Capítulo IV
~A visão de Yue~
"Yue se vê cercado pelos amigos de Sakura, sua família e começa a compreender que as cartas já estão sendo capturadas e o juízo final está próximo… quanto mais o tempo passa, Yue começa a perceber que nunca mais estará novamente nos braços do mago Clow…"
Os pássaros cantavam no jardim. Os fortes raios de sol entravam nas frestas da janela. Era manhã de primavera, quase verão.
Mais um dia de aula começava para o rapaz de cabelos brancos.
Pegou seus óculos, saiu do futon, escovou os dentes e vestiu, mais uma vez, o uniforme azul da escola Seiju.
Antes de sair, colocou a mochila nas costas e olhou para o mural dos diplomas.
'Estudar as mesmas matérias, repetidas vezes… isso tá começando a ficar chato. Pelo menos o Yukito olha pra isso e nem fazia ideia de onde vem esses diplomas… E nem faz perguntas. Andei pelas quatro principais ilhas do Japão; minha jornada já está acabando', Disse Yue. 'Será que eu ainda vou te encontrar no final do arco-íris, meu mestre?'
AVY
Yukito parou na frente da casa amarela dos Kinomoto e lembrou-se das vezes que Sakura aparecia a qualquer instante e abria a porta marrom para ele, com um largo sorriso no rosto; ela sempre sabia quando era ele.
'Aquela menina… o que ela sente por essa casca? Será que ela vai amar ele quando souber que eu estou por trás dela? Acho que ela nem vai se lembrar… Como eu podia imaginar que Clow colocaria as cartas para despertar no subúrbio de uma cidadezinha qualquer? Nem pra ser num palácio, num templo cheio de monges, tinha que ser um lugar como esse?' Pensou Yue, sorrindo por trás do rosto de Yukito. 'A loucura de Clow é mais sabia que a inteligência dos homens… Clow e seu maldito "Hitsuzen"'
Tocou a campainha e esperou. Quem atendeu foi uma menina com franja e lacinho na copa da cabeça, de cabelos cinza e olhos azuis-marinhos da cor do mar profundo. Ela curvou-se educadamente para ele:
– Muito bom dia, Yukito-san! Por favor, vamos entrar, o Touya-san já está esperando o senhor para preparar o Obentou. Me acompanhe, por favor… – Tomoyo levou Yue até a cozinha e, mais uma vez, ele olhou maliciosamente para ela:
'Sinceramente, essa menina não sabe o risco que corre. Acha que a vida é filmar as cartas Clow e vestir a selecionada por Kerberos com roupas espalhafatosas? Pensa que é divertido se expor ao perigo do poder delas assim sem mais, nem menos? Mal sabe o que a aguarda quando chegar o dia do meu julgamento… basta ela interagir com as cartas dessa forma pra se envolver com o poder monstruoso delas…'
No meio do caminho, uma voz saiu do alto das escadas:
– Quem chegou, Tomoyo?
– É o Yukito-san, Sakura! Ele falou pra você parar de se maquiar e descer logo daí!
– Que-quem disse que eu tou me maquiando? Tomoyo, sua bobona! Você me paga, viu?
Tomoyo só sabia sorrir com o constrangimento de Sakura. Yue não tinha nada a sorrir.
Chegaram na porta da cozinha e encontraram-se com Touya, o rapaz de cabelos curtos e espetados, vestido com o mesmo uniforme que tinha uma amizade muito grande com Yukito.
Touya o puxou pelo braço e o arrastou sem cerimônias,sem sequer dar um oi ou um bom dia, para a boca do fogão, como se tivesse toda a intimidade do mundo com ele. Yue reparou que aquilo contrastava em muito com os modos refinados de Tomoyo.
Colocou uma tigela na frente dele e lhe deu alguns talheres:
– Vamos, tá dormindo ainda? Esse é o Obentou da Sakura.
Ver aquela tigela de Obentou fez Yue se lembrar da imensa quantidade de energia que Yukito precisava para se manter, afinal ainda não tinha um mestre para se alimentar da energia mágica dele:
'Já estou farto disso tudo, dessa comida, dessa família, dessa gente. Nunca precisei comer na vida. Muita humilhação isso! Eu só precisava de você do meu lado, Clow! Tudo bem, é por você que eu faço esse sacrifício, até o dia que eu me encontrar com você de novo…'
Pegou a tigela e começou a preparar o Obentou de Sakura. Touya, olhando de esgueira para Yukito, percebeu que o amigo estava bastante desligado naquele dia, desligado o bastante para ignorar a presença de Sakura, sentada na mesa à sua frente já uniformizada, com a cabeça apoiada na palma das mãos. Os lábios de Sakura estavam escarlates, ela tinha passado uma sombra nas pálpebras.
Touya se contorcia de raiva com a face maquiada de Sakura. Tomoyo se limitava a sorrir de olhos fechados e esperar que Yukito visse o resultado da sua 'traquinagem' com Sakura:
– Sua mostrenga, o que é que você fez?
– Eu fui me maquiar, oras! E então Yukito-san, gostou?
– Não ficou um máximo, Touya-san, Yukito-san? Ela é superfácil de limpar com água! A Sakura-chan já é pré adolescente e precisa se preparar para os gatinhos e gatinhas que estão caçando ela com os olhos! Ah, como eu tou feliz! – Tomoyo suspirava e simulava um desmaio com a felicidade de maquiar Sakura. Ela dizia aquilo com tanta convicção que assustava a todos. Os olhos dela brilhavam enquanto suas mãos se juntavam como se fizesse uma prece aos céus.
'Ela tá rezando pra selecionada do Kerberos ou o que?', Indagava-se Yue.
– Tomoyo-chan!
Sakura ficou tão envergonhada com o gesto de Tomoyo que tentou esconder a cabeça debaixo da mesa.
– Agora você duas vão se ver comigo, suas mostrengas! Mostrengas!
Touya pegou uma concha e um pano e foi atrás de Sakura e Tomoyo pela casa. As duas corriam como loucas, subindo e descendo as escadas, correndo em voltas na cintura de Touya até que ele ficasse tonto e caísse no sofá.
Yukito gargalhou com a cena. Yue percebeu as emoções da identidade falsa.
'Eu não vejo graça nenhuma nisso. Ele sorri e nem sequer se lembra de ter entrado na casa, de ter preparado o obentou. Lesado! Fica calado achando que esses lapsos de memória são normais. O que Clow tinha na cabeça pra deixar as cartas com esses pirralhos? Isso é loucura!'
Pôs a mão na cabeça e sentiu outra fisgada. Era Kerberos:
"Hei, cara, mais respeito com os Daidouji-Kinomoto! Já, já ela vai ser sua mestra!"
"Kerberos. Você está aqui, não está? Deve estar fraco, já que as cartas se espalharam… Tou pagando pra ver suas ameaças… "
"Isso não é da sua conta e isso não foi uma ameaça! É hitsuzen!"
Touya notou que Yukito estava em transe e deu um leve tapa na face de Yukito.
– Ta tudo bem?
– Tá sim, Touya… não se preocupa.
– Não tá nada bem! Mais tarde você me conta! Sem falta! Agora não dá que a gente tá atrasado… pega suas coisas e vamos embora!
Touya já finalizara os obentous e Sakua tirara a maquiagem. Saiu daquela casa ao lado de Touya, Sakura e Tomoyo.
AVY
As árvores de cerejeira estavam por toda a parte naquela alameda. Suas flores se acumulavam pelo chão e o calor do Sol se encarregava de secá-las. Yue lembrou-se de Clow lhe ensinando como funcionava o ciclo da natureza:
– Está vendo, Yue? As cerejeiras caem no solo sonhando em voltar a desabrocharem novamente na árvore, mas para isso, elas tem que se deixar desintegrar pela natureza para nutrir a árvore com seus componentes e assim, desbrochar novamente com outras flores, misturadas a outras flores, outros componentes iguais a elas, numa mesma árvore que lhes dá a vida e o sentido de serem cerejeiras.
Olhava para Sakura e senti receio dentro de si.
'A minha hora de ter um novo mestre já chegou, Clow? Será que você desintegrou seu poder no universo entre esses suburbanos para voltar a desabrochar novamente na árvore da vida? No corpo e alma deles? Será que um pouco da sua sabedoria sobrou neles?'
Sakura se coçava tanto ao lado de Tomoyo que a amiga querida perguntou o que estava acontecendo:
– Tá tudo bem, Sakura?
– Tomoyo-chan, você resolveu o exercício de MMC e MDC que a Mizuki-sensei passou pra gente?
Tomoyo sorriu de olhos fechados para Sakura:
– Vai me dizer que…
Sakura pediu para Tomoyo se calar e a amiga obedeceu. Tomoyo se aproximou do ouvido de Sakura e cochichou, sob o olhar suspeito de Touya:
– Quando a gente chegar, eu te empresto o meu caderno… daí você copia rapidinho e me devolve…
Sakura fez sim com a cabeça e olhou para o irmão atrás de si. Sentindo que Tomoyo cochichou algo suspeito para Sakura, ele apertou o passo e se intrometeu entre as duas, tentando acertar suas suspeitas:
– Vai me dizer, mostrenga, que você não fez os exercícios?
– Você não tem nada a ver com isso, Touya! Não se intrometa nos assuntos de garotas!
– Eu sou seu irmão mais velho e exijo um caderno exemplar! Me passa ele aqui!
Touya agarrou a mochila de Sakura e ela puxou de volta, com a ajuda de Tomoyo.
– Eu não vou passar nada não, Touya!
Sakura tentou pisar no pé de Touya, mas ele se esquivou e agarrou Sakura pelo pescoço, dando um cafuné na irmã. A Cardcaptor tentou dar o troco e uma verdadeira cena de comédia se desenrolou entre os dois, com o agarra-agarra dos irmãos sendo filmado por Tomoyo. Yukito ficou sério.
'Essa é a sucessora do mago Clow? Clow sabia matemática avançada, era responsável, era um feiticeiro notável… essa aí nem sequer fez o dever de casa!'.
A cena de comédia acabou quando os olhos de Touya se encontraram com os de um rapaz chinês de cabelos castanhos e olhos de mesma cor no outro lado da rua. Ele estava acompanhado por uma menina chinesa de coque duplo na cabeça e olhos vermelhos que agarrava seu braço com tudo.
– Siao Lan, Siao Lan! Você não podia ter saído de casa apressado assim! Eu nem consigo segurar seu braço direito.
Syaoran desviou os olhos de Touya e olhou para a prima:
– Eu já falei pra você, Meiling, que as pessoas daqui não andam grudadas uma nas outras como chiclete!
– Ah, deixa, vai? Já estamos quase perto da escola… – Meiling grudou no primo e esfregou a bochecha com tudo no ombro dele. Sabendo que aquela era uma briga inútil que não podia vencer, Syaoran se conformou. Fez uma expressão de cansado e continuou a caminhar, na esperança de não ser notado nem por Touya e nem por Sakura.
Tomoyo viu os dois do outro lado da rua e gritou:
– Li-kun! Meiling-chan? Não querem vir com a gente até a escola?
Meiling se soltou do primo, cruzou a rua com Syaoran e empinou o nariz quando viu Tomoyo:
– Olha quem está aqui! A Kinomoto e a sua amiga! A dupla dinâmica! – Meiling apoiou as costas das mãos na cintura e olhou ameaçadoramente para Sakura. Ela se encolheu com o olhar tenebroso de Meiling atrás de Tomoyo.
– Não pense que vocês vão chegar lá antes do Sholan! Ouviram? Não é Shoran?
Meiling puxou o primo e o olhar dele se encontrou com o de Yukito. Ele corou com aquilo. Yukito não disse nada e se limitou a sorrir para ele.
'Esse menino… sinto o sangue da família materna do Clow correndo nas veias dele… Ele também está atrás das cartas Clow… Assim como aquela menina. Esse parece ser mais inteligente que ela, mas será que terá a força necessária para superar os obstáculos que virão?'
Seguiram todos pela alameda e não discutiram mais.
'Uma coisa é ter o poder necessário para selar as cartas, outra coisa é a inteligência e, por fim, tem aquilo que uns chama de ânimo, outros de espírito e alguns de simpatia. Sim, as cartas têm personalidades. Elas podem ficar muito bem ou não com as pessoas que elas selaram… se elas forem com a cara delas já é meio caminho andado.
'Não importa o que o Kerberos diga, ninguém tem o poder de me vencer, muito menos esses dois. Seus poderes mágicos são baixíssimos se comparado aos meus. Tenho o controle total sobre as cartas, eu sei quais cartas são leais a Kerberos e quais cartas são leais a mim. Isso não está escrito em nenhum livro. Eles não sabem disso, nem Kerberos pode ajudá-las.
'A intuição deles deve ser seus guias… mas, se eles perderem no meu juízo, será que eu ainda vou poder me encontrar com Clow antes que eu perca minhas energias e desapareça? Meu tempo é curto…' Indagava-se Yue.
Enquanto Sakura e a turma avançavam e se distraiam com a conversa entre eles, Touya deu um leve tapa na face dele e puxou-o para trás, pelos ombros para melhor conversarem:
– Tá tudo bem, cara? Você tá pálido?
– Eu sempre fui pálido, Touya, não esquenta! Eu tava pensando aqui sobre a saúde dos meus avós; eles são velhinhos, sabe?
– Yukito tentou sorrir tolamente para Touya visando despreocupá-lo, mas Touya não ficou convencido:
– Nunca mais esconda as coisas de mim…
– Não entendi. – Yukito olhou preocupado para Touya.
– Não esconda de mim as suas preocupações com seus avós; você vai acabar preocupando a mim, a Sakura, o meu pai; até as pessoas que te conhecem e convive com você…
Touya empurrou Yukito contra o muro da calçada e encarou-o olho no olho. Yukito arregalou ainda mais os olhos. Yue pode ver que Touya estava muito preocupado, mas a real preocupação de Yukito era outra em sua mente. Tocou no pulso do rapaz para desprendê-lo:
– Tudo bem, Touya, Eu também me preocupo com você…
A resposta foi o bastante para deixar Touya aliviado durante o resto do trajeto.
Sakura sentiu falta de Yukito. Olhou para trás e correu para agarrar o braço dele. Touya olhou com ciúmes para a irma enquanto Tomoyo sacou a câmera para filmá-la:
– Ei, mostrenga, o que você tá fazendo?
Sakura não ligou para o irmão e olhou suplicante para Yukito:
– Deixa, vai?
Yukito sorriu e envolveu Sakura com seu braço, colando-a em sua cintura. Syaoran viu o gesto de Sakura e ficou com inveja. Arrastou Meiling consigo e correu para Yukito, abraçou a cintura dele, no lado oposto ao de Sakura. Ele envolveu o rapaz em sua cintura e sorri da mesma forma. Touya olhava para Syaoran como se quisesse que um raio caísse dos céus naquele instante e fulminasse a cabeça dele.
Yukito sorria, estava feliz e Yue, pela primeira vez sorriu levemente pelo canto da boca.
'Esse calor que eu tou sentido… me lembra tanto quando Clow me abraçava… Parece que essa identidade falsa que eu criei aprendeu a ter sentimentos, aprendeu a amar… isso eu não pude prever… Será que eu também vou sucumbir à esses dois? Não! Eu não vou pegar leve com eles, não vou mesmo!'
AVY
Mais tarde, quando a aula terminou e a multidão de alunos começava a sair das sala de aula, da escola, Yukito viu na lousa seu nome escrito com giz. Aquele dia era o seu dia de ser o responsável pela faxina na sala de aula junto com Touya.
Touya se levantou atrás de si e Yukito agarrou o terno azul dele:
– Touya… você já sentiu que tinha uma outra pessoa dentro de você? E… toda vez que ela falasse, você perdesse a memória do que aconteceu?
Touya olhou confuso para o rapaz de cabelos prateados e Yukito refez a pergunta:
– Sabe… você já apareceu em um canto diferente, sem nem ao menos se dar conta de como chegou até lá?
FIM
COMEÇO DE UMA NOVA HISTÓRIA
Por trás do báculo: E aqui finalizo essa história! Eu poderia ter dado mais pano pra manga para ela, mas comecei e terminei justamente onde eu queria, conforme havia planejado. Meu muito obrigado a todos que a acompanharam e comentaram! Vocês também são parte desse texto que é tão de vocês quanto meu…
