Capítulo IV - A Primeira Vez Em Que o Vi
Hitomi esboçou um sorriso ao constatar que todos estavam em segurança, longe do meteorito. Voltou-se, sério, para observar o B 612. Nunca arriscaria a vida de outrem para obter um resultado científico. Mas dar a própria vida para isso não poderia ser a pior coisa do mundo...
Não estava com medo. Tinha uma boa intuição, e esta lhe dizia que aquele sonho não deveria ser simplesmente ignorado. Alguém precisava de sua ajuda.
A luz do Sol refletida pelo objeto metálico lentamente foi ficando mais fraca, como se o objeto estivesse ficando mais fosco.
Em poucos instantes, era possível visualizar muito bem o mais estranho objeto na face da Terra... Era, tão somente, uma esfera argêntea. Tinha um ar intergaláctico, mas qualquer um poderia pensar que aquilo não passava de um brinquedo super crescido.
Hitomi aproximou a mão para checar melhor. Tocou-o com a ponta dos dedos e... nada
O objeto era quente, certamente devido ao calor do Sol. Fora isso, nada de anormal.
Hitomi cogitou a hipótese de ter sido enganado por alguém, mas um minuto depois, percebeu que não era bem assim.
Uma fissura horizontal atravessou a esfera prateada, dividindo-a em duas partes iguais. O processo foi mais ou menos lento. Uma das metades, a que estava voltada para cima, levantou-se alguns centímetros no ar, como se estivesse flutuando. O mais estranho é que não havia nada dentro dela.
A metade superior continuou se elevando pouco a pouco, até uma altura suficiente para que um homem pudesse passar entre as duas. Então, materializando-se do nada, mais uma esfera, ligeiramente menor que a original, acoplou-se no interior da primeira. Esta segunda esfera também se dividiu, desta vez na vertical, e o mesmo processo se repetiu com uma terceira esfera.
Tudo era bastante anormal e interessante. O número de espectadores era espantoso; uma verdadeira multidão esperava pelo inesperado, ansiosos por serem os primeiros a verem qualquer coisa de diferente.
E então... Novamente o silêncio.
Por um minuto inteiro, tudo ficou quieto, imóvel.
Rin conseguiu se aproximar de Kagura, que ajudava a conter a multidão.
- O que está acontecendo?
- É isso que gostaríamos de saber. - respondeu Kagura - Vem, fica aqui do meu lado.
- Tá. - Rin obedeceu, recebendo um resmungo de alguém às suas costas.
De volta ao meteorito, Hitomi observava, boquiaberto, a terceira esfera metálica se abrir alguns centímetros na horizontal. As duas esferas que cercavam a terceira fizeram o mesmo movimento, assim permitindo que o espaço interior aumentasse.
Uma forte luz escapou do interior da esfera. Esta luz revelou-se ser uma pequena esfera luminosa, menor que uma noz, flutuando no ar.
Como se dotado de vida própria, o ponto luminoso flutuou para fora da esfera metálica, então pairando no ar a um metro e meio de distância do chão.
Hitomi arregalou ligeiramente os olhos. Era aquilo que procurara por toda a vida...? A multidão até então silenciosa começou a murmurar entre si.
A luz tremeu um pouco, indo mais ou menos um centímetro para trás. Então ela se deslocou para frente, parando a meio metro de distância de Hitomi.
O astrônomo, em dúvida sobre como agir, ficou imóvel por alguns instantes.
O ponto luminoso foi ficando mais fraco e dirigiu-se novamente para trás. Hitomi observava, curioso. Em seguida, a luz aumentou de intensidade repentinamente, lançando um raio luminescente em direção de um caranguejo que, distraído, por ali passava.
O caranguejo, visivelmente assustado, esperneava tentando fugir. Mas pouco a pouco foi ficando imobilizado. Enquanto isso, a água do mar borbulhava. Estava fervendo. O crustáceo, já totalmente imóvel, brilhou. E dentro de pouco segundos, simplesmente explodiu.
Os espectadores gritaram e procuraram se afastar, assustados.
Os restos mortais do animal pairavam no ar, cada vez mais finos, como se o corpinho dele estivesse se desintegrando. Então o processo se reverteu, como um milagre. A água do mar, antes fervente, congelou-se. Os restos do caranguejo foram se condensando em um ponto, suas células foram voltando ao lugar original e, dentro de um minuto, o caranguejo batia suas pinças outra vez.
Uma onda de exclamações varreu os espectadores. Hitomi estava boquiaberto. E o astrônomo notou que as águas do mar também estavam como antes, líquidas e frescas.
Os fotógrafos, recuperados do susto, voltaram a tirar fotos. E as luzes produzidas por suas câmeras chegavam até aquele ponto flutuante de luz com mais potência do que o normal.
Toda a luz produzida pelas máquinas fotográficas acabou por se condensar e flutuar até o ponto de luz. A esfera luminescente pareceu engolir a luz produzida pelas câmeras, e seu tamanho duplicou-se.
Mas não parou por aí.
Os fotógrafos, repentinamente assustados, largaram suas máquinas como se tivessem levado um choque. As câmeras soltavam baforadas de fumaça malcheirosa. Os filmes fotográficos pareciam ter queimado.
A esfera de luz absorvia também a fumaça das máquinas. À medida que se "alimentava", a luz escurecia e aumentava de tamanho. Quando toda a fumaça foi consumida, a esfera media uns dez centímetros de largura por uns vinte centímetros de altura, além de não se parecer mais com uma esfera. Agora tomava o formato de um quadrado
O "quadrado" começou a sugar algumas gotas da água do mar. E então apenas gotas não eram mais suficientes. Após "beber" vários litros de água salgada, a "esfera" deu-se por satisfeita. Sua aparência estava bastante estranha. Ainda a de um quadrado, mas em metamorfose.
Lentamente, durante alguns minutos, o "quadrado" foi se alongando aqui e ali, até ter a forma de... um humano.
Aquela luz agora estava com a forma de uma criança humana de uns sete anos de idade, mas sem cavidades nem nada, apenas como se contivesse ossos cobertos por pele. A imagem não era muito agradável.
- Que interessante. - exclamou Hitomi, observando tudo atentamente - Ele está tentando nos copiar. Usa qualquer coisa que tenha por perto. Vamos ver até onde ele vai...
Mas as mutações não se estenderam muito mais. A "criança de luz" ingeriu o equivalente a um balde de areia, algumas pedras que estavam espalhadas pela praia, e o que pareceu ser, simplesmente, um litro dear
Ao terminar a "refeição", a luz estava mais parecida com uma criança. Parecia um boneco de areia, é verdade, mas já estava mais... bonitinha e... humana
A "criança" abriu os olhos, revelando íris da cor das estrelas, e caminhou a passos hesitantes até Hitomi, que estava mais próximo dela.
Hitomi se agachou para ficar da mesma altura da "criança", sorriu e disse:
- Oi...
ooo0O0ooo0O0ooo0O0ooo0O0ooo0O0ooo0O0ooo
