NARUTO NÃO ME PERTENCE- E SIM A MASASHI KISHIMOTO

ESTA HISTÓRIA TAMBÉM NÃO- É UMA ADAPTAÇÃO DO LIVRO DE SUZANNE ENOCH!

P.S.- Só pra quem n percebeu... "Bit" é o apelido de Sasuke, ok?

CAPITULO II parte 1

— Tenten! — Sakura desceu depressa as esca das para receber a amiga. — Por acaso enlouqueci? Achei que iríamos fazer compras amanhã.

— Nós enlouquecemos, não você. — A viscondessa to mou suas mãos estendidas. Nossa visita não é social.

Tenten não parecia alarmada, mas, ainda assim, Sakura se lembrou do abrupto encerramento de sua conversa com Sasuke no dia anterior. Só o que faltava era levar uma descompostura da amiga por ter maltratado seu cunhado inválido.

— O que houve? — Conduziu a moça à sala íntima. Tenten deu uma tossidela.

— Neji está tentando encontrar uma ocupação para Bit... Sasuke, que lhe dê paz de espírito. Sei que é estranho, mas...

— Não, não é estranho — Sakura a interrompeu, ocultando o sobressalto à menção do nome do rapaz. — Continue.

— Ontem à noite, Sasuke mencionou que gostaria de cultivar rosas. Eu...

— Rosas? — Sakura excitou-se com uma remota su posição.

— Sim. Não sei de onde surgiu a ideia, mas ele deve ter seus motivos. Eu mesma pensei em me oferecer para ajudá-lo a começar, mas temi que ele recusasse e desis tisse. — Tenten entrelaçava e desenlaçava os dedos. — Eu não conversaria sobre ele com ninguém, mas você é como se fosse da família, Saky.

— E você, da minha. — Sakura se aprumou, afastan do o temor de se envolver num empreendimento talvez dos mais complicados. Tenten precisava dela, e quiçá Sasuke também, o que a intrigava mais do que ela queria admitir. — Posso preparar umas mudas, e tenho alguns livros sobre o cultivo de rosas. Posso levá-los quando for visitá-la e pegá-lo de surpresa.

— De surpresa? Não acho boa ideia.

— Assim vai ser mais difícil ele recusar. — Sakura sorriu. — Ou mudar de ideia.

— Está bem. Vou correr o risco, mas ele vai brigar comigo. Quero que Sasuke se recupere, Saky. Tenho saudades de ouvir suas risadas.

Com um sorriso contido, Sakura se aproximou do sofá e abraçou a amiga.

— Ele levou cinco tiros em Waterloo. Presenciou todo aquele horror, Ten... Tudo isso o afetou.

Tenten se condoeu por mais algum tempo, depois se recuperou.

— Claro. — Desviou o rosto do olhar curioso de Sakura. — Agradeço o que você puder fazer por ele.

Que bom que a amiga concordara com ela, pensou Tenten. Mas o momento não era para divagações. Contaria o resto depois.

— Passo lá antes do almoço.

Instantes depois que Tenten saiu, o general entrou na sala de visitas.

— Parece que sua ideia vai salvar o capítulo sobre Salamanca. — Ele guardava uma carta no bolso. — Lorde Kiba escreveu, dizendo que terá muito prazer em ler o material comigo e ver o que podemos reconstruir.

— Que ótimo!

— Ele vem depois do almoço. Eu gostaria que você estivesse presente, para tomar nota.

Ao menos algumas coisas estavam funcionando con forme planejadas, refletiu Sakura.

— Estarei, com prazer. — Levantou-se e beijou o pai no rosto ao passar por ele. — Até lá já devo ter voltado.

— Aonde você vai?

O general a interrompeu, segurando-a pelos ombros, e ela parou, surpresa.

— Sasuke Uchiha não é seu pretendente, é?

— Não, só amigo. — Diante de olhar tão sério, franziu o cenho. — Por quê?

— Não faz meu gosto como soldado, nem como homem.

— Papai, o senhor...

— Sei que ele é cunhado de sua amiga Tenten, mas procure evitá-lo. Não se aproxime tanto dele. A fama de Uchiha pode se refletir em você... e em mim.

— Que fama? Ele quase não aparece em público há três anos, e foi ferido em Waterloo. É um herói de guerra.

O pai se calou por instantes.

— Há quem diga que sim. Mas há outros feridos de guerra que não andam se escondendo da própria sombra. Lorde Kiba, por exemplo... Uchiha é mercadoria com defeito, Saky. Não se esqueça disto.

Sakura não viu razão de ser nos dois avisos, porém concordou.

— Fique tranquilo... Serei cautelosa.

— Ótimo. Assim o seu velho vai poder descansar em paz.- Sakura forçou um sorriso, agarrando-se ao braço do pai com ambas as mãos.

— Quem será esse velho? O senhor tem que me apresentar a ele.

X

A família Uchiha raramente se reunia para o café da manhã. Cada um tinha uma agenda própria: encontros, reuniões, excursões programadas e, no caso de Yuu, aulas.

Sasuke não tinha nada disso, e nutria convicto gosto pela solidão. As nove e meia, quando entrou na sala de refeições, não se surpreendeu ao se ver apenas na companhia de dois lacaios.

Ele planejara assim. Gostava das manhãs. O raiar do sol tornara-se para ele um milagre diário.

Uma cópia recém-chegada do London Times esperava por Neji em cima da mesa de canto, porém Sasuke não fez caso dela. Não se importava com o que acontecia no resto do mundo, ou em Londres.

No aparador, encheu o prato com presunto e torradas e foi sentar-se na extremidade mais distante da mesa. Cortou uma fatia de presunto e a levou à boca no exato instante em que o mordomo entrou no recinto.

— Sr. Sasuke, há uma visita para o senhor.

Dawkins parecia pouco à vontade. Nenhum dos criados gostava de conversar com ele, embora ele fizesse questão de não puxar conversa.

— Não estou em casa. — Ignorando o batimento surdo do coração, introduziu o alimento na boca.

— Pois não, senhor — o mordomo aquiesceu. Quando Dawkins saiu, Sasuke voltou a comer. Havia muito não recebia visitas. Devia ter havido um mal-en tendido. Na certa era alguém procurando Itachi. Dawkins apareceu no umbral da porta.

— Senhor, a srta. Haruno quer saber se deixa a caixa, ou se volta mais tarde para entregá-la.

— Srta. Haruno? — Ele pousou os talheres. — Que caixa?

— Não sei, senhor. Devo perguntar?

Sasuke empurrou a cadeira para trás e se levantou.

— Eu mesmo vou.

Sakura Haruno se encontrava no saguão. Com o coração aos saltos, ele olhou o elegante gorro amarelo nos cabelos rosados, combinando com o vestido bege. Notou o caixote de madeira aos seus pés. A menos que estivesse enganado, a expressão nos olhos verdes era de satisfação.

Sasuke se aprumou. Convidada ou não, ela era visita, e ele deveria falar primeiro.

— O que a senhorita veio fazer aqui?

Sakura jogou para ele um par de luvas de jardinagem, as quais ele agarrou por reflexo.

— Pegue. — Agora ela apontava para a caixa. — E me acompanhe, por favor.

Ele quase obedeceu, mas estacou quando começava a se abaixar

— Não — decidiu, endireitando o corpo.

A srta. Haruno cruzou os braços sobre o peito em um claro desafio.

— O senhor foi ou não foi grosseiro comigo ontem?

— Por quê?

— Estou me vingando. — Com um sorriso leve e espontâneo, tocou a caixa com a ponta de um pé. — Venha comigo... São só alguns metros, e o que está dentro da caixa não vai mordê-lo. Isto é, se o senhor tiver cuidado.

Dawkins voltara para o corredor acompanhado dos dois lacaios. Uma aia espreitava do andar de cima, de onde Sasuke ouvia Yuu discutindo com seu professor particular sobre Madagascar.

Ele deu de ombros, pousou as luvas em cima da tam pa, abaixou-se e levantou a caixa.

Sakura abriu a porta da frente antes de Dawkins. Sem nem sequer indicar que Sasuke a seguisse, ela desceu as escadas e tomou a direita no caminho para o jardim.

Por mais estranho que fosse, ali fora ele ao menos se sentia a salvo dos olhares curiosos lá de dentro. Acompanhou-a, vendo que ela caminhava, animada, em direção à cocheira. Ao passar do caminho para o grama do, levantou a saia para não molhar a barra.

— Aqui está muito bom. — Parou e girou o corpo em frente à parede externa da cocheira. — Bem ensolarado e protegido do tempo.

Sakura o fitou, calçando seu próprio par de luvas.

— Ponha a caixa no chão...

Sasuke a olhou, imóvel. Mas ao vê-la calçando as lu vas, tudo começou a fazer sentido. Por um instante, pen sou em ir procurar Tenten e agradecer-lhe com belas palavras...

Pôs a caixa no chão com cuidado e recuou.

— Passar bem, senhorita. Mas, da próxima vez, peça a um lacaio para trazer suas coisas. Bom dia.

— Sasuke! — Ele já se afastava. — Quando alguém dá de presente mudas de rosas raras e valiosas, o presenteado costuma agradecer!

Ele parou.

— Eu não pedi nada à senhorita.

— Por isso usei a palavra presente. Há também vários livros sobre cultivo de rosas. E, para as plantas não morrerem por falta de conhecimento, pensei em lhe dar uma breve aula introdutória, além de algumas instruções gerais.

Sasuke se voltou.

— Não quero suas rosas, suas instruções, nem sua maldita caridade — disse, ríspido.

Sakura hesitou, e ele percebeu que, provavelmente, a tinha chocado.

Que fosse. Não gostava de surpresas.

— O senhor foi me ver, ontem — Sakura começou, devagar, o olhar sustentando o dele. — Quando estive com Tenten, esta manhã, e ela falou das rosas, imaginei que fosse me pedir umas mudas. Assim, não é caridade: é a resposta a uma pergunta que o senhor não chegou a fazer

Ora, ela não se dava o respeito para aturar tanta estupidez?, Sasuke se perguntou, aturdido. Quando ele fora embora no dia anterior sem dar satisfação, perdera o direito de vê-la ou conversar com ela sobre qualquer assunto. Ao mesmo tempo, aquele presente, nome que ela preferiu usar, era uma faca de dois gumes. Para não ser um reles inválido aos olhos dela, teria de mudar o proceder, porque, além do mais, aquilo tudo era para ele, por ele.

— Na verdade, pensei em propor uma troca — mentiu, a mente célere buscando possibilidades.

— Troca? — Ela o fitou, cética. — Que tipo de troca?- Era o que ele queria ter dito no dia anterior. Sasuke respirou fundo. A aproximação do pai dela fora o motivo que dera a si mesmo para ter ido embora repentinamente; mas fora mera desculpa. Ele havia se calado, pois não tinha certeza de poder realizar o que queria propor

É agora ou nunca, disse consigo. Se quisesse reingressar na sociedade, não poderia usar a família como muleta. Não o levariam a sério, nem ele próprio o faria. Mas Sakura lhe dera uma motivação.

— Pensei que, se a senhorita me ajudasse a plantar um jardim de rosas, eu poderia ajudá-la com lorde Kiba Inuzuka.

— Com Kiba? Como?

Praga! Agora ele precisaria de um plano real.

— Se a senhorita o quiser para fins letivos, ou mesmo para algo além disso, se eu estiver na sua companhia, os encontros parecerão eventuais. Tenten e Hinata não podem ajudar muito, agora que estão casadas. Eu, por ser solteiro, posso prever as reações de Kiba, o que pode dar à senhorita uma certa vantagem.

Sakura piscou, pensativa.

— O senhor me aconselharia e, quando necessário, me acompanharia em passeios e encontros, nos quais eu teria o único propósito de estar com lorde Kiba... É isso?

— Sim.

Até que o esquema o matasse, Sasuke completou em pensamento.

Sakura caminhou lentamente até o caixote, apanhou o par de luvas em cima da tampa e o estendeu a ele.

- Vamos começar?

X

Neji não encontrava a esposa. Ela saíra cedo para um breve afazer, ele sabia que ela já tinha voltado, mas não se encontrava no quarto, na sala de estar de cima, na enfeitada sala íntima das tias, tampouco na sala do café.

Maldição. Tenten estava com quase oito meses de gravidez. Se não reduzisse o ritmo, ele iria levá-la à força para o Parque Uchiha, em Devon, se preciso.

— Tenten!

— Shh! — O som vinha da biblioteca. — Estou aqui. Silêncio, por favor.

Mais do que curioso, o visconde entrou no recinto. Encostada na parede, ao lado da vidraça de uma janela entreaberta, a esposa espiava para fora,

— O que está fazendo?

Ela fechou-lhe a boca com a mão.

— Veja!

Neji olhou na direção da cocheira e pasmou. Sakura encontrava-se no centro de uma moita de capim com um livro aberto nas mãos. Do lado oposto, falando e gesticulando, e com um amontoado de folhas e espinhos nas mãos, estava Sasuke. Mesmo claudicante, este caminhava por um quadrado imaginário de uns cinco metros de lado.

— O que está acontecendo? — Neji olhava o irmão fixamente.

— Pedi a Sakura para trazer umas mudas de rosas — Tenten respondeu no mesmo tom baixo. — Agora os dois estão conversando!

Tenten deu o braço ao marido, apoiando-se em seu ombro, satisfeita.

Neji continuou assistindo à cena. Sasuke estava distante de Sakura, mas os dois interagiam. E ele a procurara na festa de Wellcrist.

— Ten, ele... — Neji tomou fôlego. — Sakura gosta dele?

— Sakura gosta de todo mundo — ela disse, rindo. — E todos gostam dela.

— Mas...

— Acho que ela não tem interesse em Bit, Neji, se é isso o que está pensando. Saky já tem alguém em vista.

— É melhor acabarmos com isso de uma vez.

— Não! — Tenten o sacudiu. — Deixe-os em paz. Se você interferir, vai magoar Bit. Eles estão só conversando. E você não os viu, entendeu? Não sabe de nada!

Neji suspirou. Queria proteger o irmão com cada fibra de seu ser. Faria tudo para vê-lo bem... mesmo que estivesse atrasado três anos.

Tenten estava certa. Como sempre.

— Não vi nada e não sei de nada por enquanto — ele concordou, beijando-a no rosto. — E você também não. Mas me reservo o direito de interferir se necessário.

— Espero continuarmos na bem-aventurança de não saber de nada!

Ele a puxou da janela e a abraçou com um suspiro.

— Estou com um mau pressentimento.

— Neji, Sasuke não estaria lá contra a vontade. Talvez esteja querendo voltar para nosso convívio.

— Tomara que tenha razão.

Sasuke ainda ouvia a srta. Haruno instruí-lo sobre que peixe produzia o melhor fertilizante para as rosas, quando olhou novamente para a janela da biblioteca. Tenten e Neji pensavam ser bons espiões. Tenten planejara aquela visita de Sakura, claro. Ele só esperava que aquela espionagem não tivesse por fim manipulá-lo.

Se ele fosse ainda tão espontâneo como o Sasuke de antes da guerra, aceitaria de bom grado o papel de casamenteira da cunhada e tentaria conquistar Sakura. Ela lembrava uma brisa cálida em um dia frio.

Por mais que ele se sentisse atraído por sua serenidade, ela agora tinha outra pessoa em vista. Gostava de estar perto dela, mas resistia por não ser mais o Sasuke de antes. Agora era apenas Bit: um pedaço do que já fora.

Seria tolice negar que a achava muito bonita, quase medieval, com aqueles cabelos rosados, olhos verdes e pele macia. Os cabelos exalavam o aroma agradável das rosas. Imaginou-a banhando-se em um lago de pétalas vermelhas e, chocado, sentiu o corpo reagir. Fazia quatro anos que não tinha contato com uma mulher. Ele era agora um monge com um mosteiro próprio. Mas de uma religião na qual ao menos olhar era permitido.

— Por outro lado, peixe demais estraga a terra, sabia? — Sakura o despertou do transe.

— Entendi.

Sasuke girou nas mãos o nodoso graveto de uma rosa felicité parmentier. Metade das mudas poderiam não vingar, Sakura o alertara.

Fitou os brotos que tinha nas mãos. Aquelas coisas espinhosas, sem terra e raízes, já pareciam sem vida. Estariam mesmo vivas? Sentiam alguma coisa quando morriam?

— Acho que não foi uma boa ideia — falou de repente, apressando-se em devolver as mudas ao caixote.

— O que houve? — Ela o fitou, espantada.

— Não tenho tempo para isso. — Sasuke recuou, concentrando-se na própria respiração. Detestava quando o pânico ameaçava tomá-lo por causa de algum devaneio.

— Curioso... — A srta. Haruno inspirou fundo. — O general também não gosta de jardinagem.

Ele enrijeceu à menção do pai dela.

— Não que eu não goste...

— Então, nosso trato foi cancelado. — Ela pousou o li vro no chão e retirou as luvas. — Combinado. Não houve danos para as partes.

— E quanto às suas mudas? — Sasuke a viu se afas tar, dirigindo-se ao coche.

— Não tenho espaço para plantar um jardim novo. Jogue-as fora.

Sakura subiu na carruagem, e ele se limitou a obser var enquanto o veículo saía para a rua e desaparecia.

Estranho. Ela não se importava, mesmo, que ele desse fim às rosas? Algumas mudas eram raríssimas. Ou sabia que ele se aborrecera sem motivo e que não faria isso jamais?

Suspirou e, com o pé, empurrou o caixote para a som bra da cocheira. Foi até a casa, decidido a vestir uma roupa mais apropriada à jardinagem.

Algum tempo depois, quando terminou de limpar o capim e revolver a terra, Sasuke se lembrou que só dera duas mordidas em uma torrada no café da manhã, e que a hora do almoço já tinha passado. Assim, relutante, guardou a pá na cocheira.

Àquela hora da tarde não encontraria a necessária quantidade de peixe, pensou. No dia seguinte, a primeira coisa a fazer pela manhã seria ir ao cais do Tâmisa. As mudas, segundo Sakura, poderiam alimentar-se da terra durante um ou dois dias, em temperatura amena.

Amarrou a tampa do caixote, apanhou os livros e voltou para o interior da casa. Estava certo a respeito de uma coisa: com o solo e as plantas não era preciso conversar, o que era uma bênção.

Da família, entretanto, não podia dizer o mesmo. Seus familiares costumavam procurá-lo várias vezes ao dia para perguntar se ele estava passando bem, se queria ir cavalgar, caminhar ou passear de carruagem. Curiosamente, passara boa parte daquele dia no jardim, e vira apenas uns dois cavalariços, o que significava que a família Uchiha inteira sabia o que ele andara fazendo e não quisera interferir.

Enquanto não lhe pedissem explicações, enquanto fingissem que nada havia mudado, que ele não estava tentando sair do poço sem fundo onde se encontrava desde seu retorno à Inglaterra, ele seria solidário com o subterfúgio.

A parte difícil era decidir se assumia ou não, para Sakura, que ele resolvera cultivar as rosas. Porque, assim que ela soubesse, ele seria obrigado a cumprir sua parte no trato.

E este era o verdadeiro teste: saber se ele era ou não capaz de voltar a ser humano.

Quem dera pudesse saber a resposta dessa questão antes de tentar prová-la... Quem dera conseguisse se convencer de que não ligava para o que Sakura pensava dele.

X

Sakura entrou esbaforida na Mansão Haruno, subiu correndo a escadaria e foi vestir-se mais apropriadamen te para a visita. Segundo o general, lorde Kiba viria depois do almoço, mas, como ela demorara além do previsto na Mansão Uchiha, só teve tempo para o pêssego que a aia foi correndo buscar na cozinha.

Quanto a Sasuke Uchiha, ela tomara a melhor decisão possível. Recusava-se a se culpar por tê-lo abandonado. Dependeria dele decidir se queria ou não o jardim, pois não era nenhuma tola: para ele, aquilo era muito mais do que um simples projeto.

O quê, precisamente, ela não sabia. Mas, agora que convivera um pouco mais com Sasuke, agora que vira as mal-assombradas profundezas daqueles belíssimos olhos negros, esperava que o presente o socorresse.

Sakura flagrou-se diante de seu próprio reflexo, que até então olhava cegamente no espelho da penteadeira, e sacudiu-se para espantar o devaneio.

Quando Helena travou o fecho do colar, ela ouviu a porta da frente abrir-se, lá embaixo, e a voz suave e melo diosa de lorde Kiba responder à saudação de Ballow.

Seu coração acelerou. Ele chegara, e as aulas iriam começar

Demorou-se um pouco mais, de propósito, amacian do alguns caracóis nos cabelos e escolhendo uma estra tégia. Precisaria de mais tempo para a trama, porém o encontro com Sasuke exaurira sua sagacidade e atenção. Nunca imaginara que conversar com alguém que falava tão pouco fosse tão... interessante.

Ouviu uma batida na porta.

— Srta. Haruno... — Era o mordomo. — Seu pai pede sua presença no escritório.

— Já estou indo.

Concentre-se, Sakura. Aquela visita, ao contrário do encontro com Sasuke, não era apenas social: definiria seu futuro estado civil!

Com um suspiro, ela acompanhou Ballow ao andar térreo, tentando livrar-se dos eventos da manhã, e entrou rápida e silenciosamente no escritório do pai.

— Boa tarde, papai, lorde Kiba... — cumprimen tou-os com uma mesura.

— Srta. Haruno. — O filho do duque de Fenley retribuiu levantando-se da poltrona e tomando-a pela mão. — O general Haruno disse-me que a senhorita concordou em tomar notas de nossa atividade.

— Concordei, sim. — Ela o contornou para beijar o pai, em seguida acenou para que se sentassem. — Vou ficar perto da janela, assim não atrapalho o trabalho de vocês.

— Tolice. — Lorde Kiba puxou a cadeira ao lado.

— Minhas histórias são sempre melhores quando há platéia.

Enquanto Sakura se sentava com lápis e papel nas mãos, o general abriu suas anotações com rasgos e man chas de água e fogo de Salamanca.

— A cozinha do maldito navio que me trouxe à Inglaterra, depois que Napoleão foi para Elba, pegou fogo — resmungou, folheando as páginas com cuidado.

— Meu diário de Pamplona foi totalmente destruído, só porque um coronel infeliz quis comer uma torrada para curar o enjoo.

— Espero que o senhor o tenha rebaixado. — Lorde Kiba sorriu. — Quanto a Pamplona, também pre senciei alguma atividade lá. Não tanta quanto o senhor, certamente, mas meu testemunho está à sua disposição, caso precise.

— É muita generosidade sua, milorde.

— Pode me chamar de Kiba, por favor... Com três irmãos mais velhos, minhas chances de herdar algum título são quase nulas.

— Nesse caso, será Kiba. — O general sorriu de volta. — Salamanca foi seu primeiro combate, não?

— Sim, e em grande estilo, se assim posso dizer A bala de um mosquete francês arrancou meu quepe dois minutos depois do início dos combates.

Sakura ouviu a conversa dos dois, anotou datas, condições do tempo, movimentação dos soldados e obser vações pessoais. Podia quase sentir o calor da batalha, ver a fumaça, o avanço e recuo dos soldados, enquanto Wellington ofuscava as forças do marechal Auguste Marmont, comandante do Exército de Portugal.

Soltou uma exclamação ao ouvir Kiba contar que quase fora arrastado pela correnteza quando seu bata lhão atravessara o rio Tormes durante um temporal, já quase no fim da batalha.

— Peço desculpas — murmurou quando os dois olha ram para ela. — É que a narração estava tão viva!

— Só espero não horrorizá-la com meus relatos — Kiba comentou, preocupado.

Uma oportunidade.

— Asseguro, milorde, que, apesar de nunca ter estado em combate, li todas as anotações e toda a correspondência de meu pai, além dos rascunhos desses capítulos. Também prestei serviços voluntários logo depois da guerra em alguns hospitais. Como filha do general Kakashi Haruno, cresci em contato com conflitos.

— E com o dom de relatá-los — o pai a ajudou, com um sorriso afetuoso.

— Submeto-me à sua correção — Kiba concedeu —, embora, para ser franco, e creio que seu pai concordará com meu ponto de vista, haja certos aspectos de uma batalha que um cavalheiro não deve contar a uma dama. Afinal, que sentido teria a guerra se não o de preservar a paz e a serenidade em casa?

— Muito bem colocado, Kiba — o general anuiu. — Você se incomoda se Sakura anotar sua frase?

— De modo algum. — Kiba retirou do bolso um relógio, cuja hora conferiu com a que marcava o do aparador. — Sinto, general, mas tenho uma reunião com meu contador às quatro.

— Ora! — O general marcou a página do diário e fechou-o com cuidado. — Foi um bom começo. Podemos continuar nossa discussão na terça-feira, no almoço? Minha cozinheira faz um delicioso frango assado.

— Será um prazer. — Kiba lançou um olhar calo roso a Sakura.

— Combinado? — Sakura perguntou, levantando-se.

— Sem dúvida.

Quando Kiba a tomou pela mão novamente, demo rou-se um pouco mais que de costume. Estava tudo indo tão bem! E teriam oportunidade ainda melhor para con versar no jantar de Hinata e Naruto, em alguns dias.

— Bom rapaz. Muito correto — o general comentou quando Kiba voltou a seu cavalo e, a meio-galope, to mou a estrada.

— Parece que sim.

— E ainda é capitão, embora não em serviço ativo. Se Napoleão tivesse vencido em Waterloo, lorde Kiba seria major. Talvez tenente-coronel. Atitude para tanto ele tem de sobra. Mas não há guerras suficientes.

Por um instante fugaz, um par de confusos olhos negros visitou o pensamento de Sakura.

— Ah, já basta de guerra! Que bom que o senhor está trabalhando na Guarda Real Montada e escrevendo suas memórias em vez desses diários horríveis.

— Claro, claro, minha menina. — O general se voltou para os papéis na escrivaninha, onde, ela sabia, ele passara quase a noite toda esboçando o capítulo seguinte de seu livro. — De qualquer modo, gostei da colaboração de Kiba.

— Eu também. — Sakura dirigiu-se à biblioteca. Queria procurar o mapa da Espanha e localizar a cidade de Salamanca.

Perguntou-se se Sasuke teria combatido ali, se teria as mesmas lembranças de Kiba e do pai... E se ela teria a coragem de perguntar-lhe tal coisa.

X

Quando Sasuke vestia o sobretudo e as luvas de cavalgar, ouviu os passos abafados de Yuu descendo as escadas atrás dele. Praga. Por isso ele preferia cavalgar à meia-noite, e não durante o dia.

— Aonde você vai? — o irmão caçula perguntou.

— Tenho coisas a fazer.

Apanhou o chapéu nas mãos de Dawkins e enfiou-o na cabeça, notando o olhar de reprovação do mordomo diante do comprimento de seus cabelos.

— Você sempre diz isso — Yuu reclamou. — Também quero ir!

— É muito maçante. — Incomodado, ele esperou Dawkins abrir a porta da frente.

— Mesmo assim, quero ir. Itachi vai a um piquenique com uma moça, Neji vai ao Parlamento, e Tenten foi fazer compras.

Com Sakura, se bem ouvira.

— E o sr. Trost? — ele perguntou, mesmo sabendo que era dia de folga do professor particular.

— Foi visitar a mãe. E eu não vou fazer dever de casa à toa.

Sasuke desejou que seu outro irmão, Gaara, não adiasse por mais outra semana seu regresso de Cambridge.

— Pegue seu casaco — falou com um suspiro.

— Oba! — Yuu correu escadaria acima, mas parou de repente. — Bit, você não vai sair sem mim, vai?

— Não. — Ele pensara na hipótese. — Estarei na cocheira... Vou mandar selar Tolley e Tempestade.

— Desço já.

Sasuke saiu. Enquanto esperava os cavalos, inspecionou seu projeto de jardim. O dissimulado desconhecimento que a família manifestava quanto ao seu quadrado de terra capinada prosseguira durante o jantar e o apressado café da manhã, porém ele duvidava que conseguissem impedir Yuu de manifestar-se a respeito.

Moveu o pescoço com uma careta. Fora dormir cansa do e acordara com o sol, com os músculos dos ombros do loridos, ainda que surpreso e agradecido por ter dormido a noite inteira e não se lembrar de ter sonhado. Este fato, por si só, estimulava-o a continuar cultivando o roseiral.

Montou Tolley quando viu Yuu sair correndo por ta afora.

— Aonde nós vamos? — Yuu perguntou, pondo um pé nas mãos de João Cavalariço para impulsionar-se para a sela de Tempestade.

— Ao rio.

Saíram a meio-galope e rumaram para o sudeste. Ao chegarem a Pall Mall, Robert refreou o impulso de galopar com Tolley. Ainda era cedo, porém Mayfair já se encontrava repleta de gente. Vendedores de leite, frutas, verduras, legumes, lenha e carvão, carroceiros compran do e vendendo de tudo, criados, meninas oferecendo la ranjas, além de alguns nobres madrugadores, povoavam as ruas empurrando-se, gritando e até cantando.

— Por que temos que ir ao rio?

— Peixes.

— Vamos pescar?

O entusiasmo de Yuu incomodou Sasuke, que dissimulou o mau humor

— Não, preciso de peixe fresco para o jardim.

— Peixes para o jardim, Bit?

— É fertilizante para rosas. Na teoria, ao menos.

— Que maçada...

— O que foi?

— Desculpe, mas não posso perguntar nada sobre o seu jardim, nem mencionar a palavra "rosa".

Sasuke comprimiu os lábios.

— Ordem de quem?

— De todos. Primeiro de Tenten, depois de Neji e Itachi. Já estou até com raiva de rosas.

— Se tivermos sorte, antes do meio-dia você também vai detestar peixes.

— Posso ajudar você com o jardim? Ah... Tenten disse para eu não perguntar isso também.

Quando saíram de Mayfair, as ruas estavam ainda mais populosas. O peito de Sasuke começou a se apertar e ele se esforçou para manter constante a respiração. Se sucumbisse ao pânico ali, impossível dizer o que seria de Yuu. Precisava se distrair enquanto ainda conseguia se controlar

— Quer me ajudar no jardim? — perguntou, ofegante. — Pensei que preferisse cavalgar com Itachi ou Neji.

— Gosto de cavalgar com você também. Quase não usa a rédea com Tolley! Quero aprender a cavalgar assim com Tempestade. E já que os outros não querem nem falar nesse jardim, eu ajudo você. Não tem por que fazer tudo sozinho.

— Obrigado, Chibi.

Yuu sorriu, satisfeito com a perfeição de seu mundo. Sasuke o invejou. Já se sentira assim. Agora, no entanto, a consciência do quanto perdera só piorava as coisas. Era como se jamais fosse conseguir enxergar a luz.

— Aquele ali é um peixeiro? — Entusiasmou-se o menino.

Sasuke desmontou e claudicou até um homem de pele curtida, junto a uma carroça maltratada pelo tempo.

— Preciso comprar peixe.

— Pois não, milorde, tenho todos bem fresquinhos: bacalhau, cavalinha, eperlano...

— Quero duas dúzias — Sasuke interrompeu, esperando que a mercadoria cheirasse melhor que o vendedor.

— Pois não, milorde. De que tipo?

— Deste tamanho. — Ele levou as mãos a uns trinta centímetros uma da outra.

— Os mais saborosos são mais caros, senhor...

— São para usar como fertilizante! — interveio Yuu.

— Fertilizante? Vai misturar uma pesca desta com terra? — o homem protestou. — Se espalharem por aí que meu peixe só serve para enterrar, ninguém vai...

— Nós todos seremos enterrados — contrapôs Sasuke, suando. Precisava voltar para casa. E logo. — Quanto é?

— Dez xelins.

— Oito. — Sasuke apanhou as moedas no bolso. O homem torceu o nariz, porém nada disse.

— Vamos, Chibi — Sasuke comandou, amarrando a saca de tecido com os peixes no arção.

Minutos depois, notando que Yuu estava quieto demais, o que não era de seu feitio, olhou para o irmão. O menino, com os lábios cerrados, olhava fixamente para as orelhas de seu cavalo.

— O que foi, Yuu?

— Você não devia ter dito para o peixeiro que nós todos vamos ser enterrados. Não devia ficar pensando essas coisas.

Sasuke segurou o ar. Seria mais fácil se Yuu o visse como um doente e fracassado, como os demais.

Um lampejo do sorriso de Sakura atraves sou-lhe o pensamento, vindo do nada.

— Peço desculpas. Não estou me sentindo bem...

— Lembro-me de quando você voltou para casa de pois da guerra contra Napoleão — o irmão o interrompeu abruptamente. — Itachi disse que você ia morrer, mas eu sabia que não.

— Como sabia que não?

— Por causa da carta que você me escreveu, dizendo que iria me ensinar a pular cerca quando eu tivesse idade. Gaara tentou me ensinar no ano passado, quando você estava na Escócia, mas eu quero que você me ensine.

Sasuke engoliu em seco. Esquecera-se da carta. Fora a última que escrevera. Ele a havia colocado no saco do correio na noite em que tudo mudara. Na noite em que aquele inferno havia começado. Enfim, avistaram a casa.

— Deixe que Gaara o ensine — resolveu, antes de fustigar Tolley com o pé e sair a galope.

Ao chegarem à cocheira, Sasuke desmontou, apanhou o saco de peixes e o jogou ao lado do caixote de mudas. Foi para casa e abriu a porta com um empurrão antes de Dawkins.

— Ei, por onde você andou? — Neji saiu de seu escritório para interpelá-lo.

— Por aí. — Sasuke ignorou o olhar zangado do irmão e se dirigiu à escadaria.

— Com Yuu?

— Sim.

— Não pode sair a cavalo com Yuu sem avisar aonde vai — Neji o repreendeu.

— Está bem.

— Sasuke, ainda não terminei!

Já, no que lhe dizia respeito, ele decidiu. O pânico o tomava de novo, cravando-lhe pesadas garras no peito, dificultando a entrada de ar nos pulmões.

— Maldito — sibilou, irrompendo quarto adentro e batendo a porta com força. — Chega, chega, chega!

Então Yuu confiava nele por causa de uma carta boba. Ele se lembrava. Tinha falado do frio que fazia quando atravessaram a fronteira da Espanha e chegaram à França, e que ele estava otimista pois diziam que Napoleão havia abdicado. A guerra terminara, todos pensaram. Assim, pensava voltar para casa em breve, na esperança de que seu regimento não estivesse entre os convocados para permanecer na região e implantar a paz. O regimento havia ficado, mas ele, não.

— Sasuke!

Ignorou Neji batendo à porta. Mal o ouvia, na ver dade, enquanto andava de um lado a outro, no quarto, tentando suplantar a escuridão que o perseguia.

Preenchera formulários, pedindo licenças que foram concedidas. De seu regimento, os que sobraram pensavam que ele tivesse regressado à Inglaterra. Sua família pensava que ele ainda estivesse na Espanha.

— Sasuke, abra a porta! Não estou brincando!

A raiva e o medo na voz de Neji o trouxeram de volta ao presente. Sasuke apressou-se em abrir a porta com um puxão.

— Eu não faria nada que pusesse Yuu em perigo — declarou com voz áspera.

Se Neji tinha mais alguma coisa a dizer a respeito, não disse.

— Está muito pálido, Bit.

— Vá embora! — Sasuke bateu a porta de novo. Instantes depois, ouviu o som das botas de Neji se afastando.

Tentou inspirar novamente. Sentia-se estrangulado.

Quando ia recomeçar a andar, viu as roupas de jardinagem que deixara estendidas em uma cadeira. Precisava enterrar os peixes antes que os gatos de Mayfair se atraíssem pelo cheiro. Se não plantasse as mudas naquele dia, melhor seria aceitar a sugestão de Sakura e jogá-las fora.

Suas mãos tremiam quando ele tirou a casaca e a pendurou em um dos pilares da cama. Neji insistira em contratar para ele um criado pessoal, pois, obviamente, não entendia que era de suma importância que ninguém tivesse livre acesso aos seus aposentos, às suas coisas. Vestir-se e cuidar dos próprios pertences era uma das poucas maneiras que ainda tinha para se provar como homem.

Quando, enfim, calçou o velho par de botas e pegou as pesadas luvas que Sakura lhe emprestara, surpreendeu-se ao perceber que os desesperados batimentos de seu coração haviam acalmado. Sentia-se quase normal.

Arriscou olhar em volta ao abrir a porta do quarto e sair para o corredor. Ainda sentia os efeitos do pânico: o cansaço, o tremor. Mas, desta vez, ele contra-atacara. Pela primeira vez, não deixara a escuridão vencer.

E isso ele devia as rosas... e à srta. Haruno.

X

Sakura diminuiu inevitavelmente o passo quando chegou com o general à escadas frontais da Mansão Uzumaki. Antes de Hinata se casar com Uzumaki, cruzara aquele limiar apenas uma vez, mas não se atrevera a passar do saguão.

Agora, no interior da mansão onde, até poucas semanas, damas virtuosas temiam pôr os pés, ela chegava à vontade para um jantar íntimo com a família, amigos e um potencial futuro marido.

— Sejam bem-vindos, general Haruno, srta. Haruno. — O mordomo os conduziu pela casa. — Lorde e lady Uzumaki estão na sala de visitas.

— Obrigada, Jansen.

A porta da sala encontrava-se entreaberta. A tempo, Sakura se lembrou de que Hinata e Uzumaki estavam casados havia apenas um mês, e tossiu discretamente.

— Boa noite! — Hinata sorriu, beijou Sakura e os trouxe para o interior do aposento. — Vocês são os primeiros a chegar.

Uzumaki posicionou-se ao lado de Hinata, acariciando-a possessivamente nas costas.

— E na hora exata. Eu estava quase ganhando uma discussão.

— Não estava, não. — Hinata ruborizou.

— Continuamos depois... — ele insistiu, os olhos azuis fixos nos dela. — General Haruno, posso desafiá-lo para um jogo de bilhar? Imagino que as damas queiram conversar.

— Considerando a amizade entre Sakura e Hinata, é melhor me chamar de Kakashi.

— Ao que parece, entrei para uma família maior do que eu esperava — o marquês respondeu, simpático. — Assim seja. E, se eu ganhar, o senhor pode me chamar de Naruto. Na improvável hipótese de eu perder, insisto que me trate por "Supremo Lorde Beneficente, Marquês Uzumaki".

Kakashi riu.

— Não pense que isso irá me desequilibrar, meu jovem...

Sakura observou os dois se afastando.

— Ainda não consigo acreditar.

— No quê? — Hinata sentava-se no sofá.

— No Supremo Lorde Beneficente. — Ela sorriu. — Sei que ele teve que se esforçar para conquistá-la, mas... Hina, você se casou com o marquês Uzumaki!

— Minha mãe também se recusa a acreditar... — Hinata fez uma careta. — E meu irmão quase não fala conosco.

— Eu sei. Sinto muito.

— Eu, não. Hiroshi acha que me incomodo, mas não me importo, juro. Eles têm que aceitar que sou corajosa, independente, e que eu e Naruto nos amamos na mesma medida. Para chegar onde estamos foi preciso muito esforço.

— Acha que estou agindo de má-fé? — Sakura perguntou abruptamente. — Responda com sinceridade, por favor.

Hinata segurou as mãos da amiga, indicando que se sentasse, e a fitou nos olhos.

— Na verdade, ter um propósito e tomar as providências necessárias para realizá-lo não é agir de má-fé.

— Eu me referia ás aulas.

— Claro que não, Saky. Quando nos decidimos pelas aulas, naquele dia, estávamos apenas exprimindo uma certa... insatisfação com nossas vidas.

— Eu não preciso de marido para ser feliz — Sakura retrucou.

— Eu não quis dizer isso. — Hinata soltou um suspiro.— Estou feliz com Naruto, mas também porque minha família não controla mais a minha vida.

— Talvez seja isso o que está errado comigo — Sakura ficou mais calma. — Não tenho uma ambição que me im pulsione. Só quero ver o general bem cuidado, e impedir que o caos domine minha vida.

— Ainda bem que não se apaixonou por lorde Neji. — Hinata riu.

Uma visão fugaz do problemático irmão de Neji franziu o cenho de Sakura, mas ela se recompôs antes que a amiga percebesse. Para quem queria evitar confusão, porém, estava dedicando tempo demais a um certo par de olhos negros.

— Ou por Naruto, já que estou começando até a gostar dele — provocou, bem-humorada.

— Só porque você não quer a mesma coisa que eu e Tenten, não quer dizer que esteja agindo de má-fé.

Sakura olhou demoradamente para a amiga.

— Tenho que pedir desculpas a você, Hina.

— Por quê?

— Sempre foi uma grande amiga: generosa, leal... Mas eu não tinha percebido que agora, além de tudo, é sábia.

— Perdi muita coisa? — Tenten perguntou da porta. — A culpa é de Neji. Ele insistiu para que eu...

— Com licença, senhoras — o visconde a interrompeu, beijando-a na nuca. — Onde estão os outros varões, por favor?

— Neji!

— No salão de bilhar — Hinata respondeu, achando graça.

— Oba! — A voz de Yuu ressoou no fim do corredor — Uzumaki vai me ensinar a roubar!

— Yuu Uchiha, você não vai... — O alerta de Tenten sumiu sob o estrépito das botas.

— Eu não invejo Tenten às vezes — Hinata comentou, ainda rindo.

— E Gaara está para chegar a Londres a qualquer momento. A pobre terá que se ver com cinco varões Uchiha! — Sakura sorriu.

Flagrou-se pensando se um deles viera com os demais, porém logo afastou o pensamento. Tinha outras coisas em que se concentrar. Como dissipar possíveis suspeitas de Kiba quanto ao porquê de ele ter sido convidado para o encontro. Isto é, se ele viesse.

— Hina, está esperando mais alguém? — perguntou em voz baixa.

Os olhos esbranquiçados de Hinata sorriram.

— A qualquer momento.

Em perfeito sincronismo, um vulto alto e moreno preencheu o vão da porta do estúdio. Sakura olhou, esperando ver Kiba, mas o par de olhos negros que a fitavam só podiam pertencer a um homem.

— Sasuke! — Ela se surpreendeu com o fôlego de sua exclamação, mas, ora bolas, não esperava encontrá-lo ali.

— Lady Uzumaki — ele cumprimentou em voz baixa.

— Srta. Haruno.

— Sr. Uchiha. — Hinata também se sentiu descon certada. — Que bom que o senhor veio... Venha sentar-se conosco.

Ele pousou o olhar em Sakura.

— Posso trocar uma palavra com a senhorita primeiro?

— Claro.

Ela se levantou, evitando o olhar curioso de Hinata, e acompanhou Sasuke à relativa calma do corredor.

Ele vestia cinza, exceto pela gravata branca de laço simples. A cor e a luz tênue traziam para seus olhos um tom sombrio. Mais uma vez, ela teve a inquietante sen sação de que ele lia seus pensamentos.

— Plantei as mudas — Sasuke falou abruptamente. — Com os peixes.

— Plantou? Que bom!

— E tenho um trato com a senhorita. E essa, agora!

— Sasuke, seu oferecimento foi muito gentil, mas...- Ele estendeu a mão e a tocou no rosto, os dedos deslizando por sua pele como se ela fosse evaporar.

Um tremor percorreu a espinha de Sakura. Aceitando ou não as rosas, não esperava que Sasuke mencionasse o trato novamente. E também jamais esperara emocionar-se ao ser tocada por ele.

Fitou os graves olhos negros.

— Sasuke...

— Boa noite, Sakura. — A voz suave de Kiba se arrastou próxima à entrada. — Uchiha... Estou surpreso em vê-lo aqui.

Sasuke abaixou a mão. Só então Sakura percebeu que ele já havia percebido a aproximação de Kiba, e agira com a intenção de provocá-lo. Olhou para Sakura, moveu o olhar para o lorde, e sumiu corredor afora, na direção do salão de bilhar

— Interessante. — Kiba a tomou pela mão e se curvou.

— Sim. — Sakura engoliu em seco. — É um amigo meu.

— Percebi. A senhorita me ajudaria a encontrar o casal anfitrião?

— Claro. Por aqui.

Kiba ofereceu o braço, e ela o aceitou antes de se dirigir ao estúdio. Quão estranha aquela noite se tornara! Havia cinco minutos, seria capaz de apostar que Sasuke Uchiha não ousaria vir à Mansão Uzumaki, e que, mesmo determinado a ajudá-la, sua proposta seria inútil e indesejada.

Pois estava enganada nos dois casos, ao que parecia.

Levou a mão ao rosto furtivamente e tocou o lugar acariciado. A pele parecia sensível e estranha.

Sasuke inspirou, abriu a porta do salão de bilhar e entrou. O murmúrio grave das vozes masculinas o atin giu. Todos pareciam falar ao mesmo tempo. Depois, discerniu os tons mais agudos e suaves de Tenten que, como sempre, tentava amainar o caos. Olhou para a cunhada principalmente para ganhar tempo, antes de encarar o homem no fundo da sala. Passara o dia se lembrando do pacto com Sakura, e dizendo a si mesmo que, para cumpri-lo, não poderia restringir- se às paredes da Mansão Uchiha, não importando quem encontrasse pelo caminho.

— Você promete, Uzumaki? — Tenten insistia.

— Prometo. Só vou ensinar habilidades que sejam socialmente aceitas.

— Ten, você vai me prejudicar! — reclamava Yuu.

— Não vou, não. O que estou tentando é precisamente não prejudicá-lo. — Ela beijou o rosto de Neji e se dirigiu à porta.

Sasuke se moveu de lado para evitar a colisão.

— Tenten — cumprimentou-a, abrindo a porta para ela.

Ela o tocou no braço, carinhosa, antes de deixar o recinto. O pouco que conhecia dele, fora ele mesmo quem revelara. Ela contara a Neji, claro, porém o assunto havia ficado apenas entre eles e os irmãos. Afinal, que família iria querer que soubessem que seu valente soldado não fora ferido em Waterloo e que, muito pelo contrário, nem sequer participara da batalha? Que passara sete meses preso e que não tomara parte nas duas rendições de Napoleão Bonaparte? Que desculpas dariam para tudo isso?

Sasuke tomou fôlego. E o que diria sua família se soubesse toda a verdade sobre aqueles sete meses?

Estremeceu e, intencionalmente, olhou para o homem a quem, ao menos durante um certo período, pensara em matar.

— Não se preocupe, rapazinho — o general Kakashi dizia a Yuu. — Eu não prometi nada... Fique perto de mim e aprenda como se faz.

Quando Kiba entrou no salão nesse mesmo instante, Sasuke se distanciou um pouco mais da aglomeração, e não se surpreendeu quando o general se adiantou para ser o primeiro a cumprimentar Inuzuka

— Kiba... Já conhece todos, não? — Haruno trocou um aperto de mãos com o quarto filho do duque de Fenley. — Nosso anfitrião, marquês Uzumaki, e...

— Apenas Uzumaki — o marquês interrompeu com um sorriso cordial.

— Claro — Kiba respondeu. — Agradeço o convite, embora inesperado.

— Gosto de surpresas — retrucou Uzumaki, algo cínico.

O general prosseguiu com as apresentações:

— Todos os demais são da família Uchiha. Lorde Neji e seus outros irmãos: tenente Itachi, infelizmente na Marinha, Yuu e...

— Pode me chamar de Chibi — Yuuu interveio, orgulhoso- Sou o caçula.

— Chibi — Kiba confirmou com um solene aperto na mão estendida de Yuu.

— E aquele outro é Sasuke — general Haruno finalizou, quase sem olhá-lo.

Kiba o fitou.

— Sim, já fomos apresentados.

Sasuke inclinou a cabeça, ainda atento ao general. Então era isso o que ele era para Haruno: "aquele outro". Ao menos o desprezo era recíproco.

— Obrigado — uma voz gutural se insinuou ao lado. Era Uzumaki, apoiado no taco de bilhar.

— Pelo quê? — Bit quis saber

— Como sou novo no grupo, pensei que fosse a mim que estivesse evitando em nossos vários encontros — explicou o marquês. — Mas não sou eu, não é? É Haruno.

— Não sei sobre o que está falando.

Uzumaki aquiesceu com um gesto de cabeça.

— Mesmo assim, vou providenciar algumas alterações nas posições da mesa do jantar. Hinata o colocou ao lado de Kakashi.

Sasuke cerrou o maxilar. Só faltava essa! Viera motivado a ajudar Sakura, não pensara na disposição dos assentos. Em suas visitas, sempre breves, nunca fora convidado a permanecer para o jantar.

— Se é assim, agradeço.

— Você serviu no Dreadnought? — Kiba perguntava a Itaci.

— Servi. Travamos mais de dez batalhas durante a guerra.

— Dez batalhas? — o general Haruno, que ainda instruía Yuu, olhou para os dois. — Quantas delas foram para bloquear as investidas das barcaças francesas?

— Algumas. — Itachi forçou o sorriso ao responder.

— Quantidade suficiente para promover Itachi a capitão. — Yuu manteve sua lealdade.

— Parabéns, Uchiha — Kiba interveio. — Eu devia ter tentado a sorte na Marinha.

— Bobagem, rapaz. Há muito mais oportunidade de ascensão no Exército.

— Bit conheceu Wellington — Yuu acrescentou, alinhando a tacada seguinte.

Um par de olhos cinzentos se voltou para Sasuke.

— Claro que sim — o general concedeu. — Sua Graça sempre fez questão de visitar os oficiais feridos.

— Foi antes disso — contestou o menino. — Eles tomaram uísque juntos!

— Verdade? — Kiba o interpelou, cínico. — Por que não nos brinda com o episódio, Uchiha?

— Não — Sasuke volveu, sustentando o olhar. Neji e Itachi moveram-se à frente ao mesmo tempo.

— Sua vez, Chibi — o visconde avisou, colocando-se estrategicamente entre Sasuke e Kiba.

— Quero deixar claro que estou perdendo porque sou um anfitrião generoso — Uzumaki intercedeu, deslocando-se, por coincidência ou não, para impedir que Sasuke e o general Haruno vissem um ao outro.

O mordomo dos Uzumaki entrou solene no recinto, fez um breve aceno com a cabeça para Naruto e fechou a porta.

— O jantar está na mesa!

Quando todos começaram a se deslocar para ir ao en contro das damas na sala de visitas, Yuu encontrou Sasuke e cochichou-lhe:

— Quem eu acompanho?

Sasuke calculou depressa. Com três damas presentes, a Inuzuka caberia acompanhar uma dama convidada, no caso, Sakura Haruno.

— A mim.

— Ótimo — o menino agradeceu. — Que bom que você veio, se não eu teria de me acompanhar sozinho!

Sasuke sorriu. Ao menos alguém estava contente com sua presença.

Ao se aproximarem de Itachi, no fim da fila que ia em pares para a sala de jantar, Sasuke teve que modificar tal pensamento. Tenten sorria para ele, e Neji e Itachi olhavam-no disfarçadamente.

Muito bem, todos os Uchiha estavam contentes por ele ter aguentado até o jantar. E, talvez graças a eles, suportasse aquele tormento a noite inteira.

Olhou para Sakura, que examinava o perfil de Kiba. Se ele fosse Kiba, não teria perdido tempo no salão de bilhar. Porém, se pensava em se comparar ao filho de Fenley, a ideia dissipou-se assim que soube onde Uzumaki resolvera sentá-lo.

— Srta. Haruno. — Ele tomou o assento ao lado dela, o coração aos saltos.

Sakura estava tão elegante e, ao mesmo tempo, tão à vontade! Uma sensação que ele jamais esperava experimentar outra vez. Conjeturou se ela, embora tivesse aparentado vontade de conversar com ele, preferia não ter ido ao seu encontro no corredor quando de sua chegada à mansão.

Não. Sua respiração parecera paralisar quando a tocara no rosto. Ele sabia que sim, pois sentira o próprio coração quase parar. Seria um sinal de que ainda não estava inteiramente morto por dentro? Ou estaria simplesmente obcecado por Sakura?

A quem pretendia ajudar, afinal? A ela ou a si mesmo?

Fosse quem fosse, ele precisaria elevar-se de "mudinho" a rival. Já iniciara o processo, mas um toque, por mais macio e paralisante que houvesse sido, não bastava a seus intentos.

Esperou a conversa se animar à volta deles.

— Ocorreu-me que se eu soubesse o conteúdo de sua lista... — começou, em voz baixa.

— Não... Não! — ela sussurrou, nervosa.

Você vai conseguir, ele disse consigo, depois forçou um sorriso.

— Se não contar, vou adivinhar de qualquer modo.- Sakura sorveu um longo gole do vinho Madeira.

— Sasuke, agradeço seu oferecimento, mas não preciso de sua ajuda. Considere as mudas de rosas como um presente apenas.

— E se eu disser que Kiba apenas se considera um herói, e que essa opinião que ele tem de si mesmo é que convenceu a todos? — murmurou, ousado.

Ela o olhou de lado, depois olhou Kiba, que conversava, absorto, com o general ali perto.

Ora, ora. Não era à toa que Hinata lançava furiosos olhares para o marido. Hina a sentara ao lado de Kiba, mas Uzumaki mudara os lugares e pusera o "mudinho" ao lado dela... Sasuke agora devia um favor a ele, aparentemente.

— Lorde Kiba está colaborando com meu pai na recriação de algumas partes dos diários de guerra, o que mostra que a situação está sob controle.

— Muito bem. Diga-me um item de sua lista e paro de importuná-la.

Ela cerrou os lábios macios. Ao menos ele os imaginava macios.

— Um item — insistiu.

— Está bem. — Sakura pousou o guardanapo no re gaço. — Conto um item se me disser uma coisa.

Um frio agarrou-lhe o peito. E se ele não soubesse responder e voltasse àquele silêncio profundo, onde falar lhe era impossível? Levara um ano para sair daque le poço, para onde não voltaria por nada ou ninguém neste mundo.

— Trato feito ou não? — Foi a vez de ela insistir.

Calma, Sasuke pensou, repetindo seu mantra predileto. Sakura fizera um desafio muito simples, e esperava que ele o aceitasse ou recusasse, como qualquer ser humano normal.

— Feito — conseguiu dizer em voz baixa e rouca.

— Mesmo?

A expressão de Sasuke se enterneceu e produziu um sorriso fugidio, que se expandiu para os olhos cor de ônix. A respiração de Sakura paralisou. Se ele não estivesse em tão mau estado, seria irresistível.

— Não esperava que eu concordasse — ele afirmou.

Sakura flagrou Kiba olhando para os dois. Uma tolice tramar com Sasuke... Aquilo só iria retardar seus planos para Kiba; talvez até colocá-los em risco. Bem no íntimo, porém, Sasuke Uchiha a intrigava.

— Verdade, eu não esperava — confessou, e em um só fôlego, evocou sua lista: — Muito bem, eis a primeira lição, mais ou menos: "Ao conversar com uma dama, preste atenção nela. Não aja como se estivesse fazendo hora até aparecer alguém mais interessante".

— Só isso? — Sasuke ergueu as sobrancelhas.

— É importante. — Um calor tomou o rosto de Sakura. — Não só para mim, mas para qualquer dama. Agora você tem que me contar uma coisa.

Ao ver a tensão no rosto bonito, ela mudou imedia tamente o que ia perguntar. A curiosidade em saber a verdadeira causa dos problemas de Sasuke podia esperar. Não queria magoá-lo.

— Já que você agora cultiva rosas, onde encontraria as palavras: "Agora é primavera, as raízes do mato ainda estão rasas. Deixe-as ficar, e elas cobrirão o jardim."?

— Como é?

— O senhor ouviu.

Sasuke a fitou longamente. Eram versos não muito conhecidos nos círculos literários e, por um momento, Sakura se perguntou se ele iria, ou saberia, responder

Mas viu um sorriso se abrir lentamente nos lábios de Sasuke.

— Estão em Henrique VI, Parte Dois, de Shakespeare. Mas ele não falava de plantas.

— Sei que não, mas as palavras me pareceram pertinentes.

Aliviada e satisfeita por tê-lo surpreendido, e por ele saber a origem de uma de suas citações prediletas, ela retribuiu o sorriso.

— Você lê mais do que Frankenstein.

— Eu leio de tudo...

— Saky? Sakura, ouça! — Hinata acenava para ela. — Lorde Kiba está nos contando da noite em que atravessou o rio Tormes, na Espanha.

— Divirta-se —Sasuke murmurou, amargo.

— Está sendo mesquinho — ela objetou no mesmo tom. — Não há mal nenhum em ser herói.

—Heróis não contam bravatas... Mas vou fazê-lo prestar atenção na senhorita.

Ela prestou parte de sua atenção à história de Kiba. Escolhera-o pois a opção lhe parecera agradável e indolor. Seu propósito continuava o mesmo, mas, com o envolvimento de Sasuke, sua caçada se transfigurara inteiramente.

Tomou outro gole de vinho Madeira, sentindo o calor irradiar do homem alto e rijo ao lado. De repente, sua atividade letiva tornara-se interessantíssima.