Seis meses... seis malditos meses se passaram desde quando Edward teve aquela conversa com as irmãs. Ele sabia que aquela situação era no mínimo insana. Mas não havia saída pra ele. Se apegara aquela garotinha de uma forma que jamais imaginou na vida. Ele se perguntava como nunca havia percebido que as irmãs também não estavam la muito satisfeitas com seu relacionamento com Jacob. Pelo jeito elas apenas aceitavam porque amavam o irmão. Nunca disseram nada contra, mas dessa vez foi diferente.

Flashback on

Você está louco, Edward. Perdeu completamente a razão. Adotar uma criança? Ainda mais uma garotinha? Isso só pode ser piada.

E de humor negro. Isso só combina com o idiota do Jake.

Edward olhou pra Alice, completamente aturdido. Ela nunca havia se referido ao companheiro daquela forma. Rose muito menos. Ela estava com as bochechas vermelhas, o rosto lívido e Edward bem reconheceu ser de raiva.

Isso é preconceito, vocês sabem disso.

Que seja. Se você pensa que somos preconceituosas, continue pensando. Mas pensa Edward... todo mundo sabe que você adora criança.

Adoro?

Rose ergueu a sobrancelha em desafio. Será que o irmão era tão obtuso que não percebia como ficava seu olhar quando via crianças? Ele apenas dizia não gostar porque sabia que isso com Jake seria impossível. Realmente agora Rose começava a acreditar nas palavras do Emmett. Parecia que Jacob havia feito uma lavagem cerebral em Edward.

Você sabe que sim. Mas a questão é: essa é a forma que Jacob encontrou para prender você a ele.

Você concorda com isso Alice?

Edward quis saber. Está certo que ele também chegou a pensar isso, mas Jake vinha se mostrando tão entusiasmado com a garota que ele acreditou realmente que ele estava encantado por ela. Será que estava enganado?

Concordo. O relacionamento de vocês vem decaindo cada vez mais, Edward. Você não está satisfeito. Isso está mais claro que água.

Nós... passamos por uma crise, Alice. Só isso. Ja estamos bem.

Rosalie bufou e cruzou os braços. Não havia segredos entre ela e o marido. Portanto ela sabia que Edward andava mais nervoso que o normal, mais estressado, coisa que ele nunca foi. E aos olhos de Emmett, aquilo tudo não passava de tensão sexual.

Há quanto tempo você e Jacob não fazem... hum... você sabe.

Edward sentiu seu rosto queimar. Sempre teve liberdade de conversar sobre tudo com as irmãs, mas aquele assunto realmente estava desconfortável.

Rose...

Quanto tempo Edward?

Não sei...

Respondeu dando de ombros e olhando para as próprias mãos.

Alguns meses.

E vocês conversaram sobre isso? Ou sobre o que pode estar acontecendo entre vocês?

Eu tentei, Alice. Mas Jake sempre se esquiva. Ele acha que o que falta é...

UM FILHO!

Rose berrou descontrolada, atraindo a atenção de pessoas que estavam no mesmo restaurante que eles. A loira no entanto não pareceu se importar. Estava com tanta raiva daquele vira-lata. Ela bem que tentou ficar fora disso. Mas foi Edward quem quis saber a opinião dela. Agora teria que ouvir.

Essa é atitude mais egoísta que já vi. Ele não quer uma criança, nunca quis. So quer prender você porque sabe que você adoraria ter um filho. E ainda uma mocinha, Edward! Imagine dois homens criando uma garota! Tem como dar certo? Eu respondo: não.

Eu concordo com a Rose.

Embora já imaginasse a posição das irmãs, Edward ficou decepcionado. Ele estava tão encantado pela garota.

Desista disso, Edward. Pelo seu bem. Eu não vou ficar do seu lado dessa vez.

Rose disse e se levantou, olhando pra Alice.

Eu já terminei.

Eu também.

Rose... Alice... não...

A loira e o ruivo se encararam. Edward se sentia perdido e Rose se sentia derrotada. Sabia que o irmão não iria seguir seus conselhos. E isso doía nela. Não por não ter sido ouvida, mas por saber que isso não daria certo. E Edward iria sofrer, mais cedo ou mais tarde.

Vejo que já tomou sua decisão, Edward. Eu só lamento por você.

Dizendo isso Rose se afastou. Alice ainda deu um beijo no rosto de Edward antes de falar e se afastar atras de Rose.

Eu concordo com ela.

Flashback off

Realmente Edward agiu sem ao menos se lembrar dos conselhos das irmãs. Ele e Jacob entraram de cabeça na tentativa de adoção. Sabiam que era um processo por vezes demorado, principalmente por não serem um casal convencional. Iriam apelas à justiça se preciso. Mas pelo menos uma vitória conquistaram nesse período. Conseguiram que a garota passasse uma semana com eles. Foram várias entrevistas, várias visitas da assistente social até conseguirem essa pequena vitória.

Hoje era o primeiro dos vinte dias de férias de Edward e teria seus dias livres com a garota. Jacob não sabia se conseguiria se afastar da clínica veterinária. Ele e Tanya andavam às turras por causa da contratação de outra mulher para ajudar. Ao que parece Jacob não havia aprovado a escolha. Entretanto Tanya possuía maior parte no negócio e sua palavra era o ponto final na discussão. Jacob chegava em casa quase sempre espumando de raiva, o que deixava Edward surpreso. Por que tanto ódio da nova funcionária? Ela era tão ruim assim?

Mas ele apenas desconversava quando Edward lhe perguntava isso. Por fim, Edward deixou de perguntar. Tudo o que queria agora era se concentrar na chegada de Charlotte. Esse era o nome da garotinha que havia deixado Edward de quatro. Estava louco de amor por ela, essa era a verdade. Ainda faltavam trinta minutos para o horário combinado, mas há pelo menos duas horas Edward ia até a janela verificar se o carro da assistente social estava na porta. E rezava fervorosamente para que Jacob chegasse antes dela. Inferno. Será que ele não poderia deixar tudo por conta de Tanya nem ao menos hoje? Essa marcação sobre a nova funcionária ainda iria acabar mal. Nenhum funcionário pode ser considerado caso perdido com tão pouco tempo de trabalho. Está certo que a já passada crise entre eles tenha deixado Jacob mais estressado que o normal. Mas isso não era justificativa.

Edward não sabia mais o que pensar. A conversa com as irmãs ainda martelava em sua cabeça. Naquele mesmo dia ele encurralou Jacob e tiveram uma conversa... ou tentaram, pelo menos. Mas tudo o que Jacob sabia era jogar na cara de Edward que ele tinha medo de perdê-lo. E se ele tinha esse medo Edward era o único culpado. Um único vacilo, muita bebida e a traição... e Jacob se tornou ciumento e possessivo. Caramba... aquilo estressava Edward. Ele não foi perdoado? Ja não garantiu um milhão de vezes que nem se lembrava de quase nada? Por que continuar vivendo do passado agora?

Droga... estava tão bêbado naquele dia. Só se lembrava vagamente de algumas coisas... que preferia não contar ao Jake para não causar ainda mais confusão.

Edward se sentou no sofá, tentando ajeitar seus cabelos enquanto bebia um longo gole de água. Nada de bebidas, por motivos óbvios. Segundos depois a porta foi aberta e Jacob entrou com cara de poucos amigos. Mas bastou olhar para o companheiro, absurdamente lindo sentado no sofá para que ele se esquecesse de todo o aborrecimento e se abrisse em um largo sorriso.

–E ai?

–Ansioso.

Aproximou-se de Edward e beijou-o rapidamente.

–Tenho tempo para um banho?

–Acredito que sim.

Jake rumou para o quarto e Edward o seguiu.

–Como foi sua manhã?

–Estressante. Tanya me dá nos nervos, às vezes. Eu gostaria de ser consultado pelo menos uma vez na vida. Eu também me dedico demais aquilo tudo.

Edward se encostou no batente da porta enquanto observava o companheiro se despir e entrar no box do banheiro.

–Ainda a nova funcionária?

–Sim.

Ele respondeu bruscamente, levando Edward a se perguntar se o problema entre Jake e ela se resumia a uma rixa entre patrão e empregado. Parecia que ele não gostava dela como pessoa também.

–Ha algo errado com a mulher? Digo, com a nova funcionária?

–Nada que você deva saber.

Edward ergueu a sobrancelha. Realmente era pessoal. So não entendia o motivo de receber a patada também.

–Ok. Vou esperar la na sala.

–Edward... desculpe. Fui rude com você.

–Tudo bem.

Apenas respondeu e saiu. Estava cansado daquele mal humor. Felizmente Charlotte logo chegaria e pelo menos por uma semana ele teria novamente paz naquela casa. Sim, ele e Jake ainda não estavam completamente bem. Antes era Edward e suas dúvidas. Agora era o Jake com seu mal humor com a nova funcionária.

Mal sabia ele que as dúvidas de Edward ainda persistiam. E estavam cada vez mais fortes. Edward nunca foi de esconder nada para o companheiro. Mas agora vinha fazendo isso com frequência.

O dia anterior foi um exemplo. Edward e Emmett simplesmente resolveram que não queriam trabalhar. Agindo feito adolescentes, saíram juntos e foram para uma parte mais "tranquila" de Nova Yorque. Ali funcionava uma espécie de bordel de luxo. Mas não iam la para buscar mulheres. Emmett porque era muitíssimo bem casado e Edward, por motivos óbvios. O ambiente era tranquilo, de bom gosto, tinha música ambiente o dia todo, comida e bebida de qualidade.

Sem contar as mulheres finas, jovens, que mais pareciam garotas da alta sociedade e de família tradicional. Lógico que Edward nunca reparou nisso.

Entretanto ele ficou surpreso ao se sentir absurdamente atraído por uma das garotas. Era morena, a pele clara e sedosa. Bebia apenas água com gás e acompanhava um senhor de meia idade. Mas logo saíram dali, com certeza seria acompanhante em algum evento ou iriam para um motel.

Edward odiou a forma como Emmett riu dele, percebendo a expressão de desejo no rosto do amigo. Ainda se lembrava de suas palavras.

E depois quer me fazer acreditar que é gay. Você é homem, porra.

Edward afastou esses pensamentos quando ouviu Jake se aproximar. E no mesmo instante ouviu o som do carro que se aproximava.

–Acho que nossa garotinha chegou.

Ele se levantou e os dois juntos foram até a porta. Nem bem tocaram a campainha e Edward abriu. Não segurou um sorriso lindo, que não passou despercebido a assistente Carmem. Acreditava não ser uma mulher preconceituosa, mas não conseguia imaginar como um homem como aquele poderia se ligar a outro, sentimentalmente. Havia tanta mulher por ai que provavelmente mataria para tê-lo. Ela, por exemplo.

–Boa tarde senhores.

–Boa tarde Carmem.

Os dois responderam juntos e Edward se abaixou ficando frente a Charlotte.

–Boa tarde, princesa.

–Oi tio.

Jacob também cumprimentou Charlotte, mas era evidente a predileção dela por Edward.

–Entrem e sentem-se, por favor.

Os homens aguardaram as duas se sentarem e depois fizeram o mesmo.

–Tia Carmem, posso abraçar o tio?

–claro que pode, querida.

Primeiro ela abraçou Jacob que beijou os cabelos dela. Depois foi a vez de Edward. Foi um abraço forte e assim ficaram por um bom tempo até se separarem.

–Não imagina como estou feliz por tê-la aqui.

–Sua casa é bonita, tio Edward.

–Depois vou lhe mostrar o quarto que preparamos para você. Acho que vai gostar.

A menina arregalou os olhos e olhou para cada rosto naquela sala.

–Um quarto só pra mim?

–Não tem medo de dormir sozinha, tem?

–Não. Sou valente.

Ela arrancou risos de todos, fazendo Carmem mais uma vez perceber como Edward tinha jeito com crianças. Realmente ela não conseguia disfarçar sua admiração e... algo mais por aquele homem. Coisa que, é claro, Jacob percebeu e o fez se fechar numa carranca.

–Bom, não vou negar para vocês que me sinto um tanto quanto desconfortável com essa situação.

–Acho que sabemos o motivo.

Jacob respondeu friamente, assustando Edward. Ele não percebeu o interesse da assistente social sobre ele, por isso não entendeu o motivo de Jacob estar agindo daquela forma. Carmem, por sua vez, ignorou o homem moreno.

–Entretanto eu vejo o quanto ficaram ligados a Charlotte e fiz o impossível para conseguir essa semana pra vocês. Mas estão cientes que isso não garante uma adoção.

–Sim, Carmem, estamos cientes disso. Iremos lutar até não haver mais qualquer possibilidade.

–Bom, em minha última visita eu já pude ver tudo o que preparam, então só me resta desejar uma ótima semana a vocês.

–Obrigado.

Levantaram-se e Charlotte foi até Carmem e a abraçou. Gostava demais dela. Carmem era a mãe que Charlotte nunca conheceu. E Edward era o pai que ela gostaria de ter. Mas havia o Jake. Ela gostava muito dele também, mas não o imaginou com pai. Um tio talvez. A menina sorriu internamente já fazendo planos. Edward se casava com Carmem e o Jake seria tio dela. Carmem e Edward seriam seus pais.

Sua inocência ainda não lhe permitia entender que a situação era complicada até mesmo para um adulto.

Assim que Carmem se foi Edward pegou a garota no colo.

–Pronta pra ver seu quarto?

–Sim.

–Edward e eu preparamos com carinho, Charlotte. Espero que goste da Barbie.

–Eu amo a Barbie, tio Jake. É tudo da barbie?

–Algumas coisas, sim.

Os três foram até o quarto e Charlotte pulou do colo de Edward assim que viu o quarto tão feminino e infantil, como ela nunca tinha visto. Passou os dedinhos pela colcha rosa e pegou a boneca que estava sobre a cama.

Depois sentou-se na cama, a cabeça baixa olhando para a boneca. Edward e Jake se entreolharam, assustados com a mudança repentina. Ela parecia... triste. Rapidamente Edward se ajoelhou a frente dela e segurou sua mão.

–Charlotte? Está tudo bem?

–Sim.

Jacob se aproximou e segurou sua mão também.

–Você parece triste.

–É que... eu quero morar aqui, pra sempre.

Num rompante, Edward a puxou para os seus braços. Ele iria lutar por isso com todas as suas forças. Nada o deteria.

–Eu farei tudo o que puder para que isso aconteça. Jake e eu também queremos você aqui.

Charlotte deu um beijo estalado nos dois antes de falar.

–Eu gosto que me chamem de Charlie.

Os dois homens babões sorriram. Jake teve a certeza que ela salvaria seu relacionamento e os três seriam muito felizes. Ja Edward teve certeza que ela salvaria sua vida. Ele estaria com ela independente de qualquer coisa... e de qualquer pessoa.