Acordei num local diferente. Precisei abrir e fechar os olhos várias vezes até me acostumar com a luz mais forte do ambiente. A primeira coisa que reparei era que estava deitada num colchão de espuma fina. Depois deu uma rápida sondada no ambiente. Era outra cela, mas dessa vez metálica. O colchão ficava num bloco de metal de uns 30 centímetros e havia um sanitário no canto da cela, desses que não dão privacidade alguma. Tudo que você tiver de fazer deverá ser na frente de quem estiver te vigiando. Olhei para mim mesma. Meu pulso esquerdo estava imobilizado com duas talas e havia também pequenos curativos em meu corpo. Estava limpa e meu cabelo ainda tinha umidade e cheiro de xampu. Julguei que minhas roupas só poderiam ser fruto de uma brincadeira de Buffy. A calça era marrom claro, de algodão grosso, a blusa era de algodão fino, branca e de manga longa. Coloque um quimono de algodão grosso da mesma cor da calça e um cinto de utilidades que você terá um uniforme padawan completo. O detalhe mais importante é que eu estava descalça numa cela de metal. É como se mantém um elemento perigoso em seu cativeiro. No menor sinal de perigo é acionado o mecanismo de choque. Mas eu não levaria perigo a ninguém. Ainda estava extremamente fraca, com fome e sede. Principalmente com sede. Sentei na cama baixinha devagar para o mundo não girar tanto. Era uma dor de cabeça terrível. Dor de cabeça causada pela fome. Bando de escrotos.
_ Achei que não fosse acordar nunca! – Buffy apareceu com um saco de papel em mãos.
Sem muita cerimônia, ela jogou o saco em cima da minha "cama" e depois sentou no chão com as pernas cruzadas. Abri o pacote e encontrei dois copos plásticos bem lacrados e dois canudos. Um era um copo com água e o outro era a minha comida.
_ Caldo de legumes? – disse depois de sugar um pouco – não tem nada melhor?
_ O que esperava? Um assado?
_ Pra começar...
_ Você está há cinco dias sem colocar nada no estômago a não ser água. Se não recomeçar a comer com algo leve, vai ter problemas.
_ Cinco dias! – suspirei. Depois olhei para Buffy. Ela tinha um sorrisinho maroto nos lábios e isso me intrigou – o que é engraçado?
_ Nada!
_ Essa roupa... piada sua, não é?
_ Tecnicamente você ainda é uma padawan, Will, seja aqui ou com aquele bando que você andou. Ou as regras Sith mudaram?
Elas mudaram no decorrer dos séculos. Existem vários aprendizes siths, mas um único mestre. Depois que ele morre, o aprendiz mais poderoso assume. Não antes, é claro, de derramar o sangue dos outros que se oporem. Suguei o caldo salgado em silêncio enquanto Buffy se encostou contra a parede e tirou um pequeno livreto do bolso. Tecnologia primitiva de armazenagem de conhecimento, devo dizer, porém romântica e charmosa. Isso é influência dos errátios, uma sub-raça humana de tecnologia muito atrasada que se opôs ao meu mestre. Não que eles tivessem algum valor, mas o planeta deles é rico em diamantes e isso é de nosso interesse. Mas quando chegamos para domina-los, tropas rebeldes da Aliança já estavam instaladas no sistema. Buffy era a comandante local. Terminei o caldo joguei o copo e o saco de papel em cima do colo dela, interrompendo sua leitura. Fiquei com o copo de água.
_ Que grosseria, padawan! Isso é jeito de tratar o seu mestre?
_ Você não é o meu mestre e não há nada que possa me ensinar.
_ Engano seu, Will – sua voz era suave – você voltará para nós e eu completarei o seu treinamento. Deixarei papai orgulhoso, assim como nosso mestre Giles.
_ Eu matei Giles, esqueceu? Ele ficaria orgulhoso se fosse vingado.
_ Será que você não percebeu que essa é a melhor vingança que poderia proporcionar ao nosso mestre? Ainda precisa aprender muito padawan. Mas você chegará lá.
...
Giles foi uma pessoa importante em nossa vida. Não há como negar. Lembro de quando chegamos em Corellia ainda assustadas com o modo que deixamos Serenno para trás. Estávamos pela primeira vez na capital política da Aliança República e mesmo que nosso planeta natal fosse um importante centro urbano, nada era comparado com a movimentação de naves e pela urbanização de Corellia. Metade das terras do planeta era tomada por gigantescas cidades. A outra metade era preservada. Os corellianos nativos tinham orgulho dos seus campos e florestas. Lembro do rosto fascinado de Buffy. Era a primeira vez que ela fazia uma viagem interplanetária. Reclamou do frio, do tédio, das palavras autoritárias de Giles e, principalmente, de Corellia (que mais tarde ela passaria a amar). Eu não me importava com nada disso. Só pensava em meus pais e em nossa dramática despedida.
Giles nos levou direto ao Templo Jedi, uma construção gigantesca próxima a uma das reservas naturais no sul do continente principal. A Ordem Jedi naquela época era uma versão menos politizada e mais branda da antiga que existia antes do Império. As regras mais rígidas se aplicavam aos padawans. Nada de relações amorosas, nada de usufruir os próprios bens materiais, poucas ou nenhuma visita aos familiares. Mas ao menos era permitido ao padawan desistir dos treinos a qualquer momento. Antes de fazer os testes, o padawan deveria decidir se seguia em frente e vincularia sua vida à Ordem ou abandonaria esse caminho. Caso decidisse seguir em frente, ele teria uma vida de sacrifícios dedicados no objetivo de manter a galáxia em ordem. Poderia constituir família, ter bens, e até receberia um salário caso tivesse filhos para sustentar, mas sua vida estaria para sempre vinculada ao Templo Jedi. Deveria estar disponível para realizar qualquer missão, para treinar padawans e younglings. Largar a Ordem depois de ordenado cavalheiro era um processo muito lento e complicado. Também não deixava de ser uma forma de proteção contra a corrupção de seus membros, sobretudo com a ameaça sith mais presente do que nunca.
Quando chegamos ao Templo, ficamos boquiabertas com o tamanho do complexo. Giles nos encaminhou para a sala do Conselho, onde conversamos com os mestres, fizemos vários testes e fizemos nosso juramento. Para a minha surpresa, fiquei sabendo por Giles que era sensível de segunda geração. Meu pai treinou como padawan, mas renunciou antes de fazer os testes para cavalheiro. Giles e ele se tornaram bons amigos e a amizade continuou em linhas discretas por anos e anos. De certa forma ter sido deixada nas mãos dele após saber da morte dos meus pais foi um consolo porque sabia que sendo um mestre jedi, Giles nunca nos abandonaria ou desistiria de nós.
Os mestres jedis determinaram que Buffy e eu treinássemos juntas acatando uma sugestão do próprio Giles. Lembro que foi um alívio enorme. Ao menos esse sofrimento foi minimizado. Após as formalidades, a primeira coisa que Giles fez foi nos tirar de Corellia e nos levou para a lua santuário de Endor e lá passamos três anos treinando na floresta. Éramos apenas nós três, uma minúscula unidade de vigia permanente da Aliança e os ewaks. O mais próximo que se via de civilização era o próprio centro de vigia da Aliança, mesmo assim era um lugar que a gente ia quando precisava de algum suporte técnico. Esse isolamento fez com que Giles deixasse de ser o mestre para se tornar o meu segundo pai. Terceiro no caso de Buffy. Por incrível que pareça aqueles foram os melhores anos que passei como padawan.
Numa certa noite, pouco antes de voltarmos para Corellia, eu estava admirando o pôr do sol em cima de uma plataforma nas copas das árvores. Buffy se aproximou e sentou ao meu lado.
_ Vai dizer o que está pensando ou vai me forçar a adivinhar?
_ Sabe que dia é hoje? – a encarei séria.
_ Faz três anos que nosso pai e sua mãe morreram.
_ É!
_ Se eu soubesse que seria a última vez que falaria com ele, ai prestar mais atenção no momento... você sabe... para não esquecer de nenhum detalhe.
_ Eu queria voltar no tempo e dizer para eles que eu os amava. Falei isso tão pouco...
_ Eu disse! – uma lágrima escapou dos olhos de Buffy – Ele reafirmou que eu era tão filha dele quanto você. Quer dizer, ele já tinha me dito isso antes, mas que era para ser o nosso segredo. Então disse que sempre soube e que o amava – ela enxugou os olhos – pensando bem, acho que foi um dos momentos mais bonitos da minha vida.
Até então, Buffy nunca havia me dito sobre a breve conversa entre os dois em nossa despedida. Sempre soube que ela amava o meu pai como sendo seu próprio, mas nunca imaginei que ele fosse de fato o próprio. Eu nunca tive a mesma ligação que Buffy tinha com ele.
_ Meninas! – Giles nos interrompeu – o jantar está pronto.
Olhei para o meu mestre e depois para a minha irmã. Percebi que ser parente de sangue no final das contas nunca importou para nós duas. Família é feita de amor, de laços fortes de amizade, não de genética.
Naquela noite Giles fez o seu melhor prato e nos presenteou com dois colares artesanais. O pingente do colar de Buffy era um cajado, que simbolizava justiça, equilíbrio e sabedoria. O meu pingente era a mão aberta, símbolo de força, poder e do amparo. Parecia que o nosso velho mestre já queria nos dizer alguma coisa naquela época. O curioso é que até hoje eu tenho esse colar. Sempre o colocava dentro do bolso, mas não o usava. Buffy substituiu a corda original do colar por uma corrente de ouro. Mas o pingente em forma de cajado continua lá.
Um mês depois a guerra sith estourou e todos os jedis foram convocados para retornar a Corellia. Dois anos depois, aos 18 anos, Buffy foi ordenada cavalheiro Jedi. Mais dois anos e eu matei Giles a mando do meu mestre Sith. Três meses depois Buffy se tornou a mais jovem mestre Jedi da história. Mais dois anos, nós duas nos confrontamos e eu perdi.
