Capítulo Quatro.

O silêncio que os envolvia, por vezes era confortador, mas naquele momento o incomodava. Ela observava a paisagem que passava por eles, compenetrada em seus próprios pensamentos. Sua expressão mostrava ansiedade e mais algo que ele não conseguia identificar. Medo, talvez. Ou preocupação. Ele tentou iniciar conversas, três vezes, e ela respondeu monossilabicamente, fazendo-o calar-se em seguida. Eles estavam a uma quadra da casa de Rebecca, onde pegariam Parker para a viagem, quando ele encostou o carro.

"Bones?" – Ele repousou uma mão em cima da perna dela. Brennan continuava a encarar a janela, nem percebendo a repentina interrupção na trajetória deles. – "Temperance?"

Aquilo sempre funcionava e ela olhou imediatamente para ele. Seu cenho franziu quando ela percebeu que estavam parados e que a mão dele estava na perna sua perna.

"Qual o problema, Bones?"

Ela desviou os olhos, não sem antes ver a expressão de sincera preocupação no rosto do seu parceiro.

"Não é nada. Vamos, Booth. Você não pode se atrasar para sua reunião."

"Não vamos a lugar algum até você me contar em que está pensando."

"Eu achei que você pudesse ler minha mente?" – Ela tentou fazer uma piada, mas ele estava sério. Odiava quando ela se escondia dentro de si mesma.

"Você não acredita nisso." – Ele replicou e levou a outra mão para o rosto dela, virando-o para olhá-lo. Ela tentou baixar os olhos, mas ele não deixou. – "Por favor, Temperance. Nós somos parceiros. O que está errado?"

"Eu não sei se posso fazer isso." – Ela respondeu em um sussurro e ele quase não a escutava.

"Claro que pode. Você sempre falou comigo sobre qualquer coisa. Agora não é diferente."
"Não, não isso." – Ela abriu um pequeno sorriso com o desentendimento dele. – "A viagem. Cuidar de Parker. Eu não sei se posso fazer isso."

"Oh." – Novamente as inseguranças dela e ele se recriminou por não ter adivinhado antes. A expressão dele se suavizou e, através do console, ele se inclinou para mais perto do rosto dela. – "Você sabe que pode fazer isso, Bones. Você está com medo de ter que fazer isso. É diferente."

Ela suspirou frustrada.

"Não é tão simples assim, Booth. Só porque passo bons momentos com seu filho não quer dizer que eu estou apta para cuidar dele por três dias em outro Estado e sem você."

A mão dele, ainda no rosto dela, a acariciou.

"Você pode fazer qualquer coisa sem mim, Temperance."

Ela fechou os olhos ao sentir o hálito doce dele perto da sua boca. Uma das mãos dele permanecia quente na sua perna.

"Isso não é verdade, Booth." – Ela olhou para os lábios dele e depois para ele. – "Eu realmente não tenho certeza se consigo. Eu nunca fui boa com crianças e você sabe disso."

"Parker é diferente. Nós dois sabemos disso. Ele gosta de você do jeito que você é. Rir com sua falta de referência popular cultural e tem prazer em ensiná-la o que ele puder." – Ele abriu um sorriso charmoso e inclinou-se ainda mais, falando em seguida em um tom conspiratório. – "Ele me confessou que você é uma ótima contadora de histórias."

Os olhos dela abriram em surpresa e um sorriso ameaçou aparecer no seu rosto.

"Você está falando sério?"

"Claro que estou, Bones!" – Ele puxou o rosto dela para ainda mais perto do seu. Os lábios se tocavam. – "Você pode fazer isso, ok? Confie em mim. Seja quem você é. A nossa Bones."

Ela sorriu abertamente com aquilo. A possessividade dele, ou melhor, deles, às vezes a irritava, às vezes a encantava.

"Se você diz..."

"Sim, eu digo. Seja a namorada dele. A parceira dele. A amiga que ele achou em você e os dois estarão bem." – Ela concordou silenciosamente com a cabeça, fazendo os lábios roçarem. – "Eu confio em você para proteger meu filho."

BB

Nada do que ele viu à medida que o helicóptero se aproximava do local da queda, mudaria sua opinião. Ele sempre confiaria a sua vida e a do seu filho nas mãos dela. Ele podia ver, se fechasse os olhos, Brennan segurando a mãozinha de Parker enquanto os dois caíam para a morte. Podia imaginar a troca de olhares aterrorizados entre eles enquanto a vida dos dois entrava em uma contagem regressiva. Com lágrimas nos olhos, ele via as lágrimas nos olhos dos dois e o garoto se jogando por cima da divisão entre as cadeiras nos braços dela que o apertariam e no momento final, dariam ao menino a proteção que ela prometera.

O fogo ainda estava parcialmente alto e o caos de bombeiros, policiais, agentes federais e repórteres apenas reforçavam as imagens em sua mente. Ele desceu do helicóptero e quase caiu, quando suas pernas trêmulas falharam. Uma mão estranhamente forte de Zach o segurou no lugar. O agente não agradeceu, nem mesmo virou para olhá-lo e quando estava seguro que não passaria vergonha, continuou andando em direção aos seus amigos do FBI.

"Agente especial Seeley Booth." – Ele levantou seu distintivo e deixaram-no passar, assim como o jovem antropólogo, pelas fitas amarelas. O agente no comando das investigações se aproximou deles com um sorriso gentil no rosto. Ele e Booth se conheciam há algum tempo e sempre conversavam sobre esportes quando se esbarravam pelos corredores do Bureau.

"Booth." – Ele estendeu a mão e Booth a apertou fracamente. – "Eu sinto muito."

"Quais as suspeitas? Terrorismo? Falha do avião?" – Booth ignorou as últimas palavras do seu companheiro.

"Nós não sabemos ainda. Os homens da ATF estão a postos para pegar a caixa preta e analisar o seu conteúdo. O fogo está quase cessando. Daqui a alguns minutos poderemos nos aproximar mais."

Zach se afastou dos agentes e assistiu enquanto jatos violentos de água eram jogados em direção as chamas, mas seus ouvidos não registraram nenhum barulho. A voz da sua eterna mentora ecoava em algum lugar do seu cérebro e ele se deixou levar pelas suas lembranças. Poucos segundos depois, Booth parou ao seu lado, acompanhando-o no seu silêncio e embarcando nas suas próprias memórias.

BB

Os olhos dele brilharam quando eles passaram em frente a uma vitrine e ela, que o observava calada, não deixou aquilo escapar.

"Você gostou de algum?" – Ela se abaixou para ficar no nível dele e aceitou quando ele se aproximou do corpo dela, passando um de seus braços pelo pescoço dela, sem tirar os olhos do que havia chamado a sua atenção.

"Daquele." – Parker apontou hesitantemente para uma revista em quadrinhos do homem-aranha.

Ela sorriu diante da timidez do garoto e o puxou para mais perto, virando o rostinho dele com uma de suas mãos.

"Você sabe o que isso significa?" – Ela perguntou ainda com um sorriso no rosto.

"Eu não sei o que isso significa." – Ele disse imitando o jeito que ela mesma falava aquilo.

"Hey! Você está zombando de mim, Parker Booth." – Ela fez rápidas cócegas nele. – "Significa que você terá que me explicar sobre esse tal de homem-aranha. Eu não o conheço."

Parker gargalhou com aquilo e ela o imitou.

"Eu conto tudo a você. Prometo!" – Ele disse virando-se totalmente de frente para ela e pegando o rosto da antropóloga nas duas mãos. – "Você vai ficar bem esperta depois dessa viagem, Bones." – Ele apertou as bochechas dela, juntando os seus lábios em um biquinho.

"Combinado." – Ela disse através do seu bico fazendo-o rir ainda mais e em seguida inclinou-se para dar um beijo no rosto dele. Parker passou os braços pela nuca dela e a abraçou, soltando-a depois de um tempo para que ela se levantasse de novo. – "Vamos comprar a sua revista." – As pequenas mãos do menino seguraram as dela e mãos em mãos eles se dirigiram a entrada da livraria do aeroporto. O vôo sairia dali a 50 minutos. – "E se você prometer me ensinar tudo o que sabe sobre super-heróis, eu compro quantas revistas você quiser." – Brennan o informou baixando os olhos para encontrar os dele.

"Jura?! Quantas eu quiser?"

"Juro."
Ele pulou ao lado dela.

"Você é a melhor, Bones!"

BB

Zach não era o melhor antropólogo forense do país e os dois sabiam disso. Mas, era apenas nele que Booth confiava para identificar as vítimas do acidente e ter a confirmação que ele precisava. O agente responsável chamou os dois assim que era seguro andar pelos destroços e corpos e deixou os dois à vontade após indicar a Booth onde estavam, anteriormente, os assentos das duas pessoas que ele queria saber.

"Comece por ali, Zach." – Ele apontou para onde o seu amigo do FBI havia indicado antes de se retirar.

"Agente Booth, os corpos foram espalhados por toda essa área e não é só porque eles..." – O olhar mortal que ele recebeu de Booth foi o suficiente para que a explicação parasse.

"Apenas faça seu trabalho."

"Irei fazer, agente Booth. Eu sinto muito." – Ele acrescentou antes de caminhar para um conjunto de ossos.

Booth olhou ao seu redor e avistou primeiramente a cauda do avião com o número do vôo. Ele nunca esqueceria aqueles números. Ela tinha desafiado-o a decorar, alegando que ele tinha uma péssima memória. 852. Durante um dia todo, ele repetiu incansavelmente a mesma coisa. O mesmo número. E ganhou um ótimo prêmio naquela noite, quando ela sentou em cima do seu colo e perguntou qual era a seqüência correta. Depois, seus olhos encontraram restos mortais queimados. Perto da cauda. No chão. Nas árvores. E a náusea o atingiu. Cambaleando para o mais longe possível da cena do crime, evitando assim contaminar qualquer evidência, ele vomitou a única coisa que tinha no seu estômago: bile.

Seu celular tocou assim que ele terminou de limpar a boca e ele só não o arremessou para longe, como queria ter feito em todas as inúmeras vezes em que ele havia vibrado no seu bolso e havia sido ignorado, porque viu quem era pelo identificador de chamadas. Sua respiração parou.

"Rebecca..."

"Seeley! Seu filho da mãe!" – Apesar da raiva evidente do seu tom de voz, ele também percebia claramente o desespero. – "É tudo sua culpa! TUDO!"

"Rebecca, por favor, não,"
"Cale a boca! Eu nunca, escute isso, NUNCA devia ter deixado você me convencer a dar permissão para meu filho viajar com sua namoradinha. NUNCA!"

Ele apertou o celular na mão e sentiu seus olhos encherem de lágrimas.

"Pare, Rebecca."
"Não se atreva a me pedir para parar! Eu bateria em você se estivesse ao seu lado, mas você é covarde o suficiente para não me encontrar cara a cara! Eu liguei milhões de vezes para o seu celular e só agora você me atende!" – Ele respirou fundo quando ela parou por um momento. – "Viva com isso, Seeley Booth, é sua culpa! Ele não devia ter viajado sozinho com ela!"
"Droga, Rebecca, pare!" – Ele implorou como nunca antes havia implorado. Suas costas bateram na árvore e ele deslizou até o chão, acocorando-se. – "Não ouse falar dela assim. Como se ela tivesse culpa."

"Mas ela te,"
"ELA ESTÁ MORTA TAMBÉM! Você não entende?! Bones está morta também..."

"Ela é tudo que importa pra você, não é? Seu filho também morreu!"

Aquelas palavras feriram aos dois com igual intensidade. Ela gritou o que nenhum os dois aceitava como verdade.

"Como você pode pensar isso, Rebecca?" – As lágrimas desciam em cascata pelo rosto dele. – "Ele era meu filho... Eu o amava com tudo de mim e você sabe disso. Droga. Ele era meu filho. Nunca mais fale isso, Rebecca, nunca mais."

Ela parou com as acusações e ele podia escutar os soluços dela, acompanhados pelos seus. Depois de um longo tempo em que tudo que eles ouviram foi a angústia um do outro, ela voltou a falar.

"Me desculpe, Seeley."

"Tudo bem, Rebecca."
"Eu realmente sinto muito pela dra. Brennan. Parker... ele gosta... tava dela."

O verbo no passado fez com que todas as emoções nela voltassem à tona e ela chorou novamente, por minutos em que ele apenas balbuciou palavras incoerentes.

"Eu vou descobrir o que aconteceu. Eu prometo." – Ele levantou e respirou fundo, limpando com a parte de trás da mão as trilhas molhadas no seu rosto.

"Eu sei que vai, Seeley. Você fez tudo pelo nosso filho." – Booth se permitiu sorrir com aquilo e tinha certeza que um pequeno sorriso podia se visto nas faces da pessoa do outro lado da linha. – "Você foi o melhor pai que ele podia ter."

"Obrigado, Rebecca."
"Faça o que você faz de melhor. Espero notícias suas."
Ele concordou com a cabeça, mesmo sabendo que ela não podia visualizar o gesto.

"Eu irei encontrá-la assim que voltar para casa. Agüente firme."

"Tentarei."

Ele fechou o celular e os olhos. Viu a mãe do seu filho informando-o da gravidez e o medo que ele sentiu ao ouvir aquelas palavras. Nove meses depois, o medo foi substituído pela maior felicidade da sua vida. Caminhando lentamente de volta para perto de Zach, ele viu quando o antropólogo parou de examinar um crânio e o procurou com os olhos, encontrando-o a poucos metros dele. Os olhos de Booth focaram-se nos de Zach e ele sabia o que ele diria antes das palavras saírem.

"Acho que encontrei o seu filho."