Nota da autora: Mais um capítulo! Fico feliz que a fic tenha tantos views e reviews, sinal de que vocês estão gostando! Muito obrigada e obrigada a Nanda, que betou esse capítulo também e que vem me ajudando um monte!
Car je ne t'en demanderai jamais autant
Déjà que tu me traites comme un grand enfant ¹
Hermione nunca imaginou, em toda sua vida, que estaria feliz em sair de Hogwarts no Natal. Mesmo quando era mais nova e sentia muita saudade de casa, ficar na escola e comer o delicioso banquete de Natal enquanto observava a decoração perfeita das salas e corredores era bom demais para ser desperdiçado. Anos depois, ela ainda se admirava com as árvores enfeitadas e as músicas natalinas enchendo os corredores.
Antes de receber sua primeira carta de Hogwarts, Hermione sempre olhava pela janela do seu quarto imaginando se haveria algum lugar para ela, onde pudesse ser ela mesma, onde não fosse reprimida por não ser como as outras crianças, onde ser estudiosa era mais importante do que ter um cabelo bonito. Agora, a escola era só mais outro lugar onde as pessoas passavam por ela apontando. Imaginava o quanto as coisas iriam piorar quando sua barriga começasse a crescer.
Suspirou fundo, apoiando a cabeça na janela. Ginny, sentada ao seu lado, escutou o suspiro e deitou a cabeça no ombro de Hermione, segurando sua mão. Ela, Neville e Luna eram alguns dos poucos alunos que não haviam tratado Hermione como louca desde que a gravidez fora revelada.
A professora Minerva achara melhor contar para todos os alunos, para que eles não descobrissem apenas quando o bebê começasse a marcar as vestes de Hogwarts. E, desde então, as coisas não iam nada bem. Se antes Hermione nunca saía da biblioteca, agora preferia estudar em seu próprio quarto. Pansy Parkinson, que continuou indo à escola mesmo depois que seu pai fora preso, sempre dava um sorrisinho quando Hermione passava nos corredores.
Algumas vezes, Hermione se perguntava se não teria sido melhor fazer um aborto, mas uma voz dentro dela dizia que estava tudo bem. Era uma voz muito baixa e frágil, mas havia certeza no que estava dizendo.
Quando chegaram à estação, Hermione esticou o pescoço por cima dos outros alunos, tentando localizar seus pais. Mas a primeira pessoa que viu foi Ron, que estava acompanhado de George. Ginny foi caminhando na direção dos dois irmãos, puxando Hermione pela manga do casaco, fazendo com que o coração da garota acelerasse. A última vez que encontrara Ron fora quando os dois contaram da gravidez, no fim de outubro, e mesmo naquele dia eles não tiveram oportunidade de ficar sozinhos. Ron mandou muitas cartas quando ela estava em Hogwarts, perguntando como estavam as coisas, querendo saber tanto do bebê quanto das aulas. Hermione nunca respondia com muitos detalhes. Nunca contou do jeito com que era olhada nos corredores. Nunca falou sobre o sorriso sarcástico de Pansy. Quando viu que Ron olhava para ela, sentiu um embrulho no estômago, sem saber se era da gravidez ou só nervosismo.
- Olá! – Ginny cumprimentou, beijando os irmãos no rosto. – Vamos lá? – ela perguntou, ainda segurando Hermione pela mão.
- Eu preciso encontrar os... – a garota começou, evitando olhar para Ron, mas ele mesmo a interrompeu.
- Seus pais vão passar o Natal na nossa casa – ele disse enquanto Ginny soltava Hermione, mesmo que ainda temesse que a amiga saísse correndo. – Eles não te contaram?
Hermione apenas fez que não com a cabeça, olhando para o chão. Seus pais comentaram por carta que tinham criado um vínculo maior com os Weasley, especialmente com Arthur. Nenhum dos dois citava muito Molly, o que também deixava a menina angustiada, já que da última vez que se viram a mãe de Ron tinha subido as escadas sem dizer nada sobre a revelação.
Os quatro aparataram nos jardins da Toca, já perto da entrada, onde Arthur estava esperando. O homem abraçou a filha e Hermione com o mesmo carinho, fazendo perguntas sobre a escola e comentários avulsos sobre o clima. A Toca ainda parecia mais silenciosa do que o comum. Aquele era o primeiro Natal que eles passariam juntos desde que a guerra terminara. Muitas vozes fariam falta naquele feriado.
Hermione entrou em casa com Ginny e subiu em seu encalço até o quarto que dividiam, sem parar para falar com Ron. A cama em que costumava dormir já estava armada, esperando que ela se atirasse ali e relaxasse, mas ela ainda não sabia se poderia dormir tranqüila aquela noite.
Ron se perguntava se Hermione estava fazendo de propósito.
- Você vai ter que ser paciente com ela, Ronald. – Fleur alertara, durante o café da manhã do dia anterior. – Hermione deve estar sofrendo muita pressão na escola.
- E os hormônios não vão ajudar em nada – Bill completou, olhando de esguelha para a esposa.
Fleur também estava grávida. Ela e Bill não conseguiam parar de falar do bebê por um minuto sequer. Já haviam, inclusive, escolhido nomes de menino e de menina, para garantir que o bebê seria nomeado assim que descobrissem o sexo. Bill estava tão encantado com a possibilidade de ser pai que seus olhos brilhavam toda vez que olhava para Fleur.
Sentado na poltrona ao lado da árvore de Natal, Ron invejava profundamente os dois.
Ele nunca havia pensado realmente a fundo em ter um filho. A idéia nunca pareceu ruim, já que com uma família daquele tamanho ele sempre fora obrigado a cuidar de crianças. Já estava acostumado e até gostava de brincar com elas. Mas nunca se vira como um pai de família, alguém como seu próprio pai, tendo realmente que se preocupar e se responsabilizar pela vida de outro.
Especialmente, Ron não havia pensado que era tão difícil.
Ele não conseguiu dormir durante a noite e resolveu descer durante a madrugada para tomar um café. Ele já olhava para a xícara há muito tempo e o café já esfriara quando escutou passos na escada.
- Ah, oi – Hermione o cumprimentou um pouco assustada, com grandes olheiras de baixo dos seus olhos.
- Bom dia – ele cumprimentou, dando um sorriso cansado. – Não consegue dormir?
Ela fez que não com a cabeça, forçando um sorriso.
- Vou buscar um copo d'água. – disse, apontando para a cozinha.
Ron sabia que, se não fosse atrás, ela subiria correndo para o quarto sem que ele notasse.
- Eu fiz café – ele avisou, caminhando e seu encalço. – Só tem que esquentar de novo.
Hermione colocou o café para esquentar enquanto Ron jogava o líquido de sua xícara na pia. O garoto sentou-se a mesa, esperando que ela fizesse a mesma coisa. Mas não aconteceu. Os dois ficaram em silêncio até que ela serviu uma xícara de café e, cedendo ao pedido mudo dele, se sentou.
- Você tá tão quieta – ele começou. – Tudo bem?
- Claro. – ela respondeu imediatamente. O café estava quente demais. – Só não tenho muito para falar.
- Mas não vem acontecendo nada? – Ron insistiu. Queria tomar café de novo. – Na escola? Com os colegas ou nas aulas...
- Tudo bem, Ron – ela cortou. – Tudo bem.
Hermione olhava para seu café enquanto o mexia com uma colher. Os dois voltaram ao silêncio. O garoto foi servir mais uma xícara e depois se sentou, esperando que ela falasse alguma coisa. Mais de dez minutos de silêncio se passaram até que ele resolvesse tentar mais um pouco.
- Você está mentindo – ele disse, em voz baixa. – Você está escondendo alguma...
- É claro que eu não estou bem! – ela gritou, de repente, batendo com os punhos na mesa e deixando um pouco de café cair. – Eu não estou nada bem, Ronald!
Ron se assustou com a reação dela e quase deixou sua própria xícara cair no chão. Lembrou-se do que Fleur e Bill lhe disseram e respirou fundo, mantendo o máximo de calma que podia.
- Então, Hermione, por que você não me...
- Contar pra você? – ela perguntou, mas Ron soube que era melhor não responder quando lágrimas começaram a cair dos olhos dela. – Por que eu contaria, Ron? De que adianta contar pra alguém o que eu estou passando, hein? – o volume da voz dela continuava aumentando. – Por que eu contaria que todo mundo naquela escola acha que eu sou maluca de ter esse filho? Por que eu tenho que falar sobre os professores me olhando com cara de decepção?
A respiração de Ron começou a acelerar involuntariamente, como se ele previsse o que ela estava tentando dizer. O que mais estava tirando-o do sério é que ele mesmo já havia pensado sobre isso enquanto trabalhava na loja e via as mães carregando seus bebês no colo.
Hermione se levantou da cadeira, ainda chorando.
- O que eu posso fazer, Ron? Eu não posso fazer nada contra isso, eu não posso fazer nada contra os outros! – ela gritava tão alto que, por um segundo, o garoto chegou a pensar em mandá-la calar a boca. – E se eu não posso fazer nada, o que diabos você pode fazer? O que você pode fazer por mim?
- Mas o que você está dizendo? – ele gritou de volta, levantando tão rápido que a cadeira caiu. – Você acha que eu não to tentando? Você acha que eu não me esforço, é isso? Que eu não sofro por esse bebê como você?
- Claro que não! Você pode fazer o que quiser, Ron, mas não vai ...
- Calem a boca vocês dois!
Molly estava parada na porta da cozinha, usando seu pijama, com os cabelos desarrumados.
- Vocês já fizeram besteira demais e agora resolveram não deixar ninguém dormir? Já chega! – ela ordenou. – Os dois, agora, pros quartos!
Ron e Hermione se olharam, surpresos, antes de obedecer. Fazia semanas que Molly não falava com o filho e, quando Hermione chegara na noite anterior, ela havia evitado de olhar para a garota. Era quase bom que ela estivesse irritada com eles, já que era como ter a velha Molly de volta.
A família Weasley, junto com Harry e os Granger, conseguiu arrumar a casa com a mesma dedicação com que arrumaram nos outros natais. A ceia preparada por Fleur e pela mãe de Hermione foi muito apreciada, mesmo que Bill achasse que cozinhar era esforço demais para sua esposa grávida. Ele e Charlie prepararam as sobremesas. Andromeda apareceu para comemorar também, levando Teddy. Ter aquele pequeno e ver seus cabelos trocando de cor a cada momento fez o Natal de todos muito melhor.
Molly, Ron e Hermione não falaram muito com ninguém. Os dois jovens até tentaram entrar no clima de Natal e comemorar com Harry e Ginny, mas os dois, que já tinham voltado a namorar, estavam o tempo todo juntos, de mãos dadas, aproveitando um dos poucos momentos do ano letivo em que Ginny poderia estar ali. Era estranho demais estar com eles e não agir como um casal também. Era como estar no sexto ano de novo.
Hermione já estava há muito tempo sentada junto com seus pais, que ouviam com gosto as histórias que Andrômeda contava sobre Teddy, divertindo-se, quando Molly chegou perto e cutucou seu ombro.
- Pode vir comigo? – ela pediu.– Quero falar com você.
A menina disse sim e seguiu-a até o quarto dos pais de Ron, onde o próprio garoto estava sentado na cama, sobre as mãos. Quando Hermione entrou no quarto, Ron pareceu muito surpreso. Ele ia se levantar, mas Molly não deixou.
- Preciso falar com vocês dois. – ela disse, com uma expressão muito séria.
Hermione se sentou também, mantendo-se afastada do garoto. Ela sentia que havia exagerado na noite anterior, mas ainda não estava nada preparada para falar sobre o assunto.
- Vocês acham que ninguém ouviu o escândalo que vocês fizeram ontem à noite? – Molly perguntou, mas não deu espaço para que eles respondessem. – Até os Lovegood devem ter escutado a briga de vocês! Vocês acham que é assim que se leva uma gravidez? – Ela andava de um lado para o outro no quarto, encarando os dois. – Vocês acham que com brigas assim alguém pode criar um filho? Eu já estava muito decepcionada com você dois antes disso – ela deixou claro –, mas agora estou muito mais decepcionada. Se antes eu achava que você dois não podiam criar uma criança, agora eu...
- Nós podemos! – Ron interrompeu. – Eu sei que nós...
- O que você acha, Hermione? – Molly perguntou, parando e cruzando os braços.
Hermione não respondeu. Sabia que Molly tinha razão. Os dois tinham agido errado fazendo esse filho, mas agora simplesmente sair brigando aos gritos dentro de casa era ainda mais irresponsável. Ron a encarou, esperando a resposta que não vinha nunca. Além de achar que ele não estava fazendo nada, agora ela também achava que os dois não podiam ser pais.
Molly suspirou fundo antes de falar.
- Quero que vocês façam uma coisa – ela disse. – Por mim. Pra que eu saiba se estou certa ou não. E pra vocês saberem também.
¹ "Porque eu nunca te pedirei nada/ Já que você me trata como uma criança grande" - Trecho de "Comme des Enfants" da banda Coeur de Pirate.
