Oi, oi, oiiiiiiiii! Obrigada, em primeiro lugar, a Gabriela, Dudinha e Lauly! s2 s2 Obrigada por quem favoritou, curtiu ou comentou. Sei que o ibope aqui tá baixo, né, mas não desistirei nunca! KKKKKK bem, o que dizer sobre esse capítulo? ficou grandinho e com umas cenas bem centradas em personagens secundários. mas eu pretendo, a partir do capítulo que vem (que eu ficaria SUPERRRR feliz com reviews kkk) esquentar mais as coisas.

Em suma, é isso! muito obrigada a vocês por lerem ^^ :3 espero que gostem!

ps.: já viram o vídeo do "Potter Puppet Show - The Mysterious Ticking Noise"? é idiotinha, mas engraçado! UHAUAHUHA inspirou o nome do capítulo rsss. beijos!

CAPÍTULO 4 – AQUELE COM A VOLTA DE "SNAPE, SNAPE, SEVERUS SNAPE!''

Narração: Sirius "o gostosão" Black

- Beleza então, Suze, valeu – sorri para Suze Creevey assim que havia passado dois minutos desde que ela... Hm, se satisfez, digamos. – Se quiser praticar, você sabe que pode contar comigo. Agora vamos, temos aula daqui a meia hora e James vai passar aqui. Se você se arrumar rápido, até te descolo uma carona. – Eu sou muito gente boa mesmo...

Coloquei minha boxer preta e a deixei refletindo no meu quarto. Quando bati a porta, suspirei.

Virgens.

- Sirius Black! – exclamou, com todo o amor do mundo visível na voz, minha doce mamãezinha. – Seu vagabundo! Você acha que a minha casa é o quê? Um puteiro?

Esbocei um largo sorriso.

- Ora, mamãe, ainda não. Mas se você quiser ser a minha cafetona, estamos aí! Haha, estou brincando – tentei amenizar a situação antes que ela soltasse outro protesto agudo. – Suze Creevey estava no meu quarto. Eu estava ensinando matemática a ela.

- Você é horrível em matemática, Sirius. Não, horrível não. Um terror seria mais adequado. Quero dizer, um desastre. Assim, a pior coisa do mundo mesmo...

- Nossa, mãe, obrigado! – "Agradeci" ofendido. Mudei de assunto, procurando outra desculpa: - Então era física. Sabe, as duas coisas são bem parecidas.

- Você é pior ainda em física, Sirius Black. Eu diria que a sua inteligência em exatas se aproxima de uma catástrofe natural – rebateu ela começando a se irritar.

- Ih, mãe, pare de ser complicada! Custa acreditar no seu filho pelo menos uma vez na vida? – dramatizei com os olhos tristes. Tentei soar sério e magoado, para ver se ela parava de pegar no meu pé. Eu, hein, eu lá devo satisfação sobre quem me dá a ela?

- Muito bem. Já que você estava ensinando a garota, quero que tire A+ na próxima prova de matemática ou física. Caso contrário, você irá se foder e ficar mais dois meses sem tocar na moto.

ARGH!

- Que injusto!

- Você arrumou sua cama, agora se deite nela. De preferência com uns mil livros, e não com "Suze Creevey". Estou indo para a redação, tenha um excelente dia.

E, dizendo aquilo, saiu a passos largos pela porta da sala. Bom, a minha mãe não era exatamente uma pessoa agradável, e não tinha papas na língua, mas eu até que a amo.

- Bom dia, brow – saudou Regulus com a cara feia matinal dele, enquanto descia a escada e me encontrava na sala. – É verdade que é Suze Creevey no seu quarto? Você já mandou melhor...

Esperei-o descer para andarmos até a cozinha juntos.

- Me responda uma coisa, Reg. Você anotou a placa?

- Placa? Que placa?

- Do caminhão que fez isso com a sua cara – respondi e comecei a dar risada da feiura dele. – Em segundo lugar, vê se perde esse cabaço antes de falar de mim, seu virgenzinho.

Mas ele não se abalou com as minhas palavras, e disse convicto:

- Estou pensando em começar a namorar, na verdade.

Aquilo surpreendentemente despertou a minha atenção, apesar de não ser bunda, peitos, coxas ou mini saias.

Ergui os olhos.

- Ah, é? – indaguei com deboche. – E quem será a pobre coitada?

- Lily Evans – respondeu sem rodeios.

Houve poucos momentos em que ri tanto assim na minha vida. Nossa, sério. Eu ri tanto que Reg ficou vermelhíssimo e abaixou a cabeça de vergonha.

- Acorda, cara – procurei alertá-lo. – Lily Evans nunca ficaria com você. Tá, beleza, ela já saiu com Lockhart, mas era porque ela era BV e inexperiente, como você, e...

- Eu não sou BV! – ele me interrompeu bravo.

- E ela não sai com James, que é o cara mais popular da escola, capitão do time de futebol etc... Só sai com caras mais velhos, de acordo com Petúnia... E acha que ela sairia com você? Você bebeu, Regulus? Não, sério, o que deu em você?

- Ela me disse que sairia – disse esperançoso, embora excepcionalmente sem graça.

- Ela mentiu, cara – falei a verdade curto e grosso, enquanto mordia uma torrada. – Por pena, sei lá. Vai ver ela te acha fofo. Agora tire isso da cabeça e concentre-se em meninas da sua idade.

Aquilo pareceu ser o fim da conversa, muito embora eu soubesse que Regulus não fosse desistir daquilo tão cedo.

Alguns minutos depois que eu e Regulus estávamos prontos, Suze Creevey desceu.

- Olá, bom dia! Você deve ser Regulus, meu cunhado! – exclamou contente, no que meu queixo caiu.

Regulus riu.

- Espere aí, Suze, o que você disse? – questionei um pouco irritado, pois havíamos estabelecido regras bem claras sobre nosso relacionamento! Ele se limitava à minha cama e apenas a ela!

- Ora, Sirius, meu lindo, um ato de amor como esse deve ser levado em consideração. Quero dizer, você não se sentiu... tocado? Comovido?

Dessa vez Regulus parou de rir e encarou a pobre garota com nojo, como se ela fosse meio burra (que ela era de fato). Eu encarava-a perplexo.

- Não, Suze. Sinto muito. Eu não quis te iludir nem nada, mas eu não estou procurando por relacionamentos agora. Foi uma coisa física apenas.

- VAGABUNDO, DESGRAÇADO... PUSILÂNIME! – xingou ela no jeito nerd de ser. Quero dizer... Quem sabe o que é punilamise? – VOCÊ CHEGOU ATÉ A DAR UM BEIJINHO POR CIMA DA MINHA CICATRIZ DA MORDIDA DO CACHORRO DAS EVANS! SAIBA VOCÊ QUE ESSE BRUTO GOLPE NO MEU CORAÇÃO DOEU DEVERAS, INFINITAS VEZES MAIS DO QUE AQUELA MORDIDA! A CICATRIZ É AGORA EM MEU CORAÇÃO, UMA FERIDA INCURÁVEL! QUE VOCÊ ARDA NO INFERNO PARA SEMPRE... QUE O MUNDO ACABE AGORA SOB SEUS PÉS!

E depois de chorar como uma louca (uma cena que eu realmente não preciso descrever, pois não merece a minha atenção), bateu a porta da minha casa e saiu, brava e nervosa como o capeta.

- O portão é pra lá! – gritei na esperança de ela ouvir.

- Pobrezinha – ironizou Regulus. – Não será assim com Lily.

- Ai, cale a boca, moleque idiota, você tá me dando nos nervos com essa conversa imbecil sobre Lily Evans. Já não basta o James, e agora você? Me faça o favor, hein.

- Humpft – resmungou o irritadinho.

- Eu vou contar ao James que você está querendo a Lily...

- Pode contar, ele não é páreo para mim – comentou cheio de si. – Não tenho medo dele.

- Pois eu teria, se fosse você. Você não passa de um fedelho, Reg, se enxerga. Queria disputar mulher comigo e não conseguiu, agora quer as do James? O que é isso, um fetiche com a mulher dos outros? Eu hein!

Mas antes que ele pudesse me responder, James e seu carro apareceram no meu extenso e atento campo de visão.

Fomos andando até ele, que abria o vidro do banco do carona para revelar um sorriso. Um sorriso.

Uma bosta de sorriso totalmente esperado e previsível, porque ELE SORRIA O TEMPO INTEIRO! COMO É POSSÍVEL?

- Pontas, você sabe fazer alguma coisa além de mostrar esses seus dentes feios às outras pessoas? Um dia você pode assustar alguém de verdade, cara. Rá! Acho que é por isso que Lily Evans nunca quis você. Você sorri tanto pra ela que ela passou a ter medo das suas escavadeiras...

- Ouço um mero zumbido de um invejoso no meu carro? – desconversou James, ainda sorrindo, ainda alegre. – Primeiro de tudo, bom dia, Almofadinhas. Bom dia, Reg. Em segundo lugar, pare de falar tanto, Almofadinhas. Se não suportam o meu belo, charmoso e galanteador sorriso, quem é que suporta a sua voz enjoada? Terceiro, Lily Evans está quase nas minhas mãos, não se lembra do último avanço?- ele perguntou todo orgulhoso de si, e não pude deixar de sorrir também. Ele gostava mesmo dela, de um jeito que eu nunca tinha visto. Chegava a ser meio patético e idiota, na maioria das vezes, mas eu tinha de admitir que era bonitinho.

Discretamente, olhei para Regulus, que se remexia desconfortável no banco de trás.

- Temos um traidor entre nós, Pontas – comentei querendo causar discórdia. – Adivinhe só. Regulus quer namorar com Lily.

James riu tanto que perdeu o controle da direção, e então batemos em uma árvore.

Hahaha, brincadeira! Mas ele riu tanto que teve que frear o carro, colocar em ponto morto e abaixar e apoiar a cabeça no volante.

- Exatamente – olhei para Reg como quem se achava (porque eu podia) – tive a mesma reação.

Antes que pudéssemos comentar alguma coisa, James mexeu no som do carro. "My First Kiss", do 3OH!3, começou a tocar. Não consegui me segurar e ri também.

James e eu cantamos as partes mais constrangedoras para ele, que estava vermelho de raiva, totalmente furioso.

Depois que a música acabou e que eu e James já tínhamos dado risadas o suficiente para a semana toda, do pobre virgem e inexperiente Regulus, ele trocou a faixa e voltou a tocar "Misery", do Maroon 5 (que condiz muito mais com a realidade de James de pobre romântico apaixonado, hahaha).

- Foi mal, Reg – pedi desculpa enquanto tentava ritmar minha respiração – mas é que foi muito engraçado!

- Foi tudo a ver! – comentou um James ofegante, que ainda ria. – Mas pirralho – sorriu James pelo retrovisor (ESTÁ VENDO, ESTÁ VENDO? ELE NÃO PÁRA DE SORRIR!) – boa sorte a você, que nunca vai conseguir o que quer. Primeiro que ela é minha, segundo que Lily nunca ficaria com você.

- É o que veremos – retrucou Reg desafiador.

Eu e James rimos novamente.

Dois quarteirões depois, James parou na casa de Remus, que entrou no carro e cumprimentou a todos nós com sua típica simpatia matinal.

- Bom dia! – saudou feliz. Falou para o telefone: - Amor, acabei de entrar no carro. Aw, você que é linda! Colocarei no viva voz para todos te darem bom dia.

Fingi vomitar. James fingiu suicídio. Regulus bateu palminhas e disse "duuh!". Nossa, muito 15 anos mesmo, tenho até vergonha.

- Bom dia, Alice – saudamos em uníssono, enquanto James saía com o carro novamente.

- Bom dia, meninos! James, traga vocês todos vivos até a escola, por favor.

- Claro, Alice – James respondeu sorrindo.

- Seu idiota! – explodi. – Você sabe que ela não consegue ver o seu sorriso, né?

- E daí? EU SORRIO O QUANTO EU QUISER!

- E DAÍ QUE INCOMODA E ESPANTA OS OUTROS VER ESSA SUA BOCA FEIA ABRIR E FECHAR O TEMPO TODO! QUER DIZER, SÓ ABRIR! PORQUE VOCÊ NÃO A FECHA DE JEITO NENHUM!

- VRUUUUUUUUUUUUUM – fez o carro que nos cortou, com rapidez e velocidade, e fez James frear, nos dando um baita susto.

- AII! ACIDENTE. OH, NÃO! – exclamava Alice pelo viva voz. – Remus, Remus, Remus! Fale comigo!

- Está tudo bem, mozão – assegurou-a Remus.

Regulus ria no banco de trás.

- Você é um barbeiro mesmo, James! Ria agora, vai! – ele se deliciava. – Quem é que é o motivo de piada agora?

- Continua sendo você – rebateu James. – Aluado, adivinha... Reg quer namorar com Lily.

- Lily, sua Lily?

- Lily, minha Lily.

Remus gargalhou. Sua gargalhada era alta e aguda, como a de um lobo!

- É um lobo mesmo, até ri como um! – apontei, alegre. Eu e James rimos de novo. Era uma graça inacabável!

Depois de um minuto, ele parou de rir.

- Amor, qual foi o motivo da graça? – perguntou Alice pelo viva voz.

- Reguls... Regulus... Quer namorar com Lily!

- AHAHAHAHAHAHAHAHA!

Escutávamos Alice rir do outro lado. Até que outra risada feminina apareceu.

- Oi, gente! É Marlene! – saudou Marlene, que acabara de aparecer, e ria junto à Alice.

- Ai, minha barriga – disse Alice depois de vários segundos. – Nossa, fazia tempo que eu não ria tanto. Pobre Regulus.

Marlene ainda não havia cessado sua crise de risos.

- Ai, ai, não consigo respirar – ela disse depois de uns segundos. – Hilário, Regulus, ganhei meu dia com a sua piadinha!

- Mozão, nós vamos desligar agora. Nos vemos na escola... Já estou com saudades! Beijos!

- Beijos, te amo!

E ele desligou.

- Poxa, Aluado. Achei que só eu podia te chamar de mozão – falei displicente enquanto deitava confortavelmente no banco.

- É, meu lobinho. Achei que não fosse te dividir com mais ninguém – continuou James, depois de dar seu último riso sobre Reg.

- Ah, me deixem em paz. Vocês ficam com essas brincadeirinhas porque não têm namorada! Se soubessem como é bom...

- Zzzzzz – fingimos cair no sono eu e James, enquanto Regulus afirmava, feliz:

- Eu e Lily saberemos o que é isso!

Não aguentamos. Para a raiva de Regulus, que novamente ficava vermelho, eu, James e Remus nos acabamos de rir.

O som que permaneceu, ironicamente, foi a música que tocava:

Girl you really got me bad

(Garota, você realmente me pegou de jeito)

You really got me bad

And I'm gonna get you back

(E eu terei você de volta)

I'm gonna get you back

Misery, Maroon 5

Narração: Lily Evans

"A amizade é como as estrelas.
Não as vemos toda hora, mas sabemos que existem."

O bilhete que eu havia recebido há aproximadamente um ano não saía da minha mente. Eu o deixara guardado dentro do estojo durante todo esse tempo porque sabia que, ao sentir saudades, poderia procurá-lo e me sentir confortada.

Foi tudo o que o meu melhor amigo, Severus Snape, me deixou antes de ir para seu intercâmbio em Barbados, próximo ao Caribe. Ele passou um ano lá para aprender espanhol, é claro, mas também para fazer trabalho voluntário com as famílias desabrigadas pelas catástrofes naturais que ocorriam com frequência na área. Um grande ato de generosidade e altruísmo, se você me perguntar.

Apesar de Barbados manter laços diplomáticos fortíssimos com a Inglaterra (afinal, eles até reconheciam a nossa Rainha), e Sev ter o poder de ir e vir quando quisesse, ele preferiu permanecer lá durante todo o ano. Seus pais, por algum motivo, também não foram visitá-lo.

O problema todo, no entanto, era que Severus caiu na besteira de "se declarar" para mim antes de viajar. Por ele, agora seríamos mais que amigos. Só que eu nunca tive pretensões de me envolver com ele da forma que ele queria. Nunca, nenhuma segunda intenção. Ao meu ver, o que tínhamos era realmente pura, sincera e unicamente amizade.

Snape, descontente e envergonhado, não aceitou só a minha amizade. Então parou de falar comigo e nunca respondeu aos meus e-mails nesse último ano (e olha que foram muitos).

Por isso eu aguardava, aflita e ansiosa, sua chegada. Sev me conhecia muito bem, mas parecia estar tão diferente... O que essas mudanças – o que a maior delas, na verdade, que foi eu tê-lo desiludido – trariam para a nossa amizade? Será que ainda conseguiríamos ser como antes?

A resposta para aquela pergunta viria mais breve do que eu imaginava, já que todo o corredor da entrada da escola parou por um segundo para contemplar a pomposa chegada dele. Severus Snape, o pobre "ranhoso" que não lavava os cabelos, que não se destacava em nada, que tentava conquistar a melhor amiga e sempre falhava... Alguém totalmente sem importância para as outras pessoas, mas essencial para mim (mas só eu que importo mesmo), acabara de regressar a HH, e ninguém deixaria aquilo passar despercebido. Impressionantemente, os cochichos começaram a se formar antes mesmo de ele cruzar o corredor. "Uau, olha só quem voltou!", "Nossa, nem pra pegar um bronze...", "Aquele é o Snape?!", "Snape voltou até jeitosinho, pena que meu negócio é mulher" (comentou a ginasta lésbica – ela e seus comentários! -), entre outros. Pelo menos não eram coisas ruins, né?

À medida que se aproximava, eu me sentia pior. Aquele era o meu melhor amigo, cujo coração eu havia quebrado. Eu era a única que lhe compreendia; a única que em que ele confiava. E imagine perder isso e, de quebra, morar em outro país. E ficar um ano sem os pais. Quero dizer, tudo isso já é um fardo muito grande... Eu não consigo ficar nem 7 dias sem Petúnia, por mais que odiasse admitir!

O olhar que me lançou ao passar – na verdade, seu olhar me acompanhara desde o início; eu só não o sustentara – quase me levou às lágrimas. Via-se mágoa, acusação, denúncia. E um sofrimento pelo qual ele não merecia passar.

- Sever – sussurrei assim que ele passou por mim. Se ele me ouviu, eu não sei. Só posso dizer que me magoou muito o fato de ele ter dado as costas e continuado a andar sem sequer sorrir para mim.

Custava esboçar um sorriso? Nem que fosse falso!

- Ora, ora, se não estamos pensativos hoje! – sorriu para mim, como sempre, James Potter. Bom, eu não posso reclamar, não é? Não ganhei o sorriso da pessoa que eu queria, mas já é um começo. – Bom dia, ruiva – esboçou um sorriso ainda mais largo. – Como você tá?

- Bom dia, Potter – saudei-o cortês, um leve sorriso brincando nos meus lábios (inconscientemente para vitaa-lo, embora eu odiasse admitir tal fato). – Estou ótima, e você?

- Epa, epa, epa! – chamou minha atenção. – Pensei que tínhamos um acordo?

Ah, sim. A festa na piscina. A festa onde esse biltre que está na minha frente brigou com Noel Thomas, levou uns três socos na cara e me fez "cuidar" dele. E, como se não fosse o suficiente, ainda tive que concordar em vita-lo de James!

- Bom dia, James – disse seu nome com ênfase, expressando meu desagrado ao usá-lo. – Pensei que você fosse me deixar em paz?

- Pensei que você fosse educada e soubesse dar bom dia a um amigo? – retrucou ele com um sorriso divertido, o rosto exibindo uma expressão engraçada.

Então, ainda por cima, ele ria às minhas custas?

- Muito bem, James, você venceu. Tenha um excelente dia – falei já começando a perder a paciência. Abri meu armário, procurando vita-lo.

- Então os boatos são verdadeiros? – indagou ele depois de uns segundos de silêncio. Bagunçava o cabelo com as mãos, visivelmente querendo deixá-los despenteados.

Bufei irritada. Aquele gesto me deixava nervosa. Por que ele tinha que se exibir tanto?!

- Vá cuidar da sua vida, Potter.

Depois de dar uma risada e erguer os olhos surpresos, ele sorriu (grande surpresa) e falou:

- Acontece, minha querida Lily, que você faz parte da minha vida. E sei que Snape arrastava uma asa pra você. Logo, estou cuidando da minha vida. – Se defendeu, tendo como argumento a coisa mais idiota possível: a sua obsessão por mim. – Não controlo as pessoas que entram na minha vida, porque, se eu pudesse, aquele seboso nunca chegaria nem perto dela!

- Por que não vai procurar os seus amigos e me deixa em paz?! – gritei... hmm, correção: falei um pouquinho mais alto do que o normal, chamando a atenção de alguns alunos que cruzavam os corredores.

O sinal havia acabado de tocar.

- Deixe Severus em paz – exigi com a voz brava. – Faça qualquer coisa com ele, Potter, e terá que acertar as contas comigo.

- Uh, que meda – respondeu novamente como uma criança, um sorriso delinquente dessa vez formando-se naqueles lábios idiotas – você que se mantenha fora disso. Snape fez por onde ter o que...

- Ele não fez nada! Você que praticava bullying à toa! – acusei-o novamente com o tom de voz alterado.

- Psiu, psiu, Lily. Em primeiro lugar, nós temos um acordo: você me chama de James. Em segundo lugar – tagarelava, alegre, sem se importar com o que eu dizia – algumas atitudes minhas em relação ao Ranhoso realmente não foram... legais. Mas as coisas mudam em um ano, ruiva. Não vou te prometer que não farei nada, afinal, você sabe que ele também não é santo. Mas vou ficar na minha. Por você.

- Acho bom mesmo – dei de ombros. – Não faz mais do que a sua obrigação.

- Certo, ruiva – disse sem se importar. – Bem, tchau. Agora eu vou "procurar os meus amigos e te deixar em paz". Até o período de física! – E me deu as costas com um sorriso inabalável no rosto.

Insuportável! Arrogante!

Já irritada, caminhei para a sala de Inglês e Literatura, onde tinha aula com o Prof. Flitwick. Enquanto andava com pressa, senti o celular vibrar no bolso.

Me encontre às 16h na sala da banda marcial. Qualquer coisa, te levo no tênis depois. Sei que você ainda treina.

De Severus Snape às 9h03min

Ah, então fica um ano sem falar comigo, não responde as minhas mensagens, me stalkeia (só assim para saber que ainda faço tênis, né?), e acha que vai ficar tudo bem? Mas não mesmo! Darei um gelo tão grande em Snape que ele irá se arrepender de ter agido assim comigo, ou não me chamo Lily Evans.

Narração: James Potter

Nada como um período de física para dar aquela animada.

Bom, é claro que estou sendo irônico.

O sinal que anunciava o fim do almoço soou, pondo fim aos meus devaneios. Estávamos sentados eu, Sirius, Remus e, a nossa volta, as cheerleaders e os outros jogadores do time. Surpreendentemente, Rita não estava (o que era péssimo, por que como eu deveria aguentar o intervalo todinho sem uma fofoquinha sequer?), e Lily e suas amigas sentaram-se longe da gente e inevitavelmente mais próximas de Snape.

Ah, Snape. Claramente temos uma história... Conturbada, digamos. Basicamente, ele sempre quis ter tudo o que eu tinha. A popularidade, a fama, a extroversão, a facilidade com as matérias da escola... E, principalmente, as garotas. Em troca, eu queria ter uma coisa que ele tinha: a atenção de Lily Evans. Eu sei que só comecei a dar exageradamente em cima dela há 6 meses, mas já havia a chamado pra sair antes. E ela pode negar até hoje, mas o fato principal de ela ter recusado, então, foi ele. Só porque ele não gostava de mim! Pois eu não mandei os pais deles terem uma genética horrorosa, serem más pessoas e criarem o garoto daquele jeito e menos ainda terem feito algo realmente ruim no mundo para terem sido "abençoados" com aquele... ser vivo.

Enfim, Snape é um imbecil. Ele é apaixonado por Lily desde toda a vida (quando estudávamos no jardinzinho), e o pobre nunca foi correspondido. Como seria possível, de qualquer forma? Argh! Só a sombra do pensamento da minha Lily tocando aquele cabelo oleoso... Ah, é de assustar!

O fato era que Snape estava de volta, e isso claramente atrapalharia meus planos. Logo agora que Lily tinha concordado em me chamar de James (muito embora ela tenha mostrado certa hesitação essa manhã, sei por que motivos: 1) porque Snape está de volta e ela está triste porque não podem ser amigos como antes, já que ele se declarou pra ela e é feio e 2) – e NADA menos importante – ela está na TPM. Seu ciclo menstrual começa em 3 dias).

Tranquilo, fui caminhando ao lado de Almofadinhas e Aluado até a sala de física. Almofadinhas balbuciava algo com alegria.

- O que foi? – perguntei enciumado. Ele e Aluado viam alguma coisa no celular de Sirius, e por que não estavam me mostrando?!

- Eu estava mexendo no celular, e olhe só o que achei: um vídeo do dia que saímos e você ficou em casa! – ele exclamou feliz, enquanto Aluado revirava os olhos.

- Minhas ações nesse vídeo são totalmente justificáveis – se defendeu cruzando os braços.

Sirius deu play.

O vídeo mostrava um pub lotado e mal iluminado. E um balcão cheio de bebidas, que eu reconhecia por causa das fotos que eles tinham colocado no Facebook (e me marcado para zoar da minha cara).

Escutávamos as risadas de um Sirius bêbado, que perguntava algo para um Remus também bêbado:

- Qual a ambição hic vida sua? Quê? Fale de novo, Aluado!

- AMAR ALICE, CASAR COM hic ALICE, FAZER MAIS SEXO COM ALICE, IR PARA AS ILHAS GREGAS COM ALICE, APROVEITAR O POR DO SOL COM ALICE, MERGULHAR EM RECIFES COM ALICE, VISITAR AS PIRÂMIDES DO EGITO COM ALICE, IR PARA O HAVAÍ COM ALICE...

- Chifrar Alice!

- CHIFRAR ALICE... OH NÃO! NÃO, NÃO! CHIFRAR NÃO!

E então Remus começou a chorar e pedir perdão por simplesmente pensar em trai-la, no que Sirius dizia que ia mostrar para ela.

- E eu realmente irei – ameaçou novamente enquanto guardava o celular no bolso – se você me desobedecer!

Remus abaixou a cabeça e ficou quietinho. Quando menos esperávamos, se jogou em cima de Sirius para pegar o celular, só que não conseguiu.

- Agora você terá que me fazer três favores se não quiser que eu mostre! – disse Sirius fingindo estar bravo. – Quero ver você pegá-lo agora – riu ele depois de colocar o celular dentro da cueca.

- Nossa, Almofadinhas, larga de ser nojento! – protestei.

- Por que tá com frescura agora? Não é como se nunca tivesse me visto como vim ao mundo – ele chamou a minha atenção, no que eu respondi com um grande "sssshhhhhhh!".

- Como é? – caçoou Remus, aparentemente interessado no rumo dessa conversa.

- Porra, Sirius! Nós juramos nunca falar sobre isso! – reclamei. Apressei meu passo. Que ódio! Sirius tinha que trazer à tona esse maldito episódio em que ficamos pelados... Droga!

Nós juramos nunca comentar sobre isso.

E essa é uma promessa que eu realmente não pretendo quebrar. A propósito, tem a ver com Snape. Excelente!

Apesar da insistência de Remus, que não calou a boca até chegarmos à sala de aula (perguntando que história tinha sido aquela e por que ele não sabia), Sirius não abriu o bico e ficamos em silêncio, sentados no fundão, esperando o Professor Riddle chegar.

Tom Riddle, nosso professor de física, era terrível. A sala inteira entrou em pânico e um silêncio constrangedor tomou conta do lugar assim que sua presença foi notada. Todos os sussurros foram calados, as risadas engolidas e, se você me perguntasse, parecia que um frio cortante também podia ser sentido. (Talvez porque alguém desligou o aquecedor, mas isso não vem ao caso).

E neve, constatei confuso quando vi minúsculos flocos brancos sobre o ombro do garoto que estava sentado na minha frente, Peter Pettigrew.

Ah, não. Eram caspas.

- Bom dia. Abram o livro na página 245. – A voz fria e sinistra dele preencheu a sala e Sirius fez uma careta de medo. Os olhos do professor eram vagos e medonhos. Estranhamente, ele não tinha nariz. Quero dizer, é claro que tinha, mas era tão pequeno... – Então ninguém aqui é educado o suficiente para responder um cortês "Bom dia, Professor Riddle"? São todos abomináveis, como sempre suspeitei. Tolos, idiotas, mal educados, incapazes de aprender qualquer coisa útil. Não que tenha algo a ver comigo, de qualquer forma. Afinal, não serei eu que irei reprovar nessa matéria e não conseguir entrar em nenhuma dessas universidades que os senhores tanto almejam. Por mim, tanto faz. Ora – continuou – vocês não passam de meros... Ora, ora, mas que alegria! Severus Snape retornou. Gostaria de falar com o senhor mais tarde, Snape. Avery, Mulciber, Malfoy... Vejo que se sentaram na frente, muito bem. Mas que peculiar – prosseguiu enquanto andava pela sala -, você por aqui, senhorita Evans? Achei que não soubesse sequer ler o que está no quadro, por isso geralmente verbalizo minhas ideias. É o que você demonstra na minha prova, por que como é possível alguém que sabe ler ser tão... obtusa? Tão diferente da irmã, tsc tsc tsc. Então me lembro de McKinnon, Prewett, Lupin, Black, Potter...

A sala inteira novamente congelou ao ouvi-lo. Ele geralmente não atacava os alunos tão diretamente... Quero dizer, sempre mostrava favoritismo pelos sonserinos (Malfoy, Avery, Mulciber, Snape, Bellatrix e outros, que haviam ganhado esse apelido porque eram sonsos), mas hoje ele passou dos limites.

- Com licença, senhor.

- Sim, Potter? Algum comentário proveitoso? Caso contrário – ele me interrompeu assim que abri a boca – é melhor permanecer calado.

Os olhares estavam todos em mim.

- O senhor não tem o direito de falar assim com seus alunos.

Sirius me lançou um olhar de censura, que dizia claramente para eu calar a boca. Rabiscou algo rapidamente e me passou.

Pare de bancar o idiota porque ele disse aquilo sobre a Lily.

- Creio que o que eu posso fazer ou não cabe ao diretor decidir, e não a você, um mero aluno. Detenção no sábado de manhã, Potter.

- Professor Riddle – Remus se meteu na conversa, com a intenção de interceder a meu favor. Deus, obrigado! Nada como amigos verdadeiros para salvar a pele quando você está numa bad! – Não pude deixar de notar que na página 245 é o início de Eletrostática. Mas creio que essa não seria a ordem correta, já que paramos em Movimento Ondulatório, e a ementa diz que...

- Não sei se notou, Lupin, mas o professor sou eu. Parece que sei decidir o que é melhor para o aprendizado de vocês, e veremos o conteúdo que falta depois. Detenção com o Potter por contestar meus métodos.

BEM FEITO! TOMA ESSA! Fiz uma expressão de decepção para Remus, o lobo traidor. Eu aqui, achando que ele iria me salvar, que ia falar com o Prof. Riddle para me livrar da detenção, e o que recebo? Nem um pingo de consideração sequer! Já não se fazem mais amigos como antigamente...

A sala permaneceu em silêncio.

- Já que os senhores não têm mais observações, creio que posso iniciar a aula.

O som que veio a seguir foi de vários livros abrindo-se e de alguém sufocando o choro, por medo. O Professor Riddle é um terrorista. Sempre pega muito pesado, nos ameaça... Mas, por algum motivo, Dumbledore o mantém por perto e não o demite, apesar das inúmeras reclamações.

Talvez ele esteja realmente ficando maluco.

Narração: Lily Evans

A semana passou depressa. O rebuliço que se deu na escola por causa da chegada de Severus era notável. Rita Skeeter havia inclusive o entrevistado, e ele foi capa do jornal da escola pela primeira vez na vida.

Me soava muito estranho que alguém claramente impopular pudesse chegar e, de repente, ser a nova sensação da escola. Será que haviam esquecido do bullying que ele sofrera? E, principalmente, que quem pegava mais no pé dele era o Potter, o queridinho da escola?

Praticamente não vi o Potter e seus amigos nos últimos três dias. O que era excelente, porque Potter sempre me deixava nervosa e irritada, por algum motivo.

Na verdade, eu estava muito magoada desde quarta-feira, o dia em que Sev retornou. Não imaginava que fosse ficar tão triste com ele e que fosse evitá-lo, como fiz. Ele tentou entrar em contato diversas vezes. Ligou lá pra casa, mandou e-mails, mensagens no facebook, no celular... Mas eu não respondi. E ontem, sexta-feira, ele aparentemente havia desistido. Sequer me olhou.

E soma-se isso a minha TPM. Faltavam três dias para a minha menstruação chegar, na quarta, e meus hormônios estavam em fúria. E hoje, sábado (em que nada surpreendentemente, minha arrasadora menstruação chegou), eu ainda estava um pouco triste. Triste não. Nervosa.

- Opa, opa, Lily! Que raiva é essa, garota? Concentre-se! – orientou-me o professor de tênis. Eu treinava todos os sábados de manhã no clube perto da minha casa, onde às vezes os marotos vinham jogar futebol. Felizmente, hoje não era um desses dias.

- Urghhh – suspirei quando rebati com força o saque do professor, que invadira meu campo com rapidez e velocidade, e quase me fez perder o ponto. – Arrr – arfava enquanto rebatia a bola novamente, cansada. Estava treinando desde às 9h, e já eram 11h30...

O jogo permaneceu tenso por mais alguns minutos, e eu estava nitidamente ruim hoje. Os movimentos rápidos, sutis e a batida rápida do meu professor exigiam muito de mim, e eu não conseguia me focar na bola...

- A-há! 60 pontos! – riu ele do outro lado do campo.

- Mais uma? – gritei esperançosa. – Prometo acertar!

Ele assentiu e arremessou a bola, para que eu pudesse sacar. Tirei um minuto para olhar para o lado e notei, surpresa, que Regulus Black me assistia.

Era só o que me faltava.

Errei a porra do saque.

- Foco, Lily! – me lembrou o professor. – Na competição você não poderá cometer erros como esses. Lembre-se, você deve pegar o impulso com a perna esquerda e girar o braço antes de lançar a bola!

Com raiva, saquei o que provavelmente foi o saque mais forte da minha vida, e o professor comemorou com um sorriso, já que não havia conseguido pegá-lo a tempo.

- Essa é a minha garota!

O jogo seguiu por o que pareciam ser infinitos minutos pra mim. Mas tudo bem, já que a perda calórica era grande e eu estava precisando queimar umas calorias, devido à imensa quantidade de chocolate que havia comido.

- Ok. Ótimo treino hoje, Lily! Se continuarmos assim, você com certeza ganhará a competição esse ano novamente – ele me tranquilizou assim que se aproximou.

- Obrigada, treinador. Desculpe pelo treino de hoje, estive meio aérea...

- Tudo bem, acontece. É assim mesmo. Não tem como estarmos sempre bem, certo? – disse gentil, tentando me consolar. Me abraçou pelos ombros. – Agora faça sua série de alongamentos e curta o seu sábado. E boa sorte com o seu fã – riu ele. – Até semana que vem, Lil.

O treinador se despediu de mim e saiu da quadra, provavelmente para a outra, onde daria sua próxima aula.

Meu relógio de pulso mostrava 12h10.

Fui até o banco do meu lado do campo e tomei um grande gole de água gelada da squeeze que estava sobre ele. Parecia que estive no deserto do Saara durante 10 anos.

- Uau! – exclamou Regulus Black, que se aproximava. Havia descido as arquibancadas enquanto eu andava em direção ao banco. – Que partidão, Lily. Não sabia que você era forte assim.

- Bom dia, Reg. Bom, não foi um dos melhores treinos para você assistir – eu disse simplesmente enquanto apoiava a raqueteira no ombro e fazia menção de deixar a quadra. Minha série de alongamentos? Hã, que série?

- Quero jogar como você – falou com admiração nos olhos.

- Obrigada, Reg – sorri feliz e com simplicidade, o sorriso autêntico saindo dos meus lábios antes que eu pudesse contê-lo. – Você jogará ainda melhor, se Deus quiser!

- Duvido muito – riu ele. – Então, Lily, quais são seus planos para esta tarde?

Ops. O pirralho ia me convidar para sair.

- Ainda não sei, mas acho que a passarei com Marlene e Alice.

- Entendo... – murmurou ele e, por um momento, vibrei achando que ele fosse desistir. – Você gostaria de tomar um sorvete comigo agora?

Fiz silêncio por um momento.

- Ah, Reg... Me desculpe, mas você sabe que... – parei por um instante. Regulus era muito fofo, e podia ser agradável, mas eu não tinha nem uma sombra de segunda intenção ou interesse por ele. Ele poderia ser meu amigo, mas namorado? Nunca! – Eu não posso te corresponder dessa forma.

- Não precisa ser um encontro – retrucou rápido. – Dois amigos indo tomar sorvete, apenas isso. O que pode haver de errado com dois amigos indo tomar sorvete? – frisou.

Ergui a sobrancelha.

- Vamos lá, Lil, será divertido. Prometo não morder – insistiu.

- Até porque o cachorro é seu irmão, né? – brinquei. Regulus riu.

- Exato! – ele exclamou ao notar que havia me convencido.

- Então vamos – concordei e então saímos da quadra.

Narração: Sirius Black

- E aê, gatinha – pisquei para uma morena gostosa que passava por mim e, assim que ela abriu um sorriso, eu me afastei.

- Uau, que deus grego! – a ouvi suspirar.

O diálogo que seguiu foi um dos típicos breves encontros que tenho com as londrinas todos os sábados de manhã, quando saio para correr. Entenda, eu sou um cara gostoso, que precisa manter a aparência e boa forma. Por esse motivo, sou muito vaidoso. Quero dizer, qual é o problema em passar base nas unhas, ou comprar shampoo só de marca, ou ir ao salão ao menos uma vez por mês? Vaidade é o que há!

E é devido a essa mesma vaidade que estou aqui, correndo pelo bairro de Lily, nessa fria e chuvosa manhã, que é vizinho do meu. Meus planos, na verdade, eram ir até o clube onde jogávamos futebol às vezes e voltar.

Esse tanquinho e esses músculos definidos não estão aqui por magia, né!

Continuei correndo por um bom tempo. O trânsito era light e a movimentação na rua também não era grandes coisas, já que as poucas pessoas que passaram por mim estavam se exercitando ou passeando com seus pets.

Não demorou muito para que eu mudasse a minha trilha e procurasse algum lugar mais movimentado. Foi por esta razão que acabei tendo uma das grandes surpresas do meu sábado.

Passando pela rua Smurry, a mais movimentada, até então, resolvi dar uma paradinha para comprar uma água mineral na sorveteria do outro lado da rua. E aí vi.

A cena mais improvável de todo o universo: Lily Evans estava sentada, rindo e brincando (e com aquela saia do uniforme de tênis dela que a deixa gostosa demais) com ninguém menos do que o meu irmão, Regulus.

TRAÍRA! Era inacreditável... Lily não poderia ter dito sim para um encontro com Regulus. Não podia. Era uma hipótese inadmissível...

Quero dizer, olhe só como Regulus era idiota. Para começar, ele tem 15 anos. Para argumentar, quem é que traz uma garota como Lily Evans a uma sorveteria, às 12h30, num encontro? Num sábado à tarde? Quero dizer, alô-ô!

E, para concluir, olhe só como Regulus é patético, e como Lily podia ter quem quisesse de HH com um estalar dos dedos. E, mesmo com todo esse poder, ela escolheu Regulus. Assim, eu entendo, no fundo. Talvez ela estivesse se sentindo caridosa e compassiva, assim como eu estive quando tirei a virgindade de Suze Creevey e de outras garotinhas lá da HH.

Seria cômico se não fosse trágico, de verdade. Situações drásticas requerem medidas drásticas. (Estou fera em inglês ou não, hein? Aqui é pura sabedoria!). Por isso, peguei meu telefone celular e, sem pestanejar, disquei o número 1 da chamada rápida.

- Pontas, bom dia. Código 911 – disse assim que ele atendeu. "Código 911" era a nossa linguagem de marotos para "emergência".

- Que foi, Sirius? Eu estou tentando dormir.

- Eu disse código 911!

- E qual pode ser a emergência? Ah, já sei – zombou ele com a voz debochada e cheia de sono. Bocejou. – Já que você tem a chave aqui de casa, por que não vem pra cá tratar das suas "emergências"?

- Lily está num encontro com Reg.

Nada poderia tê-lo pego de surpresa mais do que aquilo.

- James? Tá tudo bem, cara? – perguntei depois de 45 segundos que ele não respondia.

- Escovei os dentes e me vesti. Onde você está nesse momento?

Uau! Isso que é rapidez! Espera, ele escovou os dentes em menos de 45 segundos? Imagina só o bafo de onça... É só falar no nome de Lily que o Pontas agiliza, impressionante. Talvez seja esse tal do amor, como insiste a mãe dele.

- Bairro da Lily, rua Smurry. Lembra daquela sorveteria, Sonho Gelado? Pois é. Eles estão aqui.

Mais... 38 segundos sem responder.

- Estou no carro – informou-me. – Câmbio. Agente Potter solicita contato imediato com Agente Black. Forneça-me as informações pertinentes.

Escutei o idiota dar partida no carro. Por que aquele burro estava falando daquele jeito? É um cara esquisito mesmo, vou te contar...

- Agente Potter – comecei a brincar também, porque essa brincadeira de agentes é demais! – Agente Potter, está me ouvindo? Aqui fala Agente Black. Receio termos de nos aproximar com cautela – informei enquanto escondia o meu corpitcho atrás de uma árvore e os espiava. Regulus, gordinho do jeito que era, estava tomando um sundae colegial. Lily, por sua vez, bebia apenas uma água mineral.

- Trago o kit de segurança comigo – falou enquanto provavelmente cortava uns mil carros – jornal e óculos de sol.

- Perfeito!

18 segundos depois, o Agente Potter já havia estacionado o carro no fim da rua e se aproximava em seu disfarce de "mero cidadão".

- Bom dia – ele me saudou cortês – analisemos a situação.

- Bom dia! Cara, deixando a parada de agentes de lado – ri – que roupas são essas? – indaguei assustado. James trajava uma calça jeans, um suéter que estava displicentemente dobrado até a marca do cotovelo e óculos de sol bem escuros. – Você está parecendo um veadão!

- Que engraçado, Sirius – murmurou bravo. – Agora estou de mau humor por causa da porra do seu irmão! Pensei que tivéssemos concordado que você iria vigiá-lo?

- Ah, qual é, eu por acaso tenho cara de babá?

- Bom, seu semblante...

- Ah, cale essa boca! Nem começa! – falei na defensiva. – Vai sorrir e cuidar da sua vida!

Ele me ignorou. Tirou da bolsa preta que carregava no ombro um binóculo.

- Chama-se precaução – disse antes que eu pudesse perguntar. – Chega pra lá.

- Não tem espaço – falei entredentes enquanto me espremia atrás da árvore.

- Seu gordo!

- Ei, vai procurar a sua árvore se quiser continuar vigiando os dois, porra! Cheguei aqui primeiro!

- Já fez xixi nela pra demarcar território? – ele riu sozinho. Nossa, tão patético...

- Nossa, Pontas, você é tão engraçado, por que não pula de uma ponte? – perguntei com um tom de indiferença e impaciência. Ai, James pode ser tão criança às vezes...

- Nossa, Almofadinhas, você é tão prestativo, por que não assume sua homossexualidade e vira uma babá?

Não estou dizendo?

- Não me espanta que Lily tenha escolhido Reg. Se o critério dela fosse idade mental, seria uma disputa tremendamente acirrada.

- Ha, ha, ha – fez ele bravo. – Preste atenção, cachorro, o plano é o seguinte...

E cochichou para mim as instruções da nossa mais nova operação.

Narração: Lily Evans

Lembra do que eu disse sobre Reg poder ser agradável? Então, eu retiro. Que moleque chato. Estou rindo e brincando com ele por fora, mas estou o saci por dentro! Que garoto exibido e impertinente. Tão metido... Acho que está virando costume me relacionar com pessoas assim. Por exemplo, pense no Potter, que insiste em manter um relacionamento forçado comigo. Ai, Potter me irrita!

Este sábado estava estranhamente parado. Não era exatamente movimentado aqui no bairro, já que era tipicamente residencial, mas também não era tão deserto assim. Meu feeling me dizia que alguma coisa, em algum lugar, estava estranha. Meu sexto sentido não parava de apitar...

Relaxei, então, quando notei a presença de dois rapazes que se aproximavam. Eram duas figuras bastante peculiares, na verdade. Um deles vestia roupa de fitness, e estava provavelmente se exercitando. O outro, pouquíssimos centímetros mais baixo, estava de jeans e com a camisa dobrada até o cotovelo, do jeito mais sexy possível.

Pena que eu não podia ver o semblante de nenhum deles, já que liam o jornal na altura do rosto.

- Pois é, ruiva – comentou Regulus. – Ruiva? – chamou minha atenção depois de notar que eu estava viajando na maionese.

- Não me chame de ruiva – pedi com o tom seco. Logo me arrependi por ter sido tão grossa. – Desculpa, Reg. É que...

- Só o Potter pode te chamar assim? – retrucou ele sendo mais grosso do que eu.

Por que tudo que acontece comigo sempre acaba chegando no Potter?

- Não – respondi na mesma moeda. – Não que seja da sua conta, Regulus. Até onde eu sei, você não é nem meu amigo. Não me venha com provocações.

- Desculpe... Foi uma brincadeira, Lily – mentiu ele, fingindo arrependimento.

Notei que os estranhos haviam se sentado à mesa ao lado da nossa. E bota estranhos nisso! O jornal ainda tapava seus rostos.

O celular de Regulus, que não parava de vibrar, me chamou a atenção.

- Pode atender – disse tentando parecer gentil. Parando para pensar, eu me arrependo de ter sido grossa com ele. Ele foi tão legal em me chamar para tomar esse sorvete... E eu sei que quem está tomando sorvete aqui é ele, mas o convite fala por si só.

- É um número desconhecido – falou sem graça. Na pior das hipóteses, era a sua mãe querendo que ele fosse para casa.

- Lily, posso te fazer uma pergunta?

- Você já fez – respondi com um sorriso amarelo. – Estou brincando. Vá em frente, Reg.

- Por que você fica tão nervosa quando o assunto é o James?

ESTÁ VENDO? O ASSUNTO SEMPRE CHEGA NO IMBECIL DO POTTER!

Potter, Potter, Potter! Eu não aguento mais esse maldito nome!

- Porque ele é um stalker irritante.

Porque ele era um insistente, metido, imbecil, que se acha no direito de fazer o que quiser, imaturo, infantil, e tem um cheiro particularmente inebriante... Epa!

- O amor e o ódio andam juntos, sabe?

- É, já me disseram isso. Mas quem inventou essa frase com certeza não conheceu James Potter.

Reg riu.

- Bom, com certeza não. Mas o ponto onde eu quero chegar é: – ele insistiu e apoiou os cotovelos na mesa. Fixou o olhar em mim. – eu tenho chances, Lily? Contra ele, quero dizer. – Esclareceu-se.

- Não há disputa alguma, Regulus. E ele também não tem nenhuma chance.

Depois disso, não aguentei segurar a risada e ri.

- Desculpe-me – pedi sem graça. – Mas é que essa é a pergunta mais... mais sem noção que eu já ouvi! Quero dizer, Regulus Black ou James Potter? Tá, eu sei que já saí com Gilderoy Lockhart, Reg, mas eu era BV e inexperiente...

- A-HÁ, EU SABIA! AI! – uma voz familiar, em alguma mesa, gritou. Chequei a sorveteria com os olhos. As poucas pessoas que estavam ali conversavam, animadas, e os caras estranhos do jornal sussurravam entre si, os rostos ainda cobertos pelo jornal.

- Enfim – concluí – você disse que queria ser meu amigo, Reg. E eu aceito a sua amizade, mas já disse que não posso te corresponder de outra forma.

- Mas eu não posso ao menos tentar? Sério, Lily, eu te amo! Você é linda, é simples, impetuosa... – Será que ele ao menos sabia o que era impetuosa? – Eu quero ficar com você!

Duas risadas ecoaram pela sorveteria. Olhei o estabelecimento novamente e vi que um grupo de pessoas gargalhava no caixa.

Olhei para Reg com pena e estendi a mão até alcançar a sua. Apertei-a levemente.

- Falta cotonete na sua casa? – brinquei. Ele sorriu. – Desculpe, Reg, mas nem vai gerar.

Bebi um gole da minha água e fiz cara de novinha para ele. Usei a expressão "nem vai gerar" para ver se ele compreendia, de uma vez por todas, que nada iria acontecer entre nós. Com a norma padrão e coloquial ele não entendia. Talvez uma expressão extremamente coloquial como aquela o fizesse compreender.

- Ok. É o que veremos.

Ergui a sobrancelha.

Pelo canto do olho, observei os caras do jornal comemorarem alguma coisa. Um deles – o que vestia roupa de fitness – se levantou e direcionou-se ao banheiro. O outro permaneceu sentado, o jornal ainda cobrindo seu rosto.

Que irritante! Eu queria tanto ver aquele rosto. Aquele suéter dobrado até o cotovelo era simplesmente tão sexy... Esse esquisito tinha um sex appeal tão, mas tão...

- Então, Lily... – tagarelou Reg – você não quer nem um sorvete?

- Não, obrigada. Mamãe vai fazer o almoço hoje, e almoços feitos por ela são sagrados lá em casa...

- Ah, entendi – sorriu compreensivo. – Na minha casa não tem nada disso. Mamãe e papai só dormem lá. Sirius praticamente me criou.

- É, posso ver de onde você tem esse jeito... peculiar, igual ao Sirius.

- Eu tento não demonstrar, mas o amo muito. Eu quero ser igual a ele.

Narração: James Potter

Lily me paga. Quando nos casarmos, eu farei greve de sexo! Como assim ela aceita sair com Regulus? Com o pirralho, estúpido Regulus?

Nada irreversível, no entanto.

- Estou cansado de ler esse classificado – resmunguei para Sirius num sussurro.

- Então não leia. Você acha que eu tô lendo alguma coisa? – questionou ele, como se eu fosse um grande burro (como ele era) e não prestasse atenção nas coisas. – Opa! Finalmente algo interessante aqui: "Gina Furacão está de volta! Ruiva, alta, corpo definido e muito tesão!" – E ele pegou seu celular para registrar o número dela.

- Cara, o que você está fazendo? Não queremos chamar a atenção!

- Agente Potter, passei a crer que missões com você são tremendamente enfadonhas. Não sabe se divertir?

- Desculpa se eu levo o trabalho a sério.

- Espere aí – Sirius cruzou os braços e ameaçou baixar o jornal e, consequentemente, nos revelar. – Então você está dizendo que eu não desempenho a minha função de seu melhor amigo bem?

- Hã? Sirius, do que você está falando?

- (...) BV e inexperiente... - a traidora do século disse a Regulus. Estávamos sentados na mesa quase ao lado, portanto podíamos ouvir boa parte da conversa deles. Como sussurrávamos – na maior parte do tempo, pelo menos – traidora e traidor não podiam nos ouvir.

- A-HÁ, EU SABIA! – gritou Sirius se sentindo vitorioso por ter dito isso outro dia a Reg. Dei um beliscão no braço dele. - AI!

- A coisas desse tipo que me refiro – cochichei enquanto me posicionava confortavelmente sobre a cadeira, encostando-me. – Estou entediado. Vamos colocar o plano em ação.

- Mas já?

- Yup. Ande, vá ao banheiro. Leve a bolsa preta para tocar de roupa. Repita, Almofadinhas: gastroenterite.

- Gastrerinte.

Ri.

- Não, jumento. Gastroenterite.

- Ah, vai sorrir e tomar no seu cu!

Narração: Sirius "O gostosão" Black

Pareci um babaca enquanto andava até o banheiro com o jornal tapando o meu rosto. Primeiro porque o meu rosto é lindo, como se Michelangelo o tivesse feito a pincel, e por esse motivo ele deve ser visto e apreciado. E segundo porque é muito idiota alguém simplesmente fazer tudo com um jornal na cara.

Entrei no maldito banheiro, coloquei a outra roupa de fitness que estava dentro da bolsa do Pontas e saí. James se levantou assim que me viu, para colocar nosso plano em andamento.

Me aproximei da mesa de Lily e Regulus devagar, surpreendendo Lily pelas costas.

Os olhos de Reg saltaram das órbitas ao me ver. Lily, curiosa pelo olhar dele, virou-se.

- Sirius? – indagou surpresa. – O que faz aqui?!

- Boa tarde, Lil, boa tarde, Reg! Que bom vê-los também!

Mas Lily não caiu na minha.

- O que faz aqui? – perguntou cética, a testa franzida. – Acaso nos seguiu?

- Nossa, Lily, o que te faz achar ser tão importante assim? Você acha que vou correr atrás de mulher de amigo meu?

- De cof cof irmão cof meu cof – tossiu Reg como uma criança retardada.

Soquei o ombro dele. Mais do nunca, ele está fudido porque eu o escutei dizer que queria ser igual a mim. E com certeza mais tarde eu irei zoá-lo!

- Enfim. Eu só estava passando por aqui e resolvi entrar por motivos de ordem... hm, pessoais.

- Que motivos? – insistiu Lily, a delegada.

- Eu lá te devo satisfação de alguma coisa da minha vida, Evans?

- Desde que você estiver me seguindo, sim! Ou vai dizer que você simplesmente ficou no banheiro durante esses últimos... – Ela olhou o relógio. – 40 minutos?

- Mas eu não estava te seguindo, caralho! – me defendi.

Esse mistério em torno de onde eu estivera era para atiçar a curiosidade dela, que acreditaria na mentira que veio a seguir.

- Ok, eu conto – fingi me render. – Eu tenho... – Como era o nome daquela doença? – Eu tenho gastroenterite.

Regulus, que não sabia o que era gastroenterite, me olhou feio por atrapalhar o pseudo encontro deles. Lily, metida a inteligente, começou a rir da minha cara.

- Você quer dizer que você estava, há mais de 40 minutos, fazendo diarreia? – ela riu mais. – Hilário, hilário! Quem diria que Sirius Black, todo pomposo, fosse um... cu frouxo! É, cu frouxo! Eu te chamarei de – intervalo para a risada imbecil dela e de Regulus – cu frouxo!

Ruiva maligna! Se ela começar a me chamar assim...

Comecei a digitar uma mensagem para o James, enquanto Lily e Regulus faziam inúmeras piadinhas sobre cocô, meu estômago, meu ânus, meus peidos (que eles cheiravam com mais frequência do que sabiam) etc.

Lily está me chamando de "cu frouxo" por causa da maldita mentira que vc me mandou contar. E EU NEM SEI O QUE É A PORRA DA GASTRENTRITE!

Enviada para Pontas My Best Friend s2 às 12h52

É gastroenterite, burro. Já entrarei em ação.

De: Pontas My Best Friend s2 às 12h52

Narração: Lily Evans

Meu feeling NUNCA me engana. Eu sabia que havia algo errado, e minhas suspeitas foram comprovadas no minuto em que me virei, surpresa, para encarar o cara de pau do Sirius na sorveteria, provavelmente espionando a gente esse tempo todo para contar para o Potter.

E aí ele veio com essa história de gastroenterite. Claro que foi muito engraçado, mas é óbvio que é mentira. Ele e Potter tramavam algo.

Então, como se não fosse o suficiente, Sirius resolveu bancar o irmão mais velho.

- Você deveria ir pra casa, Reg. Mamãe te pôs de castigo ontem porque não fez o dever de casa. Ou não se lembra?

Prendi a risada e mordi o lábio.

- Shhh, quieto, Sirius! – pediu Reg. – Ela não me pôs de castigo exatamente, Lily...

- Que família engraçada – comentei rindo. Um é cu frouxo, o outro ainda fica de castigo por não fazer o dever de casa, a prima é uma louca, apesar de legal...

Sirius sorria perversamente ao ver o irmão fracassar diante de mim.

- Nossa saída como amigos foi muito boa, Reg. Mas já é quase uma hora e eu preciso ir para casa almoçar.

Sirius franziu o cenho.

- "Como amigos?" – repetiu Sirius incrédulo, elevando a voz, quase como com raiva. – OH DEUS, ESSE TRABALHO TODO POR CAUSA DE UMA SAÍDA "COMO AMIGOS"?

Epa, epa, epa!

- O que você quis dizer com isso? – cruzei os braços e fiz cara feia para Sirius, que, cara de pau do jeito que era, já estava sentado na mesa conosco. – E só para esclarecer, mas não que eu deva satisfação a você ou a quem quer que seja, eu e Reg saímos como amigos. Ou você acha mesmo que eu iria sair... com Regulus? – perguntei numa onda de risos.

Sirius riu comigo.

- Realmente! Quando vi, assim que saí do banheiro, achei que você tivesse perdido a cabeça!

- Ah, não, não!

Regulus fez cara muito feia por ser zoado. Eu e Sirius ríamos, para provocá-lo ainda mais.

- Ora, ora, agora sim é uma festa – soou uma voz que eu, infelizmente, conhecia muito bem.

Potter.

- Almofadinhas, trouxe o laxante que você pediu.

Sirius encarou Potter com a cara mais feia que eu já o vi fazer.

- Regulus Arcturus Black – ele cumprimentou Reg com frieza. – Fura olho. Não que importe, de qualquer forma. Lily – falou com pompa, tentando fazer a voz soar mais grave. Sorriu tentando parecer galanteador. Tentando.

- James – falei na voz mais provocante possível, lembrando de chamá-lo pelo nome.

- Sirius – disse Sirius para ele mesmo, tentando imitar nosso tom de voz.

- Vela – imitou Reg.

- Reg, mamãe mandou te levar em casa. Vai ficar mais um mês de castigo por tê-la desobedecido.

- Não é justo! Isso não é justo! Eu odeio a minha vida!

Reg resmungou enquanto eu, Sirius e Potter olhávamos para ele meio estranho.

- Tchau, Lily! – murmurou zangado, a voz manhosa e pirracenta, como um bebê. Levantou-se e deu um beijo na minha bochecha. De relance, pude ver Potter fuzilá-lo com o olhar.

- Até mais, Reg.

- Adeus, queridos – despediu-se Sirius com uma piscadela para James, e saiu em seguida.

Então sobrávamos eu e James na mesa da sorveteria, no que tinha sido provavelmente uma armação dele e de Sirius. Talvez exista até a possibilidade de eles dois terem sido os homens do jornal que, como eu acabara de notar, haviam desaparecido.

Ah, aí também não. Estou sendo muito paranoica.

- Bom, adeus também, Potter.

- Por quê? – indagou ele sem entender. – Eu acabei de chegar.

- Mas eu estou aqui há mais tempo. Não que seja da sua conta, de verdade, mas eu e Reg estávamos numa saída como amigos.

- Nossa, mas nem somos comprometidos ainda e você já me dá satisfações? Gostei de ver! – sorriu vitorioso o irritante. – Veja, Lily, é só uma questão de tempo até ficarmos juntos.

Olhei para ele como quem duvidava.

- Naturalmente, você irá se apaixonar por mim – falou convicto, como um apostador confiante que acredita no seu taco. – E seremos felizes para sempre. Mas, enquanto isso, eu espero pacientemente enquanto tomo sorvete com você – finalizou enquanto revistava o pote de sorvete que Reg havia deixado na mesa para ver se encontrava algum restinho. Nojento!

- Não vejo isso acontecendo, James, sinto muitíssimo.

Dessa vez, ele ergueu a sobrancelha.

- Você acaba de dizer que "sente muitíssimo" por não se apaixonar por mim. Em seu subconsciente, está processando essa informação só para constatar, em dado período de tempo, que vamos ficar juntos.

Por que ele é tão irritante?! Argh!

- Seu burro, você interpreta tudo errado! Não é de impressionar que as suas notas em Inglês e Literatura sejam um lixo! – bufei erguendo as mãos, começando a me irritar. – Eu sinto muitíssimo por você, que fica delirando, seu lunático esquisito!

- Isso é o que você pensa – replicou ele com um ar calmo e angelical. – Enfim. Seu pai é capaz de esclarecer isso melhor do que eu. Antei batendo uns leros com ele.

Levei as mãos ao rosto e bati, como quem se rendia ao inimigo. Potter, como sempre, sorriu. Só que dessa vez foi um sorriso fofo, por mais que eu detestasse admitir, e que caía muito bem nele. Falando nisso, é impressão minha ou James tem estado mais fofo ultimamente? Sei lá...

- Você trocou de óculos, James?

- Não – respondeu confuso. – Por que, baby? – provocou.

- Porque você parece mais feio. - Falei com um tom irônico. Só que ele era burro e não percebeu, e fez uma cara triste.

Ah, já que não eram os óculos, eu não sei o que mudou na feição dele. Mas alguma coisa foi!

- Estou brincando. Apenas curiosidade.

- Por acaso notou os meus belos olhos?

Fiz uma careta para ele.

Ele riu e fez menção de dizer alguma coisa, mas foi interrompido pelo meu celular, que começou a tocar e vibrar desesperadamente.

- Alô – atendi.

- Onde você está, Lily? Eu disse a você que hoje faria o almoço, e que ele seria servido às 12h30! Por que não está em casa?

- Mãe, é que...

- Venha para casa JÁ! – ordenou ela, zangada, a voz um tanto alta. James fez uma careta de medo dela. – AGORA! Você tem cinco minutos!

E desligou.

Não consegui me conter. Eu odiava quando mamãe era rude comigo... E logo aqui, na frente de James Potter...

Comecei a chorar. Hormônios. MALDITOS SEJAM!

- Ei, calma, Lil... Tipo, sei que sua mãe está provavelmente o capeta com você, pelo que eu a ouvi gritar, mas hey, minha mãe já me chamou de filho da puta, piranheiro, insensível... Tipo, sei lá, mas na minha opinião ela foi pior do que a sua. – Será que o Potter não sabia calar a boca? – E eu sei que meu comentário anterior não adiantou em nada...

Potter me encarava perplexo. Chegou a cadeira para perto de onde eu estava quando notou que eu começara a soluçar entre o meu choro alto e desesperado e totalmente sem motivo.

Encostei a cabeça na mesa.

- Quer conversar? – perguntou o inútil, que acariciava meu cabelo. Quem lhe deu permissão?

- Eu... eu... – murmurei com a voz abafada. – EU ODEIO QUANDO MAMÃE FAZ ISSO! QUANDO ELA ME TRATA COMO UMA... AKNHSYUAJSOIHAUI – disse algo ininteligível tanto para o Potter quanto para mim mesma, já que os meus soluços estavam mais intensos e as lágrimas ensopavam a camisa do meu uniforme de tênis. – UMA CRIANÇA QUE NÃO TEM RESPONSABILIDADES! ELA SABE QUE EU FICO NA TPM NA MESMA ÉPOCA QUE ELA E PETÚNIA, POR QUE VOCÊ SABIA, POTTER, QUE MULHERES PRÓXIMAS QUE VIVEM NA MESMA CASA TENDEM A TER O CICLO MENSTRUAL NOS MESMOS DIAS? FOI DIVULGADO RECENTEMENTE NUM ESTUDO. TEM A VER COM O CICLO DA LUA. POIS É, ENFIM, ELA FICA NA TPM DELA E ME INSULTA, FALA DESSE JEITO COMIGO, SÓ QUE MEUS HORMÔNIOS ESTÃO EM FÚRIA, ENTÃO IMAGINE O MEU DESES... IASAJKJIUHSN... DESESPERO! – finalizei quando finalmente consegui respirar. A esse ponto, eu estava com as bochechas muito vermelhas.

- Espere aí. Você, sua irmã e sua mãe ficam na TPM no mesmo período? – indagou com a voz séria e assustada, como se fosse alguma coisa anormal.

Assenti.

- Uau. O seu pai é um herói – foi tudo que o gênio conseguiu comentar.

- É SÓ HIC HIC ISSO QUE TEM A DIZER?!

- Claro que não, Lil. Venha, levante-se, eu te levo em casa. Podemos conversar melhor no carro, e sua mãe disse que você tinha que estar lá em... bom, agora 2 minutos e 45 segundos, né? Acho que nem vai gerar de chegar lá a tempo.

- IRHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH H – solucei mais uma vez na beira do desespero.

Potter me abraçou pelos ombros e fomos até o carro dele.

Poxa, eu quero ter uma conversa com mamãe mais tarde! Ela... Como ela pôde me tratar assim... Eu, a filhinha dela... E ela vem e grita no telefone só por causa de um simples almoço...

Sendo muito solícito e prestativo, ele abriu a porta do carona e esperou-me sentar e a fechou. Segundos depois, enquanto eu afivelava o cinto, mesmo com a tremedeira nas mãos, ele já estava dando partida e saindo com o carro, que estava estacionado no fim da rua. Por que esse antílope estacionou esse carro tão longe?!

Acho que ele estava com um pouco de medo de mim, porque não abriu a boca para nada durante a carona até lá em casa. Ele talvez estivesse surpreso por a) me ver naquele estado e b) me ter no carro dele com tanta facilidade.

- Pronto, entregue – ele sorriu quando estacionou na frente da minha casa. – E aí, qual é o rango de hoje, pra ser tão importante assim que você não pode faltar?

- É penne a la Evans – disse enquanto desafivelava o cinto, minha respiração de volta ao normal. Por um momento, achei que tivesse melhorado, até que uma memória me veio à cabeça. – MAMÃE INVENTOU ESSA RECEITA LOUCA COM PENNE QUANDO MEU CACHORRO, O BOB, MORREU. EU TINHA SEIS ANOS, POTTER, SEIS ANOS! COMO VOCÊ ACHA QUE EU ME SENTI AO PERDER O CACHORRO? E AÍ ELA ME DEU ESSA COMIDA PRA EU FICAR FELIZ . – Minha voz chorosa e manhosa ecoou pelo carro, e logo os soluços estavam de volta. – EU AMAVA O POTTER, BOB! QUERO DIZER, O BOB, POTTER! ELE... ASKMOISAH... ELE CORRIA PELO QUINTAL COMIGO, DORMIA NA MINHA CAMA... AOIHIUSGAISAM – Dessa vez, até um pouquinho de catarro subiu à garganta – E... PEGAVA A BOLINHA QUANDO EU PEDIA! E ENTÃO ELE... ELE MORREU... MAMÃE DISSE QUE ELE IA MORAR NUMA FAZENDA NOVA... MAS QUEM NÃO CONHECE ESSA DESCULPA, NÃO É MESMO? – Concluí minhas ideias com uma grande engasgada. Potter levantou meus braços e me deu tapinhas gentis nas costas. Depois sorriu.

- Qual... qual havia sido sua pergunta, Potter? – quis saber quando passei a mão por debaixo dos olhos, querendo secar as lágrimas.

- Perguntei qual era o rango na sua casa hoje – falou divertido, me fazendo rir. - Olha – começou o que parecia ser algo produtivo – eu acho que você está exagerando, Lily. Tanto você como sua mãe estão em períodos em que vocês são... Hm...

- SOMOS O QUÊ?! – gritei agressiva, lançando um olhar de fúria e ódio em sua direção.

- Hm... Mais sensíveis, digamos. Quase não conseguem pensar com clareza... Bem, enfim. Não consigo pensar em um bom consolo por causa de atividade hormonal. É um processo biológico natural.

- Sim – concordei com ele quando suspirei pesado e encostei minha cabeça no banco.

- Mas eu posso te contar uma... uma coisa que pode fazer com que você se sinta melhor.

Meus olhos brilharam e, sem perceber, pus minha mão sobre a perna dele.

- Conta! – pedi, estranhamente animada, quando minha mão achou a dele e eu a apertei de levinho.

- Ok! – ele respondeu entusiasmado e confiante. Olhou para mim com seriedade.

- Há muito tempo, em uma galáxia muito distante...

O encarei com os olhos semicerrados.

- Ah, qual é? Você não quer que eu te conte a versão real, quer?

Assenti com um sorriso.

- Os sacrifícios que a gente não faz por amor... – resmungou ele enquanto encarava o volante. Fez um biquinho e, por fim, virou-se. – Está bem, está bem, mas isso não sairá desse carro!

- Combinado!

- Bom, eu e Sirius pregamos uma peça no Snape, uns meses antes de ele viajar. A gente tinha aprendido a fazer uma substância fedorenta e corrosiva na aula de química. O que aconteceu foi que Sirius – ele aliviou a barra para seu lado – teve a brilhante ideia de jogar na mochila e no armário dele. Aí – ele estendeu a mão como quem pedisse para continuar falando, já que eu iria interrompê-lo -, você pode imaginar que ele ficou puto da vida com a gente.

- E com razão – falei brava.

- Tá, tudo bem, tudo bem. Bom, naquele ano, eu e Sirius ainda não éramos as estrelas do time de futebol, mas nós tentávamos muito jogar bem. Sempre ficávamos até mais tarde no campo, treinando, até depois que a escola era fechada. Em um desses dias – engoliu em seco – Snape ficou, mas nós não notamos. Até por que, quem é que vê alguma coisa por baixo daquele cabelo seboso? Então ele entrou no vestiário, pegou nossas roupas enquanto tomávamos banho... Ergh, não só nossas roupas, as toalhas também... Enfim. Só que eu achei que Almofadinhas tinha pegado a minha toalha, de brincadeira, e ele achou que eu tinha pegado a dele... Aí eu agradeci a Deus por ter miopia, é claro, e não enxergar o inferno que foi o Sirius pelado, mas eu vi sim. O pior de tudo – suspirou ele enquanto eu ria ao imaginar a cena -, foi que ele deixou duas calcinhas fio dental vermelhas rendadas dentro de nossos armários. E foi com aqueles trajes que fomos para casa naquele dia... Abraçados na rua, por causa do frio...

A esse ponto, eu já havia gargalhado ao imaginar aquela cena. Imagine só! James e Sirius naquelas condições! Nus, de calcinha vermelha pela rua, andando abraçados!

- Realmente muito engraçado – reclamou bravo e cruzou os braços. Sentou-se completamente para frente, encarando o para-brisa do carro. – Principalmente eu e Sirius tentando explicar para a polícia e pros nossos pais que não era o que parecia. Deu um B.O danado.

- Eu achei! – falei rindo, mas não queria que ele ficasse chateado com aquilo. – Bom, talvez nem tão engraçado assim, mas... Quem diria! Agora eu tenho um podre seu nas mãos, Potter. Posso usá-lo quando quiser.

- Experimente – sorriu perverso enquanto mexia com alguma coisa no celular. E então me mostrou. Várias fotos minhas chorando, com a cabeça encostada na mesa e expressões de careta e sofrimento. Eu super acabada.

- Apague essas fotos!

- Só se você me der um beijo – pediu ele e os lábios formaram um biquinho. Seu olhar era como de uma pessoa carente.

A surpresa que tomou conta de seu olhar e de sua expressão quando eu me aproximei foram memoráveis. Ele não esperava que eu cedesse à sua brincadeira. E parecia que ele tinha tomado um anestésico, porque ele ficou simplesmente parado, encarando o além, quando eu delicadamente dei um beijinho na bochecha dele.

- E... James? Não precisava ter pedido – falei com simplicidade, um sorrisinho brincando nos meus lábios. – Obrigada pela carona.

E então saí do carro e andei até a casa, sem olhar para trás. (Mas depois fiquei sabendo, por Petúnia, que James ficou com o carro estacionado ali na frente por um tempinho, a mão na bochecha. Esse bobo...).

E aí, gostaram? *-* tenham piedade de mim e deixem uma reviewzinha, pleeeeeeaseee! UHAUAHUAH