Capítulo 3

Quando Natalie e Kendra atravessaram correndo as portas do ringue de patinação no gelo até o carro, Isabella já estava emocionalmente acabada.

— Oi, mãe!

— Oi, sra. Swan!

As duas botaram as bolsas no porta-malas e sentaram no banco de trás.

— Como foi o treino? — Isabella perguntou, dirigindo para fora do estacionamento.

Para seu alívio, elas lhe tinham informação o bastante para que estivessem ainda falando quando Bella embicou na garagem dos Pearsolls para deixar Kendra alguns minutos depois.

Logo que ela pegou a bolsa e entrou em casa, Bella religou o carro. Para o seu constrangimento, sua filha precoce fitou-a, preocupada.

— O que houve, mãe? Você está tão quieta. A vovó está doente ou algo assim?

— Não. Não é por causa da sua avó.

Não havia uma maneira fácil de abordar o assunto. Assim que saíram na rua e seguiram o tráfego, Isabella disse.

— Seu pai me ligou hoje de manhã depois que você foi para a casa de Kendra.

Natalie encarou-a com incredulidade.

— Por conta própria? Quero dizer, Alain não pediu que ele ligasse?

— Não.

Isabella ainda estava em estado de choque. Na verdade, permanecera nessa condição o dia todo, e voltou do trabalho cedo.

— Ninguém disse para ele fazer nada. Ele deixou bem claro que estava fazendo aquilo independentemente do sobrinho.

— Oh, mãe...

— Ele virá a Concord hoje à noite.

— Você está brincando... — A alegria na voz de sua filha era indescritível. — Ele sabe de mim?

Sabe.

— Não de você especificamente, querida. Ele desligou antes que tivéssemos uma conversa longa. Mas posso dizer que ele suspeita que tivemos um filho juntos, e que ele não descansará enquanto não descobrir a verdade por si próprio. Foi por isso que ele decidiu vir para cá imediatamente. Disse para ele ligar lá para casa à noite para marcarmos para amanhã.

— Por que não podemos encontrá-lo hoje à noite?

— Primeiro, já vai ser muito tarde. Segundo, eu e você precisamos de um tempinho para conversar sobre isso e sobre o que isso vai significar.

— Conversar sobre o quê?

— Tenho certeza de que ele é casado e tem uma família. Descobrir que ele tem uma filha vai mudar a vida dele tanto quanto a sua.

— Você acha que ele não vai me amar tanto quanto seus outros filhos?

— É claro que vai. Mas este não é o problema, querida. Conhecer você vai transformar o mundo dele. E a sua existência será uma surpresa enorme também para sua mulher e filhos, sem falar dos pais e da família do irmão.

— Mas ele é meu pai também!

— É claro. O fato de que ele tomou a decisão de nos encontrar o mais rápido possível demonstra que ele se importa. Isso se parece com o Edward que eu conheci, e é óbvio para mim que ele não mudou com relação a isso, mesmo que aquela parte da vida dele tenha se apagado da sua mente. Mas temos que discutir como isso vai atingir a todos nós.

Você está falando de visitas. Quero dizer, se ele vai ou não querer continuar me vendo.

— Sim.

— Você acha que ele não vai querer?

A trepidação na voz da filha fez com que Isabella quisesse se virar e abraçá-la, mas não poderia fazer isso até que chegassem em casa.

— Querida? No momento, ele nem sabe ao certo se tivemos um filho. É por isso que ele vem. Para descobrir. Sei que um monte de possibilidades está passando pela cabeça dele. Antes de fazermos qualquer su posição, temos que esperar até que vocês se conheçam e nós conversemos sobre isso. Não se esqueça de que você e seu pai vivem em dois continentes diferentes. Não é uma situação como a de sua amiga Molly. Ela pode passar dois fins de semana na casa do pai porque fica a apenas dois quilômetros da casa da mãe. O queixo de Natalie tremia.

— Você só está dizendo essas coisas porque acha que ele não vai querer se relacionar comigo.

Isabella estacionou o carro em frente a sua casa e desligou o motor. Olhando para a filha, disse:

— Sou sua mãe e amo você mais do que a própria vida. Estou tentando ser o mais honesta que posso com você. A verdade é que eu não sei o que ele vai pensar quando souber que tem uma filha. Minha maior preocupação é evitar que você se machuque, mas é impossível protegê-la de tudo.

A expressão de dor da filha foi a última coisa que viu antes de abrir a porta do carona. Pegou suas coisas no banco traseiro e correu para dentro de casa.

Depois de trancar o carro, Isabella seguiu-a, mas seu coração estava tão pesado que sentia como se seu corpo pesasse uma tonelada.

No instante em que pisou na sala de estar, o telefone tocou. Quase se descolou da própria pele ao correr até a cozinha para atender.

Natalie chegara antes. Franziu a testa antes de pôr a mão sobre o fone.

— É o Jacob — sussurrou.

— Está preocupado porque você não estava no trabalho e não atendeu ao celular. Por favor, ligue para ele depois. Queria que nosso telefone ficasse livre no caso de o meu pai ligar.

Isabella pegou o fone das mãos dela e se desculpou com Jacob por não ter ligado antes. Disse-lhe que aconteceu algo importante e que ligaria de volta em seguida no celular.

Nem dois segundos depois de ter colocado o fone no gancho, ele tocou novamente. Isabella atendeu ime diatamente, pensando que ele talvez quisesse dizer algo vital e que ela o havia interrompido.

— Jacob?

— Acho que não. Bonsoir, Isabella.

Ela prendeu a respiração.

Edward, eu... eu não esperava que ligasse tão cedo.

Natalie estava lá e sabia que seu pai estava do outro lado da linha. Isabella podia ver que a filha estava tão empolgada e nervosa que praticamente dançava de euforia.

— Estou estacionado do outro lado da rua. Imagino que aquela seja minha filha Natalie que vi correr para dentro da sua casa agora. Ela seria exatamente dessa, idade. De longe, ela se parece com minha mãe.

Um murmúrio escapou da garganta de Isabella. Ele tinha, obviamente, conversado com o sobrinho depois de ter ligado para ela.

— Sim.

Havia um silêncio palpável.

— Ela sabe quem eu sou?

— Sim.

Depois de ouvi-la respirar fundo, ele disse:

— Seu marido sabe que sou o pai dela?

Isabella estremeceu.

— E... eu ainda não me casei.

Após uma pausa cheia de tensão,

— Alain pensou que você fosse casada. Então, o que você está dizendo? Você está comprometida com este Jacob? Morando com ele?

Não. Nem de perto.

Desviou-se do olhar inquisidor de Natalie. Era de se notar o quanto ele soava como o velho e decidido Edward, um líder nato que não deixava nada ficar entre Ele e o que queria.

— Não.

— Então, você e Natalie estão sozinhas agora?

— Sim, mas...

— Estou entrando.

Desligou antes que ela implorasse para que não o fizesse.

Edward estava bravo.

Era uma raiva profunda. Do tipo que tornaria difícil, senão impossível, perdoá-la por seu silêncio todos esses anos.

Assustada de uma maneira totalmente nova, Isabella colocou o telefone de volta no gancho.

Natalie agarrou seu braço.

— Quando irei vê-lo?

Socorro.

— Agora. Ele está aí na porta.

— Ai, meu Deus. Ele sabe quem eu sou?

— Sim.

— Posso atender? Por favor?

Os lindos olhos verde escuros da filha, tão parecidos com os de Edward, brilhavam com um lustro que nunca vira.

— Vá em frente — disse, com os lábios secos.

Desde que Isabella soubera da ligação de Alain, tivera o pressentimento de que suas vidas seriam atiradas num caos, para nunca mais serem as mesmas.

Com uma inesperada série de eventos, sua vida cuidadosamente orquestrada com Natalie fora arrebatada por um turbilhão de forças sobre as quais ela não tinha o menor controle e contra as quais não podia lutar.

Não tinha opção exceto ser levada para outro lugar. Até que tudo se revelasse, ninguém poderia prever a quantidade de destruição que seria causada.

Seguindo os passos da filha, Isabella parou na divisória do hall de entrada com a sala de estar. Permane ceu lá enquanto Natalie abria a porta da frente, de for ma que pudesse presenciar o que acontecia.

Quando viu o homem alto e espetacular de pé na entrada, a visão fez com que suas pernas estremecessem.

Era Edward. Mas, após aqueles 12 anos, o belo arrasa-corações de 19 anos por quem se apaixonara transformara-se no homem mais deslumbrante que já vira na vida.

Seus cabelos estavam mais escuross. Ele os usava mais curtos do que na época do início de faculdade. Natalie herdara sua cor e sua altura.

Tinha um nariz alongado que a filha também tinha herdado. Mas, enquanto o queixo de Natalie era arredondado como o de Isabella, ele tinha um queixo firme e uma covinha que ela sempre adorou tocar e beijar.

Diferentemente do jeans e da camisa pólo que ele vestia no navio, Edward agora usava um terno cinza que aparentava ser caro. A combinação da gravata de seda e seus vários tons de carvão, prata e cinza, e o branco da camisa, fascinavam os olhos de Isabella.

A primeira vista, toda sua atitude fazia menção ao bem-sucedido e rico hoteleiro da proeminente família Cullen.

Enquanto Isabella tirava suas conclusões a distância, via pai e filha estudarem um ao outro com a mesma intensidade. Desde que abrira a porta, Natalie ficara muda. Com razão.

Nenhum outro pai em Concord tinha o porte e as feições masculinas que ele tinha. Ele era o melhor.

— Eu sempre quis uma filha. Você é tão linda, Natalie, que eu mal consigo encontrar as palavras — sua voz parecia rouca.

— Eu sempre quis um pai — respondeu, com a voz embargada em lágrimas.

— Então, que tal um abraço?

Isabella ficou com os olhos cheios de lágrimas ao vê-lo envolver a filha deles em seus braços fortes. Levantou-a e embalou-a, fazendo com que seu rabo-de-cavalo castanho-escuro balançasse de um lado para o outro. O contraste entre a elegância dele e o short e a camiseta que Natalie usava para treinar hóquei tornava a cena ainda mais tocante.

Os soluços de alegria de Natalie foram superados por afagos que ele lhe dizia em francês, forçando Bella a desviar o olhar.

Apesar de não poder fazer nada além de agradecer a Edward por mostrar a Natalie a aceitação indiscrimina da que ela desejava do pai, uma outra parte da alma de Isabella ficou horrorizada ao perceber que estiveram separados por todos aqueles anos.

Ao ver Edward e a filha compartilhando aquele momento, reconhecendo silenciosamente as semelhanças entre eles, Isabella concluiu que eles nunca aceitariam suas razões para deixar de procurá-lo em Montreux.

Não contar para ele que seria pai, depois que ela voltou para casa e foi ao médico, foi o pior erro que cometera em toda sua vida.

Edward veria os últimos 12 anos como um tempo perdido que nunca iria recuperar com a filha. Ele não en tenderia qualquer explicação que Isabella pudesse dar.

Edward não vai me perdoar.

Com a constatação daquela realidade, começou a tremer incontrolavelmente. Foi quando o telefone tocou de novo. Jacob — ela ainda não tinha ligado de volta para ele. Apesar de não terem nenhum encontro marcado até amanhã à noite, ele naturalmente se perguntava se havia algo errado. Mas ela não poderia atendê-lo naquele momento. Ligaria de volta amanhã.

Edward entrara de volta na sua vida de uma maneira que ela nunca teria imaginado.

Edward analisava sua adorável filha de cabelos escuros, enquanto ela o examinava com o coração nos olhos.

— Como você diz pai em francês?

— Père.

— Parece "pêra". Posso simplesmente chamar você de pai?

Encantado e tocado pelo seu interesse em considerá-lo seu pai, disse:

— Não há nada que eu queira mais.

Foi recompensado com um sorriso cintilante.

— Tenho um presente para você, pai. Só um segundo enquanto eu pego. Não vá embora!

— Vim aqui para lhe ver, ma filie. Não vou a lugar algum.

Seus lindos olhos castanhos encheram-se de lágrimas em seu cativante rosto de menina de 11 anos.

— Estou tão feliz. O que significa filie?

Ele limpou a garganta.

— Minha preciosa filha.

Deu outro forte abraço nela antes que as longas pernas de Natalie desaparecessem na escada. Mais uma vez, ficou espantado com a grande semelhança com sua família, especialmente sua mãe.

Seus pais não iriam acreditar. Uma vez que se recuperassem do choque, iriam adorar a neta que exalava doçura e inocência. Pensando bem, estas eram as qualidades que admirava em Alain.

Ela ajudaria a preencher o vazio deixado no coração de seus pais quando Jasper e Alice morreram.

Edward já a amava com uma intensidade que não sabia que era capaz. A espontaneidade do amor de Natalie, sua abertura e generosidade de espírito emocionaram-no.

Ainda não falara com a mulher morena que decidira não aparecer ainda. Edward podia apenas imaginar o por quê dela ter escolhido ficar fora do seu campo de visão.

Sem dúvida, seu sentimento de culpa por ter mantido Natalie em segredo todos aqueles anos era a razão primordial pela qual ele tivera a chance ficar um pouco a sós com sua filha.

Mas ele não estava reclamando. Pelo fato de se conhecerem a sós, o vínculo que acabara de se formar era extraordinário, quase como se ele e Natalie sempre tivessem se conhecido.

Enquanto esperava Natalie voltar, olhou a sala de estar aconchegante em volta dele, repleta de prateleiras com livros e gravuras emolduradas de seus pintores impressionistas favoritos.

Ele gostava da combinação de móveis de couro marrom e mesas de vidro com flores. Um tapete oriental cobria o assoalho de madeira. O que quer que pensasse de Isabella Swan, tinha que admitir que ela montara um lar adorável, cheio de calor e caráter para a filha deles.

— Aqui — Natalie apareceu e correu até ele, entregando-lhe algo.

— Parece familiar?

Inacreditável. Seu velho anel de hóquei.

— Diria que sim. Meu time se chamava Montreux Meteors.

— Foi o que a mamãe disse.

Sua mente dava voltas. Todos esses anos, Isabella tinha mantido Natalie em segredo. Não conseguia entender.

— Depois que ganhamos o torneio profissional, ganhamos estes anéis. Só percebi que não estava mais no meu dedo quando cheguei em casa do hospital. Pensei não estar com ele porque jóias sempre são reti radas antes da cirurgia. Mas, quando perguntei, me disseram que não estava usando o anel quando cheguei.

— Mamãe me disse que você tinha dado para ela como um anel de compromisso até que pudesse comprar um anel de noivado. Ela disse que você a levaria para comprar um quando o treinamento acabasse.

Outro grunhido escapou-lhe. Esfregou os dedos sobre as letras em alto-relevo que formavam a palavra Meteors. Um bastão de hóquei estilizado formava o T.

A mãe de Natalie tinha lembranças da noite em que ele dera isso a ela. Mas ele não compartilhava das lembranças. Tudo o que podia fazer era maravilhar-se com o fruto de sua união indubitavelmente apaixonada que estava ali na sua frente.

Seu olhar voltou-se para Natalie. Continuou a examiná-la e percebeu que seu sorriso, o formato de seu rosto e de seus lábios eram traços que tinham que pertencer à sua mãe, a mulher com quem fizera amor 12 anos atrás.

Ela deveria ser excepcional para que ele se apaixonasse tão profundamente. Mas o fato de ela ter escondido dele a existência da filha revelava um sério desvio de caráter em sua natureza. Rangeu os dentes na tentativa de conter sua fúria.

O importante ali era conhecer o sangue do seu sangue primeiro. Recriminações seriam sem sentido. Mas, como Isabella Swan acabaria descobrindo, haveria um preço a pagar pelo pecado da omissão.

De repente, Edward percebeu que ele e Natalie não estavam sós.

Viu por detrás de Natalie a mulher estonteante com cabelos castanhos na altura dos ombros que acabara de entrar na sala. De estatura mediana, ela exalava a feminilidade atraente que identificara na filha adolescente.

Mesmo da distância que os separava, podia ver que seus olhos de cílios escuros eram de um incrível tom de chocolate.

Sem poder evitar, seu olhar percorreu suas bochechas de ossos saltados e sua boca larga e carnuda. E finalmente desceu até sua silhueta esguia, porém com curvas, meio escondida pelo terninho azul-pastel clássico.

Sua pulsação disparou em seu pescoço e têmpora, uma sensação que não tinha havia muito tempo, não conseguia nem mesmo se lembrar da última vez.

Arrependeu-se um pouco de sua dura reação inicial a ela, mas a atribuiu ao fato de que estava imensamente curioso sobre a mãe de sua filha, que qualquer um podia ver que era uma beldade em formação.

— Eu dei seu anel a Natalie antes de ela entrar na escola — começou Isabella, naquela voz quase sem fôlego que ouvira ao telefone. — Queria que ela soubes se de algo especial sobre o pai, que fosse interessante e marcante em você.

— É — Natalie acrescentou. — Eu achava tão legal que meu pai fosse um jogador profissional de hóquei no gelo. Foi por isso que eu quis jogar também. Mas tive que esperar até completar 10 anos de idade.

— Você joga hóquei agora? — Edward murmurou, espantado.

Natalie balançou a cabeça.

— A mamãe acabou de me pegar no treino.

— Ela é sua filha — completou Isabella. — Você ficaria orgulhoso em saber que o treinador a acha tão talentosa que a colocou na posição de lateral-esquerda. Ela ajudou o time a vencer o campeonato regional infanto-juvenil na última temporada.

— Você ainda joga, pai?

— Desde o acidente, não. Você gosta?

— Gosto! Meu time se chama Concord Cavalry. Amanhã é o nosso primeiro treino tático antes da temporada de outono. Você virá me ver jogar? Nós somos os melhores!

Por um instante, Edward temeu que fosse algum tipo de sonho fantástico do qual acordaria e se veria só e desolado. Sentir os braços de Natalie ao seu redor mudara sua vida completamente.

Viu Isabella pousar suas mãos protetoras sobre os ombros da filha.

— Querida? Seu pai acabou de chegar. Não temos idéia de quais são seus planos, ou se ele trouxe sua mulher e filhos com ele. Por que não nos sentamos e conversamos?

Com aquelas palavras, as máscaras caíram.

Isabella Swan apresentou sua alegação. Agora que lhe fora permitido ver a filha, ela não podia esperar por vê-lo anunciar sua saída iminente da casa e do país. Sem dúvida, o homem com quem ela um dia planejara se casar estava aguardando que ela lhe ligasse, dando o sinal de que "a barra estava limpa".

Tudo bem. Mas, antes que Edward saísse, ele também iria apresentar a sua alegação.

Sem hesitar, guardou o anel no bolso para devolver depois, e se aproximou para pegar nas mãos da filha, ignorando a sugestão de Isabella de se sentarem.

Olhou naquelas órbitas castanho-escuras, disse:

— Não sou casado, cherie.

— Não é?

— Ainda não — imitou o que Isabella dissera antes dele entrar.

— E, agora que sei que tenho uma filha, quero que você venha para a Suíça e more comigo.

— Você está falando sério? — disparou, animada.

— Como você pode duvidar? Por causa da minha amnésia, perdemos onze anos de um relacionamento pai-filha. Não quero perder nem mais um dia.

— Nem eu — confessou. — Sempre pensei que meus amigos tinham tanta sorte de crescer com seus pais.

A emoção fez com que apertasse as mãos dela com mais força. Beijou-lhe a cabeça.

— Se eu soubesse de você, teríamos sido uma família desde o começo.

De fora, percebeu que o semblante da mãe dela ia perdendo a cor. Agradava-o imensamente vê-la empalidecer de culpa.

— Deixe-me contar sobre a minha casa, ma filie. É um chalé no topo de uma montanha verdejante em Caux, com vista para o lago Genebra. Às margens do lago há um castelo. E dá para ver os Alpes franceses do outro lado. Tem um barco para levá-la a Genebra, onde você poderá visitar a antiga escola da sua mãe.

Natalie saltitava.

— A mamãe disse que viajaríamos para lá um dia, para que eu visse onde ela estudou.

— E o dia chegou.

Aproveitando o silêncio atordoado de Isabella, disse:

— Sempre que quiser, pode descer a montanha até a casa dos seus avós em Montreux. Eles vão ficar eufóricos de saber que têm uma neta tão linda.

— Você acha que eles vão gostar de mim?

— Vão adorá-la — disse, emocionado. — E também o seu primo Alain. Ele mora comigo.

— Por quê?

— Seus pais morreram em um acidente de carro um ano atrás.

— Jasper e Alice? — Isabella perguntou, abalada.

Não deveria tê-lo surpreendido o fato de Isabella lembrar dos nomes de seu irmão e de sua cunhada.

Mas ele ficou intrigado por ela soar como se realmente se importasse com o que acontecera a eles. Ele contorceu o rosto.

— A tragédia foi muito difícil para a família, mas especialmente para Alain. Amo-o como se fosse meu próprio filho. Ele é bastante especial.

Na verdade, se não fosse pela natureza curiosa do sobrinho, aquele bilhete nunca teria sido lido. Certamente, Edward não teria encontrado a filha que, até então, nem sabia que existia.

Isabella parecia abalada.

— Lembro-me das fotos que você me mostrou deles segurando seu bebê. Pobre menino. Graças a Deus ele tem você.

O tremor na voz de Isabella era tão real que o tocou, apesar da raiva de ela nunca ter tentado descobrir por que ele não tinha ligado ou escrito para ela.

Ela era um grande enigma para ele.

— Quantos anos ele tem, pai?

— 12.

— Só um ano mais velho que eu.

Edward olhou para a filha.

— Vocês são praticamente gêmeos.

— Ele foi bem legal ao telefone — acrescentou Natalie.

— Com ajuda dele e dos amigos, você vai sair por aí falando francês logo, logo.

— Estava pensando em estudar francês na escola no outono.

— Bon. Vai facilitar as coisas quando você se juntar ao time feminino de hóquei de Montreux. Vai ficar feliz de saber que elas têm um ringue novo. Um dos meus antigos colegas de hóquei é o treinador dos jogadores em idade escolar. Estão precisando de uma boa lateral-esquerda.

— Ai, meu Deus, mãe, você ouviu isso? — sua cabeça girou para olhar para a mãe.

Mas a postura de Isabella havia mudado e os seus olhos alvejavam os dele como raios-laser.

— Ouvi.

Estava pronta para mandar a filha para o andar de cima, para onde não pudesse escutar. Antes que isso acontecesse, ele precisava dar sua cartada final.

— Uma vez, você aceitou se casar comigo — sentenciou Edward. — Apesar de não me lembrar desse período da minha vida, tenho sua carta e o anel para provar que estávamos planejando nosso casamento.

— Isso foi há muito tempo.

— Verdade. Mas é fato que nós temos uma filha que precisa de ambos. Eu a quero na minha vida de forma permanente — declarou como se estivessem sozinhos na sala.

— Oh, mãe... — Edward sorriu para a filha extasiada. Isabella balançou a cabeça.

— Querida? Preciso conversar com seu pai em particular.

— Gostaria que ela ficasse — Edward discordou.

— Por favor, não torne isto mais difícil do que já é.

— Você não acha que já houve segredos o bastante? — contra-atacou ele. — Percebo que você está apaixonada por outro homem. Isto coloca nossa filha em meio a uma situação injustificável. Como sabemos que ela não será feliz longe de você ou de mim, sugiro que você se mude para a Suíça com Natalie enquanto nos conhecemos. Estou pensando em um ano.

— Podemos, mãe? — implorou a menina.

— Minha casa tem espaço o bastante para o seu namorado e seus pais.

— Só tem a vovó — informou-o Natalie com pesar. — O vovô morreu há dois anos.

— Sinto muito você tê-lo perdido, querida. Sua avó pode vir morar conosco se ela quiser. Nesse sentido, o convite se entende a todos os seus amigos que desejarem esquiar conosco no Natal e na Páscoa.

Natalie soltou um grito.

— Kendra vai morrer quando eu contar para ela.

Ele sorriu para a filha.

— Percebo que ela é sua melhor amiga.

— É. Ela joga hóquei também!

Seu olhou retornou para Isabella, que empalidecera.

— E quanto ao seu emprego, o que quer que seja — continuou, no mesmo tom —, estou certo de que, quando entenderem a situação, lhe darão um ano de licença.

— Mamãe trabalha em uma agência de propaganda — disse Natalie, orgulhosa.

Fascinado pela informação que conseguira, ele disse:

— Sempre há necessidade de uma boa profissional, não importa onde você more.

Já preparado para a pronta recusa de Isabella com relação à proposta, ele arrematou.

Se você não puder se afastar por um ano, então Alain e eu nos mudamos para cá. Notei que há uma residência à venda a duas casas daqui. Assim, Natalie não terá que se dividir entre nós.

— Você não pode se mudar para cá. — Isabella parecia ameaçada.

Ele gostava de vê-la se revirar.

— Por que não?

— Além do fato óbvio que a Suíça é o seu lar, você tem grandes responsabilidades.

— Como você sabe?

— Porque uma vez você me disse que acabaria trabalhando nos negócios da família.

Sua resposta parecia lógica. Mas ele percebeu uma leve hesitação antes de respondê-la. Perguntou-se por quê.

— Pensei que tivesse deixado claro que faria o que fosse preciso para ficar com a minha filha. Por muitos anos, cogitei expandir os negócios para além da Europa. Por que não em Concord?

Natalie virou-se para a mãe.

— Eu preferia ir para a Suíça. Se o papai não tivesse tido amnésia, seria lá o lugar onde viveríamos.

— Mas ele sofreu o acidente, querida.

Edward podia ver que Isabella estava trêmula. Para sua satisfação, Natalie não parecia notar ou ouvir o que quer que fosse.

No momento seguinte, ela o agarrava em volta da cintura com uma força surpreendente.

— Estou tão feliz por você estar bem agora, pai.

— E eu estou ainda mais grato por ter uma filha. Agora que nos encontramos, teremos o resto de nossas vidas para ficarmos juntos. Mas sua mãe tem razão. Você não nasceu na Suíça e pode não se sentir em casa lá. Então, tenho uma sugestão até que arranjemos uma solução definitiva.

— E qual é?

— Por que vocês não vêm passar umas férias? Eu pagarei por tudo. É meu direito como pai, afinal. Você vai poder conhecer seus avós, reconhecer o terreno. Ver o que você acha. Talvez você prefira morar onde você foi criada.

— Poderíamos ir amanhã? — Ela não ouvira nada do que Edward dissera além disso, mas estava tudo bem para ele.

— Gostaria que fosse possível — disse, antes que Isabella protestasse. — Mas, se você não tiver um passaporte, terá que arrumar um antes. Se você se apressar, poderá viajar em até uma semana. Até lá, você pode começar a arrumar as malas.

Ele podia ouvir a mente dela absorvendo tudo. E Isabella já estava esperando para expulsá-lo há algum tempo.

— Como vocês duas devem ter muito o que conversar, vou deixá-las agora.

— Posso ir ao seu hotel com você?

— Desculpe, querida, mas estou indo para o aeroporto.

— Mas como? — a menina exclamou, em pânico.

— Estive longe dos negócios nas duas últimas semanas e preciso voltar para Montreux.

Fizera uma promessa a Alain e não podia desapontá-lo.

Natalie não parecia nem um pouco feliz com a notícia.

— Esperava que você pudesse assistir ao meu jogo amanhã. Queria que meus amigos conhecessem você e tudo o mais.

— Não se preocupe. Vai acontecer se morarmos aqui ou na Suíça. Daqui a pouco, estarei assistindo as suas partidas com Alain. Espere uma ligação minha amanhã à noite. Vou querer saber como foi.

— Tudo bem, mas gostaria que você não tivesse que ir.

Ela soava exatamente como Alain.

Depois de se abraçarem mais uma vez, Edward teve um arrepio ao ver a turbulência num par de olhos chocolate olhando para ele com dor e ódio.

Entre para o clube.


Capítulo 3 postado!

Obrigada a todo mundo mundo pelas reviews!
Quarta Feira eu posto o próximo, bjs... até lá!