~Capítulo IV
À medida que passava pelos corredores podia ouvir os cochichos e sentir os olhares curiosos, não que isso realmente lhe incomodasse. Ao chegar na porta da sala foi barrado por duas garotas conhecidas, que tinham o olhar firme, como se ele estivesse sendo culpado de alguma coisa.
- Mori-kun, onde está o Honey-kun? – uma delas perguntou, lançando ao moreno um olhar estranho.
- Mitsukuni não quis vir à aula hoje. – estalou o pescoço, aparentemente despreocupado.
- Ele está doente?! – a segunda questionou alarmada.
- Não. – desviou das garotas e entrou na sala.
Novamente os olhares eram todos para ele. Suspirou, fechando os olhos enquanto caminhava até a parte de trás da sala. Sentou-se na cadeira perto da janela, e bem ao seu lado estava uma vice-presidente do clube de magia negra com olhos arregalados. Sequer deu atenção aos rapazes que cochichavam sobre ele ter pegado a cadeira de um deles.
Abaixou a cabeça e apoiou a testa com os indicadores, envolto em pensamentos.
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Entrou as pressas na sala, fechando à porta com força. Escorou-se nela, ofegante. Os cabelos negros pousando sobre os olhos salientados da face e o peito subindo e descendo de forma descompassada e acelerada, os dedos trêmulos enquanto apertavam a madeira fria da porta.
- Você viu? – perguntou em tom oscilante.
- Depende... Vi o que? – o rapaz tirou o capuz, erguendo os grandes olhos azuis a garota aterrorizada.
- O Takashi... Ele... Sentou ao meu lado... E olhou pra mim... – os olhos se abriram mais à medida que lembrava da cena.
- Não é o que você queria? – mordeu a ponta do lápis que tinha em mãos.
- Sim, mas... É tão bizarro. – aproximou-se da mesa e puxou uma cadeira, caindo sobre o acento. Permaneceu assim, olhando o nada com uma expressão de pânico, até ouvir o segundo fungar. Virou-se para ele, que empurrava com a ponta dos dedos a vela que estava próxima, ocultando-o um pouco mais – Hito...
- O que? – passou a manga da capa pelo rosto.
- Estava chorando?
- Não. – abaixou a cabeça, agora quase encostando o nariz no papel que analisava.
- Estava sim. – empurrou a face dele para cima, puxando a vela para mais perto e assim vendo os olhos vermelhos – Perdi alguma coisa?
- Já disse, não é nada. – tornou a abaixar a cabeça.
- Não se chora por nada. – sua fala foi seguida de silêncio – Não vai contar? – mais uma vez, silêncio, até que o Nekozawa resolveu erguer a cabeça e começar a falar:
- Eu... Fui até lá... Depois da aula. – segurou o lápis com as duas mãos, tentando fazê-las parar de tremer.
- Não me diga que...?
- Ah, não. – rolou os olhos com um muxoxo – Não aconteceu nada, eu disse... Só que ao ver... Você entende? É tão idiota.
- Acho que entendo sim. – segurou as mãos do rapaz – Sabe que vai acabar perdendo se não fizer nada, não sabe?
- Eu sei. – mordeu o lábio – Mas eu não posso, não consigo. Minha garganta fecha e eu começo a tremer... Fico com cara de idiota... Ele é tão perfeito.
Yuki permitiu-se rir por um breve momento, depois arrumando os fios castanhos da peruca que o rapaz usava.
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Entrou na sala displicentemente, cantarolando uma música qualquer que estava grudada em sua cabeça. Jogou os cabelos para trás e se olhou no espelho, tirando a gravata do uniforme.
Preparava-se para despir-se da camisa quando captou pelo espelho a presença de outra pessoa. Soltou uma exclamação, virando-se para o moreno escorado à parede, com a camisa levemente aberta, a gravata desfeita, e os cabelos desarrumados.
- Kyouya. – Tamaki suspirou aliviado – Você me assustou. Há quanto tempo está aí?
- Desde que você entrou. – retirou os óculos.
- Não vi você. – terminou de desabotoar a camisa, jogando-a sobre um dos bancos.
- Lembra-se da pergunta que me fez há algumas semanas?
O Suoh voltou-se a ele com uma expressão curiosa. Encarou-o por algum tempo, tentando lembrar do que fora, até o moreno aproximar-se, com as mãos nos bolsos, e lhe dizer:
- Sobre meus motivos.
- Ah! – exclamou.
- Bom que entendeu. – sorriu, pegando os ombros do loiro para jogá-lo contra os armários – Ainda quer saber?
Tamaki sentiu uma onda de choque subir por sua espinha diante do tom frio de Kyouya, e de seu olhar penetrante. Sacudiu a cabeça positivamente, ainda boquiaberto, quando sentiu repentinamente os lábios de Kyouya sobre os seus, forçando a entrada em sua boca para roçar sensualmente suas línguas.
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Haruhi abafou a exclamação com a mão livre, pois a outra segurava a sacola com suas roupas. Os olhos se arregalaram diante da cena que via, mas não cria no que eles lhe mostravam.
Tamaki... Kyouya... Vestiário... Porta... Armários... Beijo.
Fechou a porta silenciosamente, então voltou-se a sala vazia, ainda perplexa pelo que vira. Caminhou até uma poltrona próxima a uma das janelas e sentou-se ali.
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Franziu o cenho ao encontrá-la naquele lugar. Depois de pensar um pouco decidiu aproximar-se, sentando-se defronte a ela. Os enormes olhos castanhos da Fujioka voltaram-se ao moreno igualmente pensativo que estava a sua frente.
- Mori-senpai? – os olhos escuros do rapaz foram para ela – O que faz aqui?
- Eu sempre venho aqui. – olhou o campus da escola, sentado no telhado – E você?
- Bem... – encarou os pés – Estava pensando... Sobre algo que vi.
- Hai. – suspirou.
- E você?
- Sobre algo que aconteceu.
- Fala do Honey-senpai? – demorou alguns segundos para que Takashi afirmasse com a cabeça – Eu não tenho certeza, mas... Acho que ele está com ciúmes da Kaneshiro-senpai.
Takashi não disse nada, apenas afirmou mais uma vez.
- Érh... Mori-senpai... Não vai fazer nada?
Ele levantou-se, varrendo o pó da roupa, e de costas ainda disse, antes de sair dali:
- Já estou fazendo.
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O movimento no clube estava fraco aquela tarde. Apenas as clientes assíduas estavam lá, e como estas já eram praticamente parte do clube, os rapazes agiam normalmente, sem se dar ao trabalho de fazer seus costumeiros teatros.
- Mori-senpaaai! – exclamou Tamaki, agitando os braços de forma escandalosa e com os olhos de tom lilás brilhando.
O moreno suspirou, erguendo-se do confortável sofá para encaminhar-se até o anfitrião rei, que praticamente jogou-se sobre ele com peças de fantasias que apressou-se a vestir no mais velho. E em poucos segundos, antes que Takashi pudesse informar que podia se vestir sozinho, já estava pronto. Trajava agora um... uniforme de bombeiro?
- Tono, o que é isso? – questionaram os Hitachiins em um resmungo.
- Fica tãããão perfeito no Mori-senpai! – tornou a exclamar com olhos brilhantes, depois assumindo sua postura graciosa – Para o próximo tema do Host Club de Anfitriões: Fantasias. – abriu os braços.
Os Hitachiins deixaram a cabeça pender para o lado, e sob elas surgiam alguns pontinhos inquietantes que fizeram o anfitrião rei desmanchar em mil pedaços decepcionados.
- Wooh, Tamaki-sama, é um ótimo tema! – animou-o sua cliente número um, assentindo com a cabeça repetitivas vezes.
- Só precisa de uma melhoria. – adicionou Kyouya, puxando os óculos para cima do nariz. Foi inevitável observar que o loiro estremeceu por inteiro ao notar a presença do segundo na sala.
O clima que se estendeu foi cortado pela entrada da vice-presidente do clube de magia negra na sala. Ela olhou em volta, vendo o lugar ligeiramente vazio, e logo foi arrastada em um "zap" pelo Suoh, que a colocara diante do moreno. Os olhos tornavam a brilhar, esperançosos.
- Então Yuki-senpai?! – exclamou em pulinhos animados – O que acha? O que acha? O que acha?
A sobrancelha franzida da moça não deixava dúvidas quanto a sua desaprovação. Não demorou muito para que o moreno se despisse da fantasia e voltasse a ficar somente como costumeiro uniforme de Ouran. Então deixaram a um Tamaki duplamente decepcionado para trás e foram sentar-se em um local mais afastado.
- Não leve pro lado pessoal, Tamaki-senpai. – começou Haruhi, mesmo que ainda não olhasse diretamente para o loiro – Acho que Kaneshiro-senpai prefere Mori-senpai em seu normal, sem fantasias ou teatro.
Tamaki encarou-a por um tempo, até ser chamado em um aceno por suas clientes. Exclamou um "estou indo, princesas", e então foi sentar-se junto a elas. A Fujioka continuara quieta no sofá, ao lado do de Hikaru e Kaoru, até um deles se pronunciar:
- Não sei o que Mori-senpai vê naquela garota. – Hikaru cuspiu com desprezo.
- Na verdade... – a garota olhou para ele e em seguida para os dois no canto da sala – Eu acho que entendo. – fez uma breve pausa – Mori-senpai deve entender como ela se sente, e como se sentiria se ele a ignorasse, então é cuidadoso com ela, para evitar que ela se machuque. Acho que ele... Sente por alguém o mesmo que ela sente por ele.
Haruhi sabia quem era, não era tão difícil de se adivinhar. Mas deixou que os gêmeos Hitachiin tomassem sua própria decisão quanto ao assunto.
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Yuki voltara à sala de aula, pois esquecera sob a mesa um livro que deveria devolver a biblioteca da escola. Apanhou-o, verificando as páginas de forma rápida com o indicador, para então erguer a cabeça a porta. Levou um susto ao ver, a algumas cadeiras de distancia, um pequeno loiro de olhos castanhos enormes e ferozes, sentado sobre a mesa.
- Mitsukuni. – levou a mão ao peito – Não devia entrar assim.
Ele nada disse, mas continuou olhando-a com uma expressão nada amigável. A garota receou algumas vezes antes de caminhar até a saída da sala, sem quebrar o contato visual com o menor. Este levantou-se, fazendo-a parar para observá-lo, e constatar com humor que ele ficaria estranho se tivesse aquela altura.
- Fique longe do Takashi. – ele disse após algum tempo em silencio.
- Como é? – ela franziu o cenho, e riria se não visse a seriedade do loiro.
- Você ouviu bem. – pulou da mesa, ficando de pé no chão, para então ser ele agora quem caminhava a saída. Mas antes que chegasse, a porta abriu, revelando um moreno alto, de cabelos negros e olhos de mesmo tom. Mitsukuni recuou dois passos ao ver a expressão estranha na face do Morinozuka, e este acenou com a cabeça, indicando que ele deveria sair. Ainda tentou contrariar, mas acabou cedendo, porém o moreno seguiu-o, não ficou lá com ela, como achava que seria.
A garota de cabelos bagunçados passou a mão por estes, jogando-se sobre a cadeira.
- Que merda...
Ergue-se em um pulo e desatou a correr até a biblioteca.
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O crepúsculo se aproximava e a Fujioka continuava na sala do clube, arrumando suas coisas após terminar de organizar o vestiário. Não tinha pressa para chegar em casa, provavelmente seu pai nem estaria lá. Ouviu o ranger da porta, indicando que alguém entrava, e ao virar-se viu que entrava Kyouya, com seus orbes reluzentes sobre olhos negros de brilho suspeito.
Ele fechou a porta atrás de si e aproximou-se alguns passos antes de começar a falar:
- Está bem tarde. – comentou como quem não quer nada.
- O vestiário estava bagunçado, e como não tinha nada pra fazer, resolvi arrumá-lo. – respondeu.
- Que seja. – fez um muxoxo, passando o indicador pelo braço de uma cadeira – Ah, Haruhi. – chamou seu nome como se acabasse de lembrar algo importante.
- Sim?
- Não fique assim. – sacudiu levemente a cabeça, sorrindo-lhe.
- Do que está falando?
- Você sabe. – ergueu o queixo – Você viu. – os olhos da garota salientaram-se da face – Eu vi você observando a mim e a Tamaki... Ah, seria bom ressaltar o final dessa frase. A mim e Tamaki, ou seja, Tamaki e eu. Note que não há nenhuma "Haruhi" entre os dois sujeitos da frase. – o sorriso de deboche se alargava na bela face do rapaz.
- Kyouya-senpai, se acha que vou tentar fazer algo que prejudique você, está enganado. Não se preocupe. – apanhou a mochila e jogou-a pelo ombro – Agora, se me der licença, tenho que ir pra casa.
Ela passou por ele e por seu sorriso de deboche com um ar despreocupado, mas o Ootori não pareceu nada satisfeito com a afirmação.
- Eu sei que você gosta dele. – ele disse antes que ela saísse da sala, fazendo-a parar com uma das mãos na maçaneta da porta – Eu sei. – mostrou os dentes perfeitos com o largo sorriso – Mas você não vai tirá-lo de mim.
Os grandes e expressivos olhos da Fujioka voltaram-se a ele, e na face ainda tinha uma expressão desdenhosa.
- Não sei o que aconteceu entre vocês dois, mas sei que ele não gosta de você como você pensa que gosta... Tamaki-senpai ama você, Kyouya-senpai, como a um irmão.
O moreno voltou-se rapidamente a ela, e rosnaria como um cão raivoso se não estivesse se controlando, mas os dentes ainda a ameaçavam e tinha o nariz franzido.
- Então por que ele aceitaria meu beijo? – deixou escapar um risinho.
- Talvez ele não quisesse magoar você. – saiu da sala, sem esperar que o moreno retrucasse.
Kyouya rosnou para o ar, esquecendo por um instante que era um Ootori civilizado, e chutou com força a cadeira a sua frente ao rugir um "desgraçada!", fazendo-a cair e rolar por alguns metros, esbarrando na mesa e deixando cair de cima desta uma fruteira de vidro, que se estilhaçou no chão em vários pedaços.
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Encarou os olhos castanhos do pequeno com a habitual inexpressividade, vendo nos orbes do segundo uma raiva que só presenciara nas poucas vezes que o vira acordar. Ele estava sentado naquela cadeira, em silêncio, há quase cinco minutos, encarando o coelho rosa em seu colo, e dando nós em suas orelhas para depois desfazê-los e arrumá-las com cuidado. Quando finalmente Takashi cansou-se do silêncio incomodo, se pronunciou:
- O que fazia com Yuki?
Mistukuni olhou-o diretamente nos olhos negros, como se o desafiasse a algo, mas não respondeu. Levantou-se sem pressa, desviando por um breve momento dos olhos do Morinozuka.
- Eu sei que você estava ouvindo, não precisa fingir que não sabe, Takashi.
- Isso não é de seu feitio. – disse de imediato.
Mais uma vez o pequeno manteve-se em silêncio, apenas a encarar os olhos serenos do maior.
- Você disse uma vez que sempre estaria aqui caso eu precisasse. – agora olhava para a janela ao lado – Não é de seu feitio... mentir.
- Eu não menti... Estou aqui, Mitsukuni.
- Até quando? – virou-se para ele, os grandes olhos castanhos, mais expressivos do que nunca, mostravam nitidamente uma profunda magoa.
Takashi não suspirou ou fechou os olhos, nem mesmo respondeu a pergunta. Levantou-se, segurando os braços do menor, para então pô-lo de pé sobre a cadeira a sua frente. Ao conseguir que tivessem uma altura semelhante, segurou a pequena face entre suas mãos e aproximou-se dos lábios entreabertos.
Comentários Finais;
Yo minna-san *desvia das pedradas*
Well, desta vez a culpa não foi minha ú.ù'' Eu fiquei sem net, sério, todo esse tempo... Na verdade, ainda estou, vim numa lan house D:
Sobre esse capítulo tenho a dizer que adoro escrever sobre o Kyouya 8D Ele é de longe o personagem mais interessante de Ouran. Ele é frio e sensível, bom e cruel, mas acima de tudo ele sabe esconder muito bem o que sente, o que pensa... E Haruhi é muito boa em ler essas coisas nas entrelinhas – em partes. Não digo que gosto de Kyouya x Haruhi, pelo contrário, é um dos casais que eu desgosto profundamente (lê-se: detesto), mas cenas entre eles são interessantes. Well, o Ootori está mostrando suas garras.
E o Mitsukuni, bem, mais um ataque de ciúmes, vejo ele como sendo um personagem possessivo. Gostei dele ameaçar a Yuki, hoho. Viva ao Black Honey \o\
Por último, o Nekozawa-senpai. Yes baby, nosso querido senhor das trevas disse "ele". Sim, um garoto. Não é difícil descobrir quem.
Até o próximo n.ñ
