Capítulo IV
Ponto de vista – Ran
A essa altura das coisas, o mínimo que eu podia fazer por Hashiba era ser sincero com ele. Sincero até onde fosse possível. Por isso, reunindo toda a minha coragem, sentindo um peso enorme por dentro, olhei nos olhos dele.
- Vou embora.
Não era óbvio?
Acho que era. Claro que era. As roupas, a bolsa. Tudo bagunçado em cima da cama. Uns dois pares de meia caídos no chão.
Ainda assim, ele arregalou os olhos e abriu a boca, num susto silencioso.
- Porque?
- Porque eu tenho que ir – falei, percebendo imediatamente o quanto foi idiota essa resposta.
- Tem que ir? Quem está te forçando?
Abaixei a cabeça e o olhar. Não encontrei o que dizer. Em um instante, Hashiba estava na minha frente, segurando-me pelos ombros, forçando-me a encará-lo com olhos azuis que perfuravam os meus.
- É ele, não é? Ran! É o Sunao que está fazendo isso?
Continuei em silêncio. Ele devia me odiar agora. Odiar-me por estar no lugar de seu Sunao, odiar-me por tornar as coisas difíceis pra ele. Eu sentia o olhar exigente dele sobre mim, e aquilo me incomodou muito, e tentei me afastar. E aí, Hashiba me apertou contra ele, com força descomunal, de um jeito tão familiar...
- Yoru?
- Não.
Olhei para ele. Era mesmo Sora na minha frente? Tinha aquele brilho decidido nos olhos azuis.
Nos lindos olhos azuis...
- Não vá. Fique aqui.
Senti uma raiva inominável ao ouvir isso e me livrei dele.
- Ficar? Sou eu quem está aqui, sabia? Ran! Não o seu Sunao!
Hashiba me abraçou de volta com uma gentileza que me deixou sem reação.
- Eu sei – ele dizia, enquanto afagava minha cabeça – eu só quero que você fique bem.
Notando meu choque, ele sorriu e continuou.
- É verdade. Eu sei que você não é o Sunao, e que ele está com problemas. Não quero forçá-lo a falar. Mas quero te ver bem de novo. Eu sei que você vem carregando um grande peso sozinho. Por favor, fique, eu quero ajudar.
Ele quer ajudar. Sora quer ajudar. Como dizer a ele que ele não pode? Não pode ajudar ao Sunao, este não quer nem vê-lo.
E em mim, ele só desperta saudades.
- Eu sei o que você está pensando – ele disse de repente, num tom estranhamente quieto – que eu não sou o Yoru. Provavelmente... você me acha um idiota comparado a ele. Talvez você não acredite. Mas eu me importo com você, Ran – e antes de continuar, ele apertou minhas mãos com força – e não quero que você pense que só me interessa voltar a ver o Fujimori!
- Hashiba...
Ele passou um braço em torno de mim, e levantou meu rosto com a outra mão.
- Não vou deixar você ir.
Nossos rostos já estavam colados. Quando ele me beijou, fechou os olhos, mas eu não, pois estava assustadíssimo...
Porque Hashiba está agindo assim?
Mas os lábios dele acariciaram os meus, e depois a língua dele invadiu lentamente a minha boca, que eu abri sem me dar conta. Ao mesmo tempo, as mãos deslizaram suavemente pelas minhas costas, até minha cintura, e eram mornas contra minha pele fria. Quando a boca dele deixou a minha, deixei escapar um gemido de decepção pela perda do calor, mas logo a língua dele estava no meu pescoço, indo até a nuca, deixando os pelinhos da região arrepiados. A essa altura eu já tinha os olhos fechados e meu corpo relaxava aos poucos sob aquelas carícias. Reuni todas as minhas forças para falar.
- Hashiba, pare...
Mas ele apenas sorriu e me beijou novamente, me abraçando e deslizando as mãos por baixo da minha blusa. Afagou minha barriga e foi escorregando a mão até meu baixo ventre. Minhas pernas tremeram e tive que me apoiar nos ombros dele.
- Mas você está gostando – ele falou com a voz rouca, a boca colada ao meu ouvido, e um arrepio me percorreu por inteiro. Meus braços contornaram o pescoço dele e eu o puxei bruscamente para mim. Desta vez, parti os lábios sem hesitar para um beijo que me deixou sem fôlego em instantes. De repente, Hashiba estava me empurrando para trás, avançando sem me soltar, até que esbarrei na cama e caí sentado. Ele me fez deitar e subiu por cima, com o olhar infinitamente carinhoso fixo em mim. E eu ia derretendo em cima dos lençóis enquanto as mãos dele estavam pelo meu corpo todo. A vontade que eu tinha era de morrer. Queria morrer agora mesmo, porque não é possível. O jeito como ele toca, forte e gentil ao mesmo tempo...
Yoru... igualzinho a você...
Estou queimando como se fosse ele...
E agora, era a boca dele no lugar das mãos, a língua morna no meu pescoço (que eu oferecia mais sem me dar conta), descendo atenciosamente pelo estômago, demorando-se pela barriga, e os braços dele em torno de mim, segurando com força mas sem sufocar
(Yoru... não é justo...)
Mesmo os olhos azuis tinham agora um brilho diferente do Sora de sempre – era um brilho decidido, concentrado, que só se desviava do que fazia para observar minhas reações. Mesmo envergonhado, eu não desviei daquele olhar, até me perder nele. Sentia a língua dele molhando minhas coxas e mal percebi quando desceu mais e começou a me preparar. Ficou ali durante um bom tempo até eu começar a gemer baixinho e me contorcer inquieto. Hashiba ainda me beijou de novo, entrelaçou as mãos com as minhas, e num instante estávamos unidos.
O peso dele, aquele mesmo peso que eu abraçava com as pernas... os quadris se movendo pra frente e pra trás com firmeza, os beijos febris pelo meu rosto, pela testa. O mesmo olhar que se perde por instantes e subitamente volta a se focalizar em mim.
Yoru, Yoru
O nariz colado à minha cabeça, aspirando longamente o perfume; os dedos enroscados no meu cabelo, para depois enxugarem minhas pálpebras, lágrimas que eu nem sequer percebi que estavam lá. O ir e vir contínuo dos quadris, arrancando-me gemidos cada vez mais incontroláveis, até tornarem-se gritos e eu nada pude fazer. Minhas pernas, agora sobre os ombros dele, meu corpo dobrado sobre mim mesmo. O rosto afundado em meu pescoço, onde senti a respiração acelerada dele. Meus dedos ainda pressionaram com mais força as costas dele, antes de nos perdermos completamente.
E caímos na cama, sem forças. Antes de me entregar ao sono pesado, ainda senti Hashiba me envolver por trás, com um suspiro de satisfação.
Quando acordei, a noite já tinha caído. Senti-me exausto. Meu sono foi inquieto, perturbado por sonhos ruins o tempo todo, que me faziam acordar e dormir, acordar e dormir sem parar. Passei a mão pela minha testa gelada e molhada de suor. Embora meus olhos ardessem de cansaço, levantei, sem fazer barulho. Hashiba dormia como um anjo enquanto eu me vestia e saía do quarto na ponta dos pés. À medida que fui avançando pelo corredor deserto, uma sensação horrível de culpa tomava conta de mim. O desespero foi aumentando e aumentando até níveis absurdos, e quando eu já estava a uma distância segura do quarto, Sunao apareceu tremendo.
Ponto de vista - Sunao
Maldito Ran!
Foi para isso que você veio?
Estou fugindo. Prometi a mim mesmo que fugiria dele.
Acontece que pra mim, é impossível evitá-lo. Já fiz isso por tanto tempo, e agora que estávamos próximos de novo... mas não devo. Por isso, deixei Ran em meu lugar.
E o que ele faz? Traidor!
O pior de tudo é que pude sentir. Pude sentir, Hashiba me alcançou. Enquanto fazia amor com Ran, ele penetrou minha alma e me enxergou, e foi tão forte que chegou a ser físico.
Enquanto eu tremia, tremia de raiva de mim mesmo, eu recordava das sensações. Será que Hashiba tem noção do que faz? Através de Ran, ele me marcou novamente. Forçou para dentro de mim o carinho que eu já deixei claro que não desejo! Olhou nos olhos de Ran e me enxergou, sendo que estou me escondendo! Cheguei a senti-lo dentro de mim, embora fosse Ran no controle do corpo.
Malditos sejam os dois. Porque Ran aceitou isso?
E eu acho que sei porque.
"Ran! Está me ouvindo?"
Sempre.
"Porque você se entregou assim? Qual é o problema?"
Você sabe que sabe.
"Porque o Yoru surgiu?"
Não sei...
"Eu nem sequer sabia que ele existia ainda. Você sabia?"
"Ran?"
Não interessa. Ele não vem mais.
"Então, porque aquele pequeno incidente com o Hashiba?"
Yoru... eu ainda estava pensando nele...
"Mas ele e o Hashiba são diferentes! E você e o Sora nunca combinaram!"
Sunao, não foi minha intenção, e você sabe disso.
"Que diferença faz? Agora, vocês dois já tiveram essa intimidade! Como vocês puderam..."
Hmmmmmmm... já sei qual é o seu problema. Está com ciúmes! É isso.
"Não diga bobagens! Ciúmes de mim mesmo?"
Não se faça de desentendido. Eu já tive isso e você sabe. Nós nos conhecemos muito bem. Tanto que você pode me pedir ajuda conscientemente. Sempre tivemos mais consciência um do outro do que Sora e Yoru. Por isso, o Yoru nos pegou de surpresa. Nós estávamos certos de que ele tinha ido embora, e mesmo o Sora acreditava nisso.
Se eu soubesse disso... não sei se teria concordado em voltar...
Egoísta. Eu sou um egoísta idiota.
"Ran... me perdoe... não era minha intenção fazer você sofrer com isso. Achei que seria simples para você."
Sunao... desculpe por não ter sido útil.
É que a dor nos olhos do Hashiba por não ter você por perto...
A lembrança que ele me traz do Yoru...
Tudo isso pesa em nós dois.
Não temos para onde fugir.
Só quando estou sonhando. Ultimamente, só há paz para nós quando dormimos. Claro, há os pesadelos, mas eles se alternam com sonhos tranqüilos.
Onde Ran está com Yoru. E eu não preciso me envergonhar de ter Hashiba para mim.
Minha cabeça parece que vai explodir. A exaustão ultrapassa meu limite físico e se infiltra pela minha mente. Quero perder os sentidos.
Cruzando os corredores sem rumo, me encontro subitamente na porta da enfermaria. Nanami-chan não deve estar aqui agora.
A enfermaria. Remédios...
Cura...
Estou vasculhando os armários numa procura desesperada para minha dor e cansaço.
Sonífero. Sono, sonhos...
Ran... vamos dormir. Ao menos durante uns dias, vamos desmaiar.
Optei pela agulha, direto na veia. O efeito é mais rápido. E aos poucos, fui injetando o líquido. Era grosso, e doía em contato com o sangue. Senti a cabeça pesar.
De repente, a porta abriu.
Hashiba...
Tentei falar, a voz não saiu. Hashiba correu para mim. Eu já tinha injetado metade do conteúdo, e não tive forças quando ele arrancou a seringa das minhas mãos. Olhei nos olhos dele, e no mesmo instante, desapareci.
Ponto de vista – Ran
Senti a inconsciência vindo me buscar. Caí para trás e dois braços me pegaram.
- Ran!
Aquela voz...
E a última coisa que vi antes de dormir por muito tempo, foi um par de olhos muito querido... Um azul, outro dourado.
Yoru...
