Capítulo Três – Perda: Parte I
HOGWARTS, MARÇO DE 1997
No começo ele teve um pouco de receio das reações alheias sobre o namoro, mas tantas coisas estavam acontecendo ao mesmo tempo – preparações pro NIEM's, jogos de quadribol, as fofocas sobre o Eleito, as festinhas de Slughorn – que o romance verde-e-vermelho, passava batido, a não ser para os amigos deles. Dean se dividia em fazer gracinhas e olhar o amigo com uma inconfundível pontada de inveja, afinal, seu namoro com Ginny ia mal.
Nas aulas, ele tentava ser discreto, embora Daphne não fosse o tipo de pessoa que cultivava a discrição. Era um ambiente escolar e eles tinham que manter o respeito, mas ela teimava em pegar na sua mão nas aulas de DCAT¹, e Seamus rezava para Snape não olhar para eles.
Ela era uma garota realmente fascinante. Era corajosa, engraçada e as conversas eram leves, tudo nela era leve. Seamus agora podia sentir todos os dias o perfume fresco que invadira sua mente ao ficar perto da Amortentia: chocolate com menta. Daphne não era comum, não era simples, era um quebra-cabeça de muitas peças, um enigma a ser solucionado aos poucos e gostosamente. Ela não era um passatempo, era sua motivação.
Por isso, talvez, ao chegar ao Três Vassouras para se encontrar com ela e vê-la conversando com Zabini, uma insegurança uniu-se à raiva e ele quis socar o rapaz. Daphne, Daphne, quem um dia entenderia essa garota?
Mas não tomou nenhuma atitude. Em poucos minutos o rapaz negro se levantou subitamente, e Seamus pode olhar para a namorada. Ela tinha no rosto uma expressão homicida enquanto acompanhava Zabini com o olhar úmido. Lágrimas ficaram retidas nos olhos azuis, como se recusassem cair por ele. As mãos fechadas sobre a mesa, o desalinho, era de chamar a atenção.
"O que aquele cara queria?"
"Seamus", Daphne então percebeu sua presença. O garoto puxou a cadeira e se sentou, esperando uma explicação. Por favor, que você não goste dele, ele pensou.
"Blaise é um grande, enorme, gigante idiota", ela comentou ainda com muita raiva.
"Disso eu sei. Quero saber o porquê". Seamus já estava suando frio.
"Ele disse que o pessoal da Sonserina não olharia na minha cara se eu continuasse a sair com você. Não é por você ser da Grifinória. É porque...", mas ela pareceu não conseguir continuar, e não precisava realmente.
"Porque eu sou mestiço", Seamus completou, cheio de nojo.
"Você sabe que isso não me importa, não sabe?", agora era Daphne quem estava aflita, mas ele não respondeu.
"Seamus, eu realmente não me importo se você tem pai trouxa. Eu gosto de você. Gosto como nunca gostei de alguém antes. Você me faz tão feliz. Eu não ligo para Pansy, Malfoy ou Zabini. Eu ligo só para você".
Essas palavras soaram tão quentes e confortáveis que Seamus não se importou que tivesse uma mesa entre eles. Levantou-se e deu um beijo nela, tentando transmitir que a compreendia.
Foi muito difícil voltar à sala comunal aquela noite. Não era como voltar do frio de Hogsmeade para o calor das lareiras sonserinas: o ambiente lá parecia ainda mais frio do que o de fora. Contudo, o olhar de repreensão de alguns, sobretudo de Pansy não a abalavam, e ela não podia ligar menos para Malfoy naquela hora. Era a primeira vez que Daphne se sentia tão feliz e tão desejada e a opinião daqueles falsos amigos não mudaria isso em nada.
Porém um par de olhos azuis penetrantes congelava qualquer movimento seu. Em nenhum momento quis trazer conflito ou causar problemas na família. Já não era hora de alguém ir atrás da própria felicidade? Daphne tinha recusado esse amor por tempo demais, e não estava disposta a continuar com essa atitude.
Era uma grande pena que a irmã mais nova não pudesse ficar feliz por ela, ou ao menos copiar a atitude dela. Astoria e suas tradições.
"Logo ele, Daph? Por quê?", questionou Pansy com uma curiosidade maldosa. "Você, uma moça tão bonita, tantos rapazes querendo você..."
"Pois é, Pansy, eu sou tão desejável que posso me dar ao luxo de escolher... e quanto a você?". Não podia mais segurar a raiva, e já não ligava mais se perderia algum amigo, se é que tinha algum amigo naquela Casa.
Blaise, que estava sentado a um canto isolado, como de costume, deu um meio sorriso cheio de significado. Poderiam ter sido alguma coisa, muita coisa, se ele fosse tão egocêntrico, tão grosso.
No quinto ano, após poucos e turbulentos meses de namoro, ele disse, como se nada fosse, "Você me cansa". Ela nunca soube se era por ser agitada ou parada demais. Agora não importava mais. Ela tinha alguém para correr no mesmo ritmo e não criticá-la por ser diferente.
Passou perto dele, queria lhe dizer algo, mas ele deve ter percebido e tomou a dianteira.
"Você merece alguém bem melhor que esse Finnigan, Daph... alguém... como eu", disse Zabini se gabando.
"Não me dispensasse então, Zabini"
"Foi... um equívoco meu". Ela riu, inconformada. Era o cúmulo da hipocrisia.
"Não, você não vai ter esse gostinho, Blaise querido. Perder faz parte".
Sozinha no dormitório feminino, Daphne sentiu que sua escolha era agora definitiva. Seamus em sua vida seria renegar sua família, seus então amigos, virar as costas para sua Casa, ser isolada. Mas ela se perguntava se algum dia chegara a pertencer àquele mundo.
Acordou com o barulho das garotas se arrumando no dormitório, e sentiu-se grata por estar isolada no dossel verde. Será que as coisas um dia voltariam ao normal?
"Daph?". De repente uma cabeça apareceu pelo dossel. Tracey sorria, olhar solícito. "Tá tudo bem?" A amiga concordou com a cabeça sem muita certeza. "Vamos descer? Já está no meio do café..."
"Tracey...", Daphne suspirou, tão cansada.
"Daphne, você sabe tão bem quanto eu como é a Pansy"
"Uma vaca", disse imediatamente.
"Como quiser. Mas você não era muito diferente disso... não, não era", alteou a voz antes de se interrompida. "Mas agora você faz uma idéia do que eu sinto. Estou cansada de ouvir Pansy falar dos trouxas e mestiços, sabendo que meu avô é tão maravilhoso quanto trouxa. E isso significa algo? Não".
"Estou cansada desse terrorismo que ela faz, cansada desse preconceito todo"
"Agora é a hora de mudar tudo, Daphne".
¹ Defesa Contra as Artes das Trevas.
Ora, vamos. Preciso sentir amor para saber se essa fic ainda vale a pena :/
