Cap 04 - Estranho no Ninho

A bola foi chutada com muita força indo parar do lado de fora do campo, no meio da rua. Gabriel, como bom gandula, foi correndo até ela e quase sofreu um acidente por causa disso. Ele se agacha no meio da rua pra pegar a bola bem no momento em que um carro azul ia passando. O motorista dá um freio brusco. Passado o susto o homem grita dois ou três desaforos ao menino que o ignora e só leva a bola embora consigo. Após o susto ter passado o pequeno Gabriel volta a se juntar aos seus colegas no campinho e retoma a partida. Como se nada demais tivesse acontecido.

Do outro lado da rua, sem ser notado pelos garotos que estavam ocupados demais jogando bola, uma figura assiste a partida com um horrendo interesse por um dos jogadores.
- Nunca cacei um tão jovem. - Disse Martim.
- Não se engane. - Disse Dudu. - Monstros são monstros não importa o tamanho que tenham.

Martim olha para o rosto do pequeno Gabriel e nota uma mudança. Seu nariz toma a forma de um bico de pássaro e sua cabeça é tomada por penas azuis que só deixavam livre a área do rosto. Não tinha como ter duvida. Aquele garoto de oito anos era uma criatura do astral.

- O menino é um cuckoo. - Falou Dudu. - Essas criaturas sórdidas gostam de fazer filhos recém nascidos de jovens casais como alvo. Eles raptam o bebê e o substituem pelo filho deles fazendo com que suas vítimas sem saber criem um bebê monstro no lugar de seus verdadeiros rebentos. Não se sabe o que é feito com o filho verdadeiro. Ou levam pro astral ou dão um fim a ele. Não posso imaginar o que possa ser pior.
- E os pais nunca desconfiam da troca?
- Como poderiam? Uma criança cuckoo se adapta a qualquer situação. Inclusive imitando os traços físicos dos pais postiços.
- Mas esse garoto é muito novo!
- E daí? Quando esse cuckoo casar e ter seus filhos ele fará o mesmo com algum outro casal. Impeça-o bem antes que isso aconteça.
- Não sei, cara. Matar uma criança...
- Ele não é uma criança! Faça o seu dever!

Quando Gabriel voltou pra casa estava tão suado que chegava a ficar peguento. Sua mãe, uma mulher criada na roça sem frescura pra nada, não se importou com isso e deu um forte abraço em seu menino. Gabriel se afastou, não por que queria poupar sua mãe de se sujar, mas porque achava aquela demonstração de carinho constrangedora. Apesar de ainda ser bem novinho ele já começava a mostrar alguns comportamentos de adolescente.

Gabriel foi tomar banho e em seguida escovar os dentes. Enquanto passava sua escova por dentro de sua boca ele olhava para o espelho e, por um breve momento, viu uma imagem estranha. Seu rosto no reflexo havia se alterado para uma coisa hibrida de homem com ave. Assustado o menino tratou logo de lavar a boca e deixar aquele espelho pra lá.

- Como foi o futebol, campeão?
- Ótimo! Marquei dois gols!
- Nossa, mas é um craque mesmo. - Falou o pai fingindo surpresa.
Gabriel podia se considerar um rapaz com sorte. Seus pais eram carinhosos e bons, na escola e na vizinhança ele estava cheio de amigos, era saudável. Não tinha nada em sua vida de que ele reclamasse. Apesar de ser muito jovem ele já tinha noção que aquele tipo de vida era um privilégio e antes de dormir ele gostava de rezar agradecendo a dadiva. Naquela noite, sentado em sua cama, quando estava finalizando uma reza, o pequeno Gabriel viu da janela do seu quarto (que ficava no segundo andar) um homem estranho na rua que parecia o encarar. Um homem de aparência sinistra que vestia uma jaqueta preta de couro.

- Você já teve a impressão de estar sendo perseguido?
- Já, quando assisti muito filme de terror. Cara, olha só que jogo massa a Sony vai lançar esse ano.
Gabriel estava na escola no intervalo. Tentava ter uma conversa mais séria com seu melhor amigo, mas este não conseguia o levar a sério. Até porque ele estava mais interessado na revista que acabará de comprar. Uma dessas publicações destinadas a fazer propaganda de jogos eletrônicos. Percebendo que não ia conseguir muita coisa conversando com seu colega, Gabriel deixa seu amigo se entreter com a revista e se afasta. Próximo ao portão do colégio o menino olha pelas frestas e percebe a presença do mesmo homem de jaqueta preta que havia visto na noite anterior.

- Não estou vendo nada. Tem certeza que não foi impressão?
Assustado, Gabriel foi pedir ajuda a sua professora. Ele contou a ela sobre o misterioso homem que parecia estar o seguindo. Ela, porém, não deu muito credito a história do jovem. Acreditando até que fosse algum tipo de piada juvenil. Isso era o mais fácil de se acreditar. Aquela professora gostava de não ver problema nas coisas para não ter que se envolver. A professora fez tanto a cabeça do garoto que no final até Gabriel começou a achar que o seu perseguidor fosse fruto da sua imaginação. Mas aquela ilusão durou pouco. No dia seguinte o homem de jaqueta preta voltou a aparecer. Era meio-dia, Gabriel estava fazendo o seu caminho diário da escola para sua casa. O homem de jaqueta preta estava andando a alguns passos dele. Assustado Gabriel apertou o passo até quase começar a correr, em resposta o homem misterioso fez o mesmo. Não demorou muito para o homem de jaqueta preta o agarrar e o levar até um beco. Tapando sua boca para que não gritasse.

Martim olhou para o menino indefeso a sua frente e não estava acreditando no que estava fazendo. Apesar de ver seu rosto de menino-pássaro e saber que ele não era humano não conseguia completar sua missão. Titubeava.

- Escuta aqui, moleque. - Disse Martim. - Você fará tudo o que eu disser está me ouvindo? - Gabriel apenas balançava a cabeça positivamente, bastante assustado. Lagrimas rolavam pelo seu rosto fazendo com que o coração de Martim ficasse cada vez mais apertado. - Quando você crescer, você não irá fazer mal a nenhuma criança, está me entendendo? - Gabriel fez uma cara que deixou obvio que não entendia nada do que Martim estava se referindo. Foi aí que o caçador entendeu. - Você não faz nem ideia do que é, né?

- Como assim?
- Você não é filho dos seus pais. Você é um cuckoo, uma criatura do astral que gosta de raptar crianças e trocá-las pelo próprio bebê.
- Desculpe, moço, mas você é maluco?
- Qual é, você não é um garoto normal e não é possível que nunca tenha percebido nada de estranho!
Gabriel pensou um pouco e lhe veio a mente as imagens estranhas que via no espelho. Lembrou de seu reflexo distorcido.
Martim começou a dar passos para trás se afastando. - Lembre-se! Quando se tornar adulto não faça mal a nenhuma criança! Se não você me verá novamente e você não vai gostar!

Em casa, em seu quarto, Gabriel finalmente havia digerido o que o seu raptor tinha lhe dito e finalmente entendeu. Sua vida perfeita era uma farsa. Seus pais não eram perfeitos, eles nem mesmo eram seus pais. Naquela noite e nas noites seguintes daquela semana Gabriel dormirá com os olhos cheios de lágrimas e quando seus "pais" lhe perguntarem qual era o problema ele não saberá o que dizer. Ao final daquela semana uma duvida começou a incomodar o garotinho. - Onde será que está meu irmão? - Se perguntava, se referindo ao filho verdadeiro dos seus pais adotivos.

- Mas você não o matou?! Como pôde ser tão estupido!
- Ele não fará mal a ninguém! Eu garanto!
- Claro! Como se pudesse confiar em um monstro!
- Não ferra! Vá embora!
Martim, em seu apartamento, teve uma discussão com seu espírito guia. Como falava alto e conversava com alguém não físico os seus vizinhos pensavam que ele estava tendo um surto, pois na perspectiva deles Martim gritava sozinho.

No banheiro Martim lava o rosto na tentativa de se tranquilizar, algo que não dá certo. Ele continuava muito irritado, a adrenalina de seu corpo não baixava. Eis que acontece algo inesperado. Martim vê um reflexo seu diferente no espelho. Seu rosto tinha mudado. Estava pálido com manchas pretas nos olhos e um traço escuro que ligava as pontas de sua boca ao seu pescoço. A visão foi breve, só alguns segundos. Mas durou o suficiente para Martim entender o que ela significava.
- Não! Isso é impossível!