Disclaimer:O universo de Cavaleiros do Zodíaco não me pertence. Não estou tentando ganhar dinheiro com isto.

Sumário: Ikki odeia os 3 Cavaleiros de Bronze. Ele vive sabotando suas missões e tentando matá-los. Seiya, Hyoga e Shiryu têm que pôr um fim nisso. À procura de um ponto fraco, encontram seu irmão menor, Shun. Pretendem usá-lo contra Ikki; quanto longe irão?

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O Irmãozinho do Inimigo

Capítulo 4 – Bolo de Chocolate e Cereja

Os olhos de Ikki se arregalaram.

Um telefone. Ligado à parede. Ao seu lado havia até um bloquinho de notas amarelo claro, junto de uma caneta fina.

"Você comprou um telefone?" Ele olhou com incredulidade a Shun, que levantou os ombros.

'De todas as coisas mais idiotas, imbecis!...' Com um rugido de raiva, Ikki atravessou a cozinha em dois passos, arrancou a tomada com violência e jogou o aparelho no chão.

"Mas por que diabos você fez isso?" Shun gritou, claramente chocado com o seu comportamento.

"Nada de telefones nesta casa!" ele exigiu, apontando um dedo na cara do mais novo. "Eu proíbo!"

Ah, essa não. Os olhos do garoto marejaram, e em segundos ele desandou a chorar, curvando-se de encontro à parede e escondendo o rosto entre as mãos. Seu corpo todo sacudia com os soluços. Talvez Ikki o tenha assustado... droga, o seu sentimento de culpa voltava!

"Por que está agindo dessa maneira?" Shun conseguiu dizer entre soluços, sua voz afogada em lágrimas. "Você nunca é assim!"

'Ah, mano, você não tem a menor noção de como eu realmente sou.' Ikki suspirou fundo e aproximou-se do garoto. Gentilmente segurou seu queixo e o levantou. "Olhe para mim," disse baixinho e suavemente, ao que o irmão obedeceu. "A minha reação foi exagerada, e eu peço desculpas. Eu apenas estava tentando te proteger."

"Contra o quê, um aparelho eletrônico?" Shun perguntou incrédulo, ainda chorando.

Ikki pensou rápido em uma desculpa. "Ouvi dizer que essas coisas... causam... câncer no cérebro. É. Muitos estudos já o provaram. E causam incêndios, também. O tempo todo. Um casal de velhinhos foi morto apenas na semana passada em sua casa, em um incêndio provocado por um defeito na linha telefônica. Eu vi no noticiário da TV."

O que Ikki não poderia dizer era, 'Alguém talvez possa rastrear telefonemas feitos a mim, e assim descobrir que tenho um irmão. E então, essa pessoa não teria o menor escrúpulo em te machucar e talvez até matar, para me atingir.'

Shun parou de chorar, mas afastou-se do irmão, ainda olhando-o com incredulidade. Secou suas lágrimas com a parte de trás da mão.

Ikki considerou a possibilidade de esse aparelho estúpido já ter comprometido a segurança de Shun. Seria mesmo prudente tirá-lo dali imediatamente, encontrar outro apartamento para ele morar. "Quando você instalou essa joça?"

"Ontem." Shun fez um olhar sentido.

"Você já fez algum telefonema?"

Agora a mágoa nos olhos verdes era maior. "Não, já que não tenho o seu número, não é mesmo? E não tenho ninguém mais a quem ligar."

Ikki respirou aliviado. Se o telefone não havia sido usado, ninguém poderia ter descoberto seu irmão. Shun estava seguro. Nenhum mal havia sido causado!

Aquela criança realmente não tinha idéia do tipo de mundo em que Ikki vivia. Ele ainda acreditava que seu irmão mais velho trabalhava com vendas e consultoria, sobre o que Ikki sempre se manteve vago. Ele provavelmente imaginava que seus colegas de trabalho eram homens sorridentes de terno e gravata, que compartilhavam biscoitos no intervalo do café.

O moreno não sabia por quanto mais tempo Shun se deixaria iludir por essas fabricações. Ele não era mais uma criança, por mais que Ikki assim preferisse, e um dia desses conectaria os pontos A e B. Ikki odiava pensar nisso; não suportava a idéia do irmão descobrindo a horrível verdade sobre ele. Ainda assim, seria inevitável. Claro que, com seu coração de açúcar e natureza bondosa, Shun jamais aceitaria o monstro que tinha por irmão; jamais acharia normal ou perdoaria seus inúmeros crimes, que tantas vítimas fazia. Shun o olharia com medo, com ódio, com nojo. Então Ikki o perderia de vez... perderia o irmão para sempre. Mas até esse dia, ele tentaria não se preocupar com isso, ou enlouqueceria.

Shun quebrou o silêncio. "Eu não sou mais um garotinho, sabe?" Ele pausou por um momento, considerando como continuar. "Sei que isso tudo são desculpas." Olhou para o mais velho com toda a mágoa do mundo estampada nos olhos verdes. "Isso de eu não poder te ligar, te visitar, te encontrar se eu precisar. Eu nunca pus os pés na sua casa, e muito menos morei com você. Não tenho ao menos um endereço para onde te escrever, só uma caixa postal! Sei que isso é porque... porque..." sua voz quebrou, e ele estava visivelmente lutando contra novas lágrimas. Respirou profundamente e continuou: "Porque você não me quer!" Com isso, voltou a soluçar amargamente.

Ikki rolou os olhos para o céu. Se ele fosse religioso – o que certamente não era – agora estaria rezando e pedindo por fortitude e paciência.

"Sou apenas uma in-inconveniência para você," ele continuou com a voz cortada por soluços, "um est-estorvo, e você não q-quer perder seu tempo comigo. Você c-com certeza tem coisas melhores a fa-fazer do que cuidar de mim!"

Ikki fez o melhor que pôde para ignorar a culpa que seu irmão sempre dava um jeito de fazê-lo sentir, sem grandes resultados. Gentilmente puxou a cabeça esverdeada de encontro ao peito e passou a acariciá-la, como faria com um animalzinho ferido. Não que ele iria acariciar um animal ferido se o visse, obviamente; era mais certo que o tiraria de sua miséria, ou que simplesmente o deixasse para morrer. Aquilo foi só uma expressão que lhe ocorreu. Ikki envolveu os ombros frágeis que tremiam com seus braços musculosos, e estes não ofereceram resistência.

"Você sabe muito bem que isso não é verdade, Shun. Sinto-me ofendido por você acreditar algo assim sobre mim." Ele não era um homem demonstrativo, de jeito nenhum, mas a situação presente o exigia. "Eu te amo muito," ele conseguiu colocar para fora. As palavras eram verdadeiras, mas ele estava tão desacostumado em dizê-las, que não podia evitar de se sentir um tanto embaraçado – outra sensação desconhecida a ele, um homem sempre tão confidente. "Você é a pessoa mais importante do mundo para mim, mano. Você deveria saber disso. Se não passo mais tempo com você, é porque realmente não posso... e não porque não gostaria, e muito."

"Promete que isso é verdade?" o garoto perguntou, sua voz estrangulada, fazendo um esforço para conter os soluços.

"Claro que prometo."

Ficaram dessa forma por um tempo, em silêncio, Ikki ora acariciando suas costas em movimentos circulares, ora afagando seus cabelos, enquanto Shun se pendurava ao pescoço ao irmão como se sua vida dependesse disso, suspirando com os toques reconfortantes.

'Eu realmente preciso estar mais atento às necessidades dele,' Ikki pensou. Disse a si mesmo para ter em mente que seu irmão não tinha mais ninguém no mundo. Shun ia à escola, e provavelmente tinha amigos, mas isso era diferente do que se ter alguém com quem possa contar. Shun era solitário como ele próprio, mas enquanto o moreno era auto-suficiente e precisava de muito pouco para viver, não dependendo de ninguém para nada, Shun era o oposto. Ele era como um garotinho sem mãe: sensível, sedento de amor e de atenção, e – se hoje fosse indicação – tinha problemas de auto-estima e autoconfiança. Ikki franziu a testa. Eles teriam que lidar com esses problemas logo, antes que se tornassem um empecilho na vida do garoto. Agora não dava, mas num futuro próximo. Quem sabe depois que aquela arma tivesse sido construída... e depois de terem posto um fim nos Cavaleiros... Então seria a ocasião perfeita para passar bastante tempo com Shun, ser um irmão decente uma vez na vida. Sim, fariam isso.

Então lembrou-se: o presentinho maligno! "Ei, trouxe algo para você. Acho que vai gostar."

Shun levantou seu rosto ainda molhado, olhando para ele com olhos vermelhos e inchados mas cheios de expectativa.

'Mas que droga de dor no peito, de novo!'

"Um presente? O que é?"

Ikki desvencilhou-se do moleque e foi até à sala, onde tinha deixado a sacola de cartas. Voltou com uma caixa de papelão cor-de-rosa e a abriu, mostrando o que havia dentro.

Os olhos do menino brilharam de alegria. "Você me trouxe um bolo!"

"Chocolate com cereja. Bolo Floresta Negra, seu favorito. Ontem eu estava passando pela confeitaria, então pensei-"

Sua frase foi cortada pelo repentino aperto estrangulador no seu pescoço, por parte de um garotinho pulante e muito entusiasmado. Seu irmão ficava tão feliz com tão pouco...

"Você pensou em mim! Obrigado! Eu aaaaaaamo esse bolo!" Shun pegou dois pratinhos e garfos de sobremesa no armário, e os colocou no balcão.

"Ah não, isso é para você. Não quero bolo," Ikki recusou.

"Claro que quer! Você não vai me deixar comer sozinho, né?"

"Mas eu não curto chocolate," o mais velho mentiu.

"Desde quando?" Shun riu. Ele conhecia seu irmão. "Todo o mundo adora bolo de chocolate," ele disse em um tom definitivo. Com isso, empurrou um prato com uma porção generosa de bolo nas mãos do irmão.

Ikki soltou um suspiro dramático, mas aceitou o prato, deu uma garfada pequena e provou do bolo. Hmmmmmm. Shun estava certo – esse negócio era gostoso mesmo.

Agora o moleque olhava para ele e dava risada, todo cheio de si.

Ikki imaginou a figura que ele fazia no momento, se entregando a algo tão indulgente e sem objetivo como sentar-se no chão na cozinha que nem criança (isso lhes pareceu mais espontâneo do que usar a mesa), rindo e brincando com o seu irmão, se entupindo de bolo, enquanto ouvia Shun contar histórias amenas sobre o que se passava na escola.

Se seus inimigos o pudessem ver agora, ele jamais se livraria da humilhação.

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Continua...

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Nota: O que posso dizer? Adoro o Ikki de super-vilão, de guerra declarada ao mundo, mas um doce de pessoa com o irmão. Se EU causasse esse tipo de reação no Ikki, pode apostar que faria beicinho o tempo todo, só para ganhar cafuné! ;-)