para ver como estava o menino. E observava Ned também, que trocava olhares entre ela e o bebê.
Thomy alcançou uma colher de pau em cima da mesa e começou a batê-la na mesinha em sua cadeira.
"Ei pequeno, isto não é um brinquedo..." Verônica virou-se ao ouvir o barulho, aproximou e tirou a colher das mãos do menino com uma certa dificuldade. "Você está muito forte rapazinho, é melhor deixar isto comigo. Vai acabar se machucando..."
Mas assim que ela virou-lhe as costas, ele chorou.Queria a colher de volta.
"Não Thomy, não pode!" Ela pegou um cubo colorido feito de tecido e deu para ele "Isto é brinquedo".O menino esticava as mãos tentando pegar a colher, mas Verônica continuou firme. Thomy jogou o cubo no chão e voltou a chorar.
Ned observava aquela curiosa "guerra". Ninguém podia negar que o garoto podia às vezes ser tão teimoso quanto Verônica. E como um raio, as palavras de Summerllee vieram a sua cabeça.
"Verônica... Eu gostaria de ler e...".
"Eu sei Ned! Desculpe...".
"Não, não é isso... Pode dar a colher para ele assim nós dois, ou melhor, nós três ficamos felizes".
"Ele pode se machucar".
"Eu cuido dele...".
Verônica ficou um pouco surpresa com aquelas palavras, e mais que ela estava o próprio Ned, que só depois levou em conta o que dissera. Mas já estava dito e ele não queria voltar atrás.
"Tem certeza?".
"Tenho... Sim, eu posso olhar... a colh... o Thomy...".
Verônica estranhou, mas resolveu aceitar. "Tudo bem... Se é isso mesmo que você quer."
Ela virou-se sorrindo para si mesma. Ele estava conseguindo cumprir pelo menos o começo que lhe tinha dito antes.
Ned puxou sua cadeira para perto do garoto que recebeu a colher muito sorridente. Deu um sorrisinho rápido para o menino e voltou a ler.Enquanto Thomy voltava a bater o cabo na mesa. E quando Ned resolveu virar a colher fazendo com que o menino pegasse pelo cabo que a virou novamente do outro lado olhando desafiadoramente para Ned que pela segunda vez tomou dele devolvendo-a do lado correto. E mais uma vez Thomy olhou para Ned, mas desta vez ao invés de bater a colher na mesa, ele sorriu para o jornalista.
"Você está querendo me irritar é?" Disse Malone com fingindo estar bravo.
Thomy pareceu entender e soltou uma gargalhada inesperada. Malone riu como a muito não fazia. Verônica virou-se surpresa com as gargalhadas.Custou a acreditar que eram Ned e Thomy que estavam rindo juntos daquela forma tão radiante.
"Olha aqui menino" continuou Malone com o dedo a alguns centímetros do rosto do criança e com olhar falsamente sério. Thomy pegou sua mão e Malone percebeu que aquela era a primeira vez, desde que a criança fora recolhida por Verônica, que eles se tocavam.
Malone sentiu um tremor percorrer sua espinha. O menino continuava balançando seu dedo, sorridente. Verônica parou observando Malone.
Ned olhou para ela confuso e desconsertado. Nunca sua mente e seu coração tinham estado em lados tão opostos.
"Por favor, não tire conclusões precipitadas Verônica...".Pensou consigo mesmo.
"Ned, a lenha está acabando. Será que você poderia pegar um pouco para que eu possa terminar o jantar?".
"Oh... Claro...". Disse ele. Lentamente puxou sua mão da mãozinha de Thomy, mas com carinho experimentou cada toque estranhando as sensações que lhe despertavam.
E por mais estranho que pudesse parecer, Ned percebeu que gostaria de permanecer mais um pouco ali com os dois. Mas achou melhor afastar-se antes que ficasse ainda mais confuso.
Então ele entregou a colher com o lado certo virado para Thomy que deixou assim. "Você aprendeu não é?" Pensou Ned sorrindo e saiu.
Thomy olhou para a colher e virou-a novamente do lado contrário.Bateu e olhou para ver se Ned voltava para consertar. Bateu novamente rápido e começou a gritar, fazendo Verônica olha-lo com severidade. "Thomy, não." o menino parou de gritar e bater mas olhava para os lados e procurava aquele com quem estivera brincando momentos antes. Bateu uma última vez e olhou para Verônica, que se aproximava já esfriando o mingau no pequeno prato. Ela tirou a colher de pau de sua mão e dando-lhe a primeira colherada de mingau. Mesmo comendo menino ele insistia em olhar a procura de Ned que já havia decido.Verônica também viu Ned descer no elevador e abaixou a cabeça.Thomy olhou para ela como se perguntasse: "Por que ele se foi?".
"Ele já foi!" - disse ela para o menino que com a expressão aflita olhava como se quisesse dizer algo.
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Malone desceu pelo elevador em direção aos feixes de lenha. Notou que havia grande quantidade de madeira na cozinha. Sorriu ao lembrar-se que Verônica era uma péssima mentirosa. E de repente parou fechando os olhos, afagando sua própria mão, sentindo a ternura com que o garoto o brindara naquele momento mágico entre os dois.
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Roxton amolava alguns utensílios na base da casa da árvore quando ouviu gritarem seu nome.
"Lord John Roxton" virou-se e viu Marguerite com as mãos na cintura e expressão zangada.
"Marguerite Krux." - sorriu ele cinicamente- " A que devo a honra de ser brindado com tão suave voz chamando meu nome?"
"Você vem comigo" Roxton abriu a boca para protestar, mas ela encarou-o com expressão mais irada ainda e ele parou. Sabia até onde podia brincar com a herdeira e que resolveu não forçar sua sorte.
Marguerite subiu apressadamente até o seu quarto sendo seguida por um curioso caçador.
Entraram e ela ordenou. "Feche a porta Roxton".
"Marguerite, embora eu adore a idéia, o que vão pensar de você tentando me seduzir a luz do dia?".
"Cale a boca droga..." Abaixou-se abrindo um baú a sua frente e tirou algumas peças cuidadosamente dobradas entregando ao homem que após apreciar a visão de Marguerite pegando os objetos voltara a rapidamente a assumir uma postura correta - "Pronto, aqui estão".
Surpreso, Roxton abriu uma das peças com muito cuidado.
"Quem você pagou pra fazer isto..." Roxton olhou as peças delicadas, bem feitas e muito bem bordadas.
"Você é um grosso, sabia?".
"Tem gente que gosta". Intencionalmente inclinou a cabeça e arqueou a sobrancelha, deixando-a um pouco sem jeito.
Sabia que Marguerite fizera as peças, mas não imaginava que elas seriam primorosas como as que estavam em suas mãos. Ela como sempre impaciente não o olhava nos olhos, e ele sorriu.
"Obrigado Marguerite... Thomy vai adorar...".
"... Ah eu também, principalmente porque não vou ficar sem café..." Ela interrompeu. Amoleceu e olhou agora com um pouco de preocupação. "Você não vai dizer que fui eu, vai?".
Roxton aproximou-se lentamente parando com seu rosto a poucos centímetros do rosto dela, involuntariamente a herdeira suspirou. Roxton adorava provoca-la, mas aproximar-se daquela mulher sempre fazia com que ele testasse seu autocontrole.
"Você fez um trabalho maravilhoso Marguerite e será recompensada. Esta noite você terá o melhor e mais fresco café que alguém poderia desejar e eu não contarei a ninguém nosso segredo".
Os olhos da herdeira brilharam e ela deu sorriso. "Um dos seus sorrisos mais lindos." avaliou Roxton que lutava para aparentar desinteresse. Aquilo era um verdadeiro teste para seus nervos. Rapidamente ele inclinou-se e beijou-a suavemente nos lábios.
Marguerite se afastou. "Espero que não conte este também...".
E sem que ninguém percebesse Roxton correu e deixou as roupinhas na cama de Verônica.
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Todos perceberam que Thomy estava usando uma nova roupinha no jantar.
"Thomy está usando uma roupinha muito bonita hoje Verônica" – disse Roxton com olhar travesso enquanto Marguerite o chutava por baixo da mesa.
"Obrigada Roxton" respondeu Verônica sorrindo. "É realmente linda não é?" Disse ela levantando discretamente o copo como em um brinde e dando um leve sorriso em direção a Marguerite que retribuiu quase que imperceptivelmente sob os olhares intrigados de Summerllee, Challenger e Malone.
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Apesar de permanecerem juntos a mesa, Verônica e o bebê sempre se distanciavam um pouco, permanecendo quietos.
"Malone, pode me passar o sal, por favor?" – perguntou ela Pegando o saleiro Ned levantou-se, mas quando passou por Thomy este pegou uma colher, virando-a ao contrário e batendo na mesinha enquanto olhava e sorria para Malone que retribuiu o sorriso virando mais uma vez a colher e devolve na mão dele. Um gesto tão simples mais que para os dois era muito divertido.
Todos olharam para Ned, Verônica e o pequeno Thomy que pareciam ignora-los.
Challenger balançou a cabeça e continuou a comer olhando fixo para o prato. Roxton olhou para Marguerite e finalmente todos continuaram a refeição. Summerllee ainda ficou um bom tempo ali, observando Ned virar incansavelmente a colher do menino que riam sem parar.
Após todos terem jantado e saído da mesa, Ned ainda permaneceu ali com Thomy brincando.Summerllee lavava a louça por Marguerite, já que ela alegara que estava com uma dor de cabeça infernal.
"Já está na hora de ir para cama..." Verônica sorriu pegando Thomy no colo.
"Mais ainda é cedo..." protestou Ned.
"Não, não é não... já são quase 8 horas e Thomy precisa descansar, teve um dia muito agitado hoje... Boa noite Ned, boa noite Summerllee...".
"Boa noite" Os dois disseram e Ned completou baixinho. "Boa noite Thomy..." O menino sorriu e Verônica o levou com ela para o quarto.
Summerllee ouvia a conversa sorrindo. "Acho que eles estão finalmente se entendendo" Talvez suas palavras estivessem finalmente fazendo alguma diferença para seus amigos. ............................................................................ .
CONTINUA...
