Capítulo IV
Foi em meio a um intenso nevoeiro que Severo deixou Luna em Londres, praticamente na mesma rua onde ficava o pub trouxa em que haviam se encontrado. Haviam combinado de se encontrar dali a duas semanas, no mesmo local, apesar dos protestos de Snape. Luna o convencera de que chamariam menos atenção naquele lugar, já que haviam estado juntos lá uma vez. Era certo que pensariam que eram conhecidos, ou até algo mais, mas esse algo mais ela resolveu esconder deliberadamente de seu professor.
Eles tinham acabado de desaparatar e Snape estava retirando sua mão da cintura dela quando, de surpresa, Luna deu-lhe um beijo no rosto. Sem esperar que ele retribuísse, ela se afastou dizendo:
― Até quinta, professor - sorriu, encarando pretos atônitos. - Vou tentar preparar o terreno com os outros. Até! - Luna se afastou rapidamente enquanto acenava para ele.
Severo viu-a sumir no nevoeiro, perguntando-se o que exatamente Luna queria dizer com preparar o terreno, e sem perceber passou a mão sobre o beijo que ela lhe dera. Decidiu que seria melhor manter seus pensamentos longe da menina, já tinha problemas demais em sua mente. Num estalido seco, deixou o centro de Londres.
Luna olhava atentamente o rosto da senhora Weasley, que teimava em lhe sorrir e se perguntava: Será que ela acreditaria em Severo? Já havia quatro dias que tivera aquela entrevista com o antigo professor de Poções e, para sua frustração, não soubera ainda como abordar o assunto diante de nenhum membro da Ordem. A impressão que tinha era a de que todos iriam rir dela, ou pior, poderiam não lhe dar crédito algum. Procurou atentamente por alguém na mesa que lhe inspirasse confiança, alguém com quem realmente pudesse contar, e um por um riscou-os de sua mente. Bufando, murmurou alguma desculpa idiota e deixou a mesa da Toca. Precisava de ar puro. Numa passada rápida, alcançou os jardins que se estendiam por toda a volta da casa. Lá fora, a lua brilhava intensamente, jogando sua luz prateada sobre a relva. Luna sentou-se sobre um tronco de árvore cortado e se deixou ficar ali fitando as primeiras estrelas no céu. Depois, se pegou pensando em como seria horrível ficar só em Hogwarts, vagando pelos corredores, sem ter com quem conversar e a imagem do professor, debruçado sobre a pilha de livros, surgiu em sua mente. Foi tirada de seus pensamentos pelo estalido seco de um galho partindo e virou-se para o lado. Seus olhos azuis encontraram os castanhos de Gina, que parou em frente à Luna, interrogando-a:
― Pode ir desembuchando o que está acontecendo - inquiriu a menina sardenta. - Eu estou te achando muito estranha desde o dia em que você resolveu passear em Londres - sussurrou Gina, fitando a amiga que olhava para os pés, e completou: - Vamos, Lu, conte o que realmente está acontecendo.
Os olhos de Luna vagaram pela escuridão da noite até se voltarem novamente para Gina. Piscou algumas vezes antes de falar.
― Gina, eu não sei como começar a contar isso - Luna balbuciou -, mas tenho uma forma de ajudar Harry na busca pelas Horcruxes... - e fitou a amiga, que lhe dirigiu um olhar intrigado. Pôs-se de pé e andou chutando um pouco da grama fofa. - Só há um problema, para minha segurança e a dela, eu não posso revelar a fonte de minhas informações.
― Luna, você está me assustando! - Gina estava vendo somente as costas de Luna; os cabelos loiros caíam-lhe ao longo dos ombros. - No que você anda metida? Isso é uma guerra Luna, todos estão preocupados e procurando ajudar de alguma forma. Veja Harry, ele está lá em Godric's Hollow com a Mione e o Ron, tentando descobrir alguma coisa sobre essas Horcruxes e até agora nada! - Gina tomou fôlego antes de completar: - Como você pode conseguir informações sobre elas somente indo a Londres?
Luna olhava a amiga atentamente, estava quase desistindo de tudo, mas lembrou-se de Severo e disse firme:
― Ele quer ou não quer saber onde estão as Horcruxes? - Os olhos azuis de Luna se tornaram intensos e desafiadores.
― Todos queremos, Luna - rebateu Gina -, só estou com medo que esteja se metendo em encrenca, afinal, eu sou sua amiga e me preocupo contigo.
― Eu vou ficar bem - respondeu Luna baixinho. - Eu posso levá-los até elas, mas preciso que confiem em mim.
― Você não pode nos contar quem as fornece? - a amiga perguntou mais uma vez.
― Não! - a garota disse abruptamente. - Isso faz parte do meu acordo com a pessoa. Ela me fornece o local do esconderijo e eu passo para Harry. Simples, não?
― E o que você dará em troca disso? - Luna havia se virado e Gina, inquisitória, a encarava.
― Isso... - Luna devolveu-lhe o olhar -, é um problema só meu. No entanto, quando chegar a hora certa todos saberão a verdade, eu prometo.
― Luna, não querendo desanimá-la... mas acho difícil que Harry aceite essas informações como verdadeiras - Gina sentiu pena da amiga ao dizer isso, mas era verdade. Duvidava que qualquer pessoa seguisse Luna nessa empreitada. - Talvez fosse melhor convencer seu informante a encontrar com Harry, quem sabe assim não fica bom para todos?
Luna encarou Gina com os olhos azuis brilhantes e acenou negativamente com a cabeça, dizendo:
― Não. Eu vou arrumar um jeito de provar a vocês que isso é uma coisa séria. - Luna se dirigiu de volta à Toca, mas Gina a deteve.
― O que está pensando em fazer, Luna?
― Ajudar um amigo - rebateu firme, livrando-se das mãos da amiga. Gina ainda ficou olhando-a de longe e a viu entrar em casa. O que Luna estará aprontando? - pensou enquanto tomava o mesmo caminho que a amiga.
A lua já ia alta quando um vulto desceu pelas escadas da Toca usando uma capa verde escura, e desapareceu em questão de segundos, saindo para a noite fria.
Mãos fortes estavam crispadas sobre o pote vidro fechando-o com uma tampa de cortiça enquanto saía da Floresta Proibida. Não era uma tarefa fácil conseguir excrementos de unicórnio, mas Snape sempre se saía bem. Em passos rápidos, contornou a orla da floresta e tomou a direção do castelo. Um estalido seco o fez parar e se esconder na penumbra das árvores, segurando a varinha por baixo da veste. Com passos firmes, deslizou até os portões da propriedade, de onde vinha o barulho, e parou enxergando o vulto, mas dispensou o uso da varinha: pelas laterais do capuz escuro, ele pôde ver cabelos de um loiro muito pálido e reconheceu a pessoa imediatamente. Com passos rápidos, ele alcançou os portões, vendo o vulto baixar o capuz e fitá-lo angustiado, murmurou algumas palavras e a pesada grade de ferro se moveu suavemente. Sua voz soou o mais rude possível:
- O que faz aqui, senhorita Lovegood?
Os olhos deles se encontraram e lágrimas começaram a escorrer dos de Luna, que se atirou nos braços dele. Sem saber o que fazer, e pego de surpresa com a atitude dela, Snape hesitou em abraçá-la. Os soluços cruzavam o corpo da menina junto ao seu, mas entre eles, a voz dela saiu fraca, suplicando:
- Me abrace, Severo - ela aninhou a cabeça em seu peito, enlaçando-o pela cintura e completou: - Por favor.
O silêncio os cercou enquanto ele a abrigava gentilmente em seus braços, encostando seu rosto na cabeleira extremamente loira. Seus cabelos negros caíam como cortinas por sobre os dela, contrastando imensamente com eles. Há muito tempo que Snape não sentia alguém em seus braços, e o cheiro do perfume dela o fez desejar que aquele momento durasse o resto da noite.
