Entre Nós

Capítulo 4

Depois que Chad fora embora, Jared tomou um banho relaxante e, como estava sem fome, foi cedo para a cama, decidido a tentar dormir.

Logo que pegou no sono, começaram os pesadelos... E desta vez não eram apenas sussurros ou vozes perturbadoras, eram imagens confusas de um acidente, onde havia um caminhão, barras de ferro e alguém muito ferido... Havia sangue... muito sangue... De repente as imagens se transformaram em um rosto conhecido... Com sardas e um lindo par de olhos verdes, de onde vertiam lágrimas... Lágrimas de desespero.

Podia ouvir os soluços vindos daqueles lábios tão perfeitos, e só queria entender o porquê de tanto sofrimento... Podia sentir a angústia e a dor em seu peito, queria poder abraçá-lo e fazer aquela dor ir embora, mas a imagem foi ficando ofuscada e distante, até que os sussurros voltaram e Jared acordou assustado, com aquela voz em sua cabeça... "Ele precisa de você".

Jared se levantou da cama e foi até a cozinha, onde tomou um copo de água gelada. Percebeu que suas mãos tremiam e Sadie o encarava, sentada na porta da cozinha. Ela nunca o deixava sozinho nesses momentos, e aquilo, de certa forma, era um tipo de conforto.

Voltou para a cama e puxou a cachorra para que se deitasse com ele. Não sentia medo, mas ainda estava um pouco assustado. Queria que fosse apenas um pesadelo, mas sabia que nada nunca era tão simples.

Deixou-se levar pelo sono novamente, mas assim que fechou os olhos, a voz voltou, ainda com mais intensidade...

-x -

Jensen tentou não demonstrar, mas tinha ficado perturbado demais por ter ido ao cemitério. Não pisava lá desde que Justin fora enterrado, pois aquele lugar carregava uma tristeza muito grande, e trazia lembranças que quase não podia suportar.

De madrugada, já cansado de rolar na cama e lutar contra a insônia, por fim decidiu se levantar. As lembranças do enterro de Justin não saiam da sua cabeça... O desespero da família e dos amigos dele, o caixão sendo coberto de terra... E a sua pior angústia que era a culpa o corroendo por dentro, sabendo que não teria uma chance sequer para consertar seus erros, para pedir perdão, para dizer a ele o quanto o amava.

A dor dentro de si era tanta que não tinha conseguido derramar uma lágrima, nem durante o velório, nem durante o enterro. Talvez tivesse chorado tudo o que podia quando recebeu a notícia da sua morte, ou talvez seu coração simplesmente tivesse secado. Não se sentia digno de chorar, de buscar algum alívio para aquela dor.

E agora, lembrando de tudo aquilo, a tristeza e a culpa tinham voltado a rasgar seu peito, sem piedade. Não conseguia ver uma luz no fim do túnel... Talvez estivesse mesmo destinado a sofrer pelo resto dos seus dias.

Olhou para o frasco de remédios em cima do criado mudo... Antidepressivos. No início eles o ajudavam um pouco, mas agora nem sequer sentia algum efeito. Pegou o frasco e despejou os comprimidos na mão... Quem sabe se tomasse todo o conteúdo, talvez pudesse ter uma boa noite de sono, e esquecer quem era pelo menos por algumas horas... Ou quem sabe não acordasse nunca mais, e aquela dor acabasse para sempre? Qualquer das opções traria algum tipo de alívio.

Pegou a garrafinha de água que sempre levava para o quarto e ia levando os comprimidos até a boca quando a campainha tocou. Quem diabos poderia ser àquela hora? Jensen pensou que só poderia ser engano, então colocou o roupão sobre o pijama e foi até a porta, desejando se livrar o mais rápido possível de quem quer que estivesse ali.

- Jared? – O loiro olhou espantado para a figura do moreno suado e ofegante, como se tivesse vindo correndo até ali. – Mas que diabos...?

- Será... que... eu posso entrar um pouquinho? – O mais novo pediu, sem saber exatamente o que dizer.

Jensen deu passagem para que o outro entrasse e fechou a porta atrás de si, sem entender o que estava acontecendo.

- Você veio correndo? Aconteceu alguma coisa? Está fugindo de alguém? – A voz do loiro de repente se tornou preocupada.

- Eu vim... correndo, mas... Não, não estou fugindo de ninguém. – Jared de repente se sentiu tão ridículo e patético por dizer aquilo, só estava esperando o momento de Jensen colocá-lo para fora de sua casa.

- Então... O que você faz aqui a essa hora?

- Eu... é... Você estava dormindo?

- Jared, olha... Eu mal te conheço. Te dei uma carona no outro dia e hoje eu fui te buscar no cemitério porque o Chad parecia muito preocupado, mas... Isso não te dá o direito de aparecer na minha casa no meio da madrugada, e...

- Eu sei! Eu sei... Me desculpe! Mas... Jensen... Porra! Eu não sei como dizer isso sem parecer... Eu... É... E-eu tive um tipo de... Como eu posso dizer... Um pressentimento ruim.

- Jared, mas que diabos...? - Jensen não estava entendendo nada.

- Eu sei que isso parece loucura, mas... Eu só queria ter certeza de que estava tudo bem com você.

- O quê? Então você tem um pressentimento ruim, sem qualquer motivo, e resolve aparecer na minha casa de madrugada? - O loiro parecia um pouco assustado e confuso.

- Não é sem motivo, você não entenderia, mas esses pressentimentos sempre tem algum fundamento, infelizmente. Eu sei o que está parecendo, e... - Jared se amaldiçoou por ter seguido seus instintos e ido até ali. Estava fazendo papel de idiota.

- Eu quero você fora da minha casa agora!

- E-eu... Certo, você... Você tem razão. Me desculpe! – Jared foi saindo e se odiou por ter dado ouvido àquelas malditas vozes na sua cabeça mais uma vez.

Se Jensen já o achava um sujeito estranho e o ignorava na empresa, agora mesmo é que nunca mais olharia para a sua cara.

Assim que pisou fora da casa, ouviu a porta se fechar com força atrás de si e o seu coração apertou.

Refez o mesmo caminho, desta vez sem correr. As lágrimas embaçavam seus olhos e ele nem sequer sabia por que estava chorando. Talvez por ter sido tão estúpido e afastado Jensen da sua vida para sempre. Mas por que aquilo doía tanto?

- x -

Jensen voltou para o quarto, juntou os comprimidos novamente no frasco e o atirou contra a parede, descarregando sua raiva. Não sabia como Jared tinha aparecido ali justamente naquele momento, como se soubesse o que pretendia fazer, e nem mesmo queria saber, só estava arrependido por não ter socado a cara dele antes de colocá-lo para fora.

A dor, agora somada à raiva, querendo explodir dentro do peito...

Quem aquele cara pensava que era para aparecer na sua casa no meio da noite? Pressentimentos... Ele só podia ter algum problema mental, ou era algum tipo de psicopata e o estava vigiando sem que ele soubesse. Por um momento o loiro sentiu medo dos próprios pensamentos, mas por outro lado, como ele saberia que estava prestes a fazer uma bobagem?

- Coincidência. Só pode ser coincidência. – Jensen falou para si mesmo. Não havia outra explicação... Pressentimento? – Forçou uma risada alta. Não acreditava nestas coisas. Nunca acreditou e não seria agora que passaria a acreditar.

Era melhor esquecer que Jared estivera ali. Ou melhor, esquecer que aquele homem existia. E se o moreno não parasse de persegui-lo, faria uma denúncia na empresa e eles com certeza o demitiriam. Era somente um auxiliar de depósito e logo contratariam outro, sem qualquer problema.

- x -

- Sadie, pegue as suas coisas que nós vamos embora. – Jared falou ao entrar em casa e apanhou uma mala que guardava embaixo da cama, começando a jogar suas coisas dentro, com raiva. Estava tão acostumado a ter somente ela em sua vida que às vezes se esquecia que era um animal.

Só parou de juntar suas coisas quando viu a cachorra sentar ao lado da mala e o olhar com aquela carinha de cão sem dono, como se perguntasse "O que está acontecendo?"

As lágrimas voltaram e Jared parou o que estava fazendo, sentando-se na cama e puxando Sadie para perto de si.

- Eu sei... Não adianta fugir, não é? Pra onde quer que eu vá, eles sempre me encontram... Maldição!

O moreno fez carinho na cabeça da cachorra, que soltou um uivo baixinho.

- O que foi que eu fiz? Por que é que eu fiz a besteira de ir até lá? Hein? Por que é que eu sempre tenho que estragar tudo? Agora ele me odeia e talvez até mande me demitirem... Afinal ele é o gerente e eu sou um simples e ferrado auxiliar de depósito. Que se foda! Se isso acontecer nós dois procuraremos outro lugar e começaremos tudo de novo, não é? Não vai ser a primeira e nem a última vez. – Jared sorriu quando Sadie colocou o focinho sobre a sua coxa. – É, eu também gostei deste lugar. Por um momento até acreditei que tudo seria diferente, mas... É o nosso destino, não é minha garota? – O moreno coçou perto das orelhas do animal. – Ou o meu destino... Eu te avisei que você deveria ter ficado com o Tom. Mas você é ainda mais teimosa do que eu, não é?

Jared se levantou e começou a guardar as roupas novamente no armário, voltando a colocar a mala embaixo da cama. Sabia que não adiantava fugir... Para onde iria, afinal? Era sozinho no mundo e pela primeira vez se sentira realmente bem em algum lugar, além de ter feito pelo menos um amigo verdadeiro ali.

No sábado à tarde, recebeu a visita de Chad e tentou fazer de conta que estava tudo bem. Não contou ao amigo o episódio de sexta de madrugada, preferiu não falar e tentar não pensar mais no assunto, e também, no fundo, tinha medo de como o amigo reagiria àquilo. Não gostava de mentir, mas algumas vezes isso se tornava necessário. Não podia perder a única coisa que realmente valia à pena naquele lugar, que era a amizade de Chad.

Quando voltou ao trabalho, na segunda-feira de manhã, executou seus serviços normalmente, mas ficou esperando o tempo todo que o chamassem no setor de recursos humanos para demiti-lo, o que, para seu alívio, não aconteceu.

Poderia arranjar outro emprego, mas de certa forma já estava cansado de tanto ir de um lugar para o outro, por isso preferia tentar manter o que tinha ali. Não era um homem ambicioso, se contentava com um trabalho que lhe pagasse as contas, talvez porque nunca conseguira se manter em algum lugar por muito tempo.

No horário do almoço, ao passar por Jensen, não conseguiu sequer olhá-lo nos olhos, mas percebeu que o loiro também fez de conta que não o viu, reação que Jared já esperava.

Chad tinha reparado desde cedo que algo não estava bem, mas logo notou que Jared não queria falar a respeito do que quer que tivesse acontecido, então resolveu respeitar sua vontade. Tinha certeza que se Jared quisesse conversar, sabia que podia contar com ele para qualquer coisa.

As piadinhas dos "colegas" de trabalho à respeito do que aconteceu no cemitério também não estavam ajudando em nada. Cada vez que Jared passava perto de algum deles, podia ouvi-los rindo da sua cara e falando coisas como: "O gasparzinho mandou lembranças" ou "Os fantasmas assustaram você?" e coisas do tipo.

Não podia culpá-los, tinha sido uma brincadeira estúpida e sem graça, mas nenhum deles poderia adivinhar o que se passava com ele, ninguém entenderia a sua fobia a cemitérios, a não ser como um medo tolo de fantasmas.

Poderia superar isso. Já havia passado por situações piores e já estava acostumado com a rejeição das pessoas.

As coisas só pioraram quando, no final da tarde, ainda durante o expediente de trabalho, as vozes voltaram. Sentiu sua cabeça rodar, sem entender o que lhe diziam, então foi até o banheiro, pois não queria que ninguém, nem mesmo Chad, percebesse o que estava acontecendo.

As vozes eram confusas, mas uma delas se destacava, a mesma que havia insistido para que fosse à casa de Jensen na madrugada de sábado. Tentou ignorá-las, mas elas se tornaram mais fortes, fazendo sua cabeça doer.

Passou água fria pelo rosto, na tentativa de se acalmar. Fazia tempo que sua mente não era invadida daquele jeito, e pensou que fosse enlouquecer.

Num gesto desesperado, tapou os ouvidos com as mãos, pedindo para que parassem.

- Chega! Me deixem em paz! Por favor, me deixem em paz! – Jared se encostou na parede e deixou seu corpo escorregar até o chão, sem forças para lutar contra aquilo.

Para o seu desespero, no mesmo momento em que gritara, Matt e Richard entraram no banheiro, logo chamaram outros e por fim havia um bando de curiosos o observando, comentando que ele tivera um acesso de loucura.

Alguém devia ter chamado ajuda, e dois enfermeiros adentraram o local, fazendo com que o movimento das pessoas se dispersasse. Antes que todos saíssem, para o seu desespero, seu olhar cruzou com o de Jensen, que também tinha vindo verificar o que estava acontecendo.

Foi apenas uma rápida troca de olhares, então Jensen se virou e foi embora, junto com os outros. Apenas os enfermeiros ficaram com ele, mediram seus sinais vitais e o ajudaram a se levantar.

Fora levado para a enfermaria, onde lhe deram um calmante e o deixaram deitado em uma maca, repousando.

Chad estava atendendo um fornecedor que viera fazer uma entrega no momento em que tudo acontecera, percebeu o movimento em direção ao banheiro, mas não sabia do que se tratava até o pessoal voltar, dizendo que Jared tinha tido algum tipo de surto e enlouquecido no banheiro.

Se desesperou com a notícia e foi até a enfermaria, onde, depois de muita insistência, o deixaram entrar para ver o amigo.

- Hey amigão. – Chad falou com um sorriso, percebendo que Jared parecia distante e desolado. – Aguenta firme aí, você já vai ficar bem.

- Não. Eu não vou ficar bem, Chad. Eu não sei se algum dia eu vou poder ficar bem... – Jared respondeu com os olhos marejados.

- Eu estou aqui, ok? – Chad apertou sua mão, tentando lhe passar confiança. – Vai ficar tudo bem.

- Você não precisa sentir pena de mim. Eu vou sobreviver. – Jared falou com desânimo. – Eu sempre sobrevivo.

- Jared... O que está acontecendo? Tudo bem se você não quiser me contar agora, mas sabe que pode confiar em mim, não sabe? Seja lá o que for que esteja te atormentando... Você pode dividir comigo se quiser.

- Você também acha que eu estou louco?

- Não! Claro que não! Eu não sei o que aconteceu lá no banheiro, mas... Eu tenho certeza que louco você não é. – Chad forçou um sorriso, tentando reconfortá-lo.

- Eu quero que você vá embora, Chad.

- Eu... O quê? – O loiro franziu o cenho, sem conseguir entender nada.

- Eu tenho muitos problemas... Você não entenderia, você... É melhor você se afastar de mim, assim como os outros. É o mais acertado a fazer, Chad.

- Eu não vou fazer isso... Você sabe que não.

- Só vá embora daqui! – Jared falou de um jeito agressivo, fazendo o loiro se assustar e logo apareceu um enfermeiro para tirá-lo do local.

Chad foi embora sem entender nada, com o coração apertado. Não sabia direito o que tinha acontecido, a não ser pela fofoca dos outros. Não conseguia entender porque Jared estava tentando afastá-lo daquela maneira. Mas não desistiria do amigo, não tão fácil assim.

Jared viu Chad ser levado para fora da enfermaria, e sentiu uma tristeza muito grande atingir o seu peito. Não sabia por que tinha agido daquela maneira, mas talvez fosse mesmo o melhor a fazer. O loiro era um grande amigo, uma das melhores pessoas que conhecera em muitos anos, mas como saber se ele não o julgaria como os outros? Como contar a ele a verdade sem que o amigo o achasse um esquisofrênico e quisesse se afastar por si mesmo? Já tivera perdas demais na sua vida...

Talvez, e muito provavelmente, fosse se arrepender por ter feito aquilo. Mas no momento, achou ser o correto, não queria que o amigo, ou ex-amigo, sofresse por causa dos seus problemas. Sabia como algumas pessoas podiam ser maldosas e, se Chad ficasse ao seu lado, seria julgado também.

Continua...


Nota aos leitores:

Em primeiro lugar, muito obrigada a todos que deixaram review. Não respondi individualmente por falta de tempo, mas amei cada um dos comentários... São vocês que me ajudam a ter inspiração e vontade de continuar a escrever. Obrigada, de coração!

Em segundo, eu sinto decepcionar alguns, mas esta história é puramente ficção. Não será baseada na religião espírita, e também não tenho conhecimento algum sobre mediunidade, nem nada parecido. Confesso que sou um pouco cética em vários aspectos, mas não acredito nem desacredito nessas coisas. Agradeço e respeito a opinião de qualquer um sobre o tema, caso queiram compartilhar nas reviews. Amo demais esta interação com os leitores.

Só para esclarecer, a inspiração para escrever a fic surgiu quando li o livro "Ecos da Morte", cuja história não tem nada a ver com a da fic, mais uma mistura dos filmes "Ghost" e "O Sexto Sentido", portanto, não criem expectativas demais sobre o tema, para não acabarem se decepcionando.

É tudo obra dessa minha cabeça louca e completamente sem noção... rsrs.

Amo vocês!