A multidão em volta fazia um tremendo barulho. Era a primeira vez que Rachel ia a uma partida de futebol americano do time do colégio. Ou de qualquer outro time. E, para falar a verdade, ela estava gostando.
A energia que as pessoas desprendiam era incrível. Eles batiam palmas e cantavam em coro, numa harmonia perfeita. Agora Rachel podia entender o porquê daqueles jogadores fazerem tanto sucesso no colégio.
Era como estar num show musical, sendo que a tensão ali, pela incerteza do resultado da partida, era mil vezes maior, o que deixava tudo ainda mais empolgante. Rachel não entendia muito bem o que estava acontecendo, uma vez que não conhecia direito as regras do jogo, muito menos Kurt e Mercedes, que a estavam acompanhando, mas achava que a disputa estava acirrada.
Ela também não podia precisar se Finn estava fazendo uma boa partida ou não, mas pela reação do resto das pessoas, Rachel acreditava que sim. De onde estava sentada, Rachel podia ver Quinn e o resto das líderes de torcida à beira do campo. Elas também eram boas no que faziam, não por acaso ganharam vários campeonatos nacionais consecutivos.
Neste momento, Rachel ouviu a torcida explodir em gritos e voltou de novo a atenção para os jogadores, que comemoravam. Kurt e Mercedes também pulavam e batiam palmas com entusiasmo.
– O que aconteceu? – Rachel perguntou.
– Não faço ideia! – respondeu Kurt, ainda olhando para o campo. – Mas deve ter sido alguma coisa boa!
Rachel riu do amigo e olhou para o campo outra vez. Finn parecia feliz e recebia os cumprimentos de seus companheiros, bem como da treinadora Bieste. Ela olhou para o placar, mas aquele monte de números não fazia o menor sentido, apenas o cronômetro era decifrável e, de acordo com ele, não faltava muito tempo para a partida terminar.
– Nós estamos ganhando ou perdendo? – ela perguntou a Kurt novamente.
– Eu acho que ganhando, mas por muito pouco.
A informação deixara Rachel ansiosa. Quer dizer então que ainda corriam o risco de perder. Ela gostaria que Finn ganhasse a partida, ele estava mesmo precisando de momentos felizes como aquele. Ela olhou em volta e viu ansiedade no rosto das outras pessoas também. Alguns, inclusive, gritavam e xingavam o juiz da partida e às vezes até mesmo os jogadores. As emoções em uma partida de futebol chegavam a níveis impressionantes, pensou Rachel.
Apesar de toda a atmosfera envolvente, ela percebeu que aquele esporte era bastante perigoso, até mesmo brutal. Rachel não pôde evitar se perguntar como eles não saíam dali direto para o hospital.
Talvez fosse por toda daquela parafernália que usavam embaixo da roupa, além do capacete. Ainda assim, ocorriam acidentes graves, como ela, inclusive, já ouvira falar. Finn comentara sobre um amigo dele, chamado Sean Fretthold, que ficara paraplégico após uma dura colisão, durante uma partida.
Rachel estremeceu. O pensamento fez com que ela desejasse ainda mais o final da partida, para que nada acontecesse a Finn. O que era idiotice, ela sabia, afinal, aquele não seria, nem de longe, o último jogo do rapaz.
Foi nesse momento que ela finalmente ouviu o barulho do cronômetro anunciando o fim do jogo. Enquanto Rachel suspirava de alívio, a torcida urrava, gritava, pulava, assoviava e comemorava a vitória apertada. Abaixo deles, no campo, os jogadores e a comissão técnica faziam o mesmo.
Rachel sorria para eles e batia palmas, quando viu Finn sair do meio dos companheiros, já sem o capacete, aproximar-se do local onde o trio de amigos estava e apontar para ela. Rachel paralisou imediatamente.
– Ele está dedicando a vitória a você! – Kurt exclamava.
Foi um momento que Rachel lembraria para sempre. Ela sentia o olhar de todas as outras pessoas em volta dela, mas não prestava atenção em ninguém. Ela olhava apenas para Finn, que a olhava de volta, com um largo sorriso. Mesmo de longe, a troca de olhares entre os dois era intensa. Pelo menos no ponto de vista de Rachel.
Ele se lembrara dela, bem ali, naquele momento de êxtase, quando havia acabado de ganhar uma partida, ele arrumara espaço para compartilhar o momento com ela.
– Acene de volta. – Rachel ouviu Mercedes dizer a ela.
A garota levantou a mão e acenou. Ele acenou para ela também. Apenas durante as competições do Glee Club, Rachel sentira tamanha emoção como naquele momento. Ela sentia o coração bater tão rápido e tão forte que temia que ele saísse pela boca.
Foi então quando Finn quebrou o contato visual entre os dois e olhou na direção de Quinn, que observava a cena ao longe. Rachel sentiu seu mundo desabar no mesmo instante, o coração falhando algumas batidas.
Mas que idiota ela era! Acreditar que ele tinha realmente pensado nela naquele momento! Ele pensara em Quinn, é claro. Tudo aquilo, toda aquela cena, não era para Rachel, era para Quinn, para fazer ciúmes nela.
Por um momento, Rachel duvidou se deveria mesmo continuar com aquele plano. Se ela estava se sentindo daquele jeito quando as coisas ainda estavam no começo, quando eles ainda nem tinham começado a "namorar", imagina como não seria quando isso acontecesse.
Havia noites que Rachel ficava deitada na cama imaginando que, em poucos dias, ela iria finalmente beijar Finn. Não importava o motivo, ela iria de fato beijá-lo, como sempre havia sonhado fazer. Mas Rachel se perguntava agora se suportaria o fato de saber que Finn estaria beijando ela, mas pensando em outra.
– E aí, cara.
Finn olhou para cima e viu seu melhor amigo, Puck, parado ao lado da mesa em que ele, Rachel, Kurt e Mercedes estavam sentados, no refeitório.
– E aí. – Eles fizeram um cumprimento diferenciado com as mãos, um que costumavam fazer havia anos. Não era apenas um aperto de mãos, havia estalos também, e terminava dando soquinhos uma mão na outra.
Depois disso, Puck olhou para os outros, com um ar superior, e não falou nada a nenhum deles.
– Você vai sentar aqui de novo?
Puck não entendia o que estava acontecendo com o amigo. Ele agora andava para cima e para baixo com a patota de fracassados do colégio e isso era inadmissível. Ainda que um deles fosse seu irmão.
No começo, Puck decidira não falar nada, porque ele acreditava ser passageiro. Finn estava passando por um momento difícil depois que Quinn terminou com ele, era normal que se sentisse meio desnorteado. Mas aquela cena depois do jogo de futebol acendera o alerta vermelho na mente de Puck. Finn precisava de ajuda. Afinal de contas, ele tinha sua parcela de culpa por Finn estar daquele jeito, pensou Puck, enquanto lançava a Quinn um olhar discreto.
– Não está na hora de você voltar para a nossa mesa de sempre? A mesa das pessoas importantes. – ele adicionou, sem a menor cerimônia, olhando para os demais.
– Eu estou bem, aqui. – Finn respondeu.
– Mas, Finn...
– Está tudo bem, Puck. – Finn interrompeu. – De qualquer forma, não acho que Quinn queira a minha presença naquela mesa.
Puck olhou para Quinn, depois de volta para Finn.
– É, talvez não.
– Vá você para lá. A gente se fala depois.
Puck respirou fundo, mas concordou. Ele deu meia volta e foi embora, sem se despedir de ninguém.
– Você não precisa se afastar de seus amigos, Finn. – falou Rachel. – Ainda que eu não concorde com várias atitudes deles, principalmente de Puckerman, eles ainda são seus amigos.
– Eu sei. – Finn olhava para ela. – Não é apenas pelo fato de Quinn provavelmente não me querer lá. Eu também quero ficar aqui.
Rachel sorriu.
– Bom, – ela encolheu os ombros. – se é assim.
Era assim. E esse fato não surpreendia apenas à Rachel, mas a ele também. Em dado momento daquelas semanas que ele passara com Rachel, Finn se pegara desfrutando da companhia dela. Às vezes ela falava demais, era verdade, muitas vezes sobre ela mesma e sobre os planos que ela tinha para o futuro, mas Finn gostava. Significava que ele não precisaria ficar preso a pensamentos que o desanimavam.
Rachel, surpreendentemente, o deixava à vontade e o divertia. Finn sorriu ao se lembrar do dia em que ela estivera na casa dele e os dois jogaram video game. Ele não estava acostumado a jogar com uma mulher, Quinn nunca se interessara por video games. Mas Rachel, apesar de inexperiente, parecia estar se divertindo.
No entanto, ela não levava a coisa na brincadeira, não se enganem. Até mesmo no que se referia a isso, o instinto de competição e a vontade de vencer daquela garota eram visíveis. Ela não era boa em nenhum dos jogos, e isso era algo que Finn nunca ousaria comentar com ela, mas se concentrava ao máximo no que estava fazendo e dava tudo de si.
Várias vezes, Finn a deixara ganhar, porque ele gostava de ficar observando seu sorriso triunfante, os olhos brilhando, enquanto ela comemorava. Finn se divertia ao pensar que ela realmente acreditava que o vencia. Mas fazia sentido, já que Rachel era convencida demais de si mesma para achar que vencera apenas porque outros haviam deixado.
Finn dava gargalhadas ao observá-la tentando pilotar, com o controle, o carro de um game de corrida. Ela acompanhava com o corpo cada movimento que fazia com o carro. Se o carro fosse para a direita, ela inclinava o corpo todo para a direita, e o mesmo acontecia quando o carro ia para a esquerda. Finn também gostava da expressão irritada que ela fazia quando ele ria. A testa ficava franzida, ela mordia o lábio inferior e as maçãs do rosto adquiriam uma leve coloração rosada.
– A semana já está acabando. – comentou Kurt, trazendo Finn de volta para a conversa. – Na próxima, já vai ser hora de que vocês passem a andar por aí como namorados.
Finn e Rachel se olharam, envergonhados. A cada dia que passava, ela ficava mais nervosa. Fora apenas há dois dias atrás que Rachel se dera conta de que aquela seria a primeira vez que ela teria um namorado. E seria um de mentira! Ela não conseguia acreditar que não tinha percebido isso antes. Seu primeiro namorado seria falso. Seu primeiro namorado estaria com ela porque, na verdade, queria outra.
Pelo menos não seria seu primeiro beijo.
Rachel procurou afastar o pensamento deprimente e respondeu:
– Acho que isso deixará várias garotas decepcionadas. Eu ouvi no banheiro, hoje mais cedo, duas meninas conversando. Não vou repetir as palavras ofensivas que comentaram a meio respeito, vamos dizer apenas que elas não estão nem um pouco contentes com o fato de Finn estar andando comigo ultimamente. Elas estavam bolando alguns planos para te conquistar, mas não sabem como chegar perto, uma vez que eu estou sempre por perto. Imagina como ficará a situação quando estivermos namorando.
Finn pôs a mão nas costas dela, o que fez o coração de Rachel bater um pouco mais rápido.
– Sinto muito que tenha que ouvir certas coisas por minha culpa. – ele disse.
Rachel riu.
– Não seja bobo. Já estou acostumada a que falem mal de mim, não foi a primeira vez, nem será a última. Você não faz ideia dos desenhos que já vi no banheiro, alguns até mesmo pornográficos.
Finn achou melhor não comentar ter ouvido Quinn falar dos desenhos que costumava fazer de alguns dos integrantes de clube do coral. Apenas Kurt escapava, já que era irmão de Finn.
Ele percebeu que ainda tinha a mão nas costas de Rachel e a retirou.
– Mesmo assim. Não é legal ficar ouvindo esses comentários.
– Talvez no começo não tenha sido, mas você acaba se acostumando, acredite. – riu Mercedes, recebendo a concordância de Rachel e Kurt.
– Uma hora você nem se importa mais. – completou Kurt.
Finn deu um sorriso fraco. De repente, ele temeu por si. Será que estar andando tanto com aquelas pessoas iria refletir em sua popularidade? Finn não suportaria ter que "se acostumar" a receber determinados comentários. Ele era amigo de Puck e, até pouco tempo atrás, era namorado de Quinn. Sabia muito bem como eles podiam ser maldosos com as palavras.
Finn estava andando por um corredor vazio, pensando em como Quinn ainda não havia demonstrado interesse na relação dele com Rachel, quando viu alguns garotos do time de futebol jogarem raspadinha em alguém. Ao olhar melhor, ele reconheceu as meias até o joelho, a saia xadrez e o casaco de lã amarelo.
Rachel!
– Ei! – ele correu até eles.
Ao verem-no, os jogadores começaram a rir.
– Chegou o herói Finn.
– Cala a boca, Karofsky! Deixem-na em paz. – Finn o empurrou.
– Cuidado, Finn! Acho bom você voltar a escolher melhor as companhias. – Karofsky olhou para Rachel, que tentava tirar o gelo vermelho dos olhos.
– É isso mesmo. – falou um outro jogador. – Você não vai querer se misturar com certas pessoas.
Aquelas palavras foram como mexer na ferida de Finn. Era algo que ele estivera considerando o dia todo. Finn dava muito valor a sua popularidade como para não se preocupar com a mínima possibilidade de perdê-la. Mas, então, ele olhou para Rachel, toda ensopada de raspadinha, encolhida junto à parede, com o lábio inferior trêmulo. Finn sentiu uma necessidade de protegê-la que nem mesmo ele soube explicar.
– Eu disse: – ele se dirigiu aos companheiros de time, com voz firme. – fiquem longe dela.
Os rapazes trocaram olhares entre si, até que Karofsky respondeu:
– Você é quem sabe, Finn. Mas depois não diga que não avisamos.
Ele lançou um último olhar à Rachel, o que fez a garota se encolher ainda mais, e foi embora junto com os outros.
Finn rapidamente se aproximou dela e passou um braço pelos seus ombros. Ele sentiu que o corpo dela tremia levemente, talvez pelo frio causado pelo gelo, talvez pela experiência que acabara de vivenciar, talvez pelos dois.
– Está tudo bem, Rachel, vamos. – Finn falava com ela num tom tranquilizador. – Vamos limpar isso.
– Eu tenho outra roupa no meu armário. – Rachel levantou o rosto para olhá-lo. – Aprendi a me prevenir. – ela sorriu.
Finn sentiu o coração apertar. Rachel era tão pequena e, naquele momento, parecia tão indefesa. Como as pessoas tinham coragem de fazer aquilo com ela? A vontade de protegê-la aumentou ainda mais ao ver seu sorriso hesitante.
Ele sorriu de volta.
– Vamos pegar, então.
Ele acompanhou Rachel até o armário, esperou que ela recolhesse a roupa que estava guardada lá dentro e depois os dois caminharam até o banheiro feminino, tudo sob o olhar dos demais, que cochichavam ao vê-los passar.
Já dentro do banheiro, vazio naquele momento, Finn olhou em volta.
– Acho que eu nunca estive aqui antes. – ele riu, com as mãos na cintura, e olhou para Rachel. – É bem mais limpo do que o banheiro masculino.
– Pelo fedor que dá para sentir da porta, eu imagino que seja.
Finn riu e fez uma careta.
– Nem me lembre. – ele a observou colocar as roupas limpas em cima do balcão das torneiras. – Primeiro você vai lavar o rosto e o cabelo ou trocar de roupa?
– Primeiro o rosto e o cabelo. – Rachel procurava, em seus pertences, alguma coisa para prender as mechas, enquanto ela estivesse passando água no rosto. O cabelo já estava um trapo, mas quanto menos molhasse, melhor. – Assim, quando eu colocar a roupa, ela não suja também.
– O que você está procurando?
– Alguma coisa que prenda meu cabelo, para não molhar mais do que o necessário, enquanto lavo o rosto. Talvez não adiante de nada, já que vou ter que passar água no cabelo também, mas vou tentar manter seca pelo menos as partes sem raspadinha.
– Tá tudo bem, eu seguro. – ele se aproximou de Rachel, esperando que ela se virasse de costas para ele. – E então, vai ou não vai lavar? – ele perguntou, divertido pela falta de reação dela.
Rachel temia começar a chorar a qualquer momento. As emoções dela já estavam em ebulição desde que ela vira aqueles garotos enormes, no mínimo cinco deles, aproximando-se dela com um copo de raspadinha na mão. Por mais que não fosse a primeira vez, de todas as formas de bullying sofridas por ela, a raspadinha era o pior.
Então, Finn aparecera em seu resgate, defendendo-a daqueles brutamontes, e depois a acompanhara até ali, nem se importando por estar entrando no banheiro feminino. Agora ele se voluntariava para segurar-lhe o cabelo, enquanto ela lavava o rosto. De todas as pessoas que podiam estar fazendo aquilo, era Finn quem estava ali! Rachel o imaginou como sendo seu cavaleiro medieval, que chegava imponente, montado num cavalo branco, pronto para defendê-la dos perigos que a ameaçavam.
Ela riu com o pensamento.
– O quê? – Finn perguntou.
– Nada. – ela respondeu, virando-se de costas para ele. – É só que eu nunca imaginei que um dia você fosse me ajudar com essas coisas. Logo você!
– Ah... – Finn sentiu-se constrangido. – Sei.
Quantas vezes teria ele visto-a sendo atacada pelos outros sem fazer nada? Finn sentiu o estômago contrair ao pensar que ele mesmo podia ter feito alguma coisa contra ela, algo que agora não conseguia lembrar.
Enquanto segurava o cabelo de Rachel com as mãos e a observava se inclinar e passar água no rosto, Finn não teve coragem de perguntar se alguma vez a tinha maltratado intencionalmente. Ele temia que a resposta fosse sim.
