Capítulo V

09:07 a.m.

Depois de uma longa noite assistindo o sono de Beth, Mick conseguiu descansar algumas horas, ele cochilou vencido pelo cansaço em uma poltrona no quarto dela.

Ao despertar, viu a cama vazia. Ergueu-se assustado, buscando-a. Foi quando a encontrou fazendo café, ela havia tomado banho, nesse momento vestia uma calça de moletom cinza e uma blusinha justa branca. Estava adorável, com os cabelos molhados caindo em sua cintura, e encardindo um par de meias brancas ao recusar-se a usar chinelos.

--Uhn, Mick você está aí. – Disse sorridente. – Nossa, você parecia exausto quando eu acordei, acho que te dei muito trabalho né?! – Disse Beth, enquanto caminhava até a geladeira e retirava um pacote de sangue.

Mick tomou a liberdade de trazer seus próprios suprimentos, pois não sabia quanto tempo pretendia ficar ao lado dela.

--Honestamente, fiquei preocupado. – Considerou Mick sem se mover. – Você teve febre essa noite e delirou bastante, diante das circunstâncias, não me restam alternativas a não ser levá-la ao médico.

Ele ainda a observou despejar o conteúdo da embalagem em um copo, e servi-lo da forma mais natural possível, até redargüir sobre o assunto:

--Mick, pensei que a gente já tivesse discutido isso. – Comentou levemente preocupada com a possibilidade de ser examinada.

--Beth nós não temos nem noção da seriedade dos seus ferimentos, precisa ser examinada, e deveria ter ido ao hospital ontem. Mas vou procurar levá-la em uma clínica particular para evitarmos maiores aborrecimentos, geralmente eles são mais discretos. – Assegurou.

Beth concordou meio a contra gosto. Porém Mick a viu permanecer de cabeça baixa por mais tempo do que gostaria.

--O que foi? – Perguntou preocupado.

--Eu tive algumas recordações ontem..

--Sim, você falou algo sobre um Italiano, e uma loira.

--É, também tinha um cara enorme que me perseguia, e aí eu rolei as escadas e perdi a consciência. – Mick abriu à boca espantado, e Beth prosseguiu tranqüila: – Tive a impressão que foi nesse momento que eles descobriram minha verdadeira identidade, pois senti a peruca cair.

--Vou anotar isso, é mais uma peça do quebra cabeças. – Afirmou Mick enquanto sentava-se à mesa e escrevia a informação em um bloco de notas.

Beth prestou atenção em todo o restante do material que estava sobre a mesa.

--O que é isso Mick? – Quis saber enquanto sorvia uma golada de café.

--É uma lista das pessoas presentes na festa, desde convidados a funcionários. Temos um bocado de políticos aqui, e pessoas bastante importantes.. – Comentou. - ..a cada minuto, fico mais surpreso com os nomes que estou encontrando.

--Você deveria descansar, precisa repousar no freezer, está muito abatido agora. – Anuiu Beth mudando de assunto, quando reparou na expressão fatigada dele.

Mick concordou com a cabeça, mas nesse momento não pretendia ceder ao cansaço, tinha muitas folhas ainda para examinar. Muitas pessoas ali eram conhecidas, e a maioria delas carregava uma bagagem pesada no que se referia a ilegalidade. Após terminar de trabalhar em uma folha, Mick se dirigiu à próxima, porém sentiu o chão se abrir quando leu o primeiro nome.

--Não pode ser verdade.. – Balbuciou surpreso. – Definitivamente não pode ser verdade. – Repetiu enquanto passava pela segunda vez os olhos naquele nome. Seus olhos marejaram de dor, e ele sentiu seu corpo invadido por uma dose muito alta de adrenalina.

Beth observava a reação perplexa de Mick, e refletiu se deveria ou não perguntar o motivo. A campainha tocou, e ela se afastou em passos suaves para atender.

Ao abrir a porta, deu de cara com Josef parado, segurando um chumaço de rosas vermelhas. Vê-lo ali, com seu familiar sorriso, despertaram-lhe lembranças assustadoras. Beth sentiu seu corpo enrijecer, e sua mente a transferiu novamente para aquela noite sombria.

"..--Que tal deixar a garota em paz! Eu tenho certeza que ela não deu em cima do seu marido, aliás, ele é que é um pervertido e não para de assediá-la. – Interveio Josef com um olhar severo.

Ele estava impecavelmente vestido, e parecia mais sério do que o habitual. A loira ficou furiosa quando sentiu ele apertar seus pulsos e discutir com ela.

--NÃO ACREDITO QUE VOCÊ ESTÁ DEFENDENDO ESSA PROSTITUTA?! – Gritou fora de si.

--Pare de fazer cena Hamona. Coloque a garota em um táxi e a mande embora, isso dará um fim em toda sua insegurança. – Respondeu impaciente, porém em momento algum alterou o tom de sua voz.

Batendo seus saltos, Hamona se afastou dele.

--Mocinha, fique longe do meu marido. – Rosnou agitada. – Evan, tire essa garota da minha frente. – Ordenou para um sujeito grandalhão..."

Finalmente Beth compreendera aquela visão. Aflita ela retornou a realidade, porém a cena a seguir provocou-lhe devastadores arrepios.

Mick passou por ela feito um raio e agarrou Josef pelo colarinho. Lançou a Josef um olhar homicida, ao mesmo tempo em que praguejava palavrões:

--MALDITO... MIL.. VEZES MALDITO.. PENSEI QUE FOSSE MEU AMIGO, MAS ME TRAIU... COMO PÔDE?? – Berrou feroz, sua face se transformou em monstro, e ele soltou um urro enfurecido.

Josef também se transformara, porém não reagiu. Mick desferiu-lhe um forte murro em seu rosto, fazendo-o cair e sangrar, com seus lábios feridos.

--Mick eu sei que você está nervoso... – Tentou se defender. Porém o detetive começou a chutá-lo.

Josef conseguiu se desviar de alguns golpes se apoiando no chão, passando a cuspir sangue.

--..É, você aprendeu direitinho. – Afirmou enquanto olhava com ironia para Mick.

--NÃO PERDE A PIADA NÃO É MESMO JOSEF? TRAIDOORR.. – Blasfemou.

Mick sentiu vontade de acertá-lo da forma mais bruta e impiedosa possível, no entanto, não conseguiu. Estava profundamente decepcionado, mas não conseguia agir pelos próprios instintos, mirou em Josef, mas desviou seu soco para a parede, atingido-a com ódio causando um baque ensurdecedor, apoiou-se na mesma desolado.

Foi quando sentiu as pequenas e delicadas mãos femininas tocá-lo em seus braços. Mick estava ofegante, e tinha seus olhos vermelhos de raiva.

--NÃO BETH.. – Rugiu.

--Mick, Josef tentou me ajudar.. eu me lembro.. – Disse suavemente.

Mick a olhou de esguelha, com uma expressão confusa.

--Não precisa mentir para defendê-lo...

--É verdade, assim que vi Josef, uma lembrança ficou mais clara para mim.

Josef começou a rir.

--Primeiro você bate para depois perguntar.. – Falou erguendo sua mão para que Mick o ajudasse a se levantar.

Mick o fitou por alguns segundos, até ceder ao impulso de ajudar o amigo.


10:09 a.m

Os três reuniram-se à mesa da cozinha, e Beth havia relatado com tristeza, tudo o que pôde se lembrar sobre a presença do Italiano, Hamona, e Josef.

--Você sabia o tempo inteiro, viu Beth lá. – Acusou Mick nervoso.

--É, bem.. eu tenho alguns vínculos com Muhanned. Estava fechando um acordo de, bem.. – Gaguejou quando sentiu o olhar pesado de Mick. -.. Armas.. – Confessou.

--Existem formas legais para se comprar isso. – Disse Mick.

--Sim, porém não as sofisticadas, se é que me entende.

--Como assim? – Questionou Beth.

--Muhanned tem um bom arsenal para eliminação de vampiros, entre outros materiais.. Eu só queria me atualizar, e me prevenir. – Justificou-se.

--Sabia do tráfico de mulheres? – Perguntou Beth.

--Ahh, sim.. Hamona chegou a me oferecer, porém eu recusei a compra. Achei aquele negócio um tanto ultrapassado.

--Porque Josef? – Acusou-o Mick emocionado referindo-se a Beth. – Bastaria ter me ligado, e eu teria corrido até lá.

Josef se ergueu nervoso.

--NÃO TIVE A INTENÇÃO DE DEIXAR QUE MACHUCASSEM A BETH. – Gritou. - Quando eu cheguei naquele salão vi uma morena deslumbrante falando com Muhanned, porém não a reconheci com o olhar, e sim com o cheiro. Logo percebi que ela estava disfarçada, e que planejava alguma coisa contra Omar. Entretanto ela estava bem, só um pouco grogue, imaginei que tivesse exagerado na dose.

Beth baixou o olhar, envergonhada.

--A respeito da lembrança dela.. – Começou a dizer Josef, recordando-se da versão que Beth contara sobre sua lembrança com o Italiano, a loira e ele. – Bem, aquela havia sido a segunda e última vez que eu trombara com Beth na festa. Foi então que eu flagrei Hamona dando um tapa no próprio marido, e depois desferindo outro golpe em Beth. Foi aí que eu interferi, puxei Hamona de canto e discuti com ela, sugeri que ela mandasse Beth embora em um táxi. Só naquele momento que eu tive uma clara certeza de que Beth não estava nada bem. Aí o Evan, capanga da Hamona e do Antony..

--ESPERA!! Quem é esse Antony, eu vi esse nome em algum lugar? – Perguntou Mick.

-- Antony Giolli é o Italiano, marido de Hamona Giolli. – Esclareceu. -.. Então, eu pensei que o capanga deles, Evan, fosse colocar Beth em um táxi.

--Que horas eram? – Quis saber Mick, pois ele estava traçando um perfil de pessoas, relacionando horários, precisava saber de tudo.

--Uma hora da manhã talvez.. Nesse horário, metade dos convidados haviam ido embora, restando somente às pessoas mais próximas do árabe. É nessa hora que a festa realmente começa, muitos homens subiram acompanhados para os quartos. – Afirmou Josef. – Eu realmente não sabia que Beth estava em apuros. Sinto muito Beth. – Finalizou pegando a mão trêmula entre a sua para dar um suave beijo.

Mick se afastou com os olhos vermelhos, sentia-se traído pelo melhor amigo. Mesmo sabendo que Josef tentara ajudar Beth, sofreu com a falta de honestidade dele, quando o havia procurado no dia anterior.

--Mick.. – Josef o chamou, posicionando-se bem perto dele. Quando ficaram frente a frete, falou comovido: - Perdoe-me!


Capítulo VI

Clínica do Doutor Marc Travis & Associados

11:43 a.m.

--Mick eu disse que estou bem, não precisava me trazer aqui. – Reclamou pela décima vez.

--Foi o próprio Talbot que recomendou, ele disse que é especializada em vítimas de.. – Mick se calou, diante do olhar magoado de Beth. – Enfim, essa clínica trabalha com várias especialidades, você poderá passar com clínico geral, ginecologista, ortopedista, psicólogo, entre outros. Será necessário fazer uma bateria de exames, para ver se está tudo bem com você. – Explicou quando terminou de estacionar.

--Mas eu sei que está tudo bem comigo. – Retrucou teimosa enquanto via Mick sair do carro, sem lhe dar ouvidos.

Beth entrou em passos vacilantes, olhou ao seu redor, e viu muitas mulheres, somente mulheres. Mick começou a passar as informações de Beth para a recepcionista, enquanto ela encarava os rostos aparentemente tristes de algumas jovens sentadas. Prestou atenção em especial, em uma garota de aproximadamente vinte cinco anos, ela tinha óbvios ferimentos em seu rosto, e usava roupas largas e de mangas compridas, apesar do calor. A repórter logo imaginou que ela estava escondendo as feridas, porém quem iria curar as feridas da alma?

Beth encolheu-se, esse estava sendo o maior pesadelo de sua vida, ela manteve seu olhar perdido em um ponto distante, até sentir uma enorme mão entrelaçar-se a sua. Respirou aliviada, ao sentir-se tão protegida.

--Mick, vá descansar.. Quando terminar, eu pego um táxi para minha casa. – Sugeriu reparando no olhar fatigado dele.

--Nem pensar, ficarei esperando por você.

Em seguida uma enfermeira apresentou-se a ela.

--Senhorita Turner, o doutor Travis a aguarda no consultório, acompanhe-me, por favor. – Disse com uma voz suave.

Beth suspirou resignada, e a seguiu.

Ela foi orientava pela enfermeira a tirar toda sua roupa, e ficar vestindo apenas uma camisola, cuja se fechava com um laço na sua nuca.

Travis era um médico já de idade avançada, os fios brancos dominavam grande parte de uma cabeleira que um dia fora loira. Seu rosto era marcado por traços nobres e gentis. Ele lhe sorriu, como a um pai que olha pela filha.

Beth reparou na plaquinha que estava em cima da mesa com os dizeres: "Dr. Marc Travis cirurgião ginecologista, especialidades em Oncologia, Mastologia e Psicologia". Olhou ao redor da sala, observando uma decoração elegante, com diversos quadros ao redor, alguns de paisagens, barcos, e em especial um belo retrato de uma jovenzinha loira e sorridente abraçada a ele.

--Que menina bonita. – Elogiou Beth, simpatizando-se.

--Sim, é minha filha Clara, aos quinze anos de idade foi estuprada e morta, quando estava em uma festa. Por isso eu direcionei minha clínica a mulheres que sofreram algum tipo de agressão. – Respondeu o médico com um olhar carregado de dor. – Espero estar contribuindo positivamente a esse mundo tão triste.

--Lamento por sua filha. – Disse Beth baixando o olhar, chocada.

--O senhor Talbot, explicou-me seu caso. – Disse Travis com delicadeza. - Só a examinarei quando você se sentir pronta. Se quiser podemos conversar sobre como você está? – Sugeriu.

Beth assentiu nervosa.

--Bem, a princípio eu não tinha planos de procurar ajuda.. – Limitou-se a responder apenas isso, sentindo-se momentaneamente rebelde.

--Eu compreendo, é normal as mulheres sentirem-se constrangidas. Mas você precisa pensar em uma coisa: a culpa não foi sua. Não precisa ficar envergonhada.

Beth refletiu sobre as palavras dele, porém não conseguia parar de se culpar, fora ela que se enfiara no "ninho de ratos", e como esperava, encontrara muita sujeira. Insatisfeita com o rumo da conversa, ela ponderou:

--Acho que estou pronta para o exame. – Afirmou insegura, querendo evitar aquela conversa.

--Ok, continuaremos nossa conversa depois. – Garantiu o doutor.

Em instantes uma enfermeira saiu da sala que se conectava ao consultório e levou Beth até a sala de procedimentos. Ajudou-a subir na mesa e a posicionou...


14:03 p.m.

--Hei, o que você acha de irmos para minha casa? Assim eu descanso um pouco, e você pode ficar no sofá. – Iniciou Mick para quebrar o pesado silêncio. Desde que ela saíra daquela sala de exames, não dissera uma só palavra.

--Uhum.. – Concordou sem encará-lo, nesse momento ela estava mais interessada em olhar para qualquer coisa que não fosse ele.

--Você deve estar com fome, vou comprar alguma coisa antes. – Insistiu em puxar conversa.

--Tá.. – Murmurou distraída.

Mick a observou, ela havia ganhado um pequeno curativo na testa, e sua mão esquerda estava enfaixada, o médico comentou que ela estava fisicamente bem, e que seus ferimentos eram superficiais, exceto pela leve luxação no pulso, porém alguns dias com a mão imobilizada seriam o suficiente para ficar melhor. Sobre a confirmação do estupro, o médico não dissera nada para ele.

Depois do detetive fazer uma rápida parada, e comprar um hambúrguer e refrigerante para ela. Eles seguiram para o apartamento.

Ao chegarem, Beth correu para o sofá tirou seus sapatos e ficou encolhida. Mick caminhou devagar, sentiu-se perturbado por vê-la tão vulnerável, a vontade que tinha era de pegá-la em seus braços, enche-la de beijos quentes, e dizer repetidamente que ele a protegeria para sempre. Mas, ele permaneceu distante, e respeitou o espaço que ela demonstrou precisar. Ele depositou o lanche dela em cima da mesa, buscou por uma manta e a cobriu. Beth parecia ter dormido instantaneamente.

Cansado demais para pensar, ele subiu para repousar em seu freezer.

Assim que Beth percebeu que o ambiente ficara quieto o suficiente, concluiu que Mick já estava dormindo. Ela se levantou devagar, e caminhou pela casa, precisava se lembrar onde Mick escondia algumas peças, digamos "necessárias".

Circulou bastante por todo aquele andar, e mexeu em vários lugares, mas sempre tendo o cuidado de devolvê-las no lugar. Vasculhou mais um pouco, até erguer seu olhar para os livros. Sim, eram naquelas estantes que Mick escondia. Correu e tirou alguns livros, passou a mão sobre a peça para sentir se havia um fundo falso, e descobriu. Depois de bisbilhotar bastante, Beth encontrara todo o tipo de material para a boa sobrevivência de um vampiro. Havia compartimentos para documentos, outros para estacas, alguns continham bizarrices cuja ela nem imaginava a utilidade. Até finalmente encontrar..

--Achei!! – Pronunciou em um sussurro. Retirou a pequena caixa, abriu-a e lá estava uma colt 45, e balas de prata. Foi criada para ser a principal pistola das forças armadas dos Estados Unidos. Era um pouco ultrapassada, ou talvez muito. Refletiu Beth, porém ela não estranhou que Mick a conservara, já que ele estivera na segunda guerra mundial. – Vai servir. – Afirmou com um sorriso diabólico.

Rapidamente ela guardou a caixa vazia na moderna estante, retornou os livros lá, e correu para guardar a pistola e as balas em sua bolsa. Ela não sabia quando agiria, nem tinha tanta certeza quanto ao seu alvo, porém estava decidida, precisava fazer aquilo, em nome dela, e em nome de todas as mulheres que perderam a vida de graça, ou foram vendidas como se fossem simples objetos.

Animada e otimista com seu plano, Beth sorriu e deitou-se um pouco, precisava repousar.


Autora: Michelli C.J.

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