Capítulo 4 - A carta assinada por Bella.

Inyra tinha saído da sala e Wood tamborilava os dedos no tampo da mesa, pensativamente.

- Longbotton, estamos perante depoimentos contraditórios. - observou, por fim. - Em quem devemos acreditar, na Inyra ou na Denise?

- Na Denise. - respondeu decidido. - Foi ela quem abriu a porta a Parvati e, além disso, Inyra é velha e teimosa, além de ser evidente que antipatiza com Parvati. Aliás, aquilo que nós próprios sabemos indica que Renauld andava metido com outra mulher.

- É verdade! - exclamou o juiz de instrução. - Esquecemos de informar Harry disso.

Procurou entre os papéis que estavam em cima da mesa e por fim estendeu um deles à Harry.

- Encontramos esta carta no bolso do sobretudo do morto.

Potter pegou no papel e desdobrou. A carta estava um tanto ou quanto amarrotada e com sinais de uso e fora escrita em inglês numa caligrafia ainda um pouco imatura:

Querido:

Por que não escreve há tanto tempo? Continua me amando, não continua? Ultimamente as tuas cartas têm sido tão diferentes, frias e estranhas, e agora este longo silêncio. Assusta-me. Ah, se deixasses de amar-me! Mas isso é impossível. Que garota pateta eu sou, sempre a imaginar coisas! Mas se deixasses realmente de amar-me não sei que faria. Talvez me matasse. Não poderia viver sem ti. Às vezes receio que outra mulher se tenha atravessado entre nós. Ela que se acautele... e tu também! Mais depressa te mataria do que consentiria que fosses dela. Falo a sério. Mas cá estou eu a escrever patetices, fantasias! Tu amas-me e eu amo-te... sim, amo-te, amo-te, amo-te!

Da que te adora,

Bella

A carta não tinha endereço. Depois de lê-la, Harry a devolveu, com um ar muito grave.

- Deduziram então o que?

Wood encolheu os ombros, ao responder:

- É evidente que Mr. Renauld tinha um romance com esta Bella. Mas veio para cá, conheceu Parvati Patil e iniciou outro romance com ela. Não quis mais nada com a outra e ela desconfiou de qualquer coisa. Esta carta contém uma ameaça clara. À primeira vista, o caso nos pareceu de uma simplicidade extraordinária. Ciúme! O fato de Mr. Renauld ter sido apunhalado nas costas indicava claramente que o criminoso era uma mulher.

Potter acenou afirmativamente.

- A punhalada nas costas, sim... mas a sepultura, não! Isso foi trabalho duro. Não foi uma mulher que abriu a sepultura; é trabalho de homem.

- Claro, claro, tem razão! exclamou Neville, todo agitado. - Não tínhamos pensado nisso.

- Como estava dizendo. - prosseguiu Olívio Wood. - À primeira vista o caso pareceu simples, mas os mascarados e a carta que o senhor recebeu de Mr. Renauld complicam as coisas. Parece estarmos perante um conjunto de circunstâncias inteiramente diferentes, sem qualquer relação com as que que nos deparamos primeiramente. Quanto à carta que lhe foi dirigida, acha possível que se relacionasse em qualquer sentido com a tal Bella e as suas ameaças?

- Dificilmente. - respondeu Potter. - Um homem como Mr. Renauld, que levou uma vida bastante tumultuada, não pediria que o protegessem de uma mulher.

Wood acenou com a cabeça, enfaticamente.

- É o que eu penso. Então devemos procurar a explicação da carta...

- ... em Santiago. - concluiu Neville. - Mandarei uma coruja ao Ministério da Magia em Santiago, pedindo detalhes da vida que a vítima levava enquanto morou lá, dos seus romances amorosos, dos seus negócios, das suas amizades e das inimizades. Será estranho se, depois disso, não ficarmos com uma pista para desvendar este misterioso homicídio.

Neville olhou em seu redor, para ver se os outros aprovavam a sua idéia.

- Excelente. - disse Potter, em tom apreciador.

- A mulher dele talvez possa nos dar alguma pista. - sugeriu Wood.

- Não encontraram outras cartas da tal Bella entre as coisas de Mr. Renauld? - perguntou Potter.

- Não, Claro que uma das primeiras coisas que fizemos foi revistar seu excritório. Mas não encontramos nada de interessante. Pareceu tudo correto e insuspeito. A única coisa incomum, digamos, é o seu testamento.

Wood passou o testamento a Potter que o leu.

- Compreendo. Deixaria mil galeões a Mr. Stonenhege... A propósito, quem é?

- O secretário de Mr. Renauld. Ficou em Inglaterra, mas veio para cá há um ou dois fins de semana.

- E tudo mais foi deixado à sua querida esposa, Liége. Redigido com simplicidade, mas perfeitamente em ordem do ponto de vista jurídico. Testemunhado por duas criadas, Denise e Inyra. Não encontro nada de muito incomum. - comentou Potter enquanto devolvia o documento.

- Talvez não tenha reparado... - começou Longbotton.

- Na data? - interrompeu-o Potter. - Claro que reparei.

- Foi redigido há quinze dias. Possivelmente foi à essa altura que teve o primeiro pressentimento de perigo. Muitos homens ricos morrem sem testamento por nunca pensarem na possibilidade de morrerem. - constatou Neville.

- No entanto, é perigoso tirar conclusões prematuramente. Quanto a mim, porém, o testamento indica que ele amava sinceramente a esposa, apesar das suas aventuras amorosas. - concluiu Potter.

- Sim. - concordou Wood, relutante. - Mas talvez seja um pouco injusto com o filho, uma vez que o deixa completamente dependente da mãe. Se esta voltar a se casar e o segundo marido tiver domínio sobre ela, o rapaz está correndo risco de não colocar um centavo sequer dessa herança no bolso.

- O homem é um animal vaidoso, Wood. Mr. Renauld pensou, sem dúvida, que a mulher não voltaria a casar. Quanto ao filho, talvez tenha sido uma precaução sensata deixar o dinheiro nas mãos da mãe. Os filhos dos homens ricos são quase sempre desmiolados.

- Talvez possa ser isso Potter. Mas bem, suponho que gostaria de ver o cenário do crime. Infelizmente o corpo já foi removido, mas, claro, foram tiradas fotografias de todos os ângulos possíveis e imaginários, as quais estarão ao seu dispor assim que estiverem prontas.

- Ah sim, obrigado.

Neville levantou-se e convidou:

- Me acompanhem então.

Abriu a porta e inclinou-se cerimoniosamente, para que Harry fosse na frente.

Antes de sair, no entanto, Harry virou-se e ficou olhando para uma porta.

- O que foi Harry? - perguntei.

- Aquela sala ali é o escritório, não é? - perguntou Potter.

- É. Gostaria de ver? - Sem esperar pela resposta, Wood abriu a porta e nós entramos.

O lugar que Mr. Renauld tinha escolhido para seu uso particular era pequeno, mas estava mobilado com bom gosto e conforto. Junto da janela encontrava-se uma escrivaninha. Viradas para a lareira havia duas grandes poltronas forradas de couro e, entre elas, uma mesa redonda com os livros e as revistas bruxas mais recentes. Duas das paredes estavam cobertas por estantes e ao fundo da sala, de frente da janela, havia um bonito aparador de carvalho com um armário de bebidas em cima. As cortinas eram verdes claras, tom que combinava perfeitamente com o carpete.

Potter deteve-se um momento olhando para todos os lugares possíveis naquele pequeno ambiente e depois avançou, passou de leve a mão pelas costas das poltronas, pegou uma das revistas da mesa e passou hesitantemente um dedo pela superfície de carvalho do aparador. O seu rosto exprimiu aprovação total.

- Não há pó? - perguntei, sorrindo.

Me sorriu também, encantado com o meu conhecimento das suas manias.

- Nem uma partícula, Rony! E, para variar, talvez seja uma pena!

Os seus olhos vivos, de pássaro, iam pousando aqui e ali, sem descanso.

- Ah! - exclamou, como se tivesse ganhado o prêmio do Torneio Tribuxo outra vez. - O tapete da lareira está torcido.

Abaixou-se para endireitar. Com isso, soltou uma nova exclamação e levantou-se: tinha na mão um pequeno fragmento de papel.

- Aqui na França como na Inglaterra, as empregadas sempre se esquecem de varrer debaixo dos tapetes! - comentou.

Longbotton pegou no fragmento de papel e eu, curioso como sou, me aproximei para ler.

- Sabe o que é, não sabe, Rony? - Harry me perguntou.

Abanei a cabeça, intrigado... Embora aquele tom rosado do papel não me fosse estranho.

Os processos mentais de Neville tinham se tornado mais rápidos do que os meus, pois exclamou:

- Um pedaço de um cheque!

O pedacinho de papel teria uns 6 cm e nele se lia, escrita a tinta, a palavra Duveen.

- Bem , este cheque deveria ser pago a um tal Duveen ou foi sacado por ele.

- Posso quase ter certeza que a segunda hipótese é certa. - declarou Potter. - Essa é a caligrafia do Mr. Renauld.

Tiramos depressa as dúvidas a esse respeito, comparando a letra do papel com a de um memorando da escrivaninha.

- Por Merlin. - murmurou Neville, um pouco desanimado. - Não sei como deixei escapar isso!

Potter riu.

- Moral da história: procure sempre debaixo dos tapetes! Rony me diz sempre que tudo que se encontra fora do lugar é um tormento pra mim. Quando vi vi que o tapete não estava direito, fui ver porque estava assim. Reconstituo o incidente da seguinte forma: ontem, possivelmente à noite, Mr. Renauld passou um cheque à alguém com o apelido de Duveen. Depois o cheque foi rasgado e atirado para o chão. Esta manhã...

Mas Neville Longbotton puxava já impacientemente o cordão da campainha.

Inyra atendeu.

Com certeza havia uma quantidade grande de papel picado no chão.

- Sim, havia uma quantidade grande de papel no chão. Metemos ele no fogo! Que queria que tivéssemos feito?

Longbotton a mandou embora, com um gesto de desespero. Depois o seu rosto se iluminou e correu para a escrivaninha.

Pegou no talão de cheques da vítima e começou a folheá-lo. Repetiu o gesto de desespero: o talão estava em branco.

- Coragem e calma! - aconselhou Potter. - Madame Renauld saberá, sem dúvida, esclarecer quem é esse Duveen.

O rosto de Neville animou-se.

- Tem razão. Prossigamos.

Quando nos virávamos para sair do cômodo, Harry observou, em tom casual:

- Foi aqui que Mr. Renauld recebeu a visitante, ontem à noite, não é?

- Foi... Mas como soube?

- Vi isto nas costas de uma cadeira. - E mostrou, seguro entre o polegar e o indicador, um comprido cabelo preto, um cabelo de mulher.

Longbotton nos levou por trás da casa a um pequeno barracão, que se erguia encostado à casa. Tirou uma chave do bolso e o abriu.

- O corpo está aqui. Removemos do cenário do crime pouco antes de os senhores chegarem, pois os fotógrafos já tinha acabado o seu trabalho.

Abriu a porta e entramos. O assassinado jazia no chão, tapado com um lençol. Longbotton o destapou, com um movimento rápido.

Mr. Renauld era um homem de altura mediana. Aparentava uns cinquenta anos e tinha muitas madeixas grisalhas entre os cabelos escuros. Usava a cara raspada, tinha nariz comprido, olhos um pouco juntos e pele profundamente bronzeada, como a de um homem que passara a maior parte da vida sob céus tropicais. Os lábios arreganhados deixavam ver os dentes e nas feições tinha se estampado uma expressão de absoluto espanto e terror.

- Vê-se pelo rosto que foi apunhalado pelas costas. - observou Potter.

Cuidadosamente, virou o morto. Entre os ombros, manchando o sobretudo castanho-claro, via-se uma nódoa escura e redonda, no meio da qual seu corpo estava cortado. Potter examinou atentamente a mancha.

- Faz alguma idéia de qual foi a arma do crime? perguntou.

- Sim, ficou nele.

Neville tirou do seu bolso um vidro dentro do qual estava um pequeno objeto que me pareceu mais um abre-cartas do que outra coisa. Tinha cabo

preto e lâmina estreita e brilhante. Ao todo, não media mais de 25 cm de comprimento. Harry tocou cautelosamente na ponta manchada, com a polpa do dedo.

- Nossa está afiado! - exclamou.

- Infelizmente, não encontramos nele quaisquer vestígios de impressões digitais. - informou Longbotton, pesaroso. - O assassino deve ter usado luvas.

- Claro que usou. - comentou Potter. - Até em Santiago sabem o suficiente para tomarem esta precaução. No entanto, me interessa muito o fato de não ter impressões digitais. É tão extraordináriamente simples deixar as impressões digitais de qualquer outra pessoa! E quando isso acontece o Ministério fica feliz. - Abanou a cabeça. - Receio muito que o nosso criminoso não seja um homem de método... Ou então que estava com pressa.

Repôs o corpo na posição inicial.

- Reapre que só usava pijama debaixo do sobretudo... - disse Longbotton.

- É verdade. Considero esse fato muito interessante. - disse Wood.

Nesse momento bateram à porta, que Longbotton fechara. Neville apressou-se em abrí-la. Era Inyra, que tentou bisbilhotar o que estava acontecendo lá dentro.

- O que há? - perguntou Longbotton, impaciente.

- Madame manda dizer que se sente muito melhor e que está pronta para receber o Chefe dos Aurores Olívio Wood.

- Muito bem, já vou.

Potter demorou-se um momento, olhando para o corpo.

Cheguei a pensar que ia declarar em alto e bom som a sua determinação de não descansar enquanto não descobrisse o assassino. Mas quando Harry falou foi sereno.

- Usava o sobretudo muito comprido. - disse, constrangido.

Notas da Autora: Mais mistério no ar... O que estão achando da fic? To aki fazendo o quinto cap... Bem bjus deixem reviews, please!!!