Capítulo 03: Rosa púrpura
Uma garoa fina caía sobre seus ombros, exatamente como da primeira vez em que estivera ali, três anos atrás, numa tarde de Natal. Ele suspirou, colocando as mãos nos bolsos da capa, enquanto sentia a água escorregar entre seus cabelos, fria, infiltrando-se por dentro do colarinho.
- Eu sinto saudades... – ele murmurou, a voz sendo abafada pela chuva.
Ele passou a mão pelos cabelos claros, observando as rosas púrpuras que enfeitavam o túmulo de Hestia J. Lupin. Rosas cultivadas pela caçula das gêmeas, Ariadne. Mais um suspiro, e ele voltou a colocar o chapéu, caminhando lentamente pelas lápides até a saída do cemitério.
- Detetive Lupin. – um rapaz o cumprimentou quando ele se aproximou do carro oficial estacionado diante dos portões.
Remus fez um aceno com a cabeça, enquanto abria a porta do carro.
- Vamos voltar para a Scotland Yard. Shacklebolt não deveria ter mandado um carro da agência para isso.
- O senhor já foi nosso superior. – o rapaz sorriu – Não é porque está se aposentando que vai perder o respeito que conquistou conosco.
O detetive respondeu com um sorriso triste.
- Obrigado, Fabian. Mas, agora, vamos voltar. Devolver este carro antes de ir para casa.
Fabian assentiu e abriu a porta, dando passagem para Remus. O homem se acomodou, abrindo os botões da capa enquanto o outro voltava para o banco de motorista, dando partida.
O cemitério ficava nos subúrbios de Londres, numa das áreas mais afastadas do centro da cidade. Casas imponentes, com jardins bem cuidados confundiam-se com alguns tristes casebres aqui e ali, empilhados uns sobre os outros. Gente de pele escura e hábitos estranhos para a maioria dos londrinos.
Imigrantes.
A grande maioria tinha descendência árabe. Ali, mesclavam-se aqueles que tinham conseguido fazer fortuna na velha Inglaterra e também os que, repudiados pelo preconceito e pela falta de preparo, engrossavam as fileiras de miseráveis que viviam na capital.
Ele meneou a cabeça. Estivera recentemente trabalhando num caso ao lado de um descendente de muçulmanos, Adib, um dos jovens talentos da Scotland Yard. Embora às vezes se sentisse um tanto constrangido em assistir às orações que ele repetia todos os dias, Remus gostava do rapaz. Adib era metódico, inteligente.
Aos poucos, o bairro dos imigrantes foi sendo deixado para trás, e eles chegaram ao coração da cidade e de sua corporação.
Remus observou a placa diante do prédio, onde, em letras grandes, estava escrito "Scotland Yard". Amava aquele lugar - estava dentro da agência desde que se conhecia por gente e vira muitos outros detetives passarem por ele.
Incluindo Hestia, sua esposa.
- Chegamos. - Fabian observou, virando-se para encarar o homem - O senhor quer que eu vá buscar um guarda-chuva ou peça para que tragam seu carro?
- Não, Fabian, eu posso fazer isso sozinho. - Remus agradeceu, abrindo a porta do automóvel - Acredito que hoje seja seu dia de folga. Não vou prendê-lo mais.
- Tenha uma boa noite, detetive. - o rapaz respondeu, sorrindo.
Remus desceu do carro, puxando de leve a perna esquerda. O frio estava fazendo uma velha ferida latejar. Lembrou-se vagamente da missão em que ela fora adquirida - um assaltante de primeira viagem que, depois de todas as negociações feitas para que se entregasse, acabara por atirar nele sem querer, quando já soltava o revólver no chão.
Riu de leve, enquanto caminhava lentamente sob a garoa fina. Agora que estava para se aposentar, a impressão que tinha é que todos os casos em que tinha atuado voltavam à sua memória.
Finalmente chegou ao carro estacionado - um Bentley verde-escuro que, embora já tivesse quase dez anos, parecia novo por conta dos cuidados do dono. Mergulhou a mão novamente no bolso da capa, tirando as chaves, juntamente com o distintivo de detetive.
Observou a carteira por alguns instantes, os pingos de chuva banhando o distintivo prateado, até voltar a guardá-lo e abrir o carro, sentando-se junto ao volante. Ligou o rádio, deixando-se envolver pela voz monótona do radialista, que anunciava uma marca de sabão em pó. Pouco depois, começava uma seleção de músicas instrumentais.
O caminho foi feito em silêncio. De vez em quando Remus assobiava junto da canção um estribilho conhecido. Já de longe, ele podia ver o sobrado, cheio de roseiras. O portão da garagem estava aberto. As meninas, provavelmente, já o estavam esperando.
Ariadne estava sentada junto à porta da cozinha, absorta em várias mudas de flores, tentando encontrar a melhor maneira de transplantá-las para o vaso que o pai comprara no dia anterior. Leda, por sua vez, lia um romance junto à bancada, enquanto roubava alguns biscoitos que a velha Tatting deixara na forma mais cedo.
As duas ouviram o som da chave girando na fechadura e levantaram a cabeça ao mesmo tempo. Remus passou pela porta, tirando a capa molhada antes de encarar as filhas. Ariadne foi a primeira a se levantar, sapecando um beijo na bochecha do pai.
- Boa noite, pai. – ela o cumprimentou, oferecendo a face para ele – Levou minhas flores para ela?
- Levei, sim, Aria. – ele sorriu, beijando-a na testa, para, em seguida, voltar-se para Leda, que esperava sua vez de cumprimentar o pai logo atrás da irmã – Boa noite, Leda.
- Hei, papai! – ela o abraçou, quase se dependurando no pescoço dele – Madame Tatting deixou o jantar pronto hoje.
Ele soltou a banca sobre um banco da cozinha.
- Uma pena... Eu estava planejando fazer um suflê hoje. Mas agora que vou me aposentar, poderemos dispensar a ajuda de Madame Tatting, não?
- Se a Aria se dispuser a lavar os pratos... – Leda observou, sorrindo.
- Nem tente fugir, Lê. Eu já lavei os pratos ontem, hoje é sua vez. – Ariadne respondeu, voltando novamente a atenção para suas flores – Além disso, estou muito ocupada com o jardim.
- Você deveria parar de se preocupar tanto com esse jardim. Vive suja de terra... Assim nunca vai arranjar namorado! – Leda retorquiu, rindo.
Remus arqueou a sobrancelha.
- Namorado? Você não está muito nova para pensar nisso, mocinha?
Ariadne riu baixinho enquanto Leda ficava muito vermelha diante do olhar arguto do pai.
- Hum... É... Eu lavo os pratos hoje. Vamos jantar! – ela rapidamente trocou de assunto, correndo para fora da cozinha para arrumar a mesa da sala.
O detetive olhou desconfiado para a porta por onde passara a filha mais velha, antes de se voltar para Ariadne.
- Aria, por curiosidade...
- Sinto muito, papai. – ela respondeu, tirando as luvas de borracha e levantando-se para ir ajudar a irmã – Eu não sei de nada.
Ariadne também sumiu pela porta e Remus suspirou. Aquele negócio de ser pai de duas adolescentes era muito complicado... Talvez fosse hora de buscar conselhos com os amigos. Afinal, James e Sirius já tinham filhos adultos. Eles certamente lhes dariam algum conselho.
- Eu devo estar mesmo desesperado... – ele resmungou para si mesmo – Onde já se viu pedir conselhos àqueles dois?
- Papai, o senhor não vem? – Ariadne perguntou, colocando a cabeça para dentro da cozinha.
- Já estou indo, Aria. A propósito, vocês já fizeram suas malas? – ele perguntou, enquanto se dirigia para a sala.
- Está tudo pronto para irmos ao chalé. – Leda respondeu – Aria insistiu até para já fazermos suas malas também. Pelo número de casacos que ela colocou, eu garanto que o senhor não vai passar frio.
- Você é tão engraçada... – Ariadne respondeu, enquanto revirava os olhos, antes de se virar para o pai, o rosto corando de leve – Tio Sirius vai para o chalé amanhã também?
- Você deveria perguntar de uma vez se Órion vai estar lá... – Leda observou, sem olhar para a irmã, enquanto tomava o prato do pai, servindo-o com a sopa que Madame Tatting deixara.
Ariadne ficou completamente vermelha, enquanto Remus não sabia se ria ou se ficava preocupado.
- Eu não tenho muita certeza se quero ser parente do Sirius... Se vocês quiserem esperar mais uns cinco ou seis anos, eu posso pensar na possibilidade... – ele respondeu, um sorriso escapando dos lábios.
Leda olhou para a irmã, sorridente, mas Ariadne não parecia tão feliz.
- Eu acho que o senhor então deveria conhecer o... Mmmmfff...
- Eu estava brincando, papai. – Leda afirmou, enquanto segurava a irmã pela boca, impedindo-a de falar – Aria nunca nem esticou os olhos para cima do Órion. Não se preocupe.
Remus riu.
- É, eu imaginei. Mas vocês precisam aprender a serem mais sutis. Talvez uma conversa mais tarde na biblioteca ensine uma ou duas coisinhas às duas. – ele respondeu – Mas agora, vamos jantar. E depois vocês me explicarão sobre essas alianças familiares que as duas senhoritas andam tramando por trás das costas do seu velho pai...
- Não estamos tramando nada. – as duas responderam, ao mesmo tempo.
- Por que todo mundo acha que sou obtuso o suficiente para acreditar nessa frase mesmo depois de ouvi-la no mínimo cinco vezes todos os dias, desde que estou na Scotland Yard?
- Somos todos inocentes até que se prove o contrário? – Leda perguntou.
- Muito bem, meus poços de inocência. Escaparam por hoje. Agora...
- Jantar, já sabemos. – Ariadne completou – A hora da refeição é uma hora sagrada. Já estamos todos em silêncio.
O resto do jantar foi feito em silêncio. Ineditamente, não houve discussão para saber quem lavaria os pratos e Leda rapidamente se retirou para a cozinha. Ariadne voltou para suas plantas e Remus subiu para seu quarto, observando a mala que as meninas tinham deixado para ele sobre a cama.
Era Hestia quem costumava fazer aquilo. Era engraçado perceber como as gêmeas eram parecidas com a mãe. Os mesmos olhos, o mesmo sorriso, quase o mesmo gênio... Ariadne era mais séria, parecia-se com Hestia numa missão – atenta, cuidadosa, irritantemente desconfiada. Já Leda era a face caseira de Hestia, risonha, divertida, ligeiramente maliciosa...
Ele imaginava qual das duas lhe daria mais trabalho. Leda era mais atirada, mas Ariadne sabia esconder o que pensava de uma maneira quase inquietante. Muito parecida com ele, por sinal.
- Elas precisam de uma mãe, esta é a verdade... – ele murmurou, sentando-se na cama – Coisa que eu nunca poderei dar a elas de novo...
- James... O que você acha que aconteceria se uma das minhas filhas namorasse Órion?
James deixou de lado a churrasqueira com a qual teimava desde que a manhã começara, voltando-se para Remus, que encarava as filhas, mais adiante, junto com Claire e Harry.
- Você já chegou a esse estágio? – o moreno perguntou, bem humorado, sentando-se ao lado do amigo – Eles crescem rápido demais...
- Descobri ontem de noite que Aria parece gostar do Órion. Não tenho muita certeza se quero entrar para a família do Sirius. Se ele já me apronta o que apronta só em sermos compadres, imagine o que fará se minha caçula e meu afilhado decidirem se casar?
O outro riu, meneando a cabeça, enquanto Remus dava um longo gole da garrafa de cerveja que o amigo lhe trouxera quando chegara.
- Eu estava conversando sobre isso com a Lils ontem. Mas, sempre existe uma vantagem. Os netos...
Foi a vez de Remus rir.
- Já pensando em ser avô, James? As coisas entre Harry e a filha dos Weasley andam assim tão adiantadas?
- Não... Isso é um tanto preocupante... Na idade dele, eu já pensava em maneiras de amarrar a Lily a mim para o resto da vida. Mas ele sequer parece pensar em noivado.
- Bem, Harry já tem vinte anos. Mas minhas meninas completaram quinze agora. E eu desconfio que Leda está me escondendo um pretendente. Quando voltar a Londres, vou dar um jeito de descobrir.
- Falou o grande detetive. Vai colocar toda a Scotland Yard atrás do namorado da filha... – James brindou, virando uma caneca de cerveja.
Remus sorriu, os olhos brilhando sarcasticamente.
- Pode rir, James. Mas depois não me peça para ajudá-lo quando for a vez da Claire.
O moreno abriu a boca para responder, mas acabou estreitando os olhos, coçando o queixo.
- Você não está sentindo um cheiro de queimado?
- JAMES POTTER! O que diabos pensa que está fazendo? Quer colocar fogo na casa? – Lily gritou, muito vermelha, aproximando-se da churrasqueira, onde um fogo vívido torrava as carnes dispostas cuidadosamente sobre ele.
James pulou em pé, rapidamente voltando-se para a churrasqueira. Harry correu para junto do pai, enquanto Claire batia palmas, tentado se desvencilhar de Ariadne e Leda, que a seguravam firmemente para que não se aproximasse do fogo.
Enquanto os dois Potter controlavam o fogo, o carro dos Black atravessava a alameda que separava a estrada do terreno do chalé. Sirius estacou, enfiando o pé no freio assim que viu a face de James aparecer, suja de fuligem, com um espeto na mão, a imagem do cavaleiro da triste figura.
- Parece que chegamos atrasados, Órion... – Lyn observou, bem humorada – Começaram a colocar fogo na casa sem você estar presente...
- Tão engraçada, Lyncis... – o rapaz respondeu com uma careta.
- Não comecem de novo, por Deus... – Susan pediu, colocando a mão na cabeça enquanto Sirius desligava o carro de todo jeito, pulando para fora – Depois da última partida de pôquer, minha cabeça não agüenta mais...
- Mas elas estavam roubando, mamma! – Órion repetiu, enquanto Achernar abria a porta para que eles deixassem o automóvel.
- Não estávamos, não. – Nymphadora argumentou com um sorriso, pelo que lhe parecia a décima vez – Se até Arch já se resignou ao fato de ser impossível ganhar de nós...
Lyncis sorriu.
- Sim! Mal posso esperar para desafiarmos Harry e tio Remus, nossos grandes campeões do pôquer nas sessões de jogatina do chalé. – a morena pulou para fora, respirando fundo e fazendo uma careta ao sentir o cheiro de queimado – Eles nem vão saber o que os atingiram.
Achernar aproximou-se de Sirius, que parecia incerto entre rir e ajudar James. O fogo já fora controlado, mas Lily continuava nervosa, resmungando com o marido, enquanto Harry e Remus tentavam limpar suas roupas da chuva de cinzas que se abatera sobre eles quando se aproximaram da churrasqueira.
- Sabe, eu pensei que noviças não podiam praguejar. – James observou lá pelo décimo "ora, raios" que Lily soltou, ao mesmo tempo em que a abraçava.
Susan, que se aproximava naquele instante, seguida de Lyncis e Nymphadora, abaixou a cabeça, tampando os ouvidos. A blusa branca de Lily imediatamente tomou uma coloração cinzenta por conta da fuligem que se despregava do rosto de James. O rosto da ruiva, por sua vez, estava completamente vermelho.
- Hum... pai, eu acho que essa não foi uma boa idéia... – Harry observou, tocando o ombro de James de leve enquanto Lily respirava fundo várias vezes.
- Eu concordo plenamente, querido. – Lily se pronunciou, soltando as mãos de James de sua cintura, ainda muito vermelha – Conversamos mais tarde.
- Sem gritos? – Sirius parecia desapontado.
- Eu acho que "conversar mais tarde" é um tanto pior, Sirius... – Remus observou, sorrindo com o canto dos lábios.
Órion observou os adultos por alguns instantes, antes de se voltar para as gêmeas, que agora tinham se sentado com Claire mais afastadas da bagunça, tentado distrair a menina com jogos de adivinhar.
- Boa tarde, meninas. Parece que nosso almoço não vai sair tão cedo, não é? – ele perguntou, sentando-se na grama entre Claire e Ariadne.
Leda observou com interesse a face da irmã tingir-se de vermelho enquanto Órion se encostava ao tronco atrás deles, tocando de leve no braço da loirinha.
- É verdade... – ela se pronunciou, levantando-se – Mas Claire não pode ficar até tarde sem comer. Vamos comigo, Claire, encontrar alguma coisa na cozinha para nossos estômagos vazios.
- Eu vou com vocês. – Ariadne pediu, num fio de voz.
Leda meneou a cabeça.
- Você já comeu bastante dos aperitivos que tia Lily trouxe. Fique aí fazendo companhia a Órion.
- Mas...
- Eu sou três minutos mais velha que você, Aria. Portanto, trate de me obedecer.
A menina rolou os olhos, passando a mão pelos cabelos dourados enquanto Leda e Claire se distanciavam em silêncio até perceber que o rapaz ao seu lado parecia encará-la com certa preocupação.
- O que foi? – ela perguntou de mau jeito.
- Você está vermelha. Andou levando sol? Trabalhando muito no jardim?
Ela rapidamente assentiu com a cabeça, enquanto rezava para qualquer santo que parasse de ruborizar na frente de Órion.
- Eu estive testando uns cruzamentos novos. Estou tentando fazer uma rosa totalmente púrpura. – ela abaixou a cabeça de leve, olhando para as próprias mãos que descansavam no colo - Como eram os olhos da mamãe. Meu pai disse que eu já consegui, mas ainda falta qualquer coisa...
Ariadne sentiu novamente o rosto esquentar quando a mão de Órion deslizou para seu queixo, forçando-a a encará-lo.
- Eu tenha certeza que vai conseguir. E, se quiser, eu te ajudo com os adubos. E com as outras substâncias químicas. Um trabalho tipicamente mendeliano.
Ela não pode impedir-se de sorrir.
- Órion e sua mania de cientista...
- Você também não acredita que eu vá ser um cientista? – ele perguntou, soltando o rosto dela.
Meneando a cabeça, ela também se encostou à árvore, apoiando de leve o pescoço junto ao ombro dele.
- Todo mundo crê firmemente que você pode ser o que quiser, caçador. – ela usou o apelido que Lyncis sempre usava com o irmão – Afinal, você é o gênio da turma. E, se já não é cientista agora, eu não sei o que mais precisa para tanto.
Ele sorriu, apertando a mão dela.
- Obrigado, Aria.
Ruborizando de novo, ela apenas assentiu com a cabeça. Os dois ficaram em silêncio por alguns instantes, enquanto a confusão logo atrás deles se amainava.
- Você não está com fome? – ela perguntou, sem deixar a posição em que estava.
- Bastante. – ele riu – Especialmente depois da décima quinta partida perdida para minha irmã e minha prima... Estamos jogando pôquer desde ontem...
- É como dizem... – Leda reapareceu nesse instante, junto com Claire, Lyncis e Achernar – Azar no jogo, sorte no amor. Vocês querem comer alguma coisa?
Ariadne imediatamente aprumou-se, enquanto Lyn e Arch trocavam um olhar divertido, sentando-se junto dos outros. Claire pulou para o colo da morena enquanto Leda oferecia uma bandeja de salgadinhos para o casal.
- Não creio que esse ditado se aplica à situação, Lê. – Órion observou, pegando alguns salgadinhos para si – Elas estavam roubando. Não é verdade, Arch?
- Roubando, roubando! Minha mãe diz que é coisa feia, Lyn! – Claire pulou mais uma vez, segurando-se nos ombros da moça.
- Não estávamos roubando, não! – Lyn exclamou – Eles é que não sabem jogar.
- É verdade, Órion. – Arch observou, sorrindo – Temos que ser justos. Elas são melhores do que nós. Não à toa, como o próprio ditado diz, vão virar duas solteironas jogando pôquer nos fins de semana enquanto bebem uma garrafa de vinho e... Ai! Isso doeu!
- Era para doer mesmo. – Lyn respondeu, observando ele massagear o braço onde ela acabara de beliscar – A propósito, meninas, acho que ainda não apresentamos... Este é Achernar e aquela de cabelo roxo é a irmã dele, Nymphadora. São primos nossos, dos Estados Unidos.
- Muito prazer. – ele cumprimentou as duas educadamente – Vocês são gêmeas?
- Eu sou Leda e ela é Ariadne. – Leda respondeu – Sim, somos gêmeas. Idênticas. Mas você sempre sabe diferenciar as duas. Ela é mais quietinha que eu.
- Todos já percebemos isso, Lê. – Ariadne respondeu, arqueando a sobrancelha.
Lyn abafou uma risada e virou-se para o primo.
- Elas são filhas de tio Remus. Sua irmã vai trabalhar com ele na Scotland Yard.
Antes que Achernar pudesse responder, eles ouviram sons de passos se aproximando e, no instante seguinte Harry entrava em seu campo de visão, os cabelos pingando e a gola da camisa ligeiramente molhada.
- Está ficando mal educada, Lady Black? Chega e nem cumprimenta... – ele observou, parando junto à árvore que Órion usava para se apoiar.
- Acho que Harry está triste, Lyn... – Claire observou num sussurro, junto à orelha da moça.
- É, eu percebi. – ela respondeu em voz baixa, antes de se virar com um sorriso para o moreno - Boa tarde, Sir Potter.
- Hei, Harry! – Órion acenou com a mão, sorrindo – Como estão Ron, Mione e Ginny?
- Estão todos ótimos, Órion. – ele respondeu, olhando para Achernar – Parece que temos gente nova por aqui, não? Você deve ser o primo do padrinho...
Achernar levantou-se, estendendo a mão, que Harry apertou com força.
- Achernar Tonks. Mas, se possível, me chame de Tonks. Minha mãe tem um gosto muito suspeito para nomes...
- Ele vai estudar conosco. Só que o curso dele é música. – Lyn sorriu para o primo – Por sinal, ele é uma virtuose no piano.
- Você está exagerando, Lyn.
- E você está sendo modesto.
Harry estreitou ligeiramente os olhos. Para quem tinha se conhecido há dois dias, Lyn e o tal Achernar pareciam próximos demais. Leda puxou a atenção para si, perguntando da irmã de Achernar, começando então a tagarelar sobre o pai, enquanto Ariadne fazia um comentário ocasionalmente, tendo Órion agora deitado em seu colo.
- Por que está molhado? – Claire perguntou, pulando do colo de Lyn para o do irmão quando ele se sentou na grama junto à amiga.
- Fui tirar a fuligem. Mamãe está uma fera lá dentro... O pai está tentando se explicar, mas enquanto Sirius fica colocando lenha na fogueira, vai ser meio difícil...
- Tio Sirius é divertido. – Claire observou, cruzando os braços.
- Ele pode até ser divertido, mas não tem a menor noção de quando parar uma brincadeira. – Lyn respondeu, fazendo cafuné de leve na pequena – Se ele decidiu se meter... – ela parou, olhando para Arch, que observava com atenção a irmã conversando com um dos homens mais velhos – Aquele é o tio Remus, Arch.
Achernar estreitou os olhos, curioso. Desde que Nymphadora comunicara à família a decisão de passar um tempo trabalhando na Scotland Yard como enviada especial da CIA, ele se perguntava como as estranhas manias da irmã seriam aceitas dentro de uma das corporações mais tradicionais do mundo.
O detetive Remus Lupin correspondia perfeitamente àquilo que ele imaginara. Mesmo à paisana, vestia-se impecavelmente, e todas as suas maneiras o assemelhavam a um lorde. Um autêntico inglês, sem dúvida alguma.
Remus, por sua vez, fazia conjecturas similares às de Achernar. Sirius avisara a ele que uma prima dos Estados Unidos fora transferida num projeto de intercâmbio entre as agências de inteligência dos dois países. Ele não esperava encontrar a moça na Scotland Yard, visto que seria em breve aposentado, mas se dispusera a conversar com ela na tradicional reunião de férias do chalé dos Potter.
Entretanto, Nymphadora Tonks, como Sirius apresentara, ou apenas Tonks, como ela fizera questão de frisar, superava e muito suas expectativas. Para começar, ela tinha cabelos lilases. Embora a discrição o impelisse a desviar o olhar constantemente daquela cabeleira, ele não podia deixar de se sentir perturbado.
James tinha subido para tomar um banho e se trocar e Susan e Lily estavam agora na cozinha. Sirius, por sua vez, parecia estar se divertindo imensamente com a situação, enquanto Remus tentava de todos os jeitos não encarar a moça.
- Sabe, você não precisa ficar com medo de mim. – ela falou, após alguns instantes tentando prender o olhar do detetive – Eu não mordo. E, até onde eu saiba... – ela tirou os cabelos lilases, revelando cachos negros que caíam até seus ombros – Perucas também não mordem.
Remus estreitou os olhos.
- É preciso mais do que uma peruca para me assustar, mocinha. – ele respondeu, sério – E se quer realmente trabalhar na Scotland Yard, terá que aprender a se portar como uma detetive da Scotland Yard e não como uma colegial adolescente americana.
Sirius, que até aquele instante apreciava a cena com um meio sorriso, descruzou os braços, aproximando-se.
- Remus, o quê...
- Deixe-o falar, Sirius. – a moça o interrompeu, um sorriso estranho nos lábios – Como quiser, detetive Lupin. Assim como tive que provar meu valor na CIA, vou provar ao senhor também o que sou capaz de fazer. – ela recolocou a peruca, sem deixar de sorrir - Eu sei que a Scotland Yard tem um estilo e uma reputação a manter. Mas receio que, antes de eu ter que me adaptar a vocês, vocês terão que se adaptar a mim.
E com uma mesura irônica, ela deu as costas a eles, partindo para se juntar ao resto da turma de jovens sob as faias da entrada do chalé.
