Títulos: Versos Brancos

Autora: Ryeko_Dono


Série: Final Fantasy VII

Resumo: Havia poucas regras nos anos de convivência, mas para Sephiroth e Genesis elas eram suficientes. (SephxGen. Lemon.)

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Versos brancos


Versos que possuem métrica, mas não utili
zam rimas.

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Capítulo 4

Todos desacreditaram do cessar armas.

Ainda assim nenhum soldado se incomodou com os tempos de calmaria. As mortes cessaram junto com o acordo político da Shinra, um prazo para que empresas afiliadas finalizassem seus negócios em Wutai.

Sephiroth, Angeal e Genesis estavam a par do verdadeiro motivo daqueles tempos de paz. Dos três, apenas Angeal se incomodava com a estratégia, mas não deixou de apreciar a primeira semana sem investidas militares, batalhas perdidas e soldados mortos.

A paz trouxe outra condição para os dois rapazes. Angeal e Genesis pareciam ter conquistado seu espaço entre os soldados, heróis de uma guerra que ainda não havia terminado. O Diretor ficava satisfeito de reforçar aquela imagem, e ficou muito contente de que Sephiroth estivesse se dando bem com os dois colegas.

"Eu tenho que admitir..." – Comentou para Angeal e Genesis em uma reunião. – "Eu nunca pensei que isso fosse acontecer."

Os dois sorriram, até mesmo Genesis que sempre parecia entediado durante esses encontros. Angeal ainda não havia se acostumado com a figura do General em seus treinamentos, mas admirava a postura centrada e precisa de Sephiroth. Esse também não parecia se incomodar com a sua presença, às vezes elogiando algum movimento do moreno.

Genesis e Sephiroth conversavam bastante. Claro que para os padrões do General isso queria dizer algumas frases trocadas, alguns almoços silenciosos e provocações leves durante alguma luta. Angeal observava... sempre que lutava com Sephiroth os movimentos de Genesis se tornavam mais agressivos, realmente letais. Felizmente o General não tinha dificuldade alguma em contê-los e logo os treinos dos dois 1ª classes passaram a juntar Soldiers curiosos e algumas apostas.

"Apostas?" – Perguntou Sephiroth quando Angeal contou da descoberta. Os três estavam se arrumando para treinar, uma manhã quente e promissora.

"Sim, vários 3ª classe e troopers." – O moreno tirou a espada das costas e a pressionou contra sua testa. Os dois companheiros respeitaram o momento do moreno e assistiram-no guardar a arma no armário, buscando a armadura em seguida.

"E quem tem mais apostas?" – Perguntou Genesis, terminando de vestir os cintos, jogando o sobretudo sobre o corpo.

"Pensando em apostar também?" – Provocou Sephiroth.

O ruivo balançou a cabeça com um olhar contrariado, por fim alongou os braços. Os três caminharam pelo centro em direção a uma das salas de treinamento virtual. O centro possuía vários, divididos por dificuldade. A grande porta do local era interessante, mas o leitor de cartão marcava um claro sinal de 'fora de área'.

"Droga..." – Genesis chutou a porta e os dois suspiraram. Procuraram algum sinal de Hojo ou Hollander, mas eles não eram vistos no centro há alguns dias.

"Podemos achar outro lugar."

Sephiroth concordou, mas Genesis passou o seu cartão de acesso e digitou uma senha de segurança. A luz se tornou verde no leitor e ele encarou os dois rapazes com um sorriso.

"Isso é proibido, Genesis."

"Então é melhor que ninguém descubra."

Angeal olhou para o amigo com irritação, ainda assim a curiosidade falou mais alto. Os três rapazes abriram a porta e observaram as novas instalações. Interessantes. Genesis se aproximou dos controles e apertou alguns botões, tentando iniciar o brinquedinho dos cientistas.

"Droga de senha..."

"Vamos embora, Genesis."

Sephiroth deu alguns passos pelo lugar, tocando a superfície metálica da parede. Tirou a Masamune de sua proteção e acertou a parede com um golpe, causando apenas um arranhão na estrutura do local.

O ruivo se aproximou de Angeal. "É muito simples... fique vigiando, se alguém tentar entrar fale que o local está em teste." Angeal relutou, mas Genesis tocou em seu ombro de maneira persuasiva. "Qual o problema?"

"Eu não sei..."

"Não creio que haja problemas." Disse Sephiroth. "Desde que as câmeras estejam desligadas."

Genesis se aproximou, analisando uma delas. Esta não dava sinal, o que alargou o sorriso do ruivo. Por via das dúvidas o rapaz desligou a alimentação. Angeal apenas suspirou com a ousadia do amigo. Ele lançou um olhar para o General, pedindo o auxílio de Sephiroth, mas esse continuava a observar o novo centro digital.

"Certo..." O rapaz apoiou a espada em seu ombro e apontou para o ruivo. "Mas não demorem."

A porta se fechou e os dois se encararam. Genesis deu alguns passos pelo lugar, até ficar frente a frente com o General.

"Será que esse centro de treinamento será mais interessante que o outro? Se eu matar mais um T-rex acho que enlouqueço..."

"Eu espero que sim."

"Será que é suficiente para um primeira classe?" - Genesis sorriu enquanto pegava sua Rapier. - "Ou você vai continuar se contendo na minha presença?"

Sephiroth apertou as sobrancelhas com a provocação. Havia um duplo sentido malicioso na voz do soldado, ainda assim Genesis apertava firmemente sua Rapier, determinado a iniciar uma luta.

"Você disse que o local estava em teste, não?" - O General pegou a Masamune e a apontou para o ruivo. - "Não quer descobrir?"

Genesis sorriu, então atacou repentinamente. O golpe foi aparado pelo General, faíscas do contato das lâminas. O ruivo se afastou com um salto, atacando novamente, mas Sephiroth não aguardou. Esquivou-se rapidamente e atacou por trás, um perfeito movimento circular.

Há quase um mês eles treinavam com Sephiroth, mas Genesis ainda não estava acostumado com a velocidade do general. Ela sempre lhe surpreendia, ainda que o rapaz nunca o admitisse. Teve de se esforçar para afastar o golpe, saltando para longe.

O ruivo pousou com graciosidade, tentando não demonstrar sua surpresa. Passou a rodear o colega, mais cauteloso. Genesis era muito bom, mas por mais que ele e Angeal se esforçassem nunca conseguiram ferir Sephiroth.

"Descobrir... Eu vou gostar disso."

A resposta do General veio muito próxima. O rapaz atacou com um golpe à distância que Genesis rebateu, porém o mais velho utilizou daquele instante para se reaproximar. O ruivo conseguiu aparar o golpe, mas não impediu a fala do rapaz de alcançá-lo. Os lábios estavam muito próximos de sua pele quando sussurraram.

"Eu tenho certeza que vai."

O contra-ataque foi furioso, mas Sephiroth não teve dificuldade em defendê-lo. Recuava dos golpes de Genesis com perfeição, movimentos discretos e absurdamente rápidos. O ruivo parecia cada vez mais ansioso, tentando achar uma brecha na guarda perfeita de Sephiroth. O General apenas teve de se defender realmente quando o ruivo usou uma magia. O Fire foi contido pela barreira, e revelou um brilho mais furioso nos olhos verdes.

O contra-ataque foi extremamente ágil. O golpe da Masamune faiscou brutalmente com a magia, um golpe que chamuscou a barra do sobretudo de Genesis. A intensidade do golpe empurrou o ruivo para a parede do centro de treinamento e Sephiroth acompanhou o percurso até cruzar suas espadas.

A dividida foi intensa. Genesis forçou para frente, mas teve de rebater a pressão de Sephiroth. Outras fagulhas da magia se bateram no corpo dos dois rapazes que não se importaram. A mão do ruivo procurou pelo corpo do rapaz, agarrando o tecido do sobretudo e puxando-o em sua direção. Sephiroth aumentou a força ao redor da Masamune, mas os lábios que tomaram os seus preferiam lutar de outra maneira.

Genesis largou a sua Rapier.

Isso não queria dizer que a luta havia terminado, apenas evoluído para outro nível. O ruivo segurou na gola do general com ambas as mãos, puxando-o em sua direção e forçando a boca contra a sua, tentando dominar aquele beijo. Quando Sephiroth largou a arma seu corpo investiu contra o de Genesis, prendendo o soldado na parede, apertando a cintura do rapaz com a mesma força que ele antes empregava na espada.

"Você tem certeza que as câmeras estão desligadas?"

"Claro que tenho"

A resposta foi tão impaciente quanto à ofensiva anterior. O ruivo conseguiu desprender suas costas da parede, trazendo o general consigo, roçando seus corpos quase violentamente.

Terminaram no chão, ambos forçando o corpo do outro com uma pressa bem aproveitada no treinamento. Suas pernas se intercalaram, mãos procurando avidamente por botões, por fechos, habilidosamente se livrando dos tecidos. Brechas necessárias para alcançar um pouco de pele.

Eles não tiraram as roupas, apenas afastaram do caminho. Genesis deitou a cabeça no chão com um gemido raspado, um calafrio excitante pela língua do general traçando a sua barriga. Quente. Os toques apressados, roçando seus membros, corpos e línguas ainda na expectativa da batalha. Os toques buscando, estimulando e invadindo a carne, deliciosamente apressados.

Sephiroth cobriu os lábios do ruivo, prevendo seu gemido. Roupas, suor e uma semana de contenção aquecendo lábios, acelerando batimentos. Se beijaram novamente, morderam os lábios e guardaram calores. Movimentos bruscos. Genesis procurou algum apoio e seus dedos arranharam o solo, apenas depois encontrando as costas de Sephiroth para se afundar nelas.

O único gemido realmente incontido foi suficiente.

Suficiente para compreender que os sons, os batimentos e as respirações não vinham exatamente de uma batalha.

Angeal não entreabriu mais a porta.

O centímetro de fresta foi suficiente. Ele apenas prendeu a respiração, podendo imaginar a cena do outro lado. Visualizava a imagem que ele veria se forçasse um pouco mais a maçaneta.

Não o fez. Seus dedos se apoiaram com força no batente, alterados pelos gemidos do ruivo. Aqueles sons cercaram a mente do moreno com imagens do rubor do seu amigo de infância, das costas arqueadas e de cada respiração mal controlada.

Angeal prendeu a respiração. Assim que conseguiu, o rapaz fechou a porta, afastando-se do centro de treinamento. No caminho para seu dormitório dois 3ª classe lhe fizeram um comprimento militar.

Pela primeira vez o rapaz não lhes deu atenção. Na realidade, o moreno nem ao menos os viu

x-x-x-x

"O que você está fazendo, Genesis?"

O ruivo contraiu a sobrancelha. Tinha um sorriso levemente desafiado nos lábios, a mesma expressão de quando Angeal reclamava sobre sua alimentação ou postura.

Uma expressão que não se manteve.

Genesis percebeu que o amigo estava falando sério. Suas feições estavam preocupadas e um pouco mais irritadas que o normal. O ruivo associou aquela atitude com a maneira que o rapaz partiu sem dar satisfações e compreendeu parcialmente o que havia se passado.

"Você viu?"

Angeal soltou toda a respiração em uma lufada irritada. Nesse momento um grupo de soldados passou fazendo barulho pelo corredor. Os dois aguardaram que este se afastasse.

"Qualquer um poderia ter ouvido. Como você pôde ser tão indiscreto?"

Genesis encarou o moreno. Ele mordeu os lábios levemente, único sinal de nervosismo que o moreno conseguia perceber no amigo. Genesis não sabia se deveria ou não ter contado antes. Provavelmente sim.

"Se um dos comandantes os vissem... e se uma daquelas cameras estivesse ligada?? Você enlouqueceu, Genesis?!"

O ruivo respirou fundo.

"Alguém mais ouviu algo?"

"Não, mas – "

"Mesmo que ouvissem." Aproximou-se do moreno. "Mesmo que ouvissem, o que poderiam fazer? Hein? O que eles diriam?"

Angeal não quis pensar na possibilidade. Desviou o rosto visivelmente incomodado.

"Eles não fariam nada. Não podem fazer." Genesis sorriu desculposo. "O que eles podem fazer conosco agora? Nós estamos no topo, Angeal, chegamos lá. Não há ninguém que possa nos contrariar ou punir."

Angeal observou a expressão do rapaz. Genesis falava com entusiasmo, recém-acostumado a nova posição de 1ª classe. Ainda assim o rapaz suspirou e tocou no braço do amigo, olhando firme em seus olhos.

"Angeal." Tentou tranqüilizá-lo. "Eu sei o que eu estou fazendo."

x-x-x-x

A cama de Sephiroth ainda era mais confortável.

Os dois Soldiers haviam mudado de instalações apesar da relutância inicial de Angeal. O moreno não gostava nem um pouco da idéia, julgando as instalações que tinham como segunda classe excelentes.

"É só um quarto, Angeal."

No fim o moreno concordou. Era um Domingo quando Genesis averiguou satisfeito, largando as costas na cama larga do General, que ainda assim ela era mais confortável.

Sephiroth observou o ruivo. Quando era ele quem o visitava não havia versos, o que de certa maneira agradava ao mais velho. Ainda assim, (e Sephiroth nunca admitiria), depois de alguns dias em missão o rapaz até mesmo passava a sentir falta da voz rouca no seu ouvido e da boca que pronunciava os versos bem lentamente.

Até mesmo dos versos.

(Isso não queria dizer que ele realmente os ouvisse).

Era curioso para o General pensar naquele acordo. Genesis era muito diferente dele, mas os dois se entendiam estranhamente bem em alguns campos. Sexo felizmente era um deles, o que tornava a perspectiva de um verso ou outro bem mais agradável.

Ainda assim algumas regras silenciosas se formaram entre os dois.

Não havia definições. Depois de 2 meses de treinamentos constantes e encontros abafados a familiaridade tornou-se intuitiva. Os comentários sobre os 3 primeira classes eram tão ostensivos que Sephiroth admitiu a si mesmo, levemente surpreso, que 'amizade' era um termo válido para descrever aquela relação. Tornou-se natural procurarem a companhia um do outro para algumas tarefas simples, como o café-da-manhã e o treinamento obrigatório.

O encontro não era explícito. Parecia uma coincidência agradável e na grande maioria das vezes Angeal estava presente. Genesis fazia questão de chamar o amigo para os treinos, para as reuniões chatas com Lazard. Sephiroth percebia que com aquela reação, aparentemente automática, o moreno tornou-se mais tranqüilo na sua presença.

Genesis comentou da conversa com Angeal sobre o centro de treinamento. A reação do General foi exatamente a que o ruivo esperava. Sephiroth arqueou levemente uma das sobrancelhas e não fez comentário algum. Na realidade, o General ignorou completamente o acontecido. Se Angeal sabia ou não de sua relação com Genesis isso não faria diferença.

Sephiroth também sabia, muito melhor que o ruivo, que este estava certo.

Mesmo que descobrissem de sua intimidade, mesmo que da pior maneira possível, o caso seria perfeitamente abafado.

Lazard percebeu primeiro. Sephiroth sempre pensou que o diretor era bem mais inteligente do que parecia, portanto não se surpreendeu. O General nunca soube se a suspeita veio de suas próprias observações ou se foi suscitada por algum comentário particular, mas não importava. O diretor deu a entender, de maneira extremamente sutil, que o General estava fazendo um trabalho exemplar vigiando os passos do ruivo.

Sephiroth não respondeu. Entretanto ele percebeu que a constatação for seguida de um sorriso.

O rapaz não tinha certeza se estava fazendo um bom trabalho, mas certamente vinha observando. Com o canto dos olhos verdes acompanhou a respiração do rapaz, o peito nu se contraindo lento, satisfeito. O corpo de Genesis moveu-se de maneira felina quando ele se espreguiçou, em seguida o ruivo encarou o General com um sorriso preguiçoso.

"Você foi convocado para a próxima missão?"

Genesis pegou uma de suas mechas entre os dedos, alisando os fios prateados sem nenhum motivo em particular.

"Não."

"Angeal foi. Partiremos amanhã se não houver nenhuma mudança... você não acha irritante essas informações cruzadas?" Genesis não esperou resposta. "De qualquer maneira não levaremos nenhum soldado, uma missão confidencial, ou assim parece."

Sephiroth observou. O nome de Angeal lhe fez contrair levemente os olhos. Por mais que não houvesse mostrado reações quando Genesis comentou aquele tópico ocupava sua mente de tempos em tempos.

O moreno não havia dado a entender que sabia de algo, ao menos não para ele. Sephiroth, porém, observava. Inicialmente pela ordem de Lazard e depois por seus próprios interesses o General notou que os dois amigos eram extremamente próximos.

"O que foi? Vai me punir por estar falando sobre isso?"

Genesis sorriu de maneira maliciosa, julgando o silêncio de Sephiroth em natureza da missão. Nem mesmo entre eles deveriam discutir ordens, mas isso não os impedia de fazê-lo.

Sephiroth negou. Ele havia passado as últimas duas semanas formulando a pergunta. Ainda assim as palavras não se ajuntavam. Parecia tola demais para ser formulada.

"Você e Angeal são muito próximos."

"Bem, nós crescemos juntos. E não foi num lugar como Midgar... De onde nós viemos isso quer dizer bastante."

Sephiroth não mostrou expressões. "Próximos demais."

Genesis sorriu.

"Isso é uma pergunta?"

O General não respondeu. Apenas encarou o Soldier e seu sorriso satisfeito, a mesma expressão que lhe chamou tanta atenção há alguns meses. À primeira vista o que parecia arrogância tornou-se a característica mais marcante do ruivo.

Involuntária. Ao menos disso Sephiroth tinha certeza.

"Eu me perguntava se você desconfiava de algo..." – O rapaz ergueu o tronco. – "Não é o único... pobre Angeal. Ontem mesmo uns colegas nossos admitiram que tinham suas suspeitas... Ele sempre fica tão irritado com esse tipo de brincadeira..."

O General acompanhou o olhar perdido do ruivo. Sua expressão sempre se tornava levemente mais serena quando falava do colega. Genesis aproximou o seu rosto, tentando provar um pouco de ciúmes nos lábios que ele beijou. Infundado. No beijo havia apenas o calor, toda indiferença que se tornava excitante na sua boca.

"Não... Claro que não. Nós somos apenas amigos. Angeal nunca faria nada... Imagine? Nós nos conhecemos há tempo demais..." Genesis parou por um instante. "Ele é a melhor pessoa que eu conheço. Talvez a única que realmente valha alguma coisa." O ruivo umedeceu os lábios, o olhar subitamente sério. "Tampouco eu arriscaria."

Genesis se calou. Ele abandonou aquela expressão tranqüila lentamente. Sephiroth acompanhou. O olhar se traiu por um instante, fitando um ponto esquecido no quarto.

"Só uma vez..."

As esferas ainda fitavam o vazio quando ele completou, depois de um momento de silêncio.

"Mas isso faz muito tempo." Genesis prendeu o ar e soltou de um todo, afastando as expressões com um sorriso forçado. "E de qualquer maneira nós estávamos bêbados."

Sephiroth não respondeu. Apenas observou. As mãos de Genesis estavam levemente apertadas.

"Angeal deve se odiar por isso... mas nós nunca conversamos sobre isso. Na verdade eu finjo que estava bêbado demais para lembrar."

O olhar se desviava do seu, constrangido. A única situação em que o General o viu demonstrar qualquer tipo de arrependimento.

"De qualquer maneira é melhor assim." – Genesis afastou aquelas sensações incômodas, forçando um sorriso para o mais velho. – "Isso responde a sua pergunta?"

Sephiroth concordou e o ruivo se redimiu da melancolia com comentários ácidos sobre qualquer coisa. O assunto morreu e mudou, logo qualquer comunicação se limitou às bocas e aos corpos se encontrando, olhares maliciosos que se perdiam nos beijos de Sephiroth.

Este não fez mais perguntas sobre o assunto.

Nem naquela ou em nenhuma outra noite.

x-x-x-x

Angeal suspirou.

Ele já sabia de cor, na realidade há vários anos. Conhecia os primeiros versos, cada oscilação na voz de Genesis enquanto os recitava. O rapaz suspirou e apoiou o corpo na parede do centro, respirando mais fundo.

My friend, do you fly away now?

To a world that abhors you and I?

Ele encarou o relógio. Sephiroth estava atrasado, o que era bastante curioso. Os dois haviam acabado de sair da empresa e um grupo de 3ª classes cercava o ruivo. O motivo era ainda mais curioso. Todos sorriam ao ouvir as palavras de Genesis.

Angeal estava igualmente acostumado às reações. Elas eram ainda mais curiosas do que as palavras. Muitos soldados não entendiam, e se entendessem não achariam a mínima graça nos versos que Genesis gostava tanto.

Angeal já gostou bastante da história, dividindo com o colega a excitação pelas peças. A obsessão de Genesis, com o tempo, matou qualquer sentimento que tivesse pela poesia. Ele nunca diria nada em nome da amizade, mas havia até mesmo passado a detestá-la.

All that awaits you is a somber morrow

No matter where the winds may blow

Angeal havia se acostumado. Da mesma maneira, ao gosto inevitável do ruivo, todo o resto se acostumava. Genesis era extremamente popular entre as outras divisões e muitos o admiravam. Angeal reparava no olhar ansioso de alguns soldados, tanto para Genesis quanto para ele. Três soldados lhe bateram continências longas antes de partir. As palavras, cada vez mais comuns, ainda conseguiam constrangê-lo.

"É um prazer servir com o senhor."

Genesis sorriu com a sua reação. A porta do centro foi aberta e Sephiroth saiu um momento depois, cumprimentando os dois rapazes rapidamente.

"Por que demorou tanto?" Perguntou Genesis,

"Lazard"

Resposta suficiente.

O diretor sempre parecia ter assuntos a tratar com o General. Às vezes Angeal e Genesis eram chamados juntos, mas por pura convenção. Quem precisava aprovar a nova campanha militar (ainda que sua resposta não mudasse absolutamente nada), era Sephiroth.

Até mesmo Angeal percebia o quanto o rapaz odiava aquilo.

"Faz tempo que não caminhamos por Midgar"

Angeal concordou com as palavras do amigo, já acostumado à presença do General naqueles passeios. O moreno o admirava e respeitava o silêncio do General. Era Genesis quem forçava as situações, mas Angeal estava acostumado a elas. Ao menos o amigo fora sincero em suas palavras anteriores. Os dois estavam sendo discretos. Nem mesmo Angeal os vira trocar mais de um olhar longo, algumas provocações discretas.

Era a terceira vez que saiam juntos pela cidade. Soldiers 1ª classe tinham a vantagem de poder deixar a divisão a qualquer momento desde que não estivessem no meio de uma missão. A cidade sempre trazia alguns olhares curiosos, dedos apontados e comentários sobre determinada notícia, qualquer massacre covarde que os jornalistas da Shinra transformavam em feitos heróicos.

"Esperem um pouco."

Genesis entrou numa livraria, recebendo um aceno por parte do vendedor. O ruivo procurou algo nas estantes, enquanto os outros dois Soldiers olhavam em volta, entediados. Felizmente para eles a busca durou pouco. Genesis encomendou outro título e deixaram o lugar em menos de 15 minutos.

"Você já tem esse livro." Apontou Angeal. "Por que não pediu para seus pais enviarem?"

"Não era meu." Apontou, mais ressentido do que prático. "Agora é."

"Não creio que esse tipo de correspondência seja permitida na divisão." Comentou Sephiroth, recebendo um olhar curioso de Angeal.

"Nós podemos receber cartas?" Respondeu o moreno. O único que mantinha contato com sua mãe. As sobrancelhas grossas se comprimiram. "Você quer dizer que elas são revistadas?"

Sephiroth não respondeu. Genesis sorriu.

"Algo suspeito nos bolos de Gilian, Angeal?"

A risada do moreno foi satisfeita. Sephiroth apenas encarou, compreendendo pela maneira que os dois conversavam que esta deveria ser a mãe de Angeal.

"A canela foi substituída por pólvora, ou algo assim? Acho que sempre vou sentir falta dos bolinhos de canela de sua mãe..."

Ainda era estranho para Sephiroth fazer parte daquele tipo de situação. Ele que nunca teve uma mãe, sequer conviveu com uma mulher naquelas situações.

Estranho, mas não de todo desagradável.

Angeal entrou na loja de armas, levando sua Buster Sword para afiar. Sephiroth perguntou por que o moreno não pedia a Shinra, mas a resposta foi extremamente clara. Aquela arma era sua responsabilidade e cabia a ele achar um meio de mantê-la.

Sephiroth percebeu que Genesis não estava mais na loja. Saiu enquanto Angeal pagava pelo serviço e surpreendeu-se ao vê-lo cercado de garotas. Havia um sorriso sedutor em seus lábios e uma das jovens tinha o rosto extremamente corado. Outros dois moradores se aproximaram do Soldier, por vezes apontando para Sephiroth e cochichando.

Aquela reação não era nova. O nome dos dois passara a ser citado amplamente nos jornais, vendendo a imagem dos rapazes assim como a de Sephiroth. Fotos foram tiradas e reportagens escritas sobre as fronteiras de guerra.

Angeal sempre se incomodou com as inverdades dessas notícias, mas Genesis nunca escondeu um gosto curioso por aquela atenção. Sephiroth foi desviado daquela imagem pelo riso satisfeito de Angeal, instigado pelo primeiro de vários autógrafos que Genesis distribuiu nas ruas de Midgar.

Até mesmo Sephiroth achou curioso, provocando o ruivo quando este voltou. As garotas ainda comentavam sobre os 3 heróis da guerra e uma delas olhava com certa reverência para a mão que Genesis havia beijado antes de partir.

Os três caminharam de volta para a divisão. Aquele cenário estava se tornando cada vez mais comum, mais natural. Ainda assim Sephiroth se perguntava. A relação dos dois soldados era, no mínimo, invejável. A parceria os tornava realmente temidos em batalha, ainda mais eficientes. Sephiroth não duvidava das palavras de Genesis, mas às vezes ele procurava a familiaridade nos olhares de Angeal e encontrava algo mais.

Ainda assim nada disso importava.

Pois tudo estava bem entre os três amigos e o cessar armas se encerrava na manhã seguinte.

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