Caminhavam lado á lado como velhos conhecidos quando o loiro soltou uma risadinha:

– O que foi? –Sakura perguntou curiosa.

– É que, você sabe... Não parece um demônio. –parecia envergonhado.

– Isso é algum tipo de elogio? Pois você também não me parece um, em geral somos mais... Carrancudos. –comentou no mesmo tom, fazendo de tudo para ser o mais amigável possível.

– Creio que é um elogio sim. Meu nome é Naruto e o seu? –puxou o assunto mais uma vez.

– Sakura, meu nome é Sakura. –respondeu.

– Legal. Sem querer ser indelicado, mas quantos anos você tem? –continuou com suas perguntas.

– Dezesseis... E mais uns cinco séculos. –deu um pequeno sorriso.

– Uau! Está muito bem conservada então. Sou um garoto de dezesseis também e mais três séculos. –contou mesmo sem ter sido questionado aquele respeito. – O que fazia lá justamente naquele momento? –era como uma criança curiosa.

– Senti sua presença e quando cheguei me deparei com aquela situação. Sempre vivi sozinha, mas com essa série de assassinatos em nossa espécie, achei que fosse mais seguro me juntar á um grupo. –justificou-se colocando seu plano em prática.

– Devia saber que nós nãos somos como os sanguessugas ou aqueles cães. Demônios são elementos egoístas, não agimos em conjunto. –disse e Sakura se arrependeu mentalmente pelas palavras, corria o risco de estragar tudo, onde já se viu demônios trabalharem em grupo? – Principalmente quando se trata dos pactos, é cada um por si.

– Então é um das encruzilhadas? Nunca tive jeito para esse tipo de negócio. –tentou corrigir seu erro, mudando o foco.

– Não, também não suporto esse tipo de negociação. Eu caço coisas, me divirto um pouco como os humanos, é isso. –contou.

– Parece interessante e tudo isso sozinho? –foi sua vez de perguntar como quem não quisesse nada.

– Na maioria das vezes sim. De vez em quando volto para o nosso doce lar e então eu e o Príncipe saímos para matar juntos. –esclareceu.

– Príncipe? Quer dizer o Sasuke?

– Conhece aquele idiota do Uchiha? Pois é ele mesmo, um mala aquele lá. –riu ao lembrar-se do moreno.

– Não o conheço, mas já ouvi falar. –justificou-se.

– Sorte a sua de não conhecê-lo, especialmente na sala de tortura. –o loiro estremeceu com um arrepio.

– É, a fama dele não é nada boa. –concordou. – Mas e então... Vai ficar muito tempo por aqui? Já tem um trabalho á ser feito? –dessa vez era ela quem parecia sedenta por respostas.

– Na verdade sim. Parece-me que um lobisomem tem atacado as redondezas. –informou e dava para perceber sua animação.

– Vocês caçam por diversão ou o que?

– É mais por diversão mesmo. –confirmou. – A verdade é que não sou muito como nossos companheiros que gostam de estrangular e amedrontar pessoas, elas são as mais indefesas contra nós. Mas essas outras criaturas não, eles são uma praga! Como se já não bastassem os anjos, ainda temos que dividir nosso território com aqueles animais. –pareceu revoltado.

– Tem razão, anjos já nos são o suficiente. –sentiu um frio na barriga só de imaginar o que podia acontecer se o jovem descobrisse a verdade. – Será que aceita uma parceira diferente dessa vez? –ofereceu-se.

– Hum... Ah claro que sim! Você já tem crédito comigo. –lhe sorriu abertamente, e a rosada pensou que ele deveria seu um demônio único, por sua tamanha ingenuidade.

...

A fera perseguia sua presa indefesa pela rua com velocidade e astúcia. Correndo, a pobre mulher tentava escapar de algo que ela nem pôde distinguir em meio ás sombras da noite.

O peso caiu sobre si. Tentou escapar, mas a criatura puxou-a pelas pernas com suas garras afiadas rasgando sua pele, fazendo-a gritar ainda mais.

Rendida, viu a figura animalesca sobre si grunhindo como um bicho. Quando ele ergueu suas garras, ela já se preparou para o pior: rasgou-a por dentro até que não vivesse mais.

Então o animal obteve seu único ponto de interesse na vitima: o coração e saboreava-o com avidez, quando sentiu pelo olfato a presença de dois indivíduos ali.

Encolhido, virou-se para eles. Um casal determinado, sentia que sua vida estava em risco.

Correu para a direção contrária, mas deu de cara com o loiro. Do outro lado, sabia que a garota estaria á sua espera. Acuado, jogou suas garras para cima do rapaz perfurando-o, mas não surtiu o efeito desejado, apenas um arranhão do qual ele se recuperou logo. Com o cheiro que veio á tona ele soube que não eram meros humanos.

Mais uma vez tentou escapar, porém o loiro jogou-se sobre ele fazendo com que rolassem no chão. Conseguiu acertá-lo com uma cabeçada e quando se ergueu determinado á fugir, tudo o que encontrou foi a lâmina de prata atravessando seu peito.

Caiu inerte no chão. Naruto olhou para o cadáver aliviado pelo fim de mais uma caçada, em seguida para a garota que limpava a lâmina, escondendo-a rapidamente. Aquela arma não lhe era estranha, mas por um momento esqueceu suas suspeitas, quando a rosada lhe estendeu a mão com uma expressão cansada no rosto.

– É, parece que estou lhe devendo mais uma. Não é justo que uma dama fique salvando o cavalheiro toda vez. –argumentou bem humorado jogando o corpo sem vida nas costas.

– Não me deve nada. O que vai fazer com ele? –indagou.

– Levamos os corpos para serem cremados em nosso forno particular. –informou andando.

– No Inferno? –perguntou quase sem fala.

– Sim ué. Faz tempo que não volta para lá? –estranhou a reação dela.

– Digamos que quando se busca a independência como eu, os superiores não lhe aceitam muito bem. –explicou sem jeito.

– Não precisa temer nada. Estará comigo e eu mesmo me encarrego de mostrar o quanto foi útil essa noite. –alegou dando seu sorriso travesso.

...

Foi como se num piscar de olhos, tivessem mudado de lugar. Não era necessário um portal para chegar onde estava agora, tudo que precisou foi colocar a mão sobre o ombro de Naruto.

Observou o local onde estava: era um extenso corredor cheio de celas divididas em dois andares. Caminharam por ele, enquanto os prisioneiros ou o que quer que estivesse nas sombras, batiam nas grades e gritavam coisas sobre ela, que preferiu ignorar.

– Acho que eles não veem uma mulher bonita á anos. –comentou para quebrar o clima de tensão.

Sakura não respondeu, apenas se sentiu mal por estar num lugar como aquele. Não que já não soubesse o quanto o Inferno era ruim, mas estar ali pessoalmente era bem pior, onde nenhum outro anjo deveria estar.

O loiro atravessou os grandes portões de aço seguido pela rosada. Os demônios que encontrou no caminho não tinham nem de perto a simpatia de Naruto, visto que lhes encararam de mau jeito.

– Príncipe! Só aí no sossego enquanto eu faço todo o trabalho sujo. –o loiro comentou jogando o corpo no chão á sua frente.

A Haruno seguiu-o até certo ponto, depois ficou estática. Lá estava o irmão de Itachi, sentado num assento grande como um trono da realeza. Apoiando seus cotovelos nas pernas, a franja escura azulada cobrindo seus olhos.

Ao seu lado duas garotas, uma ruiva e outra de cabelos azulados, ambas cercavam-no e acariciavam toda extensão de seus braços e costas cobertos pela camisa negra que vestia.

– Não fez mais do que sua obrigação. –sua voz tinha um tom ainda mais firme e grave que a do irmão. – Trouxe-me mais uma garota? Não me lembro de tê-la visto antes. –sentiu-se sendo analisada de cima á baixo, embora ainda não pudesse ver seus olhos. As mulheres ao seu lado fizeram uma careta, olhando-a com repúdio.

– Não acha que duas já são mais do que o suficiente? Essa é Sakura, ela me salvou duas vezes. –contou todo orgulhoso da garota.

– Uma garota precisou te salvar? Humpf... Não esperava isso de você. –desabafou. – O que foi dessa vez? Apenas esse lobo esfomeado?

– Bem, sim... Mas eu fui atacado por uma bruxa também! Sakura chegou bem na hora e queimou o patuá. –respondeu agora mais envergonhado de si mesmo.

– E simplesmente por isso, trouxe-a em minha presença? –continuou com suas palavras frias.

– Ela pode nos ajudar... Com as caçadas. –propôs incerto.

Nem parecia que Sakura estava ali, ela apenas observava o Uchiha que não havia nem erguido a cabeça ainda. Foi grande sua surpresa quando ele sumiu de entre as mulheres e reapareceu na sua frente.

...